segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Os sinais externos de devoção do celebrante

Por Pe. Nicola Bux

(as ênfases são minhas)

A fé na presença do Senhor na Igreja, como sua presença eucarística, o sacerdote a exprime, como exemplo, com a adoração que se registra na reverência profunda das genuflexões durante a Santa Missa e fora desta. Na liturgia pós-conciliar foram reduzidas ao mínimo: a razão adotada é a sobriedade; o resultato é que se tornaram raras, ou então são apenas esboçadas. Temos nos tornado mesquinhos quanto a gestos feitos para o Senhor, mas elogiamos judeus e muçulmanos pelo seu fervor no modo de rezar.
A genuflexão, mais do que as palavras, manifesta a humildade do sacerdote, que sabe ser apenas um ministro e conhece sua dignidade para o poder de tornar o Senhor presente no Sacramento. Mas há outros sinais de devoção. As mãos levantadas pelo sacerdote indicam a súplica do povo humilde: "nós vos suplicamos"*, sublinham as Orações Eucarísticas II e III do Missal de Paulo VI. A Instrução Geral sobre o Missal Romano (IGMR) estabelece que o sacerdote, "quando celebra a Eucaristia, ele deve servir a Deus e ao povo com dignidade e humildade, e, pelo seu modo de agir e proferir as palavras divinas, sugerir aos fiéis uma presença viva de Cristo" (nº 93). A humildade das atitudes e das palavras é conforme ao próprio Cristo, manso e humilde de coração. Ele deve crescer e eu diminuir.
Ao dirigir-se ao altar, o sacerdote deve ser humilde, não ostentado, sem ceder em olhar para a direita e para a esquerda, como se procurasse um aplauso. Ao invés disso, deve olhar para Jesus Cristo crucificado e presente no tabernáculo: a ele se faz a inclinação e a genuflexão; depois às santas imagens expostas na abside ou ao lado do altar, a Virgem, o santo titular, os outros santos. Eles ali estão para serem contemplados ou apenas para decorar? É, em síntese, a presença divina. Segue-se o beijo reverente do altar e eventualmente a incensação; o segundo ato é o sinal da cruz e a saudação sóbria aos fiéis; o terceiro é o ato penitencial, a ser feito com profundidade e com os olhos baixos, enquanto os fiéis poderiam ajoelhar-se - por que não? - como na forma extraordinária, imitando o publicano acolhido pelo Senhor.
O sacerdote celebrante não aumentará a voz e manterá um tom claro para a homilia, mas baixo e suplicante para as orações, solene se com canto. Preparar-se-á inclinado "de coração contrito e humilde" para a Oração Eucarística ou Anáfora: é a súplica por definição e é recitada de um modo que a voz corresponda ao gênero do texto (cf. IGMR 38); o celebrante poderia pronunciar com um tom mais alto as palavras iniciais de cada parágrafo, e recitar o restante em um tom baixo para permitir aos fiéis acompanhar e recolher-se no íntimo do coração. Tocará os santos dons com temor, e purificará os vasos sagrados com calma e atenção, segundo a exortação de tantos padres e santos. Inclinar-se-á sobre o pão e sobre o cálice ao pronunciar as palavras de Cristo na consagração e para invocar o Espírito Santo (epiclese). Elevá-los-á separadamente, fixando neles o olhar em adoração e, depois, abaixando-o em meditação. Fará genuflexão duas vezes em adoração solene. Continuará com recolhimento e tom orante a anáfora concluindo-a com a doxologia, elevando os santos dons em oferta ao Pai. O Pai nosso rezá-lo-á com as mãos elevadas e não dadas com ninguém, pois isto é próprio do rito da paz; o sacerdote não deixará o Sacramento sobre o altar para dar a paz fora do presbitério, mas fracionará a Hóstia de modo solene e visível, em seguida fará genuflexão diante da Eucaristia e rezará em silêncio, pedindo ainda para ser livrado de toda sua indignidade, para não comer e beber a própria condenação e para ser guardado para a vida eterna pelo santo Corpo e o precioso Sangue de Cristo; depois apresentará aos fiéis a Hóstia para a comunhão, suplicando "Domine non sum dignus", e inclinado comungará primeiro. Assim servirá de exemplo para os fiéis.
Depois da comunhão, o silêncio para a ação de graças pode-se fazer de pé, melhor que sentados, em sinal de respeito, ou então de joelhos, se for possível, como sempre fez João Paulo II, quando celebrava na sua capela privada, com a cabeça inclinada e as mãos unidas, a fim de pedir que o dom recebido nos seja remédio para a vida eterna, como na fórmula que acompanha a purificação dos vasos sagrados; muitos fiéis assim o fazem e nos servem de exemplo. A patena e o cálice (vasos que são sagrados pelo que contêm) por que razão não deveriam ser "louvavelmente" cobertos por um véu (IGMR 118; cf. 183)** em sinal de respeito - e ainda por razões de higiene - como fazem os orientais? O sacerdote, depois da saudação e da bênção final, indo beijar o altar, elevará ainda os olhos ao crucifixo e se inclinará, e fará genuflexão para o tabernáculo. Em seguida voltará para a sacristia, recolhido, sem dissipar com olhares e palavras a graça do mistério celebrado.
Assim os fiéis serão ajudados a compreender os santos sinais da liturgia, que é uma coisa séria, em que tudo tem um sentido para o encontro com o mistério presente de Deus (para aprofundar: cf. o meu recente livro "Come andare a Messa e non perdere la fede" - Como ir à Missa e não perder a fé, Piemme 2010).

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Pe. Nicola Bux é professor de Liturgia oriental em Bari e consultor das Congregações para Doutrina da Fé, para as Causas dos Santos, para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, bem como do Departameto  das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice.

* O. E. II - "E nós vos suplicamos que, participando do Corpo e Sangue de Cristo, sejamos reunidos pelo Espírito Santo num só corpo";
O. E. III - "Por isso, nós vos suplicamos: santificai pelo Espírito Santo as oferendas que vos apresentamos para serem consagradas".

** Para se compreender o que foi dito, deve-se lembrar do "véu do cálice", sempre em uso na Forma Extraordinária e ainda obrigatório para a Forma Ordinária.

Cálice coberto com o véu no Rito Romano
Exemplo de véus orientais sobre os vasos sagrados



Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

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