quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Justo Takayama Ukon - o caminho da obediência

Pax et bonum!

No dia 07 deste mês, em Osaka (Japão), foi beatificado, em Missa presidida pelo Cardeal Angelo Amato, mais um samurai católico, o senhor feudal Takayma Ukon, batizado com o nome de Justo, que viveu entre os séculos XVI e XVII.
Como noutras postagens sobre santos japoneses, repito que o foco da ARS e do blog é a Sagrada Liturgia, mas eu, de modo particular, tenho muita estima pelo Japão e, sobretudo, pelos cristãos que de lá recebem a honra dos altares. De qualquer forma, honrar os santos, especialmente no culto litúrgico, é algo sumamente importante e proveitoso para nós cristãos. Ao falar de seus exemplos, não deixo de tocar numa parte importante da Sagrada Liturgia.
O Concílio Vaticano II assim se expressa: "A Igreja inseriu também no ciclo anual a memória dos Mártires e outros Santos, os quais, tendo pela graça multiforme de Deus atingido a perfeição e alcançado a salvação eterna, cantam hoje a Deus no céu o louvor perfeito e intercedem por nós. Ao celebrar o 'dies natalis' (dia da morte) dos Santos, proclama o mistério pascal realizado na paixão e glorificação deles com Cristo, propõe aos fiéis os seus exemplos, que conduzem os homens ao Pai por Cristo, e implora pelos seus méritos as bênçãos de Deus" (Sacrosanctum Concilium, 104).
Antes dele, o grande Pio XII afirmava: "No decurso do ano litúrgico relembram-se não só os mistérios de Jesus Cristo, mas ainda as festas dos santos, nas quais, se bem que se trate de uma ordem inferior e subordinada, a Igreja tem sempre a preocupação de propor aos fiéis exemplos de santidade que os levem a adornar-se das mesmas virtudes do Divino Redentor. É necessário, com efeito, que imitemos as virtudes dos santos, nas quais brilha, de modo vário, a própria virtude de Cristo, porque dele foram imitadores (...). A liturgia põe diante de nossos olhos todos esses belos ornamentos de santidade, para que salutarmente os olhemos e para que 'nós que gozamos dos seus méritos sejamos inflamados pelos seus exemplos'". (Mediator Dei, 151-152)
Dito, isto apresento uma nova tradução nossa, aproveitando a dita beatificação. O texto está no site da CBCJ - Catholic Bishop's Conference of Japan, cujo link encontra-se ao fim do texto.

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Um homem que trilhou o caminho da obediência


Justo Takayama Ukon (1552-1615)

A Igreja Católica no Japão, desde seu início, teve uma história única entre outras nações do mundo. O evangelho introduzido por Francisco Xavier em 1549 espalhou-se pela terra e registros mostram que dentro de uns 40 anos o número de fiéis passou de 300.000. Todavia, em 1587, enquanto a Igreja ainda era jovem, o poderoso Toyotomi Hideyoshi (1537-1598) fez do Cristianismo o alvo de uma política de perseguição. Esta política somente ficou mais rígida com o passar dos anos, e no início do séc. XVII, se alguém fosse descoberto por carregar a fé Cristã, não somente ele, mas toda a sua família era executada. Esta política de proibição continuou por mais de 280 anos até 1873. Diz-se que sob esta política mais de 20.000 foram martirizados. Apesar dessas condições, a Igreja no Japão nunca morreu. Desde o início do séc. XVII, quando a perseguição tornou-se intensa, no decorrer dos mais de 200 anos que se seguiram, os fiéis, privados do auxílio de sacerdotes e religiosos, mantiveram sua fé.

A vida de Ukon

O famoso senhor feudal cristão Justo Takayama Ukon (1552-1615) lançou os fundamentos sobre os quais a Igreja descrita acima foi solidamente construída. Ukon é conhecido como um típico senhor feudal ativo em meados do século XVI, durante a última parte do século das guerras civis do Japão. Ukon encontrou-se com missionários jesuítas e foi batizado com a idade de 12 anos, junto com seu pai Dario. Ukon foi um vassalo ativo e de confiança de Oda nobunaga (1534-1582), que finalmente subjugou as longas guerras civis, bem como de Hideyoshi, sucessor de Nobunaga. Esses dois Shogun moveram-se no sentido de concentrar em si o controle sobre todo o Japão. Todavia, embora Hideyoshi tivesse demonstrado compreensão para com a Igreja, em 1587 ele subitamente deu uma reviravolta em sua política religiosa, ordenando a deportação de missionários, destruindo igrejas em Kyoto e Osaka, e impelindo os senhores feudais cristãos a renunciarem sua fé. Ukon, negando-se a renunciar sua fé, foi privado de sua posição e seu feudo foi atacado.
Após a morte de Hideyoshi, a família Tokugawa tomou o controle sobre o país inteiro e estabeleceu seu governo de xogunato em Edo (hoje Tokyo). Eles continuaram seguindo a política de proibir o Cristianismo. O xogunato temia a influência de Ukon, e em 1614 exilou-o para as Filipinas com mais de 300 cristãos. Chegando a Manila, receberam boas-vindas oficiais, mas logo Ukon caiu gravemente enfermo e morreu em Manila durante a noite de 3 de fevereiro de 1615, cerca de 40 dias depois de sua chegada. Foi-lhe dado um funeral com honras oficiais e foi sepultado nas Filipinas. Imediatamente após a sua morte, sua reputação como mártir se espalhou, e a investigação em prol de sua canonização foi iniciada. Naquela época era difícil coletar dados no Japão, de modo que o processo não pôde ser continuado. Hoje, todavia, a Igreja do Japão, em cooperação com a Igreja das Filipinas, perseguem ativamente a causa da canonização de Ukon.

A mensagem de Ukon para nós hoje: o princípio da escolha

Ukon frequentemente foi posto em situações em que escolhas de vida importantes e decisivas tinham de ser tomadas e não poderiam ser evitadas por um comandante militar pertencente à poderosa classe governante. Ele permaneceu na linha de frente quando os valores de Deus e do mundo entraram nos maiores conflitos. Escolhas decisivas que não podem ser evitadas têm de ser feitas por qualquer líder cristão em qualquer época. Ukon manteve princípios claros para escolher o rumo que levaria para Deus e para as decisões corretas. Corresponder ao amor de Deus que, a fim de amar sem limites e salvar a nós, pecadores, tomou sobre si o destino humano até a morte: este era o princípio básico de Ukon. Esta era a única coisa que ele mantinha sob a vista. Somente isto era o padrão das maiores decisões que ele fez durante sua vida. Não havia lugar para compromissos. O que moveu Ukon foi a crença de que permanecer no amor de Deus era o caminho para a felicidade humana.

Em 1578, Araki Murashige, senhor feudal de Ukon, opôs-se a Nobunaga, de quem era aliado. Murashige também impeliu seu poderoso subordinado, Ukon, para a revolta. O dilema de Ukon foi severo. Se ele aderisse a Murashige, a Igreja e os missionários seriam perseguidos por Nobunaga. Se ele aderisse a Nobunaga, as vidas de seu filho e de sua irmã mais nova, tomados como reféns por Murashige, estariam em perigo. Ele foi forçado a entrar em conflito com seu pai Dario, que apoiava Murashige. Como resultado de sua oração face a este sofrimento, Ukon decidiu visitar Nobunaga. Murashige, percebendo sua própria derrota, retornou os reféns para Ukon.

A maior decisão da vida de Ukon foi feita em 1587. O mais poderoso líder da época, Hideyoshi, declarou a proibição do cristianismo. Ao mesmo tempo ele deu estritas ordens a Ukon para abandonar o cristianismo, e se ele assim não fizesse, seu feudo seria confiscado e ele seria banido. Se ele apenas formalmente renunciasse a Igreja, ele receberia mais vantagens. Se ele não renunciasse sua fé, levaria uma deplorável vida de destituição. Ao mensageiro que lhe trouxe esta ordem de Hideyoshi, Ukon disse que visitaria Hideyoshi desarmado e lhe transmitiria seus pensamentos, acrescentando que, se devesse ser morto, estaria muito satisfeito. Ukon foi banido e levou uma vida de andarilho.

Quando Tokugawa Ieyasu chegou ao poder depois da morte de Hideyoshi, ele continuou a reforçar a proibição do Cristianismo e ordenou que Ukon, que ainda mantinha sua fé, deixasse o país. Ele partiu de Nagasaki, em 8 de novembro de 1614. Chegando a Manila, ficou gravemente enfermo e, durante a noite de 3 de fevereiro de 1615, foi chamado para o Senhor. Não apenas banido, mas morrendo no exílio, Ukon ganhou grande honra em Manila como um mártir, imediatamente após a sua morte. Atualmente, a Conferência dos Bispos Católicos do Japão pede sua canonização como um mártir.

Movimento descendente

Durante os séculos XVI e XVII, quando Ukon viveu, o Japão ainda era violentamente agitado pelas guerras civis. Era um tempo em que poderosos faziam suas manobras para conquistar riqueza, poder e fama. Era um tempo em que a sociedade buscava mover-se para cima. Ukon foi o tipo de pessoa abençoada com a desenvoltura para procurar uma vida melhor. Ukon não se iludiu pelas fortunas palpáveis e visíveis e continuou a manter sua visão puramente fixa na felicidade invisível e verdadeira, ainda que distante. Ukon não se enganou quanto ao caminho a ser escolhido. Foi o caminho do movimento descendente, como um discípulo do Senhor. Naquela época de guerra, em que todos lutavam para subir, Ukon escolheu a via do rebaixamento. Através de suas escolhas em cada conjuntura da vida, Ukon tornou-se visivelmente mais pobre. Todavia, o coração de Ukon tornou-se mais rico. O caminho descendente que Ukon tomou foi o caminho de Cristo, o caminho da cruz. Neste caminho descendente encontra-se Deus, que lá está esperando. Lá se encontra a firme esperança, porque como cristãos sabemos que Deus rebaixou-se e escolher tornar-se pobre para a salvação da humanidade. Ukon subiu com Jesus e foi recebido na presença do Pai.
Aqueles que vivem junto ao chão sabem que Deus está perto. Ukon ensina-nos isto.

Hoje em dia, quando somos levados a fazer escolhas entre vários valores que prometem felicidade, aqueles que aderem a Jesus podem aprender da vida de Ukon a seguir o Senhor diretamente, sem desvio ou erro.

Fonte: https://www.cbcj.catholic.jp/wp-content/uploads/2016/05/141127rev.pdf

Traduzido por Luís Augusto - membro da ARS

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