quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O que a oposição à Missa Tradicional realmente significa?

"O que a oposição à Missa Tradicional realmente significa?"
Peter Kwasniewski
Cardeal Raymond Burke celebrando Missa Pontifical na Forma Extraordinária
no Altar da Cátedra, na Basília de São Pedro, em 25/10/2014

No mundo pós-Summorum, o antigo Rito romano não pode mais ser considerado proibido, duvidoso, marginal ou obsoleto. Ele goza dos mesmos direitos de cidadania do Novus Ordo: duas formas do Rito Romano - uma chamada de Ordinária por ter sido mais recentemente promulgada e mais amplamente usada, a outra chamada de Extraordinária, o Usus Antiquior (uso mais antigo), merecendo respeito por seu venerável uso - podendo cada uma ser livremente celebrada por qualquer sacerdote do rito Romano, sem a necessidade de nenhuma permissão especial. Poder-se-ia pensar que, como gesto de reconciliação no coração da Igreja, as duas formas estariam florescendo lado a lado, com os católicos sendo privilegiados por toda parte ao experimentar ambas, oferecidas de maneira bela e reverente.
Mas isto ainda está longe da realidade e, infelizmente, ainda há bispos e presbíteros demais que se opõem à Missa tradicional, amarram-na com condições opressivas, ou recorrem a políticas de poder para assegurar que seus apoiadores sejam devidamente advertidos e penalizados por abraçarem imprudentemente a nossa herança Católica.
Ao passo em que hoje (NT: este texto foi publicado no dia 14/09/2014) comemoramos o VII aniversário da implementação do Summorum Pontificum, cujas provisões entraram em efeito no dia 14 de setembro de 2007, será ao mesmo tempo edificante e sensato considerar o significado que o próprio Joseph Ratzinger atribuiu à oposição à Missa tradicional. O que significa quando alguém se opõe a esta Missa, ou àqueles que a celebram, ou àqueles que a estimam como uma forma de oração querida a eles?
No livro-entrevista "Sal da Terra", publicado em 1997, Ratzinger disse:
"Sou de opinião, com certeza, de que o rito antigo deveria ser concedido muito mais generosamente para aqueles que o desejam. É impossível encontrar algo que poderia ser perigoso ou inaceitável nisso. Uma comunidade está pondo seu próprio ser em jogo ao declarar subitamente que aquilo que era sua mais sagrada e elevada posse está estritamente proibido, e quando faz a saudade disso parecer algo absolutamente indecente. Isso é confiável? Não será proibido amanhã o que é prescrito hoje?" (176-77)
Dez anos antes do Summorum, ele estava pondo seu dedo no xis do problema. Se a liturgia, que era a posse mais sagrada e elevada da Igreja por séculos, o objeto de total veneração e honra, os meios de santificação para um sem número de Católicos, é repentinamente proibida, e se o desejo de prestar culto como nossos antepassados fizeram é tratado como errado, o que dizer sobre a própria Igreja, seu passado, sua tradição e os seus próprios santos? Realmente, sua credibilidade desaparece inteiramente, suas proclamações tornam-se ditames arbitrários. Houve algo fatalmente falho, por todo este tempo, com nosso ato central de culto? Estavam todos os papas do passado, que amorosamente cultivaram esta liturgia, enganados e todos os missionários que a levaram por todo o globo mal orientados? Poderiam eles dizer, nas palavras de Agur, filho de Jaque, de Massa: “Não aprendi a sabedoria e não conheci a ciência do Santo”? (Pr 30, 3).
Em "Deus e o mundo" (2002), outra daquelas entrevistas esplendidamente perspicazes e doutrinalmente robustas que agora, em retrospecto, servem para uma tal leitura melancólica, Ratzinger voltou ao ponto:
"Para fomentar uma verdadeira consciência em matéria litúrgica, também é importante que a proibição contra a forma da liturgia em vigor até 1970 seja levantada. Qualquer um que, hoje em dia, advoque a existência contínua desta liturgia ou tome parte nela é tratado como um leproso; toda tolerância termina aí. Nunca houve nada assim na história; ao fazer isto estamos desprezando e proibindo o passado inteiro da Igreja. Como alguém pode confiar no presente dela se as coisas estão assim? Devo dizer, de forma bastante aberta, que eu não entendo porque tantos de meus irmãos no episcopado têm se submetido em grande medida a esta regra de intolerância, que sem razão aparente é oposta a se fazerem as reconciliações internas na Igreja". (416)
Aqui nós temos uma linguagem surpreendentemente semelhante à que encontraremos cinco anos depois na carta do Papa Bento aos Bispos, que acompanhou o Summorum Pontificum. Uma vez mais, encontramos a intrigante insistência sobre a posse da correta atitude quanto à imortal e vivificante herança da Igreja. Os ritos litúrgicos que cresceram das sementes apostólicas durante a permanência da Igreja através da história são frutos daquele que é o Senhor e doador da Vida, e elas não podem, por elas mesmas, nem morrer e nem trazer morte - e nem podem ser legitimamente proibidas.
Isto explicaria por que o Papa Bento XVI, no Summorum Pontificum, diz que a Missa Latina Tradicional “deve gozar da devida honra pelo seu uso venerável e antigo" e, na Carta aos Bispos, acrescenta: "Aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós, e não pode ser de improviso totalmente proibido ou mesmo prejudicial. Faz-nos bem a todos conservar as riquezas que foram crescendo na fé e na oração da Igreja, dando-lhes o justo lugar".
Dar a devida honra, que se traduz na celebração atual do rito, não é um assunto opcional, e é por isso que deveríamos polidamente rejeitar que sejamos nós ou nossos amigos católicos categorizados como pessoas com certas "preferências": "Ó, você prefere o antigo e eu prefiro o novo". Não, isto vai além das preferências, rumo à própria estrutura da Fé Católica: aquelas coisas que são veneráveis e antigas devem receber a devida honra; o que as gerações anteriores tiveram como sagrado deve ser sagrado - e grande! - para nós também; é nossa incumbência preservar estas riquezas e certificarmo-nos de que elas ocupem seu lugar adequado na vida da Igreja hoje.
Novamente, um sinal de que estamos lendo corretamente o Papa Bento é que a instrução esclarecedora Universae Ecclesiae vem à luz para enfatizar estes pontos. De fato, a seção 8 deste documento é surpreendente em sua simplicidade sem compromissos, em sua total falta de qualificações restritas ou lacunas:
"O Motu Proprio Summorum Pontificum constitui uma expressão privilegiada do Magistério do Romano Pontífice e do seu próprio múnus de regulamentar e ordenar a Liturgia da Igreja e manifesta a sua preocupação de Vigário de Cristo e Pastor da Igreja universal. O Motu Proprio se propõe como objetivo:
a) oferecer a todos os fiéis a Liturgia Romana segundo o Usus Antiquior, considerada como um tesouro precioso a ser conservado;
b) garantir e assegurar realmente a quantos o pedem o uso da forma extraordinária, supondo que o uso da Liturgia Romana vigente em 1962 é uma faculdade concedida para o bem dos fiéis e que por conseguinte deve ser interpretada em sentido favorável aos fiéis, que são os seus principais destinatários;
c) favorecer a reconciliação ao interno da Igreja."
Com estes pontos estabelecidos, podemos prontamente ver por que qualquer movimento na tentativa de obstruir ou diminuir a presença do usus antiquior na Igreja seria apenas uma causa de grande dano hoje e de estrago a longo prazo.
Primeiro, isto seria um ato e um sintoma de desobediência, algo que nunca é abençoado por Deus e sempre é por ele punido. Mais especificamente, constituiria desobediência às provisões legais do Papa Bento XVI no Summorum Pontificum (e seus esclarecimentos na Universae Ecclesiae), bem como à bem conhecida afirmação de São João Paulo II de que "em toda a parte deverá ser respeitado o espírito de todos aqueles que se sentem ligados à tradição litúrgica latina, mediante uma ampla e generosa aplicação das diretrizes, já há tempos emanadas pela Sé Apostólica, para o uso do Missal Romano segundo a edição típica de 1962". Como demonstrado acima, não basta abster-se de falar mal dos ritos sacramentais tradicionais; eles devem ser conhecidos e amados, reintroduzidos e promovidos, estudados nos seminários, oferecidos generosamente aos fiéis como um tesouro precioso.
Segundo, e mais profundo, o culto divino toca o coração da vida espiritual de uma pessoa, o que há de mais íntimo e querido. Qualquer recusa a compartilhar os tesouros da Igreja, quaisquer restrições mão-de-ferro contra aquilo que já está disponível (ou deveria estar), só pode provocar ira, decepção e desconfiança, ferindo a unidade da Igreja, que é um bem frágil e de valor enorme. Certos bispos, presbíteros e leigos podem não ter grande amor pela Forma Extraordinária, mas eles têm o dever de reconhecer e respeitar a minoria considerável que o tem, e considerar que privá-los disso, ou conceder-lhes de má vontade, é praticamente a coisa mais ofensiva que se possa fazer — como dar um tapa na esposa, na mãe ou na avó de um homem. Para ser contundente, aqueles que sinceramente querem paz e compreensão mútua fariam melhor agindo com generosidade ou então podem acabar com outra Guerra Fria eclesiástica nas mãos. E quem é que deseja isso?
Não é necessário ter graduação em física nuclear para ver que um número significativo e grande de católicos está afluindo a paróquias e capelas onde a Missa tradicional está sendo celebrada, e com suas (em média) famílias numerosas e forte adesão ao homeschooling, o futuro pertence a eles. Em 1988 havia cerca de 20 missas tradicionais semanalmente aos domingos; hoje o número passa de 500. Não há razão para lutar contra este movimento, e há todas para apoiá-lo.
Apesar da ansiedade daqueles que acham difícil dar uma chance à paz e à coexistência mútua, a Forma Extraordinária não é um problema para a Igreja, e, como Ratzinger/Bento ajuda-nos a ver, nunca poderia haver um problema nela ou a partir dela. Em vez disso, pode-se encontrar atitudes infelizes de tradicionalistas que afastam ou provocam — e, para ser bastante justo, isso corta dos dois lados, já que os promotores do Novus Ordo frequentemente exibem atitudes ofensivas próprias, numa espécie de fusão peculiar entre liberalismo teórico e totalitarismo prático. A coisa a ser feita não é limitar e controlar zelosamente o usus antiquior como se ele fosse uma substância viciante perigosa, abordagem que apenas alimenta aquelas atitudes infelizes, mas ensinar e modelar uma atitude correta, recebendo de braços abertos, com a humildade e a simplicidade das crianças, tudo que a própria Igreja concede, de modo que isto se torne algo normal e natural, não algo proibido (e assim, talvez, mais atraente?), controverso ou causador de divisões.
Demos a palavra final ao Papa Bento, de sua Carta aos Bispos de 7 de julho de 2007:
"Vem-me à mente uma frase da segunda carta aos Coríntios, quando Paulo escreve: 'Falamo-vos com toda a liberdade, ó Coríntios. O nosso coração abriu-se plenamente. Há nele muito lugar para vós, enquanto no vosso não há lugar para nós (…): pagai-nos na mesma moeda, abri também vós largamente o vosso coração' (2Cor 6,11-13). É certo que Paulo fala noutro contexto, mas o seu convite pode e deve tocar-nos também a nós, precisamente neste tema. Abramos generosamente o nosso coração e deixemos entrar tudo aquilo a que a própria fé dá espaço".

Fonte: http://www.newliturgicalmovement.org/2014/09/what-does-opposition-to-traditional.html

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Cardeal Robert Sarah indicado para Prefeito da Congregação para o Culto Divino

O website da Rádio Vaticano noticia que Sua Eminência o Cardeal Robert Sarah foi apontado pelo Papa Francisco como Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. O Cardeal Sarah foi ordenado sacerdote da Arquidiocese de Conacri na Guiné em 1969 (incidentalmente no mesmo dia do pouso da Apolo 11 na lua, 22 de julho), e apontado como Arcebispo daquela Sé cerca de dez anos depois apenas. Em 2001, ele foi apontado como Secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos; desde 2010, ele tem servido como Presidente do Conselho Pontifício “Cor Unum”. Ele foi criado Cardeal pelo Papa Bento XVI no consistório de 20 de novembro de 2010. Nossas orações por Sua Eminência e os melhores votos a ele pela nova indicação.


Obs: Na última Peregrinação Populus Summorum Pontificum, houve um encontro sacerdotal, no dia 24 de outubro, com o Cardeal Sarah.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

"Olhando para o oriente", por D. James Douglas Conley

Olhando para o oriente

Bispo da Diocese de Lincoln
Estado de Nebraska, Estados Unidos da América

D. James Conley, celebrando Missa Pontifical Cantada
na Forma Extraordinária do Rito Romano
provavelmente em 2010, em Paróquia da Fraternidade Sacerdotal São Pedro na Diocese de Denver
Jesus Cristo retornará em glória para a terra.
Não sabemos quando ele retornará. Mas Cristo prometeu-nos que voltaria em glória, "como o relâmpago parte do oriente" para levar o plano redentor de Deus a seu pleno cumprimento.
Em 2009, D. Edward Slattery, de Tulsa, Oklahoma, escreveu que "a aurora da redenção já despontou, mas o sol - o próprio Cristo - ainda não se levantou no céu".
Na Igreja primitiva, os cristão esperavam que Cristo fosse voltar logo - em qualquer dia. Havia uma expectativa cheia de esperança. Eles eram vigilantes - eles olhavam para o céu, para o oriente, para esperar por Cristo. E porque eles não sabiam quando ele retornaria, eles proclamavam o Evangelho com urgência e entusiasmo, desejando trazer ao mundo a salvação antes que Cristo retornasse.
Agora já se passaram cerca de 2000 anos que Cristo subiu ao Céu. Ficou fácil esquecer que ele virá novamente para a terra. Ficou fácil esquecer que devemos estar esperando, devemos estar vigiando, devemos estar prontos.
No Tempo do Advento, assim como recordamos a Encarnação de Cristo no Natal, somos lembrados de estarmos preparados para a vinda de Cristo. No Evangelho do I Domingo do Advento deste ano, no dia 30 de novembro, Cristo diz a seus discípulos para "vigiarem".
“Não sabeis quando o dono da casa vem”, diz Jesus. “Não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo”.
Recordamos que Cristo está vindo sempre que celebramos o Santo Sacrifício da Missa. Na Santa Missa somos feitos presentes ao sacrifício do Calvário e à alegria da glória de Cristo no Céu. Mas também recordamos que Cristo retornará, e lembramos de vigiar, de sermos vigilantes, de esperá-lo e de estarmos preparados.
A Missa é rica de simbolismo. As vestes do sacerdote lembram-nos da dignidade de Cristo Rei. Batemos em nosso peito, inclinamos nossas cabeças, dobramos nossos joelhos para recordar nossa condição de pecadores, a misericórdia de Deus e sua glória. Na Missa, a forma como ficamos de pé, sentamos e ajoelhamos recordam-nos o plano eterno de Deus para nós.
Desde tempos antigos, os cristão se voltavam para o oriente durante o Santo Sacrifício da Missa para recordar que deviam manter a vigilância por Cristo. Juntos, o sacerdote e o povo voltavam-se juntos para o oriente, esperando e vigiando por Cristo. Mesmo nas igrejas que não estavam construídas voltadas para o oriente, o sacerdote e o povo ficavam voltados juntos na Missa, olhando para o Cristo no crucifixo, sobre o altar, e no tabernáculo, para recordar a importância de estarem vigiando por seu retorno. O simbolismo do sacerdote e do povo voltados ad orientem - para o oriente - é um antigo lembrete para a vinda de Cristo.
Mais recentemente, tornou-se comum o sacerdote e o povo voltarem-se um para o outro durante o Santo Sacrifício da Missa. O sacerdote fica atrás do altar ao consagrar a Eucaristia, voltado para o povo. O povo vê a face do sacerdote quando ele reza, e ele vê as faces do povo. Estas posições podem ter importante simbolismo também. Elas podem lembrar-nos que somos uma comunidade - um corpo em Cristo. E podem lembrar-nos que a Eucaristia, no centro da assembleia, deveria estar também no centro de nossa famílias, de nossas vidas.
Mas o simbolismo de estar voltados juntos, e esperando por Cristo, é rico, consagrado pelo tempo e importante. Especialmente durante o Advento, ao esperarmos a vinda do Senhor, voltar-se juntos para o oriente - mesmo simbolicamente, voltando-se juntos para Cristo no altar e no crucifixo - é um poderoso testemunho para o iminente retorno de Cristo. Hoje, num tempo em que é fácil esquecer que Cristo está voltando - e fácil sermos complacentes em nossa vida espiritual e na obra da evangelização - precisamos de lembretes de que Cristo retornará.
Durante os Domingos do Advento, os sacerdotes na Catedral de Cristo Ressuscitado celebrarão a Missa ad orientem. Com o Povo de Deus, o sacerdote ficará voltado para o altar, e voltado para o crucifixo. Quando eu celebrar a Missa da meia-noite no Natal, celebrarei ad orientem também. Isto terá lugar em outras paróquias da Diocese de Lincoln também.
Na postura ad orientem na Missa, o sacerdote não estará de costas para o povo.  Ele estará com eles - entre eles e guiando-os - voltado para Cristo e aguardando seu retorno.
"Cuidado!", diz Jesus. "Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento". Não sabemos quando chegará o momento de Cristo retornar. Mas sabemos que devemos vigiar por ele. Que nós possamos "voltar-nos para o oriente", juntos, vigiando por Cristo no Santo Sacrifício da Missa e em nossas vidas.

Texto para o dia 21 de novembro na Bishop's Column (coluna do bispo) no site Southern Nebraska Register. Disponível em http://www.lincolndiocese.org/op-ed/bishop-s-column/3004-looking-to-the-east.

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

terça-feira, 18 de novembro de 2014

AMANHÃ: Missa na Forma Extraordinária na Catedral de São Luís-MA

Pax et bonum!

Com grande alegria, embora lamentavelmente na última hora, avisamos que amanhã (19/11), às 9h, na Catedral de São Luís (Igreja da Sé), será celebrada a Santa Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano. Esta Forma da Missa "reaparece" no coração da Igreja de Cristo, na capital maranhense.
Igreja da Sé e Palácio Episcopal
Deixemos que a própria organização nos convide, conforme postado no Facebook:


"Quarta-feira próxima, dia 19, na Igreja da Sé, às 9 horas da manhã teremos a Santa Missa em latim e com cantos gregorianos em comemoração aos 400 anos da Aparição de Maria Santíssima na Batalha de Guaxenduba.


Na Igreja da Sé, cujo orago é Nossa Senhora da Vitória, com este título invocada porque aparecendo às tropas portuguesas deu a elas a vitória, será a primeira Missa na forma extraordinária do rito romano ( Missa de São Pio V ou Missa Dâmaso-Gregoriana), desde que houve a reforma litúrgica do Sagrado Concílio Ecumênico Vaticano II.

A Missa será celebrada a pedido dos descendentes de Jerônimo de Albuquerque Maranhão, coadjuvados pelo Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão.

Da mesma forma haverá um Te Deum, presidido pelo Arcebispo Metropolitano, Dom Frei José Belisário da Silva, OFM, no dia 27, quinta-feira, também na Igreja da Sé, às 9h da manhã.

Atenciosamente,

Associação Ad Maiorem Dei Gloriam"

Aos moradores desta capital de nosso Estado vizinho ou das circunvizinhanças, recomendamos vivamente que se façam presentes para este momento sagrado.
Aproveitamos para recordar que, em São Luís-MA, a Santa Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano é celebrada sempre no último domingo de cada mês, na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, Rua do Egito, Centro, às 10h.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Mysterium Fidei - um documentário catequético sobre a Missa na Forma Extraordinária!

Pax et bonum!

Caros amigos, com grande alegria gostaríamos de dar a devida publicidade a um ótimo material audiovisual produzido na Espanha, nos últimos meses, e publicado no primeiro semestre. Estamos falando do documentário em DVD "Mysterium Fidei - O Santo Sacrifício da Missa - segundo sua Forma Extraordinária".

O blog Adelante la Fe publicou o documentário no Youtube e, para o vídeo principal, com cerca de 1h de duração, a ARS preparou, durante as duas últimas semanas, legendas em português, que foram gentilmente aceitas pelo blog e hoje incorporadas ao vídeo. Sentimo-nos honrados!

Como diz o blog: "O documentário Mysterium Fidei pretende mostrar o tesouro espiritual e a riqueza teológica da Missa tradicional. Não se trata de uma simples explicação das rubricas da Santa Missa. Ele quer ajudar a descobrir a doutrina contida na Missa, para que se possa meditar o que acontece no Santo Sacrifício. Pois a meditação é o que nos permitirá aprofundarmos no mistério e vivê-lo; enfim, participar verdadeira e ativamente na Santa Missa".

Sendo assim, oferecemos, por assim dizer, com o blog Adelante la Fe e com a produtora Agnus Dei, esta bela e esclarecedora obra, cheia de piedade. Esperamos que seja de grande proveito no Brasil, em Portugal e onde mais houver lusófonos.

Pedimos perdão caso haja algum atraso nos tempos, bem como algum erro de grafia. Aliás, pedimos que estas coisas nos sejam informadas para repassarmos versões corrigidas e melhoradas para o Adelante la Fe.

A direção do documentário é de Carlos F. Bellmont Pastor. A ideia original, bem como a apresentação durante todo o vídeo, é do Revmo. Pe. Juan Manuel Rodríguez de la Rosa.
Na produção há agradecimentos à Arquidiocese de Madri e à Fraternidade de Cristo Sacerdote e Santa Maria Rainha (Toledo), dentre outros.


O documentário pode ser adquirido em DVD pelo valor de 7 euros (cerca de R$ 22,31. sem contar com as despesas de envio), através do email agnusdeiprod@gmail.com. A divulgação do vídeo no Youtube tem caráter de apostolado e divulgação, e foi aprovada pelo Pe. Juan Manuel.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Problema ou Riqueza?


Em abril de 2011, veio à luz, na língua do Pe. Vieira, um pequeno livro de cerca de 100 páginas escrito por um sacerdote espanhol. Este livro chama-se: “Summorum Pontificum – Um problema ou uma riqueza?”, publicado em português pela Caminhos Romanos.
Quem no-lo escreve é um sacerdote singular, ordenado em 1988, chamado Manuel Folgar Otero (ou Manuel Maria de Jesus), fundador da Fraternidade de Cristo Sacerdote e Santa Maria Rainha. Não se trata de um presbítero surgido do nada, mas de um zeloso ministro com larga experiência pastoral na Diocese de Santiago de Compostela.
Esta obra surge já após os três anos de “observação” que o Papa Bento XVI estipulou para que os bispos – isto foi apenas um convite – apresentassem as suas experiências a partir da entrada em vigor da Carta Apostólica sob a forma de motu proprio Summorum Pontificum, entregue à Igreja universal pelo mesmo papa no dia 07 de julho de 2007.
Desde o título apresenta-se-nos uma interessante indagação: problema ou riqueza?
Esta indagação o autor parece colocá-la para quem lê, para o contexto eclesial em geral e para o então Sumo Pontífice. É deste último, e de fiéis colaboradores seus, que nos vem a resposta eloquente que se estampa em cada boa argumentação destas páginas.
O objetivo perseguido pelo autor, diz-nos ele mesmo na apresentação, é “oferecer uma recapitulação de algumas das mais importantes intervenções das autoridades competentes na matéria, para que, por entre tão abundantes distorções, se possa chegar a compreender um pouco melhor o alcance do Motu Proprio Summorum Pontificum” (p. 10).
E como o autor dispôs estas intervenções? Ele percorreu um interessante caminho, por entre os treze capítulos da obra, que se pode esquematizar da seguinte forma:
- Constatação de uma crise e compreensão do papel da Liturgia
- Constatação histórica de uma grande intolerância interna
- Os golpes da intolerância contra o próprio Papa
- Exortação à comunhão afetiva e efetiva
- A existência de direitos
- A inexistência de uma verdadeira proibição
- Harmonia com o Concílio em sua história e em seu magistério
- O falso risco acerca da unidade
- Convite à verdadeira unidade entre a igreja local e a Santa Sé
- Harmonia com a autoridade do Ordinário local
- Razão última do Motu Proprio
- Conceito de grupo estável
- Reconhecimento de um benefício para toda a Igreja
Apenas reescrevi os nomes dos capítulos, para percebermos que o caminho como que passa de nossas possíveis resistências e apreensões à tranquila e grata convicção de um ato de justiça e bondade por parte do Sumo Pontífice.
Já se foram três anos da publicação deste livro em português e, embora o cenário tenha mudado em alguns pontos, a Santa Sé tenha publicado uma nova Instrução – a Universae Ecclesiae –, o Motu Proprio tenha comemorado seu sétimo aniversário, e muitos bons frutos já estejam sendo colhidos por toda parte, uma visão ignorante, atrasada e pessimista, ainda deixando viva a intolerância denunciada, tristemente mantém-se presente, quer entre leigos, quer entre clérigos.
A crise na Igreja, citada no primeiro capítulo, teria como grande causa a derrocada da Liturgia, a compreensão da liturgia como algo “feito”, produzido e não como algo “recebido”. Ao passo em que cada comunidade e cada pessoa querem dar-se a sua própria liturgia, perde-se o encontro com o mistério, perde-se Deus e, do não-valor da mera auto-celebração, sobram as dissoluções, as contraposições e a dilaceração da própria Igreja. Diz o autor: “A vida litúrgica é o próprio coração da Igreja. Da sua pureza originária, da sua fidelidade à Tradição e da vivência autêntica da mesma dependerá a fecundidade de todo o resto da atividade eclesial, a fecundidade da ação pastoral, cujo objetivo último é a conversão das almas e a íntima comunhão dos homens com Deus” (p. 21).
A partir do Concílio e da aplicação das reformas grandes e pequenas, e passando pela publicação dos novos livros, foi-se percebendo uma antipatia, que muito se difundiu, para com o que havia antes, para o que era antigo. Esta antipatia é recordada pelo Papa no Motu Proprio, e o autor destaca a crueza desta intolerância “irracional” e “férrea” contra os que aprovam ou usam as formas antigas da Liturgia Romana. Ao se considerarem na essência da Igreja a unidade da fé e a comunhão da caridade nas relações fraternas, tal posicionamento intolerante torna-se escancaradamente escandaloso. Nas palavras do ainda Cardeal Ratzinger, eis a denúncia: “Para a formação da consciência em matéria litúrgica, também é importante parar de condenar a forma litúrgica vigente até 1970. Quem, atualmente, intervém a favor da validade desta liturgia ou a pratica é tratado como um empestado: acaba-se toda a tolerância. E esta intolerância é tal, que jamais se conheceu uma semelhante em toda a história da Igreja. Desta maneira, está-se a desprezar todo o passado da Igreja” (p. 26). Um exemplo surpreendente, no Brasil, foi uma notícia de um site mantido por uma faculdade ligada à Companhia de Jesus. O título original, em maio de 2011, era: “Padre jesuíta idiota retoma missa tridentina”. A “notícia” dizia ainda, como legenda de uma imagem: “Padre, por não saber o que fazer, 'ressuscita' missa ultrapassada”. Enfim, o título foi modificado e a imagem retirada. O ódio e o escárnio até mesmo entre irmãos religiosos, todavia, talvez ainda perdure...
Estas atitudes hostis não foram manifestadas apenas contra leigos, mas contra  presbíteros, bispos e claramente contra o hoje Papa Emérito. O autor cita (p. 28) “silêncios e resistências passivas”, mas também “atentados, proibições e respostas negativas ilícitas”, tudo isto “contra a vontade do Papa”, “sem temor nem decência”, como o mesmo Pontífice falou noutra ocasião.
No Diretório para o Ministério Pastoral dos Bispos encontramos os interessantes dizeres (n. 14): “Como consequência da sua consagração episcopal, da comunhão hierárquica e da sua pertença ao Colégio Episcopal, e como sinal de união com Jesus Cristo, o Bispo terá na maior conta e sustento de alma a comunhão de caridade e de obediência com o Pontífice Romano, fazendo suas as intenções, as iniciativas, as alegrias e as preocupações do Papa, e incrementando igualmente nos fiéis os mesmos sentimentos filiais”. É a este estado que o autor nos convida, no quarto capítulo da obra, citando enérgicas palavras de D. Ranjith no mesmo ano do Motu Proprio: “O que o Santo Padre diz deve ser obedecido em toda a Igreja. Se não seguimos este princípio, estamos a permitir que nós próprios sejamos usados como instrumento do diabo, e de ninguém mais. Isso vai levar a discórdias na Igreja, e tornará mais lenta a sua missão” (p. 33). Quanto a documentos diocesanos que tentam limitar o Motu Proprio, o mesmo bispo lembra que nisso se escondem preconceitos e o pecado do orgulho. O Pe. Nicola Bux, também citado, fala de forma mais clara: “O paradoxo a que se chegou é que se fala tanto de recepção dos documentos ecumênicos, mas, ao mesmo tempo, faz-se silêncio ou, pior ainda, censura-se o magistério petrino. Convém recordar sempre que o magistério do bispo é autêntico apenas se estiver em comunhão efetiva (e afetiva) com o do Papa” (p. 35). Sendo assim, constata o autor, não são os fiéis que aderem ao Motu Proprio que põem em risco a unidade na Igreja, mas sim aqueles que tentam minar pela desobediência o legítimo magistério do Papa.
Aqueles que se alegram pelo Motu Proprio sentem a justiça de terem seus autênticos direitos reconhecidos, outorgados, não obstante as tentações/tentativas de impedir ou travar a aplicação destas novas leis. Aqui é de suma importância compreender que o Motu Proprio não é um indulto, como o anterior – Quattuor abhinc annos, de 1984. E o autor di-lo com simplicidade: “O Motu Proprio Summorum Pontificum não é um indulto, mas sim um texto legislativo de alcance universal que reconhece e legitima certos direitos outorgados a todos os sacerdotes e fiéis. Por conseguinte, o natural seria esperar que o víssemos ser respeitado, e até mesmo promovido, pelas distintas autoridades da Igreja, uma vez que, a não ser assim, cairiam em aberta rebelião e desobediência perante o Vigário de Cristo” (p. 38). Repete, por assim dizer, o Mons. Guido Pozzo, que vai citado: “não se trata de uma concessão que se faz aos fiéis, mas sim do direito de os fiéis poderem ter acesso à liturgia gregoriana” (idem). E que direitos seriam esses? Ei-los simplificados, segundo o autor:
- Direito de qualquer sacerdote escolher que Missal usar para a Missa sem o povo (também chamada no Missal novo de Missa com assistência de um só ministro), à qual qualquer fiel que quiser pode ser admitido
- Direito das comunidades religiosas de escolherem o Missal para a Missa Conventual, bem como de adotarem o Missal antigo de forma habitual e permanente
- Direito dos párocos e reitores de introduzir na vida paroquial a Missa segundo o Missal antigo, se for solicitado por um grupo de fiéis
- Direito do pároco de usar e conceder permissão para uso dos rituais antigos dos sacramentos do Batismo, Matrimônio, Penitência e Unção dos Enfermos
- Direito dos ordinários (bispos) de usar o ritual antigo para o sacramento da Confirmação
- Direito dos clérigos de satisfazer a obrigação da Liturgia das Horas utilizando o Breviário antigo
Ao tratar da revogação do Missal, coisa que nunca existiu juridicamente, o autor cita o Summorum Pontificum como verdadeiro ato de reparação e justiça, posto que repara o fato do direito legítimo ter sido pisoteado por quarenta anos pelas autoridades, e por devolver a todos a possibilidade de exercer um direito que infelizmente ainda hoje é “impedido e obstruído” (p. 43).
Esta Forma da liturgia romana, como qualquer outro rito ocidental ou oriental aprovado pela Igreja, não tem como alterar a fé da Igreja e, por isso mesmo, não afeta a autoridade do Concílio, que não pode jamais ser entendido como ruptura da fé da Igreja. Como disse o Papa, “tal receio não tem fundamento”. Ou a ortodoxia do antigo Missal é incontestável, ou cai-se no risco de se afirmar que a fé mudou. E se não se podem alegar questões doutrinais contra o uso do antigo Missal, o que resta? Se a pastoral está a serviço da fé, o que resta? Se onde o antigo Missal é usado se vê “uma vida cristã com garra, florescem as virtudes e não se vê diminuir o zelo apostólico” (p. 49), o que resta?
Quanto ao temor relativo à unidade, o próprio Papa, na Carta aos Bispos, disse que “não parece realmente fundado”. Depois cita o enriquecimento mútuo e a importância de se celebrar, segundo o Missal novo, “com grande reverência em conformidade com as rubricas”. O Cardeal Hoyos, citado pelo autor, afirma que a presença dos dois Usos “é uma multiplicidade que enriquece, é uma maior liberdade cultural” (p. 53). E falando de algo essencial para a celebração dos dois Missais, cita-se o Mons. Guido Pozzo, que diz: “O que hoje é essencial para recuperar o sentido profundo da liturgia católica, em ambos os usos do missal romano, é o caráter sagrado da ação litúrgica, o caráter central do sacerdote como mediador entre Deus e o povo cristão, o caráter sacrificial da Santa Missa, como dimensão primordial da qual deriva a dimensão da comunhão” (p. 54-55).
Falando ainda da unidade efetiva, no capítulo seguinte (o nono), o autor recorda o Direito Canônico, que afirma, quanto ao Sumo Pontífice, que este “tem na Igreja o poder ordinário supremo, pleno, imediato e universal” (cân. 331). A unidade se constrói aceitando também as consequências, não apenas em teoria, mas na prática, deste Pontificado Supremo, exercido pelo Bispo de Roma.
Para resumir o que o autor quis lavrar acerca da autoridade do bispo, basta-nos outra afirmação do Cardeal Hoyos: “O Papa não alterou o Código de Direito Canônico. O bispo é o moderador da liturgia na sua própria diocese. Mas compete à Sé Apostólica ordenar a Sagrada Liturgia da Igreja universal. E um bispo deve atuar em harmonia com a Sé Apostólica e deve garantir a cada fiel os seus próprios direitos, incluindo o de poder participar na missa de São Pio V, enquanto forma extraordinária do rito” (p. 63).
À dúvida sobre qual seja a razão última do Motu Proprio, sobretudo aos que pensam que ele teria como destinatário primeiro e especial a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, o autor se utiliza uma vez mais de boas palavras do Cardeal Hoyos: “O Motu Proprio nasce como um tesouro oferecido a todos, e não como resposta aos protestos e petições de alguns” (p. 67). É ainda outro purpurado – o Cardeal Cañizares – que falará (p. 68) com mais clareza: “A vontade do Papa não foi apenas a de satisfazer os seguidores de Monsenhor Lefebvre, nem a de se limitar a responder aos justos desejos dos fiéis que, por diversos motivos, se sentem ligados à herança litúrgica que é representada pelo rito romano, mas também, e de maneira especial, a de abrir a riqueza litúrgica da Igreja a todos os fiéis, tornando assim possível a descoberta dos tesouros do patrimônio litúrgico da Igreja a quantos ainda os ignoram. E quantas vezes a atitude daqueles que os menosprezam se fica a dever a nada mais que a esse mesmo desconhecimento!” E segue com uma afirmação que ainda precisa ecoar bastante em nossos dias: “Por isso, visto sob este aspecto, o Motu Proprio tem um sentido que vai além da existência ou não de conflitos: ainda que não houvesse qualquer 'tradicionalista' a quem satisfazer, esta 'descoberta' relativa ao tesouro do patrimônio litúrgico teria sido suficiente para justificar as disposições do Papa”. Estas autorizadas manifestações de ilustres cardeais que têm trabalhado bastante pela reta compreensão deste heroico ato de Bento XVI são golpes fulminantes contra “qualquer sorte de pretensão mesquinha, venha ela de onde vier, de condenar a celebração do Uso Extraordinário ao gueto” (p. 70). Sendo assim, é preciso deixar bastante claro “qual o propósito papal: 'permitir a difusão da forma extraordinária para benefício daqueles que ainda não a conhecem'” (p. 70-71). Não tenhamos vergonha ou dúvida em admiti-lo.
Quanto ao “grupo estável” de fieis, o autor vem utilizar-se do bom senso e fustiga a má vontade e as disputas mesquinhas. O documento papal não fixa uma quantidade mínima e faz bem em não fazê-lo, pois isto é muito variável. Há igrejas em que, no meio da semana, há um “grupo estável” de fiéis participando da Missa que não chega a 5, a 10, a 20 pessoas. O autor faz a questão repousar não no problema do número de pessoas, mas na abertura de espírito, na atitude positiva e na vontade de cooperar para o maior bem das almas.
Concluindo a obra, o autor faz considerações sobre o termo “extraordinário” e sobre a necessidade de ater-se ao que realmente dizem os textos do Santo Padre. Numa citação da Carta aos Bispos, tem lugar importante a expressão: “Faz-nos bem a todos conservar as riquezas que foram crescendo na fé e na oração da Igreja, dando-lhes o justo lugar”. Este “a todos” deve ser entendido realmente como todos sem exceção. 
É interessante notar ainda que, quando a Pontifícia Comissão Ecclesia Dei respondeu, em 2008, à carta de um seminarista, lá disse o Cardeal Perl, sobre a história da liturgia romana: “De alguém que seja ignorante de seu passado não se pode esperar que compreenda o seu presente com alguma profundidade” (p. 77). E afirmou que o seminarista realmente tem o direito a ser ensinado acerca da Forma Extraordinária.
Os últimos pensamentos, enfim, recordam a bondosa atitude do Santo Padre, que não veio agregar um problema a todos que existem, mas dar um tesouro que pode de alguma maneira contribuir para a resolução de muitos problemas. Também apontam para o distintivo dos verdadeiros católicos, que é a obediência e a fidelidade ao Sumo Pontífice.
Como apêndices há uma lista de cardeais e bispos de todo o mundo que já participaram ou celebraram a Missa segundo a Forma Extraordinária desde 2007, bem como os textos integrais do Motu Proprio e da Carta aos Bispos, que o acompanha. Uma boa nova edição obrigatoriamente traria a Instrução Universae Ecclesiae (2011) que, neste contexto, não pode ser esquecida.
Esta leitura (a obra comentada nestes parágrafos), portanto, continua atual, recomendada e necessária. O linguajar é compreensível a todos e pode certamente persuadir a quem desejar abrir-se. A leitura flui tão agradavelmente que pode completar-se em um ou dois dias, sem prejuízo. Ao fim, a palavra que permanece firme e forte é esta, da capa: riqueza!

Por Luís Augusto - membro da ARS

sábado, 1 de novembro de 2014

O repouso junto dEle ou pensamentos sobre o que há de vir


Amanhã (02/11) a cristandade celebrará o dia de todos os fiéis defuntos, onde rezaremos por todos aqueles que, tendo morrido na amizade com Deus ou, pelas vias só por ele conhecidas, amparados por sua misericórdia, encontram-se em purgação, antes de entrar na glória eterna. Nossa oração nada terá de proveitosa àqueles que, tendo morrido em consciente rejeição a Deus e às suas leis, perderam-se desgraçadamente para toda a eternidade. Também não será em auxílio daqueles que já rezam por nós junto do trono de Deus todo-poderoso, pois delas não têm necessidade. E é sobre a morada destes últimos que gostaria que tratássemos hoje: o Céu. 
A Solenidade de Todos os Santos, neste ano, aqui no Brasil, está sendo celebrada hoje, primeiro dia de novembro. No Prefácio IX para os domingos do Tempo Comum, ouvimos o sacerdote falar com Deus Pai dizendo que a família de Deus “recorda a Ressurreição do Senhor, na esperança de ver o dia sem ocaso, quando a humanidade inteira repousará” junto dele. E prossegue como que num delicioso suspiro: “Então, contemplaremos a vossa face e louvaremos sem fim vossa misericórdia”, fazendo-nos lembrar do Salmo 117, que nossas bocas cantavam como que sorrindo na noite da Vigília Pascal: “Dai graças ao Senhor porque ele é bom! Eterna é a sua misericórdia! (...) Não morrerei, mas ao contrário, viverei para cantar as grandes obras do Senhor!” Este “Non móriar” (= “não morrerei”), logo no dia em que, depois, solenemente, renovamos as promessas do Batismo, deveria soar hoje, em nossas consciências, como um “Não pecarei”, ou seja, um compromisso de cumprir decididamente e diariamente os mandamentos, e isto é amar a Deus de verdade. Sabemos que daquele dia até hoje provavelmente tornamos a cair, a duvidar, a esquecer o fim último. Hoje talvez nos falte mais força na perseguição da meta luminosa da santidade, e parece que nos falta um pensamento mais claro sobre o que nos espera neste tal “dia sem ocaso”, que o prefácio aponta como algo tão feliz. Simplesmente não é normal que rezemos o Credo, que digamos “Creio na ressurreição da carne e na vida eterna” e que depois, nos círculos do nosso cotidiano, escorreguemos nas dúvidas, vacilemos em questões que o Catecismo nos esclarece e nos deixemos seduzir por doutrinas estranhas e até pouco racionais. Dizia e diz ainda a voz da Igreja: “O último artigo do Credo ensina-nos que depois da vida presente há outra, (...) eternamente feliz para os eleitos no Paraíso. (...) Não podemos compreender a felicidade do Paraíso, porque excede os conhecimentos da nossa inteligência limitada, e porque os bens do Céu não podem comparar-se aos bens deste mundo. (...) A felicidade dos eleitos consiste em ver, amar e possuir para sempre a Deus, fonte de todo o bem. (...) Devemos esperar de Deus o Paraíso e os auxílios necessários para alcançá-lo, porque Deus misericordiosíssimo, pelos merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, o prometeu a quem o serve de todo o coração; e, sendo fidelíssimo e onipotente, cumpre sempre a sua promessa. (...) As condições necessárias para alcançar o Paraíso são: a graça de Deus, a prática das boas obras e a perseverança no seu santo amor até a morte”. Que tal um “dever de casa”? Se já se conta um tempo razoável, confessemo-nos, procuremos pensar bastante no Céu e esforcemo-nos por participar da Missa na Solenidade de Todos os Santos, hoje, dado ser uma festa de preceito, e guardemos a memória destes grandes e veneráveis amigos que já gozam daquilo que deve ser nosso maior desejo.

Adaptado do original publicado no Folheto Litúrgico Dies Domini, de 26/10/2014

Por Luís Augusto - membro da ARS

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Pequena história do Rosário

Pax et bonum!

Depois de um considerável tempo sem postagens, estamos de volta.
Aproveitando os últimos dias deste mês do Rosário, traduzimos parte do artigo da sempre recomendada New Catholic Encyclopedia sobre a história desta devoção tão cara. O texto que segue é da parte sobre o rosário na Igreja Ocidental. Portanto, o artigo não foi traduzido completamente.
Um ponto que talvez levante discussão é a objeção, com provas, à conhecida tradição de dar a São Domingos de Gusmão (1170?-1221) um papel decisivo à história do rosário. O leitor entenderá as razões com a leitura. Daqui, portanto, torna-se mais do que nunca infundada a crítica de que a recomendação das 5 novas meditações, relacionadas a 5 novos mistérios (os luminosos), por parte de São João Paulo II em 2002, seja "mudar o que Nossa Senhora estabeleceu". A devoção, por mais cara à terra e ao Céu, não teve estabelecimento divino em meio a uma revelação privada comprovada pela Igreja, mas surgiu quase que naturalmente, como se verá. É mais coerente afirmar, com o mesmo santo pontífice, que "ao sopro do Espírito de Deus se foi formando gradualmente no segundo Milênio" (Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae, 1), embora se vejam origens mais remotas.
Ao inserir o novo ciclo (os mistério luminosos), ele diz (n. 19): "De tantos mistérios da vida de Cristo, o Rosário, tal como se consolidou na prática mais comum confirmada pela autoridade eclesial, aponta só alguns. Tal seleção foi ditada pela estruturação originária desta oração, que adotou o número 150 como o dos Salmos. Considero, no entanto, que, para reforçar o espessor cristológico do Rosário, seja oportuna uma inserção que, embora deixada à livre valorização de cada pessoa e das comunidades, lhes permita abraçar também os mistérios da vida pública de Cristo entre o Batismo e a Paixão".
São João Paulo II, citando (n. 4) o agora Bem-aventurado Paulo VI, afirma: "esta oração não só não se opõe à Liturgia, mas serve-lhe de apoio, visto que introduz nela e dá-lhe continuidade, permitindo vivê-la com plena participação interior e recolhendo seus frutos na vida quotidiana".
Esperamos que este texto ajude nossos leitores a olharem com mais amor para esta devoção que ajudou grandes santos a ganharem o Céu.

***

O Rosário
"O Rosário", diz o Breviário Romano, "é uma certa forma de oração onde rezamos quinze décadas ou dezenas de Ave Marias com um Pai Nosso entre cada dezena, enquanto a cada uma recordamos sucessivamente, em piedosa meditação, um dos mistérios de nossa Redenção". A mesma leitura para a Festa do Santo Rosário informa-nos que, quando a heresia Albigense estava a devastar a região de Toulouse, na França, São Domingos logo pediu fervorosamente o auxílio de Nossa Senhora e foi instruído por ela, assim diz a tradição, a pregar o Rosário entre o povo como antídoto contra a heresia e o pecado. Daquele tempo em diante esta maneira de oração foi "maravilhosamente difundida e desenvolvida [promulgari augerique coepit] por São Domingos, que diferentes Sumos Pontífices, em suas cartas apostólicas das épocas passadas, declararam ser o instituidor e o autor da mesma devoção". Que vários papas tenham dito isto é indubitavelmente verdadeiro, e entre os restantes nós temos uma série de encíclicas, começando em 1883, pelo Papa Leão XIII, em que, ao recomendar esta devoção aos fiéis com fervorosas palavras, assumem a instituição do Rosário por São Domingos como fato historicamente estabelecido. (...) Aqui nos deteremos sobre a controversa questão de sua história, um assunto que, tanto na metade do séc. XVIII como novamente em anos recentes, tem atraído muita atenção.
Comecemos com certos fatos que não serão contestados. É toleravelmente óbvio que sempre que alguma oração tiver de ser repetida um grande número de vezes, há a necessidade de se recorrer a algum aparato mecânico menos problemático do que a contagem nos dedos. Em quase todos os países, então, encontramo-nos com algo da natureza dos contadores-de-oração ou contas de rosário. Mesmo na antiga Nínive uma escultura foi encontrada sendo descrita por Lavard em sua obra "Monuments" (I, quadro 7): "Duas fêmeas aladas diante de uma árvore sagrada em atitude de oração; elas levantam a mão direita estendida e seguram na esquerda uma guirlanda ou rosário". O que quer que seja, é certo que entre os maometanos (NT: o islã foi fundado no séc. VII) a Tasbih ou corda de contas, consistindo de 33, 66 ou 99 contas, e usada para contar devotamente os nomes de Alá, tem sido usada por vários séculos. Marco Polo, para sua surpresa, visitando o Rei de Malabar, no séc. XIII, encontrou-o usando um rosário de 104 (ou 108) pedras preciosas para contar suas orações. São Francisco Xavier e seus companheiros ficaram igualmente surpresos ao ver que rosários eram universalmente familiares aos budistas do Japão.
Muçulmano rezando com tasbih
Monge budista rezando com nenju
Entre os monges da Igreja Grega ouvimos falar do kombologion ou komboschoinion (komboskini; em russo chotki), uma corda com 100 nós usada para contar genuflexões e sinais da cruz. 
Monge oriental rezando com komboskini
Similarmente, junto da múmia de um asceta cristão, Thaias, do séc. IV, recentemente desenterrada em Antinöe no Egito, foi encontrada uma espécie de tabuleiro de cribbage (um tipo de jogo de baralho) com buracos, que geralmente se pensou ser um acessório para contar orações, do qual Palladius e outras antigas autoridades nos deixaram um relato. Um certo Paulo, o Eremita, no séc. IV, impôs sobre si a tarefa de repetir 300 orações, segundo uma forma estabelecida, todos os dias. Para isto, ele colhia 300 pedrinhas e jogava uma fora a cada oração feita (Palladius, Hist. Laus., xx; Butler, II, 63). É provável que outros ascetas que numeravam suas orações por centenas adotaram alguma forma similar  (Cf. "Vita S. Godrici", cviii.). De fato, quando encontramos um privilégio papal dirigido aos monges de Santo Apolinário in Classe, requerendo deles, em gratidão pelos benefícios papais, a reza de 300 Kyrie eleison duas vezes por dia (veja-se o privilégio de Adriano I, em 782, em Jaffe-Löwenfeld, n. 2437), deve-se pensar que algum acessório para contagem terá sido quase necessariamente usado para este fim.
Todavia, houve outras orações a serem contadas ligadas mais estreitamente ao Rosário do que Kyrie eleisons. Em antiga data, nas ordens monásticas, estabeleceu-se o costume não de celebrar a Missa, como sufrágio pelos irmãos falecidos, mas de rezar orações vocais. Para este propósito a recitação privada dos 150 salmos, ou de 50 salmos, um terço, era constantemente usada. Por volta do ano 800 aprendemos do Pacto entre as Abadias de São Galo e Reichenau ("Mon. Germ. Hist.: Confrat.", Piper, 140) que para cada irmão falecido todos os sacerdotes rezariam uma Missa e também 50 salmos. Uma carta em Kemble (Cod. Dipl., I, 290) prescreve que cada monge deve cantar duas cinquentenas (twa fiftig) pelas almas de certos benfeitores, enquanto cada sacerdote deve cantar duas Missas e cada diácono ler duas Paixões. Mas com o passar do tempo, e o fato de os conversi, ou irmãos leigos, a maioria analfabetos, se distinguirem dos monges do coro, sentiu-se que seria importante que eles usassem alguma forma simples de oração no lugar dos salmos, a que estavam obrigados os irmãos com mais instrução. Assim lemos nos "Ancient Customs of Cluny", coletados por Udalrio em 1096, que, quando a morte de algum irmão distante era anunciada, todo sacerdote deveria oferecer a Missa, e todo não-sacerdote deveria rezar 50 salmos ou repetir 50 vezes o Pater noster/Pai nosso ("quicunque sacerdos est cantet missam pro eo, et qui non est sacerdos quinquaginta psalmos aut toties orationem dominicam", P.L., CXLIX, 776). De modo similar, entre os Cavaleiros Templários, cuja regra data de cerca de 1228, aos cavaleiros que não podiam estar no coro, era pedido que rezassem a Oração do Senhor 17 vezes e, quando da morte de algum dos irmãos, que rezassem o Pater Noster 100 vezes por dia durante uma semana.
Para contar de forma correta, há toda razão para se acreditar que já nos séc. XI e XII entrou em prática o uso de pedrinhas, grãos ou discos de osso unidos por um cordão. Em todo caso é certo que a Condessa Godiva de Coventry (por volta de 1075, ou seja, séc. XI) deixou por testamento, à imagem de Nossa Senhora de um certo mosteiro, "o bracelete de pedras preciosas que ela arranjou num cordão para que, passando uma a uma com os dedos, pudesse contar suas orações com exatidão" (Malmesbury, "Gesta Pont.", Rolls Series 311). Outro exemplo parece ocorrer no caso de Santa Rosália (1160), em cujo túmulo cordas de contas semelhantes foram descobertas. Ainda mais importante é o fato de tais cordas de contas serem conhecidas por toda a Idade Média - e em algumas línguas continentais são conhecidas até hoje como "paternosters". A evidência para isso é claríssima e vem de todos os cantos da Europa. Já no séc. XIII os feitores desses acessórios, que eram conhecidos como "paternostereiros", em quase todo lugar formavam uma associação artesanal de considerável importância. O "Livre des métiers" de Stephen Boyleau, por exemplo, dá uma informação completa sobre as quatro associações de paternôtriers em Paris no ano de 1268, enquanto a Paternoster Row em Londres ainda preserva a memória da rua em que se reuniam seus colegas artesãos ingleses. Agora, a inferência óbvia é que um utensílio que foi persistentemente chamado de "Paternoster", ou em latim fila de paternoster, numeralia de paternoster, e por aí vai, foi designado, ao menos originalmente, para se contar Pai Nossos.
Desenho do séc. XV representando um "paternostereiro"
Esta inferência, desenhada e ilustrada com muito proveito pelo Pe. T. Esser, OP, em 1897, torna-se uma certeza prática quando recordamos que foi apenas da metade do séc. XII que a Ave Maria foi tomada em geral como forma de devoção. É moralmente impossível que o bracelete de joias da Senhora Godiva possa ter sido usado para contar Ave Marias. Por isso não pode haver dúvidas de que as cordas de contas de oração foram chamadas de "paternosters" porque, por um longo tempo, foram principalmente usadas para numerar repetições da Oração do Senhor.
Quando, todavia, a Ave Maria entrou em uso, parece que a consciência de que ela era, em sua natureza, uma saudação, antes que uma oração, induziu ao costume de repeti-la várias vezes, acompanhada de genuflexões ou outro ato externo de reverência. Assim como acontece hoje quando se dão muitas saudações, ou no aplauso dado a alguém que se apresentou em público, ou nos círculos de gracejos entre estudantes por ocasião de ingresso ou partida de alunos, também a honra tributada por tais saudações era medida por números e repetição. Além disso, desde que a recitação dos Salmos divididos em grupos de 50 tornou-se, como inumeráveis documentos atestam, a forma favorita de devoção para religiosos e pessoas instruídas, os que eram simples ou mais ocupados amavam, pela repetição de 50, 100 ou 150 saudações da Ave Maria, sentir que estavam imitando a prática dos mais exaltados servos de Deus. Em todo caso, é certo que, no decorrer do séc. XII e antes do nascimento de São Domingos, a prática de recitar 50 ou 150 Ave Marias tinha em geral se tornado familiar. As evidências mais conclusivas disso são dadas pelas "Mary-legends", ou histórias de Nossa Senhora, que obtiveram larga circulação na época. A história de Eulália, em particular, segundo a qual um devoto da Bem-aventurada Virgem, acostumado a rezar 150 Ave, foi por ela recomendado a rezar apenas 50, porém mais lentamente, foi mostrada por Mussafia (Marien-legenden, Pts I, ii) como de data inquestionavelmente anterior. Não menos conclusivo é o que se diz de Santo Alberto (+1140) através de seu biógrafo contemporâneo: "Cem vezes por dia ele dobrava os joelhos, e 50 vezes ele postrava-se levantando-se com os dedos das mãos e dos pés, enquanto repetia a cada genuflexão: 'Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre'". Esta era, então, toda a Ave Maria que era rezada, e o fato de todas as palavras ainda não constarem implica que a fórmula ainda não tinha se tornado universalmente familiar. Não menos notável é o relato de um exercício devocional similar que ocorria nos manuscritos do Corpus Christi College (em Cambridge, Inglaterra) da Ancren Riwle (código de regras para a vida de mulheres anacoretas, do séc. XIII). Este texto, declarado por Kolbing como tendo sido escrito na metade do séc. XII (Englische Studien, 1885, P. 116), em todo caso dificilmente pode ser posterior a 1200. A passagem em questão dá diretrizes de como 50 Ave deveriam ser rezadas divididas em grupos de 10, com prostrações e outros gestos de reverência (cf. The Month, Julho, 1903). Ao encontrarmos um tal exercício recomendado a um pequeno grupo de anacoretas num canto da Inglaterra, 20 anos antes de qualquer fundação dominicana ser feita neste país, resulta difícil resistir à conclusão de que o costume de recitar 50 ou 100 Ave foi se tornando familiar, independente e antes da pregação de São Domingos. Por outro lado, a prática de meditar certos mistérios definidos, o que corretamente é descrito como a própria essência da devoção do Rosário, parece só ter surgido em data muito posterior à morte de São Domingos. É difícil provar o contrário, mas o Pe. T. Esser, OP mostrou (no periódico "Der Katholik", de Mainz, Out., Nov., Dez., 1897) que  a introdução desta meditação durante a recitação das Ave foi justamente atribuída a um certo monge cartuxo chamado Domingos, o prussiano. Em todo caso, é certo que no fim do séc. XV prevalecia a maior variedade possível de métodos de meditação, e que aos 15 mistérios hoje em dia geralmente aceitos não tinham aderido uniformemente nem os próprios dominicanos (cf. Schmitz, "Rosenkranzgebet", p. 74; Esser em "Der Katholik", 1904-06). Resumindo, temos evidência positiva de que ambas as invenções das contas como acessório de contagem de orações e também da prática da repetição de 150 Ave não podem ser atribuídas a São Domingos, porque elas são notavelmente mais antigas que a época dele. Além disso, estamos certos de que a meditação dos mistérios não foi introduzida até 200 anos depois de sua morte. Somos levados a perguntar: o que nos foi deixado de que São Domingos possa ser chamado o autor?
Essas razões positivas para desacreditar a tradição corrente poderiam, em certa medida, ser ignoradas como refinamentos arqueológicos, se houvesse alguma evidência satisfatória que mostrasse que São Domingos se identificou com o Rosário pré-existente e tornou-se seu apóstolo. Mas aqui nos deparamos com um absoluto silêncio. Das oito ou nove antigas Vidas do santo, nenhuma faz a menor alusão ao Rosário. As testemunhas que deram evidências na causa de sua canonização são igualmente reticentes. Na grande coletânea de documentos reunidos pelos padres Balme e Lelaidier, OP, em seu "Cartulaire de St. Dominique" a questão é cuidadosamente ignorada. As antigas constituições das diferentes províncias da Ordem foram examinadas, e muitas impressas, mas nenhuma traz qualquer referência a esta devoção. Temos centenas, até milhares de manuscritos contendo tratados devocionais, sermões, crônicas, vidas de Santos, etc., escritos pelos Frades Pregadores entre 1220 e 1450; mas nenhuma passagem verificável foi produzida que fale do Rosário como instituído por São Domingos ou mesmo que faça desta devoção uma especialmente querida pelos seus filhos. As cartas e outras atas dos conventos dominicanos para homens e mulheres, como M. Jean Guiraud aponta com ênfase em sua edição do Cartulaire de La Prouille (I, xxxxxviii), são igualmente mudas. Também não encontramos qualquer sugestão de uma conexão entre São Domingos e o Rosário nas pinturas e esculturas destes dois séculos e meio. Até o túmulo de São Domingos em Bolonha e os inumeráveis afrescos de Fra Angelico que representam os irmãos de sua Ordem ignoram o Rosário completamente.
Impressionados por esta conspiração de silêncio, os Bolandistas, na tentativa de traçar até sua fonte a origem da tradição corrente, encontraram que todas as pistas convergiam para um ponto, a pregação do dominicano Alano de la Roche (NT: venerado por muitos como "bem-aventurado", embora nunca tenha sido beatificado) entre os anos 1470-75. Sem dúvida foi ele quem primeiro sugeriu a ideia de que a devoção do "Saltério de Nossa Senhora" foi instituída ou revisada por São Domingos. Alano era um homem bastante entusiasmado e devoto, mas, como as maiores autoridades admitem, era cheio de ilusões, e baseava suas revelações em testemunhos imaginários de escritores que nunca existiram (cf. Quétif e Echard, "Scriptores O.P.", 1, 849). Sua pregação, porém, era ouvida com muito êxito. As Confrarias do Rosário, organizadas por ele e seus colegas em Douai, Colônia, e em qualquer parte tinham grande popularidade e levaram à impressão de vários livros, todos mais ou menos impregnados com as ideias de Alano. Indulgências foram concedidas para a boa obra que estava sendo feita e os documentos concedendo estas indulgências aceitavam e repetiam, como era natural naquela época não-crítica, os dados históricos que foram inspirados pelos escritos de Alano e que eram dados de acordo com a prática usual dos próprios promotores das confrarias. Foi assim que a tradição da autoria dominicana cresceu. As primeiras Bulas falam desta autoria com certa reserva: "Prout in historiis legitur" ("Como se lê nas histórias"), diz Leão X na mais antiga de todas (Pastoris aeterni, 1520); mas a maioria dos papas seguintes foi menos resguardada.
Duas considerações apoiam fortemente a visão da tradição do Rosário acima exposta. Primeiro é o gradual abandono de quase toda coisa notável que vez ou outra foi usada para reivindicar a suposta autoria de São Domingos. Touron e Alban Butler apelavam para as Memórias de um certo Luminosi de Aposa, que dizia ter ouvido São Domingos pregar em Bolonha, mas há longo tempo provou-se que essas Memórias foram forjadas. Danzas, Von Loe e outros deram demasiada importância a um afresco em Muret; mas o afresco não existe mais, e há boas razões para crer que o rosário visto no afresco foi pintado em data posterior ("The Month", Fev. 1901, p. 179). Mamachi, Esser, Walsh e Von Loe citam alguns alegados versos contemporâneos sobre Domingos relacionado a uma coroa de rosas; o manuscrito original desapareceu, e é certo que os escritores citados imprimiram Dominicus onde Benoist, a única pessoa que viu o manuscrito, lê Dominus. O famoso testamento de Anthony Sers, que deixava um pedido à Confraria do Rosário em Palencia, em 1221, foi apontado como uma peça de testemunho conclusiva por Mamachi, mas hoje em dia as autoridades Dominicas admitem ser forjado ("The Irish Rosary", Jan., 1901, p. 92). De modo similar, uma suposta referência ao assunto por Tomás de Kempis na "Chronicle of Mount St. Agnes" é puro engano ("The Month", Fev., 1901, p. 187). Com isto pode-se notar a mudança de tom observada em autorizados trabalhos de referência. No "Kirchliches Handlexikon" de Munique e na última edição do "Konversationslexikon" de Herder, nenhuma tentativa se faz em defender a tradição que liga São Domingos pessoalmente com a origem do Rosário. Outra consideração que não pode ser desenvolvida é a multidão de legendas conflitantes sobre a origem desta devoção do "Saltério de Nossa Senhora" que prevaleceu até o fim do séc. XV, bem como a antiga diversidade de prática na forma de o recitar. Estes fatos não concordam bem com a suposição de que ela teve sua origem numa revelação definida e que foi zelosamente protegida desde o começo por uma das mais ilustres e influentes ordens religiosas. Não pode haver dúvida de que a imensa difusão do Rosário e de suas confrarias nos tempos modernos, e da vasta influência que exerceu são principalmente devidas aos trabalhos e às orações dos filhos de São Domingos, mas a evidência histórica serve claramente para mostrar que seu interesse no assunto foi despertado somente nos últimos anos do séc. XV.
Que o Rosário seja preeminentemente a oração do povo adaptada para o uso dos simples e dos letrados não se prova apenas pelas longas séries de afirmações papais, mas pela experiência diária de todos que são familiares a ele. A objeção tão frequentemente feita contra suas "vãs repetições" é dada tão somente por aqueles que falharam em perceber quão inteiramente o espírito do exercício reside na meditação dos mistérios fundamentais da nossa fé. Para os familiarizados, as palavras da saudação angélica formam apenas uma espécie de acompanhamento meio-consciente, algo que podemos comparar ao "Santo, Santo, Santo" dos coros celestes, e certamente não sem sentido. E não é necessário insistir que a livre crítica da origem histórica da devoção, que não envolve nenhum ponto de doutrina, seja compatível com uma plena apreciação dos tesouros devocionais que este pio exercício põe ao alcance de todos.
Com respeito à origem do nome, a palavra rosarius significa uma guirlanda ou buquê de rosas, e era não pouco usada num sentido figurativo, por ex: como título de um livro, para denotar uma antologia ou coleção de trechos. Uma antiga legenda que, depois de atravessar toda a Europa, penetrou até na Abissínia, ligava este nome a uma história de Nossa Senhora, que foi vista pegando botões de rosa da boca de um jovem monge, quando ele estava rezando Ave Marias, e entrelaçando-as numa guirlanda que punha sobre a cabeça. Uma versão alemã em métrica desta história ainda existe, datando do séc. XIII. O nome "Saltério de Nossa Senhora" também pode ser sua origem traçada para o mesmo período. Corona ou chaplet (no inglês) sugerem a mesma ideia que rosarium. O velho nome inglês encontrado em Chaucer e em outros lugares era "pair of beads" (par de contas), em que a palavra bead originalmente significava orações.

Fonte: Thurston, Herbert, and Andrew Shipman. "The Rosary." The Catholic Encyclopedia. Vol. 13. New York: Robert Appleton Company, 1912. Disponível em http://www.newadvent.org/cathen/13184b.htm.

Traduzido por Luís Augusto - membro da ARS

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Papa Francisco convoca a uma jornada de oração pelo Sínodo da Família

ROMA, 08 Set. 14 / 09:34 am (ACI).- O Papa Francisco convocou aos fiéis a participar este 28 de setembro em uma Jornada de Oração pelo Sínodo da Família que se realizará do 5 aos 19 de outubro sob o lema: “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”.
Nesse sentido, o Sínodo dos Bispos –informou Rádio Vaticano-, convidem às Igrejas particulares, às comunidades paroquiais, os institutos de vida consagrada, as associações e movimentos a orarem nas Missas e outras celebrações litúrgicas os dias prévios e durante os trabalhos da terceira Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos.
Em Roma, cada dia se orará na Capela da Salus Populi Romani da Basílica da Santa Maria Maior, onde os fiéis poderão unir sua oração pessoal a esta intenção. Assim, os bispos recomendam rezar o Santo Rosário pelos trabalhos do Sínodo.
Do mesmo modo, informou-se que nos próximos dias será publicado em vários idiomas um breve subsídio de parte da Secretaria do Sínodo dos Bispos e que inclui a oração composta pelo Papa Francisco em ocasião do Domingo da Sagrada Família celebrado em 29 de dezembro passado.
Nesta oração o Santo Padre pede que as famílias sejam “lugares de comunhão” onde nunca mais se experimente a violência e a divisão; e que “qualquer pessoa que tenha sido ferida ou ofendida conheça logo a consolação e a cura”. Além disso, pede à Sagrada Família para que no próximo Sínodo se volte a despertar em todos “a consciência do caráter sagrado e inviolável da família, sua beleza no projeto de Deus”.
A oração do Papa Francisco à Sagrada Família é a seguinte:

“Jesus, Maria e José,
em vós contemplamos
o esplendor do amor verdadeiro,
a vós nos dirigimos com confiança.
Sagrada Família do Nazaré
fazei que também nossas famílias
sejam lugares de comunhão e cenáculos de oração,
autênticas escolas do Evangelho
e pequenas Igrejas domésticas.
Sagrada Família de Nazaré,
que nunca mais nas famílias se vivam experiências
de violência, teimosia e divisão:
que tudo o que tenha sido ferido ou escandalizado
conheça logo o consolo e a cura.
Sagrada Família de Nazaré,
que o próximo Sínodo dos Bispos
possa despertar em todos a consciência
do caráter sagrado e inviolável da família,
sua beleza no projeto de Deus.
Jesus, Maria e José,
escutai e atendei nossa súplica. Amém”.

Fonte: http://www.acidigital.com/noticias/papa-francisco-convoca-a-uma-jornada-de-oracao-pelo-sinodo-da-familia-38104/

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Convite - Solenidade de Nossa Senhora do Amparo 2014

Pax et bonum!

Você, teresinense, sinta-se convidado para participar da Santa Missa na Solenidade de Nossa Senhora do Amparo, Padroeira de Teresina, amanhã, dia 16, às 8h30, na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Amparo. O Santo Sacrifício terá como celebrante principal o senhor arcebispo metropolitano, D. Jacinto Furtado de Brito Sobrinho. Neste dia também será celebrado o 162º Aniversário desta capital.
Em comunhão com a Paróquia Nossa Senhora do Amparo, ofereça uma prece em honra da Virgem Maria e reze por nossa cidade.
Hoje, dia 15, às 19h, será celebrada a última noite do Novenário, iniciado no dia 7. Nesta ocasião haverá a Consagração a Jesus por Maria de 5 fiéis segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort.


Declaração do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso sobre o Iraque

O mundo inteiro assiste, assombrado, ao que agora é chamado de "restauração do califado", que tinha sido abolido em 29 de outubro de 1923 por Kamal Ataturk, fundador da Turquia moderna.
Apesar de a maioria das instituições religiosas e políticas muçulmanas contestarem essa "restauração", os jihadistas do Estado Islâmico ainda continuam cometendo atos criminosos indescritíveis.
O Pontifício Conselho, todas as pessoas envolvidas no diálogo inter-religioso, os seguidores de todas as religiões e os homens e mulheres de boa vontade só podem denunciar e condenar inequivocamente essas práticas vergonhosas:
- a matança de pessoas apenas por causa das suas crenças religiosas;
- a abominável prática da decapitação, crucificação e exposição de cadáveres pendurados em locais públicos;
- a imposição, aos cristãos e aos yazidis, do dilema entre a conversão forçada ao islã, o pagamento de imposto por não serem muçulmanos (jizya) ou o êxodo;
- a expulsão forçada de dezenas de milhares de pessoas, incluindo crianças, idosos, mulheres grávidas e doentes;
- o rapto de meninas e mulheres pertencentes ao povo yazidi e a comunidades cristãs, como butim de guerra;
- a imposição da prática bárbara da mutilação genital;
- a destruição de locais de culto e mausoléus cristãos e muçulmanos;
- a ocupação forçada ou a profanação de igrejas e mosteiros;
- a remoção de crucifixos e outros símbolos religiosos cristãos e de outras comunidades religiosas;
- a destruição do inestimável patrimônio religioso e cultural cristão;
- as violências abjetas que aterrorizam as pessoas e as obrigam a se render ou fugir.
Nenhuma causa pode justificar tal barbaridade; certamente não uma religião. Trata-se de um crime extremamente grave contra a humanidade e contra Deus, que é o Criador, como frequentes vezes disse o papa Francisco.
Não podemos nos esquecer, no entanto, de que os cristãos e muçulmanos têm vivido juntos, mesmo que com muitos altos e baixos, ao longo dos séculos, construindo uma cultura de cordialidade e uma civilização da qual estão orgulhosos. Além disso, é com esta base que, nos últimos anos, o diálogo entre cristãos e muçulmanos tem continuado e se aprofundado.
A situação dos cristãos, dos yazidis e de muitas outras comunidades religiosas e étnicas minoritárias no Iraque exige uma posição clara e corajosa por parte dos líderes religiosos, especialmente dos muçulmanos, dos envolvidas no diálogo inter-religioso e de todas as pessoas de boa vontade. Todos devem ser unânimes em condenar com clareza esses crimes e denunciar a invocação da religião para justificá-los. Do contrário, que credibilidade terão as religiões, seus seguidores e seus líderes? Mesmo depois de promover pacientemente o diálogo inter-religioso durante os últimos anos, que credibilidade haverá?
Os líderes religiosos também são chamados a exercer a sua influência sobre os governantes para ajudar a acabar com esses crimes, punir aqueles que os cometem e restaurar o Estado de direito em todo o país, garantindo que as pessoas expulsas retornem a casa. Recordando a necessidade de ética na gestão das sociedades humanas, estes mesmos líderes religiosos não podem deixar de salientar que o apoio, o financiamento e o armamento do terrorismo é moralmente repreensível.
Isto posto, o Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso agradece a todos aqueles que levantaram a voz para condenar o terrorismo, especialmente aquele que usa a religião para justificá-lo.
Unimos a nossa voz à do papa Francisco: "Que o Deus da paz reforce todo desejo autêntico de diálogo e de reconciliação. Nunca se derrota a violência com a violência. A violência é vencida com a paz".

A Sagrada Liturgia e os nossos irmãos perseguidos

Pax et bonum!

[Primeiramente, pedimos perdão aos nossos leitores pela falta de postagens durantes estes vários dias.]

Hoje, Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria (para Roma e várias outras partes do mundo; no Brasil celebraremos esta Solenidade no domingo, dia 17), um dos dias de permanência de Sua Santidade, o Papa Francisco, na Coreia do Sul (lá ficará em Viagem Apostólica até o dia 18), é um dia que os bispos italianos indicaram para se rezar pelos cristãos perseguidos.
Chamamos a atenção para que se considere com clareza que os perseguidores são os muçulmanos e que sua forma de pensar encontra aprovação na grande maioria dos muçulmanos. Não se trata de um fanatismo ou fundamentalismo de uma minoria, mas da prática de uma imensa parte dos maometanos.
Pois bem, o Missal Romano em sua forma ordinária, em uso em praticamente todas as paróquias do Brasil, possui uma Missa pelos cristãos perseguidos, que gostaríamos de enfatizar e recomendar, dentre as missas e orações para diversas necessidades e circunstâncias.
Fala-se de oração pelos cristãos perseguidos, mas os pastores pouco parecem interessar-se em tornar essas orações públicas, com a reunião de toda a paróquia, por exemplo, pela celebração litúrgica.
Portanto, apelamos aos senhores bispos e presbíteros a que se interessem em escolher dias da semana, em que não haja solenidade, festa ou memória obrigatória, para convenientemente reunir o povo e celebrar uma Missa própria por nossos irmãos que, sobretudo no Oriente Médio, seguem fugindo, migrando, escondendo-se e morrendo por causa da fé em nosso Senhor Jesus Cristo. A Oração do dia, especialmente, pode ser também incluída na oração privada dos fiéis, durante o terço, durante as refeições, após a celebração das horas canônicas. O que importa é dar a conhecer a injustiça e a violência perpetradas contra os cristãos, bem como orar e fazer penitência pelo bem, pela proteção, pela fidelidade, pela salvação dos nossos irmãos, pelo fim das atrocidades, pela conversão e salvação dos perseguidores.
Segue o texto original em latim, seguido da edição oficial em português para o Brasil.

PRO CHRISTIANIS PERSECUTIONE VEXATIS
(PELOS CRISTÃOS PERSEGUIDOS)

Ant. ad introitum Cf. Ps 73,20 Ps 21 Ps 22 Ps 23
(Antífona de entrada Cf. Sl 73,19-22)
Réspice, Dómine, in testaméntum tuum, et ánimas páuperum tuórum ne derelínquas in finem; exsúrge, Dómine, et iúdica causam tuam, et ne obliviscáris voces quaeréntium te.
(Considerai, Senhor, vossa aliança; e não abandoneis para sempre o vosso povo. Levantai-vos, Senhor, defendei vossa causa, e não desprezeis o clamo de quem vos busca.)

Vel: Ac 12,5
(Ou: At 12,5)
Petrus servabátur in cárcere; orátio autem fiébat sine intermissióne ab Ecclésia ad Deum pro eo.
(Pedro era mantido no cárcere; mas a Igreja, sem cessar, rezava a Deus por ele.)

Collecta
(Oração do dia)
Deus, qui inscrutábili providéntia passiónibus Fílii tui vis Ecclésiam sociári, praesta fidélibus tuis, in tribulatióne propter nomen tuum versántibus, spíritum patiéntiae et caritátis, ut promissiónum tuárum fidi inveniántur testes atque veráces. Per Dóminum.
(Ó Deus, que na vossa insondável providência associais a Igreja à paixão do vosso Filho, dai aos fiéis, que sofrem por vossa causa, espírito de paciência e caridade, para que sejam autênticas testemunhas dos bens que prometestes. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.)

Super oblata
(Sobre as oferendas)
Súscipe, quaesumus, Dómine, humilitátis nostrae preces et hóstias, et praesta, ut, qui, tibi fidéliter serviéntes, hóminum persecutiónes patiúntur, gáudeant se Christi Fílii tui sacrifício sociári, et sua séntiant inter electórum nómina scripta esse in caelis. Per Christum.
(Acolhendo, ó Deus, nossas humildes preces e oferendas, concedei aos que são perseguidos por vos servir fielmente a alegria de participar do sacrifício do Cristo e a certeza de que seus nomes estão inscritos no céu, Por Cristo, nosso Senhor.)

Ant. ad communionem Mt 5,11-12
(Antífona da comunhão Mt 5,11-12)
Beáti estis, cum maledíxerint vobis et persecúti vos fúerint propter me, dicit Dóminus; gaudéte et exsultáte, quóniam merces vestra copiósa est in caelis.
(Bem-aventurados sois, quando vos insultarem e perseguirem por minha causa, diz o Senhor; alegrai-vos e exultai, pois grande no céu é vossa recompensa.)

Vel: Mt 10,32
(Ou: Mt 10,32)
Omnis qui confitébitur me coram homínibus, confitébor et ego eum coram Patre meo, qui in caelis est, dicit Dóminus.
(Darei testemunho diante do meu Pai, que está nos céus, de quem der testemunho de mim diante dos homens, diz o Senhor.)

Post communionem
(Depois da comunhão)
Per huius sacraménti virtútem fámulos tuos, Dómine, in veritáte confírma, et fidélibus tuis in tribulatióne pósitis concéde, ut, crucem sibi post Fílium tuum baiulántes, christiáno nómine iúgiter váleant inter advérsa gloriári. Per Christum.
(Ó Deus, pela força deste sacramento, confirmai na fé os vossos filhos e filhas, e concedei aos que sofrem tribulações que, carregando a sua cruz após o Cristo, possam gloriar-se do nome de cristãos em todas as adversidades. Por Cristo, nosso Senhor.)