quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O véu, o cálice e a dignidade do homem

Assim como os vasos sagrados na Missa, fomos feitos para receber Cristo
Por Pe. Jerry Pokorsky

De acordo com a legislação litúrgica da Igreja, o cálice usado na Missa deveria estar coberto com um véu. A Instrução Geral sobre o Missal Romano [IGMR 80c, 2ª edição típica] afirma: “O cálice esteja coberto com um véu, que sempre pode ser da cor branca”. Como a maioria das vestes litúrgicas, o véu do cálice é uma misteriosa peça. Podemos até ser tentados a rechaçá-lo como mera decoração, mas o cálice e o véu não têm apenas uma função durante a celebração da Missa, eles também nos recordam uma dignidade que está normalmente velada.
Um véu é usado para cobrir o cálice quando este é carregado para o altar e trazido dele durante a celebração da Missa. É normalmente da mesma cor dos paramentos. Como peça litúrgica, foi provavelmente introduzido na Idade Média, e deve ter tido uma origem funcional, provavelmente se desenvolveu de um sacculum ou pequena bolsa ou sacola para carregar os vasos sagrados.
O véu tem ainda uma função. Por exemplo, o véu é um sinal útil para os paroquianos acostumados a recitar a antífona de Entrada e Comunhão em Missas no meio da semana, já que elas variam de acordo com a festa. Ao sacerdote normalmente é dada a possibilidade de celebrar a memória de algum santo. Quando ele usa o véu vermelho, indica já antes da Missa começar que ele escolheu celebrar a memória.
O cálice velado também acentua tanto a relação como a distinção entre as duas partes principais da Missa, a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística. Assim como o Evangeliário, que contém a Palavra de Deus, é adornado e dignificado com belas capas, assim is vasos que conterão o Corpo e o Sangue do Senhor deveriam ser adornados e dignificados com o véu. Desde que o cálice também é o sinal visível da Eucaristia, parece apropriado que ele esteja velado durante a primeira parte da Missa, a Liturgia da Palavra.
A fonte de um significado simbólico mais profundo do véu do cálice é encontrada nas Escrituras. Como prescrito no Êxodo e descrito na carta aos Hebreus, um véu ou cortina separava o Santo dos Santos do restante do Templo:
“Consistia numa tenda: a parte anterior encerrava o candelabro e a mesa com os pães da proposição; chamava-se Santo. Atrás do segundo véu achava-se a parte chamada Santo dos Santos. Aí estava o altar de ouro para os perfumes, e a Arca da Aliança coberta de ouro por todos os lados; dentro dela, a urna de ouro contendo o maná, a vara de Aarão que floresceu e as tábuas da aliança” (Hb 9,2-4).
O véu do cálice nos lembra a cortina que separa o Santo dos Santos, e nos prontifica para nos aproximarmos do altar cientes de não sermos dignos de entrar na união com Deus.
O ato de descobrir o cálice, retirando o véu, é uma das primeiras ações litúrgicas do Ofertório, em preparação para a recepção dos dons do pão e do vinho, que podem ser levados por fiéis da assembleia. Retirar o véu em seguida à Liturgia da Palavra significa que os sagrados mistérios estão prestes a serem revelados. Novamente, esta ação é um eco simbólico da Escritura:
Jesus de novo lançou um grande brado, e entregou a alma. E eis que o véu do templo se rasgou em duas partes de alto a baixo, a terra tremeu, fenderam-se as rochas. Os sepulcros se abriram e os corpos de muitos justos ressuscitaram. (Mt 27,50-51).
O véu rasgado no momento da morte de Jesus significa a transição da Antiga Aliança para a consumação da Nova Aliança, prometida por Jesus na última Ceia: “Do mesmo modo tomou também o cálice, depois de cear, dizendo: Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós...” (Lc 22,20). Retirar o véu significa a transição da Liturgia da Palavra para a Liturgia Eucarística, a “liturgia celeste”.
Apesar da barreira de nossa indignidade, o descobrimento do cálice convida-nos a adentrarmos a celebração dos sagrados mistérios. Quando o véu é removido, o esplendor do cálice é exposto.
A legislação litúrgica requer que o cálice, “a juízo das Conferências Episcopais, e com a confirmação da Sé Apostólica, podem ser fabricados com outros materiais sólidos e que sejam, segundo o modo de sentir de cada região, mais nobres (...). Neste caso, dê-se preferência aos materiais que não se quebrem nem deteriorem facilmente.” (IGMR, 290). “Quanto aos cálices e outros vasos, destinados a receber o Sangue do Senhor, a copa deve ser de material que não absorva os líquidos. O pé do cálice pode ser de outra matéria sólida e digna” (IGMR, 291).
Uma vez que um cálice é usado para a celebração da Missa, ele não deveria ser profanado pelo uso fora da Missa. O cálice é um vaso sagrado. Ele foi separado para as coisas sagradas. (É inquietante ver catálogos de lojas de objetos litúrgicos com propaganda de “taças nupciais” de cerâmica, para serem usadas na Missa do Matrimônio e depois dado de lembrança para o casal após a cerimônia. Um cálice é consagrado para o serviço do altar, porque tornou-se vaso sagrado, destinado a conter o Sangue de Jesus Cristo.
O cálice que eu uso foi feito no séc. XIX. Ele é de prata genuína e tem a copa banhada a ouro. Foi encontrado numa joalheria de peças de segunda mão. O cálice foi pego e restaurado. Recuperado como vaso sagrado e abençoado pelo meu bispo, voltou, enfim, para o serviço do altar.
Um cálice normalmente deveria ser nobre e belo, pois, por si mesmo, expressa nosso culto e estimo pela Presença Real (fogem à regra situações bem delicadas como, por exemplo, as histórias sobre sacerdotes que celebraram a Missa em campos de concentração nazistas ou em prisões comunistas).
O cálice é também um sinal de nossa dignidade para estar diante de Deus. Quando Jesus Cristo tornou-se homem, ele assumiu a natureza humana. Ele tomou a nossa humanidade e consagrou-a quando se tornou homem. O homem tornou-se um “vaso sagrado” por meio de Maria quando, em nome da humanidade, ela concebeu pelo poder do Espírito Santo. Alguém pode imaginar Jesus, como qualquer outro filho de qualquer outra mãe, tendo muitas das características físicas de Maria!
Quando contemplamos o cálice na Missa, deveríamos nos lembrar daquilo em que nos tornamos – e daquilo em que poderíamos nos tornar – por causa da Encarnação [de Cristo]. A natureza divina e a natureza humana tornaram-se inseparáveis na Pessoa de Jesus Cristo. A Encarnação em si e de si mesma revela a dignidade da humanidade. Assim, Santo Agostinho pode fazer esta surpreendente afirmação: “Deus tornou-se homem a fim de que o homem possa tornar-se Deus”.
Ele não quis que cada indivíduo fosse se tornando um “deus”. Há apenas um único Deus. Mas nossa fé nos ensina que “nós nos tornamos Deus” sendo incorporados ao Corpo Místico de Cristo pelo Batismo. Pelo Batismo nós “nos tornamos Deus” - sem perder nossa identidade distinta de servos e servas do Pai – por nossa união com Cristo em seu Corpo Místico.
A Encarnação também revela que Jesus, nascido de Maria, é o “unigênito de Deus”. Há apenas um Filho gerado pelo Pai. Mas no Batismo, nós nos tornamos “filhos no Filho” , filhos e filhas adotados por Deus. Entretanto, em certo sentido ainda nós nos tornamos “filhos no Filho” mesmo antes do Batismo, porque a humanidade foi deveras consagrada pelo fato da Encarnação: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).
Nossa dignidade – e a dignidade de todo ser humano desde o momento da concepção até a morte natural – pode ser encontrada neste simples fato. Tornando-se homem, Deus transformou todo homem, mulher e criança em um vaso sagrado que é capaz de o receber.
A Encarnação, seguida de nossa incorporação ao Corpo de Cristo pelo Batismo, separa-nos como um povo santo, como um cálice consagrado para ser usado na Missa. Já não pertencemos a um mundo profano, mas a Deus. No mundo, mas não do mundo (cf. Jo 17,16), fomos consagrados e pertencemos ao Pai, por Cristo. E assim com os vasos sagrados na Missa, somos destinados por decreto divino a receber o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Jesus Cristo.
O véu do cálice, portanto, torna-se um lembrete de que essas poderosas verdades da nossa fé estão muitas vezes escondidas.
Mas se realmente acreditamos na Encarnação; se acreditamos que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade tornou-se homem, por que não desvelaríamos notícias tão admiráveis? Se realmente acreditamos que todo ser humano encontra sua dignidade na Encarnação, por que não proclamaríamos a boa nova sobre os telhados? E se realmente acreditamos que nos tornamos vasos sagrados por meio do Batismo, ousando chamar Deus de “Pai” e destinados a recebê-lo na Santa Comunhão, por que não desejaríamos que todos partilhassem desta alegria que conduz à vida eterna? De posse de tais dons, como poderíamos não ser impelidos a proclamar cada um deles?
A Igreja, é claro, ensina que, no mistério da providência de Deus, é dada a cada ser humana a graça suficiente e necessária para a salvação. Todavia, Deus espera nossa colaboração para desvelar os mistérios de nossa fé. O papa Paulo VI faz eco às palavras de São Paulo quando escreve que a questão não é tanto se os outros serão salvos se não desvelarmos os mistérios do Evangelho, mas se nós seremos salvos se não o fizermos. “Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16).
Descobrir o cálice na Missa é um lembrete diário dos imensos dons de Deus para nós e de nossa solene obrigação de revelar o esplendor da inestimável dignidade do homem como filhos adotados por Deus em Cristo.

Fonte: http://www.adoremus.org/0297VeilChalice.html
Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

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