sábado, 8 de janeiro de 2011

O Véu do Cálice

Pax et bonum!


Aproveitando as últimas postagens que falavam do véu do cálice, percebi a necessidade de conhecê-lo melhor a fim de bem o recomendar. É fato que alguns fiéis podem mesmo nunca ter ouvido falar dele. Reuni algum material e espero que seja de utilidade aos caríssimos leitores.
Véu de brocatel (séc. XVI)
Museu Lázaro, Fundación Lázaro Galdiano, Espanha

A origem do véu do cálice, que atualmente é usado de modo geral nos ritos latinos da cristandade ocidental, para cobrir o cálice do início da Missa até o Ofertório e novamente depois das abluções, é obscuro. Desenvolveu-se na idade média tardia (entre os séc. XIV e V) de uma ou outra de três possíveis origens. Deve derivar simplesmente de uma coberta (sacculum ou lintheum), no qual o cálice e a patena eram levados ao altar para a Missa Rezada. Ou deve derivar do véu humeral, com o qual o subdiácono ou algum outro ministro levava o cálice para o altar na Missa Solene. Outra origem sugerida é que, assim como a pala, o véu do cálice deriva do grande corporal no qual se punha o cálice sobre o altar, e que era dobrado para cima, quando necessário, para cobrir o cálice.
Véu de damasco, com centro em terciopelo e alguns detalhes de seda e ouro (séc. XVIII)
Museu Lázaro, Fundación Lázaro Galdiano, Espanha

Qualquer que seja sua origem, o véu do cálice só começa a surgir como um item entre os vários entre os séc. XV e XVI. Não é tão fácil identificar a ocorrência do véu na idade média tardia por conta da falta de precisão na nomenclatura dos acessórios da Missa. É difícil, por isto, identificar que objeto exatamente era referenciado, por exemplo, nos inventários antigos. Esta falta de precisão afeta as referências a três acessórios da liturgia da Missa: o corporal, a pala e o cálice. Dos três o mais importante é o corporal. Trata-se de uma peça quadrangular de linho que é aberta sobre o altar. O cálice e a hóstia nele são postos e, antes do séc. XI ou XII, o corporal era suficientemente grande para ser dobrado para cima, sobre o cálice, para proteger dos insetos o seu interior. 
Por volta do séc. XII o corporal foi reduzido, permanecendo de linho, e deveria ter uma cruz ou monograma bordado no centro. Provavelmente o mais famoso corporal medieval seja o de Bolsena, conservado na Catedral de Orvieto, por conta do milagre que originou a Solenidade do Corpo de Cristo.
Retábulo com o relicário onde fica o corporal de Bolsena, Catedral de Orvieto, Itália

A inconveniência de dobrar o corporal para cima, sobre o cálice, foi diminuída pelo uso de dois corporais: um que era aberto sobre o altar, sob o cálice e a hóstia, e outro, dobrado na forma de um pequeno quadrado, colocado sobre a copa do cálice para o cobrir. Estes dois juntos formavam o "par de corporais", regularmente mencionados nos inventários medievais da Inglaterra, por exemplo.
O corporal dobrado assumiu gradativamente a forma de um pequeno quadrado de linho rígido (ocasionalmente de linho bordado ou de ricos materiais, contrariando a regra) e recebeu o nome de palla. Há muitos inventários, na Escócia, por exemplo, em que a pala continuou sendo referenciada como corporal.
O terceiro item, o véu do cálice, que atualmente no Rito Romano é uma peça quadrada de seda ou outro tecido rico, correspondendo à cor litúrgica dos demais paramentos, não era considerado parte dos paramentos, mas acessório do altar, podendo ser de qualquer cor. O nome que parece ser o mais comum para o designar, ao menos na Escócia, é coopertorium calicis - cobertura do cálice (o que justifica o termo espanhol cubre cáliz).
Nas Acta Ecclesiæ Mediolanensis (Atos da Igreja de Milão) de 1583, tratando de um inventário, pode-se encontrar, por exemplo, citados os seguintes itens: Calix, Patena, Velum Calicis, Corporale, Sacculus corporalis e Purificatorium. Se o costume milanês (ambrosiano) foi manter o termo sacculus (saco, sacola), o Missal Romano de 1570 usa a expressão Bursa (bolsa). De fato, o Ritus Servandus in Celebratione Missæ (Rito a ser observado na celebração da Missa) de um Missal datado de 1577 (sendo a edição típica de 1570) cita sobre o cálice: Purificatorium, Patena, Palla, Velum, Corporale e Bursa.
Trecho do Ritus Servandus (1962) citando a preparação do cálice

O mesmo trecho do Ritus Servandus, porém do Missal de 1570

Com a reforma tridentina, temos bem definido o uso do véu do cálice: cobre o cálice, a partir da pala, por todos os lados, se possível, até a base. Se ele for curto, deve cobrir pelo menos a parte dianteira. Quando o sacerdote leva o cálice da sacristia para a Missa, esta parte fica para a frente e é comumente adornada com uma cruz, igual às cruzes do manípulo e da estola, já que têm sido considerado parte do conjunto de paramentos: manípulo, estola, casula, véu e bolsa do corporal.
O cálice permanece coberto até o ofertório, quando o descobre, deixando o véu dobrado ao meio sobre o altar, do lado direito. O véu cobrirá novamente o cálice após as abluções, antes de o levar para a credência.
Pode surgir uma dúvida sobre o fato de se usar o véu e não se mencionar a bolsa do corporal na Missa na Forma Ordinária. Num vídeo mostrando cenas da Missa que o Santo Padre celebra em sua capela privada, é possível ver o cálice com o véu já sobre o altar, desde o início da Missa. Não se vê um corporal sobre ele nem sob o cálice. Supõe-se que esteja sobre a pala, igualmente sob o véu.
Cálice coberto com véu sobre o altar da capela privada do Palácio Apostólico 
em Missa diária do Santo Padre, Vaticano

Para a Missa na Forma Extraordinária o véu é orbigatório e tem sempre a cor litúrgica usada.
Para a Missa na Forma Ordinária, o uso véu é louvável, embora não obrigatório no texto latino, e pode ser sempre da cor branca: "Calix laudabiliter cooperiatur velo, quod potest esse aut coloris diei aut coloris albi" - "o cálice, como convém, seja coberto com um véu, que pode ser da cor do dia ou de cor branca" (IGMR 80, no texto da segunda edição, ou 118, no texto da terceira edição).
Sendo considerado um item do conjunto de paramentos, convém que o véu seja do mesmo tecido da casula e da estola [e do manípulo] (seda, cetim, etc). Como se vê, o Ritus Servandus (Missa na Forma Extraordinária) pede que ele seja de seda (velum serico). Assim, o véu também deve ter a estrutura dos demais paramentos (ex: entretela de algodão, forro de tafetá, etc).
Conjunto: Manípulo, Véu, Bolsa e Estola (veja a harmonia/unidade de estilo)
(Luzar Vestments, Inglaterra)


Quanto a suas dimensões, é comum que ele tenha o lado três vezes maior que o lado da bolsa do corporal. Parece ser muito comum (nas lojas atuais) encontrá-lo com o tamanho de 50cm x 50cm (aproximadamente 20" x 20"). Podem, contudo, ser encontrados até com 60cm x 60cm ou 45cm x 45cm. Alguns véus de séculos passados não são quadrados perfeitos, mas atualmente o uso comum parece ser o dos quatro lados iguais.
De acordo com Judy Fradl, na obra Adventures in Vestments, o tamanho mínimo do véu do cálice é de 18" x 18" e o máximo de 24" x 24", respectivamente: 45,72cm² e 60,96cm².
Véu e bolsa (compare os tamanhos)
(Luzar Vestments, Inglaterra)

Casula com os respectivos véu e bolsa (mais uma vez a harmonia de estilo)
(Luzar Vestments, Inglaterra)
Sacerdote dirigindo-se ao altar levando o cálice coberto com o véu
(Missa na Forma Extraordinária, DVD da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, Itália)
Sacerdote retirando o véu do cálice no Ofertório, Missa na Forma Extraordinária
(Cônegos de São João Câncio, Estados Unidos da América)
 
Conjunto (casula, estola, manípulo, véu e bolsa) em cor roxa, vermelha, preta e branca (modelo gótico)
(Susan Maria Evans Liturgical Art Studio, Estados Unidos da América)

Referências:
- Acta Ecclesiae Mediolanensis (1583)
Adventures in Vestments, a basic guide to make Church vestments, por Judy Fradl (1991, revisado em 2005)
General Instruction on the Roman Missal (1975)
Institutio Generalis Missalis Romani, editio tertia (2002)
Instrução Geral sobre o Missal Romano, 3ª edição (2002)
- Luzar Vestments
Missale Romanum (1570)

Por Luís Augusto - membro da ARS

2 comentários:

Rafael disse...

Acabei um pouco perdido na confusão entre pala, véu, bolsa, etc. Pelo que entendi pode-se dizer então que o véu a bolsa fazem parte do conjunto de paramentos, mas e a pala? Deve ser sempre branca ou pode também acompanhar o restante dos paramentos? Encontraste algo sobre?

Luís Augusto disse...

Pax et bonum!

Quando disse que véu e bolsa fazem parte do conjunto de paramentos, é porque normalmente todos eles têm o mesmo feitio (material e estilo) e são vendidos juntos. Já pala, corporal e sanguinho/purificatório são tradicionalmente de linho.
O grande e santo sacerdote Pe. Reus, místico da Sagrada Liturgia, escreveu na pág. 93 do seu Curso de Liturgia:
"A pala feita de pano de linho, serve para cobrir o cálice. Confecciona-se ou de várias camadas de linho bem engomadas, para ficar tesa, ou de duas peças de linho cosidas em forma de bolsa, tendo no meio um cartão, ou de um cartão coberto, embaixo de linho, e em cima, de seda de qualquer cor, nunca, porém, preta; também pode ter bordados, menos os sinais de morte. Deve ser benta. Tamanho: 15x18cm, pouco mais ou menos".
O Ritus Servandus diz: "Palla linea", dando como regra o material: linho. Quanto à cor, nada se fala. Tendo se originado, contudo, do corporal, deduz-se a razão de ser tradicionalmente branca. Agora, que existem as coloridas, pode-se confirmar no Luzar Vestments: http://www.luzarvestments.co.uk/newpalls.htm
Eu, particularmente, prefiro a branca, com no máximo algum símbolo bordado no centro.

Espero ter ajudado. Desculpe a demora.
Deus nos guarde!