segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Sobre a saudação Dominus vobiscum (O Senhor esteja convosco) e sua resposta

Pax et bonum!

Achei por bem procurar algum material acerca de umas das mais usadas saudações litúrgicas e sua resposta: Dominus vobiscum ("O Senhor esteja convosco") / Et cum spiritu tuo ("E com o teu espírito"). Acredito que será de grande proveito para nós, brasileiros, já que a nossa tradução em vigor ("Ele está no meio de nós") é insuficiente no sentido, deixando-nos alheios às origens e significados da saudação e sua resposta.
Os três primeiros textos estão no contexto da Forma Extraordinária do Rito Romano (para alguns detalhes).
Acompanhando o texto estão fotos de São Padre Pio, com as manchas de sangue ao redor dos estigmas, voltado para o povo exatamente para dizer, na Missa, "Dominus vobiscum".


Dom Fernand Cabrol, OSB

Na Liturgia, o papel do Dominus vobiscum e de sua resposta Et cum spiritu tuo é talvez de maior importância que a do Alleluia. É, de certa forma, uma tradução da palavra hebraica Emmanuel, que significa Nobiscum Deus (Deus conosco). Entre os hebreus era usado como uma forma de saudação. Booz saudou os ceifeiros com as palavras: "O Senhor esteja convosco". Ao que lhe responderam: "O Senhor te abençoe" (Rt 2,4). Esta saudação é encontrada no Antigo Testamento ainda sob outras formas: "o Senhor, vosso Deus, está convosco" (1Cr 22,18); "o Senhor está convosco" (2Cr 15,2); "o Senhor estará convosco" (2Cr 20,17); "o Deus de Jacó esteja convosco" (Tb 7,15); "o Senhor Deus dos Exércitos estará convosco" (Am 5,14); "estou convosco, diz o Senhor" (Ag 1,13), etc. No Novo Testamento o anjo Gabriel saúda a Virgem Maria com estas palavras: "O Senhor é contigo" (Lc 1,28). São Paulo assim expressa esta saudação: "que a graça de nosso Senhor esteja convosco" (Rm 16,20); "o Deus de amor e paz estará convosco" (2Cor 13,11); "o Deus da paz estará convosco" (Fl 4,9).
O uso litúrgico do Dominus vobiscum com sua resposta é constantemente encontrado em todas as liturgias. Nada poderia haver de mais expressivo ou solene que essas palavras quando usadas em seu lugar apropriado. Com esta fórmula o sacerdote saúda os fiéis na assembleia cristã. O presbítero ou o bispo fala em nome de todos, reúne seus pedidos e é o pontífice que oferece as suas orações a Deus. Antes de agir como representante deles, portanto, volta-se para eles dizendo: Dominus vobiscum ("o Senhor esteja convosco"). E eles respondem: "E com o teu espírito" [já que tu apresentas as nossas orações]. E quando o pontífice conclui a oração em alta voz, o povo responde Amen, como para dizer: "Assim seja. Tu bem expressaste a nossa oração" (por exemplo: a oração Collecta - Oração do Dia).
O Dominus vobiscum encontrou, pois, naturalmente, um lugar antes da Collecta e de cada oração, na Missa ou no Ofício Divino, antes do Prefácio e antes do Evangelho. Neste último exemplo é o diácono que tem o direito de dizê-lo.

Fonte: Liturgical Prayer: its History and Spirit, Part I - Elements of Liturgical Prayer, Chapter V - Liturgical Acclamations and Invocations, 3. 1921.


Catholic Encyclopedia

É uma antiga forma de saudação devota, incorporada à liturgia da Igreja, onde é empregada como um prelúdio a certas orações formais. Sua origem é evidentemente bíblica, sendo claramente emprestada de Rt 2,4 e 2Cr 15,2. A mesma idéia é também sugerida no Novo Testamento, por exemplo, em Mt 28,20: "Ecce ego vobiscum sum", etc. O uso eclesiástico data provavelmente da era apostólica. Menção dela é feita (cap. III) pelo Concílio de Braga (563). Aparece também no "Sacramentarium Gelasianum", do séc. VI ou VII. A frase traz em si um profundo significado religioso e expressa intensamente um dos mais altos e santos desejos. Ora, não é a presença do Senhor — Fonte de todo bem e Autor de todos os maiores dons — uma garantia certa de proteção Divina e uma séria certeza de posse de toda paz e consolação espiritual? Nos lábios, pois, do sacerdote, que age como representante e delegado da Igreja, em cujo nome e com cuja autoridade ele reza, esta fórmula de súplica é preeminentemente apropriada. Daí seu uso frequente nas orações públicas da Liturgia da Igreja. Durante a Missa ela ocorre 8 vezes, que são: antes do sacerdote subir ao altar, antes dos dois Evangelhos, antes da Collecta, antes do Ofertório, antes do Prefácio, antes da Oração depois da Comunhão, e antes da bênção. Em quatro dessas ocasiões o celebrante se volta para o povo enquanto a diz, estendendo e juntando as mãos; nas outras quatro permanece voltado para o altar. No Ofício Divino esta fórmula é dita antes da oratio principal de cada Hora pelos padres, mesmo na oração privada, porque devem rezar em união com a Igreja e em nome da Igreja. Os diáconos a dizem apenas na falta de um presbítero ou com sua permissão, se este está presente (Van der Stappen, De officio divino, 43), enquanto os subdiáconos usam, em seu lugar, "Domine exaudi orationem meam". Diferente do uso geral, o "Dominus vobiscum" não precede a oração do Santíssimo Sacramento antes que a bênção seja dada. Gardellini (Comment. in Inst. Clem., 1531, n. 5) explica que esta anomalia se dá pelo fato de a bênção, com a Hóstia Sagrada no ostensório, conter efetivamente aquilo que está na fórmula. Os bispos usam "Pax vobis" antes da Collecta nas Missas em que o Gloria é cantado ou recitado. A resposta ao "Dominus Vobiscum" é "Et cum spiritu tuo" (cf. 2Tm 4,22; Gl 6,18; Fl 4,23). Originalmente esta resposta era dada a uma só voz por toda a assembleia. Entre os Gregos há uma forma correspondente "Pax omnibus" (Liturgia de São Basílio). O Concílio de Braga, já mencionado, ordenou (Mansi, IX, 777) que os presbíteros, como os bispos, a quem os [hereges] priscilianistas queriam restringir, adotassem esta fórmula.

Fonte: Morrisroe, Patrick. "Dominus Vobiscum." The Catholic Encyclopedia. Vol. 5. New York: Robert Appleton Company, 1909.

Pe. João Baptista Reus


Dominus vobiscum é a saudação litúrgica romana. Os Bispos, nos dias em que há Glória, dizem: Pax vobis, depois do Kyrie da Missa.
1) Origem: Dominus vobiscum era saudação comum do povo israelita (Rute 2,4). Pax vobis disse nosso Senhor (Jo 20,19).
2) Resposta: Et cum spiritu tuo usa São Paulo (2Tm 4,22). Em si estas palavras significam: "Contigo". Mas João Crisóstomo já entende pela palavra "espírito" o Espírito Santo, que pela ordenação é comunicado ao sacerdote. A Igreja favorece esta explicação, pois podem usar esta saudação só aqueles que, pela imposição das mãos do Bispo, receberam o Espírito Santo.
3) O efeito desta saudação é, para o povo, a comunicação das graças divinas. O celebrante dever-se-ia lembrar de pedir a renovação das graças sacerdotais recebidas na ordenação.
4) No ofício dos três últimos dias da semana santa não se emprega esta saudação, para exprimir o horror da saudação com que Judas traiu o amabilíssimo Redentor (conforme Durandus, VI, c. 72, n. 6).

Fonte: Curso de Liturgia, I Parte - Liturgia Geral, Cap. I - As santas palavras, §28 - Aclamações. III Edição - revista e aumentada. 1952. Editora Vozes Limitada. Petrópolis-RJ.


Pe. Edward McNamara

Pergunta: Como no mundo anglófono, nós teremos que mudar a resposta do povo* de "E contigo também" para "E com o teu espírito", estive procurando uma boa explicação histórico-litúrgica e teológica para esta mudança, a fim de torná-la compreensível para os fiéis. Por que esta insistência no espírito? O povo igualmente não tem espírito? Além de um pequeno parágrafo, não encontrei resposta à questão em livros litúrgicos disponíveis para mim. Poderia dar-me algum fundamento? — H.T., Kundiawa, Papua-Nova Guiné.
Resposta: Como bem se sabe, a Santa Sé pediu que a expressão latina "Et cum spiritu tuo", dita em resposta a saudações como "Dominus vobiscum" devesse sempre ser traduzida literalmente, como sendo "E com o teu espírito"**.
A maioria das línguas do mundo traduziu a expressão literalmente, sendo o Inglês e o Português brasileiro notáveis exceções.
A fórmula breve deste diálogo ("O Senhor esteja convosco. E com o teu espírito") é tirada do livro de Rute  2,4 e da 2ª Carta a Timóteo 2,22. Os cristãos provavelmente tomaram estas fórmulas diretamente da sinagoga. Há uma clara evidência, por exemplo, em São Justino, mártir (100-165), de que os cristãos falavam estas expressões desde muito cedo.
O fato de que desde os tempos mais antigos os cristão conservaram estas frases em sua forma original, apesar de serem alheias à mentalidade grega e latina, é um bom argumento para mantê-las intactas em nossas traduções atuais. Desta forma, mantemos um vivo elo com as origens históricas do Cristianismo, assim como fazemos conservando outras formas e expressões hebraicas como Amen (Amém), Alleluia (Aleluia) e Hosanna (Hosana).
A fórmula "esteja convosco" é considerada uma saudação de benevolência e de reconhecimento de uma realidade: O Senhor está presente. A resposta semítica "e com teu espírito" significaria literalmente "e contigo também", já que "teu espírito" (nephesh) literalmente poderia significar "tua pessoa". 
De acordo com um artigo de Paulinus Milner, 'Et Cum Spiritu Tuo', em Estudos sobre Liturgia Pastoral, Volume 3, editado por Placid Murray, OSB (Dublin: The Furrow Trust, 1967), a palavra hebraica nephesh, que significa alma ou espírito, também pode significar o ser, a pessoa. Os exemplos mais próximos que temos desta tradução numa língua semítica, contudo, não utilizam o equivalente a nephesh, mas sim a ruah, que significa apenas respiro ou espírito (cf. a tradução siríaca da Tradição Apostólica). E mais, a palavra grega pneuma*** nunca é usada na Septuaginta ("Bíblia dos Setenta") para verter o hebraico nephesh, mas sim ruah. Sendo assim, 'e contigo também' não é uma versão correta da base hebraica desta frase litúrgica.
Historicamente falando, o texto foi rapidamente separado de seu contexto judaico, e a tradição patrística o interpretou no sentido do espírito que o bispo ou presbítero recebeu na ordenação. Por exemplo, São João Crisóstomo, em sua homilia sobre a 2ª Carta a Timóteo (Homilia sobre a 2Tm, 10,3. PG LXII 659 ff), aponta "teu espírito" como referente ao Espírito Santo que habita: "Não pode haver melhor oração do que esta. Não te entristeças com minha partida. O Senhor estará contigo. E ele diz não contigo, mas com teu espírito. Assim há uma dupla assistência: a graça do Espírito e Deus auxiliando esta graça. E, por outro lado, Deus não estará conosco se não possuirmos a graça espiritual, pois se abandonamos a graça, como poderia ele estar conosco?" Em sua primeira homilia de Pentecostes (PG L. 458 ff) João Crisóstomo vê na palavra "espírito", da resposta, uma alusão ao fato de que o bispo realiza o sacrifício no poder do Espírito Santo.
Tais reflexões patrísticas são uma razão por que desde os tempos antigos a saudação "Dominus vobiscum" foi reservada àqueles que receberam as ordens maiores: bispos, presbíteros e diáconos. Esta restrição da saudação litúrgica aos ordenados está ainda em vigor hoje em dia. Um leigo que dirige, por exemplo, uma celebração da Palavra com a distribuição da Sagrada Comunhão, ou um ofício da Liturgia das Horas, não deve usar a saudação "O Senhor esteja convosco" com sua resposta.
Isto não significa que falta aos fiéis o Espírito ou que eles são meros assistentes passivos da ação litúrgica. Atualmente, por sua resposta ao sacerdote, a assembleia se constitui como assembleia litúrgica, presidida pelo sacerdote, em nome do Senhor, e respondendo assim ao seu chamado. Como escreveu o grande liturgista jesuíta J.A. Jungmann: "Podemos melhor entender o 'Et cum spiritu tuo' como um consenso popular quanto ao trabalho do sacerdote, não que a assembleia aqui confira autoridade ou poder ao sacerdote para que ele aja em seu lugar, mas a assembleia uma vez mais reconhece-o como o orador sob cuja liderança o grupo reunido se aproximará do Deus onipotente. Assim, na saudação e na resposta, temos a dupla nota que reaparece no fim da oração: o 'Dominus vobiscum' parece antecipar o 'per Christum' da conclusão da oração, e o 'et cum spiritu tuo' é um precursor do aceitamento do povo expresso no 'Amen'" (The Mass of the Roman Rite, Volume 1, Page 365).
Ao passo que o dinamismo contido nesta pequena mudança é difícil para assimilarmos hoje, o fato de uma nova tradução poderia apresentar um excelente momento de formação para sublinhar a ativa participação dos fiéis na liturgia e o verdadeiro sentido teológico da comunhão hierárquica.

Fonte: A Zenit Daily Dispatch, "And with your spirit", 14/09/2010.

* - a última tradução do Missal para o inglês (recente) veio com a correção na tradução.
** - isto foi pedido pela Santa Sé em 2001 na Instrução Liturgiam Authenticam, 56: "Certas expressões que pertencem à herança de toda ou de parte da Igreja antiga, bem como outras que se tornaram parte do patrimônio humano em geral, devem ser respeitadas por uma tradução que seja tão literal quanto possível, como, por exemplo, as palavras da resposta do povo Et cum spiritu tuo, ou a expressão mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa no Ato Penitencial, do Ordinário da Missa".
*** - também na Divina Liturgia de São João Crisóstomo a expressão em grego é "Και μετά του πνεύματος σου" (kai meta tou pneumatos sou), que significa exatamente "e com o teu espírito".

Organização, traduções e observações finais por Luís Augusto - membro da ARS

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