quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Um padre e o pelotão de fuzilamento - Viva Cristo Rei!

Pax et bonum!

Aproveitando a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, queremos celebrar com muita alegria a memória de um dos grandes mártires dos tempos modernos: o Bem-aventurado Miguel Augustín Pro, sacerdote jesuíta mexicano fuzilado há exatamente 89 anos, sob o regime laicista e anticlerical que produziu vários mártires no México entre 1926 e 1929.
A perseguição desta época foi fruto da aplicação cruel da Constituição Política dos Estados Unidos Mexicanos, de 1917, pelo presidente Plutarco Elías Calles, através da lei de reforma do Código Penal, de 1926.
Como há muitos bons materiais (cujos links seguem abaixo) na web, contento-me apenas em transcrever o Elogio sobre ele do Martirológio Romano, nesta data (23/11):

Em Guadalupe, povoação do estado de Zacatecas, no México, o Beato Miguel Agostinho Pró, presbítero da Companhia de Jesus e mártir, que na cruel perseguição contra a Igreja, condenado à morte sem julgamento como criminoso, consumou o martírio que ardentemente desejava.

No momento do martírio, bradou "Viva Cristo Rei"!
Homilia do Revmo. Pe. Paulo Ricardo do dia de hoje (23/11/2016):

Programa do Revmo. Pe. Paulo Ricardo sobre o Bem-aventurado Miguel Pro:

Trecho do filme "Padre Miguel Pró - O mártir da fé", representando os momentos em torno do martírio:


Ótimo texto intitulado "Fotos de um martírio": http://www.permanencia.org.br/drupal/node/1430

Site mexicano sobre o Bem-aventurado Pe. Miguel Pro: http://www.padrepro.com.mx/

Pe. Miguel Pro foi beatificado por São João Paulo II no dia 25/09/1988. Que ele rogue por nós e pelos cristãos perseguidos!

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Há 80 anos começava os 8 dias da paixão de um diácono espanhol...

Pax et bonum!
Salve Maria!

Aos leitores do blog da ARS peço inicialmente desculpas pela falta de postagens.
Os membros normalmente responsáveis por postagens estão todos ocupados com deveres de estado (a bendita vocação matrimonial e o precioso dom da paternidade).
Pois bem, aproveitando o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), aqui no Brasil, que tratou sobre a "intolerância religiosa", bem como aproveitando a ocasião da Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo (na forma extraordinária, foi celebrada no último dia 30 e, na forma ordinária, será no próximo dia 20), gostaria de escrever um pouco sobre a paixão de um servo de Deus espanhol.
Há 80 anos atrás, portanto em 1936, a estimada Espanha estava passando pelo sangrento turbilhão da Guerra Civil, tempo em que, como diz Andreu Nin, membro do PSOE (Partido Socialista Obrero Español): "Os obreiros tomam conta das fábricas. Os camponeses tomam posse das terras. Conventos e igrejas são destruídos polo fogo purificador da revolução" (fonte).
O tema da atroz perseguição religiosa promovida por milicianos socialistas e anarquistas durante este período ainda é pouco falado nas escolas, nas universidades, nas homilias...
Assassinados por ódio à fé neste período não foram apenas 1, 10, 100, 1000, mas milhares, onde se contam bispos, sacerdotes, diáconos, religiosos e fiéis leigos. Na verdade, entre 1934 e 1939 - seis anos - contam-se aproximadamente 10 mil mortos e cerca de 20 mil igrejas destruídas. 
Uma primeira pergunta é: como uma perseguição desta magnitude passa despercebida quando se estuda a história do século XX? 
Destes milhares são atualmente quase 2000 já canonizados ou beatificados, ou seja, reconhecidos oficialmente como mártires, testemunhas da fé, e propostos como modelos de virtude.
A Liturgia da Igreja assim faz o Elogio no dia 15 de novembro: "Em Álora, localidade da província de Málaga, na Espanha, o Beato João Duarte Martin, diácono da diocese de Málaga e mártir, que, derramando o seu sangue por Cristo alcançou a recompensa prometida aos que perseveram na fé" (Martirológio Romano, 15/11, n. 20).
Pois bem, quero falar sobre o Bem-Aventurado Juán Duarte Martín, mais especificamente sobre a crueldade de seu martírio.
Nascido em 1912, nosso venerável mártir era filho de lavradores profundamente religiosos e desde cedo nutriu o desejo de um dia tornar-se sacerdote.
No ano de 1924 entrou no Seminário de Málaga, com 12 anos de idade, dando bons exemplo de conduta e inteligência.
Seu sonho começou a parecer um horizonte embaçado quando, em 1931, os incêndios de igrejas também em Málaga obrigaram-no a fugir para seu povoado natal. Retorna posteriormente para ajudar na reconstrução do seminário e uma aparente paz sobrevém por algum tempo.
Em 1936, é ordenado diácono no dia 06 de março, na Catedral. Era este o último passo antes de ser ungido e consagrado para, enfim, consagrar as espécies eucarísticas, oferecer o Santo Sacrifício e administrar os demais sacramentos para a santificação das ovelhas de Cristo.
Eclodiu a guerra e os seminaristas foram enviados novamente para seus povoados de origem. O diácono Juán volta para Yunquera. 
Mesmo no clima perigoso da época, não quis ocultar quem era e até nas ruas andava de batina. Isto lhe valeu que no dia 7 de novembro uma vizinha o "denunciasse" aos milicianos. Estes vieram e o levaram para o calabouço municipal de Álora.
No dia 7 - hoje completando 80 anos - foi preso por ser católico o jovem diácono de 24 anos. Passou oito dias sob intensas humilhações, torturas e exposições a situações vexatórias e pecaminosas. Metiam-lhe farpas por baixo das unhas, davam descargas elétricas em seus órgãos genitais e faziam passeios zombeteiros pelas ruas, levando-o.
Estando ele no cárcere, punham junto dele mulheres na intenção de fazê-lo fornicar, pecar contra a castidade. Nenhuma conseguiu aproximar-se dele. No último dia de cárcere (o dia 15 de novembro) levaram até ele uma bela jovem de 16 anos que, igualmente rechaçada, não foi capaz de convencê-lo a pecar. Um miliciano entrou em sua cela e, a sangue frio, ensandecido por vigorosas provas de pureza, castrou-o com uma navalha de barbear, entregando seus testículos à jovem e ordenando-a que passeasse com eles entre o povo.
A insanidade e crueldade deste escárnio causou repugnância mesmo nos indiferentes e alguns vizinhos tentavam chegar ao valoroso diácono para forçá-lo a renegar a fé para que não fosse morto. Ele apenas dizia que não renegaria o tesouro de sua fé nem mesmo para salvar a sua vida.
Os sádicos milicianos, em sua fúria claramente diabólica, tomaram o santo diácono já ferido, abriram-no de baixo até em cima com golpes de machado ou facão, esmagaram suas víceras, encheram seu ventre de gasolina e atearam fogo naquele corpo virginal. Do meio deste inferno de dores, engolido pelas chamas, ainda conseguiu dizer: "Eu vos perdôo e peço a Deus que vos perdoe"! E mais: "Já o estou vendo! Já o estou vendo!", ao que um de seus verdugos retrucou: "Quem estás vendo tu, ó desgraçado?", descarregando sua pistola na cabeça do jovem clérigo.
Ainda vários dias depois de sua morte, antes que conseguissem enterrar seus restos, os malditos assassinos ainda desferiam tiros em seu corpo, como que revoltados contra o eco daquelas últimas palavras, palavras de quem perdoava e de quem já entrava na glória do Céu, na visão do Santíssimo Redentor! Eis aí um novo Santo Estêvão!
O diácono Juán Duarte Martín foi beatificado no dia 28 de outubro de 2007, no pontificado do Papa Bento XVI, com outros 497 mártires da Guerra Civil.
Completar-se-á 80 anos deste martírio, deste testemunho. Os socialistas e anarquistas fizeram, como já dito, milhares de outras vítimas, que foram assassinadas de diversos modos, muitas delas bradando "Viva Cristo Rei"!
O cristianismo segue sendo perseguido ao redor do mundo. Há inimigos antigos e novos.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!
Bendita seja a grande Mãe de Deus, Maria Santíssima!

Bem-aventurado Juán Duarte Martín, rogai por nós!

Para mais informações:

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Entrevista com o Pe. João Dias Rezende Filho (Arquidiocese de São Luís, Maranhão)

Pax et bonum!

Após o discurso do Cardeal Robert Sarah, na abertura da Conferência Sacra Liturgia UK 2016, achamos por bem entrevistar um sacerdote brasileiro, nordestino, que já tivesse experiência em algumas características que costumam entrar no contexto de "reforma da Reforma".
Apresentamos a todos, então, o Pe. João Dias Rezende Filho, da Arquidiocese de São Luís, Cidade de São Luís, Estado do Maranhão, na entrevista que ele nos concedeu no último dia 13.

*****

Caro padre, a bênção. Obrigado por ter aceitado participar desta entrevista conosco.
1. Há quanto tempo V. Revma. é sacerdote? Atualmente é pároco? Se sim, de onde?
Deus abençoe todos vocês! De nada, eu que agradeço poder conversar com vocês. Fui ordenado padre no dia 07 de setembro de 2013, então, no próximo mês de setembro completarei 3 anos de sacerdócio. Sou Administrador Paroquial na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, na Vila São Luís, paróquia pertencente à Arquidiocese de São Luís do Maranhão, onde sou incardinado, isto é, onde estou canonicamente vinculado, de acordo com as normas do Direito da Igreja, chamado Direito Canônico. Sou, assim, sacerdote diocesano.

2. V. Revma. celebra a Santa Missa nas duas formas do Rito Romano? Considera isso algo importante para se amar concretamente o Rito Romano, ou seja, não amá-lo apenas pela metade? 
Celebro nas duas formas do Rito Romano desde que fui ordenado e vejo como algo natural e que, sem dúvida, tem enriquecido a minha vida sacerdotal e espiritual com graças sobrenaturais e também com uma visão mais profunda do zelo que se deve ter pelo Sagrado e, como você disse na pergunta, com um amor pelas duas formas do nosso rito latino.
3. Como aprendeu a celebrar a Santa Missa na Forma Extraordinária? Quando isso aconteceu e quem serviu de inspiração e apoio? Foi algo que nasceu de V. Revma. ou veio de um pedido externo?
O meu primeiro contato com a Missa na forma extraordinária, também chamada de Missa Tridentina, se deu de modo indireto. Explico: Eu ainda pequeno, através de meus avós maternos e de uma tia-avó, ouvi falar da Missa como era celebrada antes do novo Missal promulgado pelo Beato Paulo VI. Sublinho que meus avós e minha tia não eram saudosistas e muito menos sedevacantistas, mas eles, sem dúvidas, expressavam certo desconforto diante de liturgias onde muitas vezes faltava sacralidade e recolhimento para a oração. Eu ouvi essas conversas em casa. Depois tive a graça de ter um religioso próximo, primo de minha avó, esta mesma avó materna, que sempre teve muito zelo na celebração da Santa Missa. De maneira que nasci num ambiente que sempre me levou a uma grande curiosidade pela Missa na forma como era celebrada antes do Concílio Vaticano II. Lembro bem que ia à Missa aos domingos e a liturgia, algumas vezes um pouco barulhenta, já me causava desconforto e dispersão, não sabia dizer bem por quê, mas as Missas onde o padre celebrava com mais zelo, onde a música era menos agitada, ainda não sabia a diferença entre música litúrgica e sacra e as demais, me faziam rezar melhor, eu parecia mais próximo de Deus e Deus de mim e até mesmo das pessoas que estavam nas Missas, uma comunhão maior entre todos... Lembro que aí já sentia vontade de ser padre, isto eu devia ter uns 6, 7 anos. Foi quando comecei a “brincar” de celebrar Missas (risos)... E na casa de meu avô, que era professor universitário e gostava muito de ler, tinha três Bíblias e uma delas, a maior, me encantava, cheia de belas ilustrações e ao final, um tesouro, um glossário com muitos termos litúrgicos. Eu era muito curioso e perguntava tudo. Ao perguntar a eles por que que em tal domingo o padre estava com uma roupa verde, eu nem sabia o nome casula, estola, e em outro domingo com a roupa vermelha, por exemplo, eles me disseram: "Tome esta Bíblia e ao final dela tem uma lista de palavras. Lá vai descobrir as respostas para suas perguntas"... E lá estavam os termos litúrgicos todos com suas definições... foi um maravilhamento... Tenho até hoje esta Bíblia. É do início da década de 70, creio que de 1971... então, o glossário é muito bem feito e muita coisa baseada ainda na forma anterior ao Concílio... Não sei se já estou falando demais, não sou muito objetivo.

Não, padre, pode continuar, fique à vontade.
Obrigado. Depois passei, com uns 12, 13 anos, a frequentar bastante, aos domingos, a Missa na Igreja de Santo Antônio, no Centro de São Luís, onde nesta época o atual Arcebispo de Teresina era o reitor, pois o seminário ficava bem ao lado da Igreja. E foi, me recordo bem, um dos primeiros padres a me chamar muita atenção pelo zelo que ele tinha na Santa Missa. Não estou falando mal (risos), mas a maioria dos padres só usava estola para rezar as Missas, mesmo aos domingos, já o então Pe. Jacinto sempre estava de casula. Chamou-me atenção a veste diferente. Lembro que o padre ficava à porta da Igreja, já paramentado, recebendo todos que chegavam para a Missa, isso me encantou e despertou ainda mais a minha vocação. E foram as homilias dele as primeiras que realmente passei a prestar atenção, que prenderam minha atenção e que eu comecei a entender pouco a pouco. Eu gostava muito de ir à Missa. E contava os dias para chegar o Domingo e ir à Missa de Santo Antônio. Bom, vou dar um salto, senão não chegamos ao fim. Eu acabei o ensino médio, fui fazer faculdade de Direito, queria ser diplomata... Eu gostava muito de ler e meus pais e avós diziam que a carreira jurídica seria boa. Enfim, a vocação vem novamente à tona. Eu não queria me formar em Direito, mas não contei nada aos meus pais. Levei o curso até o fim e me formei, fui a São Paulo, passei lá um ano e seis meses, lá fiz preparatórios para o Itamaraty, mas conheci lá a OFS (Ordem Franciscana Secular) e a vocação foi mais forte ainda. Então, em 2005, decidi mesmo ser padre. E, no seminário, comecei a ler mais sobre liturgia e a perceber o tesouro que temos e que, infelizmente, muitas vezes deixamos enterrados.... Um grande amigo, que hoje mora no Rio, tinha um DVD da Administração Apostólica São João Maria Vianney, onde o Pe. Claudiomar, que na época eu não conhecia pessoalmente, ensinava a Missa e eu comecei a assistir. Depois conheci um padre maranhense que mora em Fortaleza que me ajudou e tirou muitas dúvidas e um frei muito amigo que também me ajudou muito e me ensinou muitas coisas sobre a Missa na forma extraordinária. Então, foi assim. Eu fui ordenado e já estava sabendo celebrar nas duas formas. Nesta mesma ocasião conheci um grupo de pessoas, alguns jovens, outros já pais de família, mães de família, que gostariam de ter a Missa na forma extraordinária sempre. Foi quando de fato unimos forças e foi fundada a Associação Ad Maiorem Dei Gloriam, sempre com o apoio decisivo do frei amigo que falei ainda há pouco e que é o diretor espiritual da Associação, que promove a celebração da Missa conforme o Missal de São Pio V aqui em São Luís.

4. Recentemente (05/07), S. Ema., o Cardeal Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, fez um discurso inaugurando a conferência Sacra Liturgia do Reino Unido, onde tratou de uma implementação mais fiel da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium. V. Revma. concorda que ainda estamos longe de certas metas e objetivos dos Padres Conciliares? Como V. Revma. vê esta questão?
Creio que tenham sido dados passos importantes. Os Papas todos têm dado exemplo de grande zelo pela liturgia e de uma visão muito salutar do patrimônio litúrgico que temos, procurando ressaltar a continuidade com a Sagrada Tradição bimilenar de nossa Fé. Há, sem dúvida, muito a melhorar, mas também há um clero jovem e muito esperançoso com a noção clara de que a lei da oração é a lei da fé. O modo como rezamos, como nos conduzimos, ou melhor, nos deixamos conduzir na Santa Missa e em outras ações sagradas, expressa a profundidade e autenticidade de nossa Fé e evangeliza, catequiza. Uma Missa bem celebrada é a melhor catequese, salvo engano o Papa Emérito Bento XVI disse esta verdade profunda.
Assim, eu vejo essa questão como uma continuidade. O Concílio Vaticano II não funda uma nova Igreja, logo deve ser interpretado e aplicado em continuidade com toda a vida da Igreja de antes. É, de fato, algo que segue na esteira da Tradição. Não há rupturas, pelo menos penso que não deve haver. Infelizmente, muitos distorcem e acabam fazendo tabula rasa de todos os outros Concílios e de toda a Tradição e Magistério anterior ao Vaticano II. Mas estou certo, e creio que a Igreja pensa assim, que isto é um grande erro.

5. A parte mais citada do longo discurso do Cardeal Sarah foi, sem dúvida, um de seus pedidos: a adoção da orientação comum do celebrante e da assembleia na Liturgia Eucarística. V. Revma. concorda que esta pequena mudança pode trazer transformações positivas quanto à forma com que sacerdotes e fiéis participam da Santa Missa? Como é a experiência de V. Revma. neste ponto? Como foram e são as resistências?
Eu, desde que assumi esta paróquia, que é a minha primeira, onde estou só (antes passei 3 meses como vigário), procurei mostrar ao nosso povo toda riqueza da nossa Igreja, seja ela litúrgica, teológica, espiritual, social, e aqui me refiro à Doutrina Social da Igreja. Nossa paróquia é de periferia, tenho 13 comunidades, 2 bem rurais, um povo simples, mas muito bom, muito sagaz, inteligente e, sobretudo, muito sedento de Deus e interessado em aprofundar a sua vida espiritual. Eu nunca impus nada. Sempre conversei antes, argumentei. Aliás, eu fiz, lembro agora, logo no início, todos os sábados à tarde, encontros para formação litúrgica... e teve uma boa acolhida, uma boa participação, vinham 70, 80 pessoas, os coordenadores das comunidades, das pastorais, movimentos. Foram 4 meses de encontros formativos. E tentei sempre fazer com que entendessem que a Missa é o que há de mais importante na vida do cristão. É o ponto alto para nós, onde nos alimentamos da Palavra de Deus e, espantosamente, nos alimentamos do próprio Deus, a Palavra Viva e encarnada, o Pão que não é mais pão, mas é o Próprio Cristo. Então, fiz com que vissem a Missa como um subir à montanha, momento de encontro íntimo de cada um com Jesus, com a pessoa mais importante de toda nossa vida. A maioria entendeu e tem entendido.
Assim, fizemos algumas reformas e adaptações na nossa Matriz, recolocamos o Sacrário no centro do presbitério em um altar-mor que foi feito... e aos poucos fomos colocando a liturgia como deve ser. Afinal, a Liturgia é obra de Deus em nosso favor. É a ação de Cristo que se entrega ao Pai pelo Espírito para nossa salvação, portanto, como ensina o Monsenhor Marini naquele pequeno grande livro Liturgia Mistério da Salvação, é Dom, é um presente de Deus, não cabe a nós fazer outra coisa a não ser receber esse imenso e belo presente e nos maravilharmos com ele, pois ele, aí já cito a Sacrosanctum Concilium, este presente que é a liturgia faz com que já na terra possamos participar e antegozar realidades celestiais que nos ultrapassam, que nos transcendem. Não temos o direito de manipular o que Deus nos dá como Dom, a Liturgia não é minha, é de Deus.
Sinto algumas resistências de fora, mas sigo fazendo aquilo que a Igreja pede e que minha consciência me pede, de modo que, graças a Deus, minha consciência em nada me acusa. E aos poucos vejo, com grande alegria, o bem que Deus vai fazendo por meio de meu sacerdócio, que trago como diz São Paulo, em vaso de argila, mas com imensa gratidão ao Senhor que, sem mérito algum de minha parte, me escolheu. Então, em suma, celebramos ad orientem, também com arranjo beneditino no altar, celebramos nas duas formas, procuramos educar também os chamados ministérios de música. Falando nisso, temos um grupo de jovens que são acólitos também e que cantam muito bem e já estão bons no latim e cantam Missa de Angelis já e estão aprendendo outros cantos litúrgicos e tradicionais. E são jovens simples e bons que demonstram um imenso amor pelo Sagrado, por Deus e pelas pessoas, já que querem que elas também experimentem esse grande dom de entrar na Liturgia Divina como quem entra nos Tabernáculos celestes. Enfim, eu, graças ao meu Bom Deus, não tenho do que me queixar. Dificuldades, temos, mas se não houver, algo está errado. A presença da Cruz é uma constante na vida do cristão, não é mesmo?

Sim, padre, é verdade.

6. Bem, ainda sobre o pedido do Cardeal Sarah, algumas pessoas perguntam se foi uma lei, um decreto, uma instrução da Congregação, e a Sala de Imprensa da Santa Sé já esclareceu (para quem, por acaso, não tinha entendido) que foram palavras pessoais do Prefeito e não novas diretrizes litúrgicas oficiais. V. Revma. acha que muitos presbíteros aderirão ao pedido do Cardeal? 
Nós vimos pelas redes sociais como surgiram resistências. É natural que hajam, afinal, as interpretações e aplicações mais estapafúrdias da Sacrosanctum Concilium aconteceram, triste e infelizmente, por muitos lugares. E mesmo os sacerdotes que respeitam a Sagrada Liturgia, obedecem às prescrições do Missal, a maioria celebra sempre versus populum. Então, celebrar voltado para o povo tornou-se a forma usual. Sobretudo aqui no Brasil, é natural que haja algum tipo de impacto, mas entendi desde o início que o Cardeal Sarah estava apenas dando uma orientação, sugerindo. Gostei muito de um texto do padre José Eduardo que fala que o ad orientem interior é muito importante, isto é, o zelo interior do padre, o sacerdote estar espiritualmente voltado para o Cristo, uma orientação espiritual para Deus, isso é muito interessante. Eu, por exemplo, pensei em mim mesmo, quando li o texto do Pe. José Eduardo, e refleti: quando celebro a Missa no altar móvel de nossa Matriz, voltado para o povo mesmo, coloco o crucifixo no altar, porém, mais ainda, eu fico de olhos baixos ou mesmo fechados, eu baixo a cabeça... enfim, minhas expressões corporais e faciais, de certo modo, dão a entender que ali estou em um diálogo com Deus, que ali naquele momento da Oração Eucarística estou voltado completamente para Deus, assim como toda assembleia litúrgica deve estar voltada para Ele, claro. Gostei muito da análise dele.

7. Fora a orientação comum (celebração ad orientem), o Cardeal também citou o equilíbrio entre o uso do vernáculo e do latim (para evitar a exclusão deste) e o canto da liturgia (especialmente o canto gregoriano). Como V. Revma. acha que esses pedidos podem ser melhor atendidos? Tudo isso deve partir de quem? Como dar um pontapé inicial?
Aqui na minha paróquia o pontapé inicial fui eu mesmo quem deu e encontrei, graças a Deus, resistências, mas também corações muito abertos. Creio que não haja receita, cada caso é um caso. As mudanças devem ser graduais e bem explicadas. Convidar o povo para formações, que foi o que procurei fazer aqui em nossa paróquia, mostrar a riqueza espiritual do canto gregoriano que, no fundo, é tão simples... tanto que é chamado de cantochão, é plano... em geral, as coisas mais belas são as mais simples mesmo. Até me lembrei de uma frase da poetisa mineira Adélia Prado, em uma entrevista dela ao Roda Viva, na TV Cultura: “A Missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum”. Essa frase é perfeita. Eu busco sempre isso, tento viver a simplicidade com solenidade e amor.
Retomando sobre as resistências, há casos onde haverá maiores resistências, mas estas não devem nos desanimar nunca, pelo contrário, se é difícil é porque, muito provavelmente, é vontade de Deus. As coisas de Deus não são tão fáceis. Há resistências aqui em nossa paróquia também, na maioria veladas. As pessoas não têm muita coragem de dizer as coisas na cara do padre, sabe? (risos) O que é uma pena, pois se viessem conversar comigo eu explicaria a razão das coisas e, creio, as pessoas compreenderiam. Aos que têm dificuldade eu digo que não desanimem e que, sobretudo, rezem. A oração pode tudo. Unam-se e rezem e sejam humildes, não discutam com quem não quer fazer um caminho comum de busca da Verdade. É preciso perceber isso, ter um certo feeling e saber calar. A palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro.
Creio que a maior dificuldade é quando o pontapé inicial não parte do sacerdote e, muitas vezes, infelizmente, é da parte dos sacerdotes que surgem as maiores resistências, mas é como já falei: ter simplicidade e fé, e também prudência. Não se coloquem como martelos dos padres. O melhor é rezar, silenciar e esperar. Pelos padres, o dever dos leigos é rezar e amá-los, são sempre Alter Christus - outro Cristo - e lembro muito das revelações que Santa Catarina de Sena teve e em uma delas Nosso Senhor diz que não devemos fazer críticas e condenações aos sacerdotes. Ele diz que Deus mesmo punirá os maus sacerdotes. Está na obra Diálogo, de Santa Catarina. No tempo certo Deus atenderá as preces feitas com fé e amor. As demoras de Deus servem para nos educar também.

8. Novamente sobre a Forma Extraordinária do Rito Romano, como V. Revma. resumiria seus efeitos, seus frutos na vocação sacerdotal?
Vou falar do que tenho vivido. Ela me ajuda a rezar com mais zelo a Missa na forma ordinária, ela me aproxima mais de Deus e me ajuda em minha oração pessoal mesmo, na Liturgia das Horas, por exemplo, me deixa mais centrado em Deus e me ajuda a não transmitir aos outros algo meu, mas me enche daquilo que realmente as pessoas buscam em um padre, me enchem de espiritualidade, de Deus. Eu procuro sempre não falar uma palavra minha, mas uma palavra divina, me deixar guiar pelo Espírito de Cristo e ser de fato um porta-voz dEle.
Apesar de minhas fraquezas e limitações, sinto que a Missa tem me ajudado muitíssimo no meu ministério. Muitos dos frutos são interiores, são frutos de conversão diária. Alguns frutos também em nossos paroquianos não são, muitas vezes, quantitativos, mas há frutos qualitativos. Creio que as pessoas estejam mais fortes espiritualmente para enfrentar as tribulações e dificuldades do dia-a-dia e tenham compreendido que participar com piedade e devoção da Santa Missa é nos unirmos mais ao Mistério de Amor de um Deus que se fez um de nós, se fez homem, assumiu nossas misérias e morreu por nós, que deu tudo por nós, até a Si mesmo e que, por isso tudo, não está alheio aos nossos sofrimentos, às nossas mazelas, mas nos convida a entreolhar, na Liturgia, coberta pelos véus dos sacramentos, a nossa Vitória, a nossa Ressurreição, é aquele antegozar o Céu que já falei nessa nossa conversa.

9. Que mensagem V. Revma. deixaria para os jovens sacerdotes que, embora simpáticos, ainda não celebram a Santa Missa na Forma Extraordinária, seja por medo, por pressões ou por outros motivos?
Sejam um pouco malucos (risos). Rezem muito e Nosso Senhor vai lhes dar coragem! E peçam a intercessão de nossa Mãe, Maria Santíssima. Ela tem muito prestígio com Ele! (risos). Bom, estou rindo, mas é coisa séria. Há que se ter um pouco de loucura. Os santos são loucos, não? Loucos de amor por Deus. Deus é louco de amor por nós. Como o Pai da Parábola de Lucas 15, que corre desesperado de amor misericordioso e pula no pescoço do filho que volta maltrapilho e sujo.... enfim, não desanimem. Venham aqui em São Luís celebrar em nossa paróquia! Serão muito bem vindos. E ousem! O Motu Proprio do nosso Papa Emérito é claro: nós podemos celebrar livremente nesta forma do rito romano que nunca foi revogada. E contem sempre com minhas orações.

10. Por fim, gostaria que meditássemos sobre algumas palavras de São João Paulo II aos bispos do Ceará e do Piauí no ano de 1995:
“Compreende-se (...) como o brasileiro gosta dos sinais exteriores da fé! Ele quer ver as Igrejas com as suas características religiosas, com as expressões autênticas da arte sacra que despertam a piedade e levam à oração, ao recolhimento e à contemplação do mistério de Deus. Ele quer ouvir com alegria bater os sinos de vossas Igrejas convocando-o para as celebrações litúrgicas ou convidando-o para as orações do dia ou da tarde em louvor da Virgem Maria! (...) Ele quer sentir nas músicas de vossas Igrejas o apelo ao louvor de Deus, à ação de graças, à prece humilde e confiante e se sente desconfortável quando esses cantos em sua letra envolvem uma mensagem política ou puramente terrena, e em sua expressão musical não apresentam a característica de música religiosa, mas são marcadamente profanos no ritmo, na linha melódica e nos instrumentos musicais de acompanhamento. (...)
Procurai dar um clima de piedade e dignidade às celebrações litúrgicas, sabendo fazê-las alegres nos momentos devidos e sempre espiritualmente confortadoras. O ministério da Palavra, que está intimamente ligado à Liturgia Eucarística (cf. Sacrosanctum Concilium, 56), contenha sempre, do início ao fim, uma mensagem espiritual. (...) Ver a Igreja como Igreja, e não simples promotora da reforma social. Este é um dever que promana da Fé e não prévia exigência para uma posterior pregação do Evangelho. (...)
Vosso povo, caríssimos irmãos no episcopado, quer ver os padres como verdadeiros Ministros de Deus, inclusive na sua veste e no seu modo externo de proceder. Ele quer ver o homem de Deus nos ministros de sua Igreja, uma presença que lhes inspire amor, respeito, confiança. O povo tem direito e isso pode exigi-lo de seus pastores. O que os homens querem, o que esperam é que o sacerdote com o seu testemunho de vida e com sua palavra, lhes fale de Deus” (Trechos do Discurso do Papa João Paulo II aos bispos da CNBB dos regionais Nordeste 1 e 4 em visita ad limina apostolorum, 05/09/1995).
O Maranhão, quanto à vida religiosa, não parece ser tão diferente do Piauí e do Ceará. Passados 21 anos destas exortações de São João Paulo II aos nossos bispos, V. Revma. acha que muita coisa mudou no nordeste brasileiro ou elas ainda permanecem atuais?
Bom, creio que algumas coisas mudaram sim. Não podemos ser catastrofistas e só enxergar as coisas ruins. Não queria me tomar como exemplo, mas tenho procurado fazer, no limite das minhas forças, mas contando com a Força do Alto, o possível para ser um sinal de Deus no mundo. Tenho procurado viver como sinal de um Deus próximo que mostra amor e acolhida e que, sobretudo, se compadece, sofre junto com o povo e que mostra a cruz como caminho para a Vida e não para a morte. Assim como eu, vejo que outros padres também se esforçam. Vejo que surgem boas vocações, que surgem novos padres com este ânimo de levar as pessoas a Cristo. Rezemos para que os promotores vocacionais, reitores, bispos saibam acolher estas vocações e, verdadeiramente, promovê-las para o bem do povo. A Igreja precisa retomar o seu protagonismo espiritual na vida de nossa sociedade. Contamos todos com as orações de vocês também e o bom testemunho, que há de convencer e de falar mais alto que as palavras.

Caro padre, novamente agradecemos pela disponibilidade. Pedimos a Deus, pelos méritos da Santíssima Virgem Maria, de São Luís e do Servo de Deus Pe. Reus, que abençoe com abundância o ministério e o apostolado de V. Revma.
Muito obrigado! Muito obrigado mesmo. Espero não ter sido enfadonho e muito prolixo e ter preenchido as expectativas de vocês. Ah, gosto muito do Pe. Reus, o seu Curso de Liturgia é livro de constante consulta. Que Deus abençoe vocês todos também e perseverem na oração, da doutrina dos Apóstolos e na Caridade! Sem Amor, sem Caridade não se vai adiante. Deus ou Nada, que aliás é o título da entrevista do Cardeal Sarah ao Nicolas Diat, equivale a dizer, Amor ou Nada. E Amor é serviço, doação, ação em prol do outro. E não há maior ação neste mundo que a oração. Rezem muito pela Igreja, pelo Clero e por todos! Nossa Senhora, Mãe das Dores e Senhora do Amparo, nos conceda coragem para suportamos nossas dores e seja o nosso amparo nas tribulações!

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O discurso inaugural do Card. Sarah no Sacra Liturgia UK 2016

Pax et bonum!

Nos últimos dias muitos blogs e sites fizeram eco às palavras do Cardeal Robert Sarah, proferidas em seu discurso inaugural na conferência Sacra Liturgia UK 2016, que se encerra hoje. Pensamos que poderíamos apenas repostar a notícia de algum blog, mas achamos por bem ir além.
Após algumas pesquisas, encontramos uma página em que o discurso parece estar colocado na íntegra e logo iniciamos um trabalho de tradução.
Abaixo segue esta nossa tradução, que ainda poderá passar por alguma melhoria. Todavia, tivemos pressa em colocar o texto sob a apreciação de nossos leitores e esperamos que seja de bom proveito.

SACRA LITURGIA UK 2016
Oratório de São Filipe Néri (Oratório de Brompton),
Londres, 05/07/2016

Em primeiro lugar quero expressar minha gratidão à S. Ema., o Cardeal Vincent Nichols, por suas boas vindas à Arquidiocese de Westminster e por suas gentis palavras de saudação. Assim também quero agradecer à S. Exa., o Bispo Dominique Rey, Bispo de Fréjus-Toulon, pelo seu convite para estar presente com vocês nesta terceira conferência internacional "Sacra Liturgia", e para apresentar a vocês o discurso de abertura nesta tarde. Parabenizo V. Exa. nesta iniciativa internacional de promover o estudo da importância da formação e da celebração litúrgicas na vida e na missão da Igreja.
Neste discurso quero colocar diante de vocês algumas considerações sobre como a Igreja Ocidental pode caminhar rumo a uma implementação mais fiel da Sacrosanctum Concilium. Fazendo isto, proponho a seguinte pergunta: "O que os Padres do Concílio Vaticano Segundo tinham em mente com a reforma litúrgica?" Assim, gostaria de considerar como suas intenções foram implementadas seguindo o Concílio. Enfim, gostaria de colocar algumas sugestões para a vida litúrgica da Igreja hoje, de modo que nossa prática litúrgica possa mais fielmente refletir as intenções dos Padres Conciliares.
É muito claro, penso, que a Igreja ensina que a liturgia católica é o lugar singularmente privilegiado da ação salvadora de Cristo em nosso mundo hoje, por meio da real participação em que recebemos sua graça e sua força que são tão necessárias para nossa perseverança e crescimento na vida cristã. É o lugar divinamente instituído onde vamos cumprir nosso dever de oferecer sacrifício a Deus, de oferecer o Único Verdadeiro Sacrifício. É onde percebemos nossa profunda necessidade de adorar o Deus todo-poderoso. A liturgia católica não é uma reunião humana ordinária.
Quero sublinhar um fato muito importante aqui: Deus, não o homem, está no centro da liturgia católica. Viemos adorá-lo. A liturgia não é sobre você e eu; não é onde celebramos nossa própria identidade ou conquistas ou onde exaltamos ou promovemos nossa própria cultura e costumes religiosos locais. A liturgia é primeiro e acima de tudo sobre Deus e o que ele fez por nós. Em sua Divina Providência, o Deus todo-poderoso fundou a Igreja e instituiu a Sagrada Liturgia por meio da qual somos capazes de oferecer-lhe um culto verdadeiro de acordo com a Nova Aliança estabelecida por Cristo. Fazendo isto, ao adentrar as exigências dos ritos sagrados desenvolvidos na tradição da Igreja, recebemos nossa verdadeira identidade e significado como filhos e filhas do Pai.
É essencial que compreendamos esta especificidade do culto católico, pois em décadas recentes temos visto muitas celebrações litúrgicas onde o povo, personalidades e conquistas humanas têm sido proeminentes demais, quase ao ponto da exclusão de Deus. Como o Cardeal Ratzinger escreveu uma vez: "Se a liturgia aparece antes de tudo como uma oficina (um workshop) para nossa atividade, então aquilo que é enssencial foi esquecido: Deus. Pois a liturgia não é sobre nós, mas sobre Deus. Esquecer Deus é o perigo mais iminentes de nossa era" (Joseph Ratzinger, Theology of the Liturgy, Collected Works vol. 11, Ignatius Press, San Francisco 2014, p. 593).
Precisamos ser completamente claros sobre a natureza do culto católico se pretendemos ler corretamente e implementar fielmente a Constituição do Concílio Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia.
Por vários anos antes do Concílio, em países de missão e também nos mais desenvolvidos, houve muita discussão sobre a possibilidade de aumentar o uso das línguas vernáculas na liturgia, principalmente para as leituras da Sagrada Escritura, também para algumas das outras partes da primeira parte da Missa (que agora chamamos de "Liturgia da Palavra") e para o canto litúrgico. A Santa Sé já tinha dado várias permissões para o uso do vernáculo na administração dos sacramentos. Este é o contexto em que os Padres do Concílio falaram dos possíveis efeitos positivos em âmbito ecumênico ou missionário da reforma litúrgica. É verdade que o vernáculo tem um lugar positivo na liturgia. Os Padres estavam procurando isto, não autorizando a protestantização da Sagrada Liturgia ou aceitando que ela fosse submetida a uma falsa inculturação.
Eu sou africano. Deixem-me dizê-lo claramente: a liturgia não é o lugar de promover minha cultura. Melhor, é o lugar onde minha cultura é batizada, onde minha cultura é levada para o divino. Através da liturgia da Igreja (que os missionários levaram por todo o mundo) Deus fala a nós, muda-nos e torna-nos capazes de participar de sua vida divina. Quando alguém torna-se um cristão, quando alguém entra em plena comunhão com a Igreja Católica, recebe algo mais, algo que o transforma. Certamente, as culturas e outros cristãos trazem dons consigo para a Igreja - a liturgia dos Ordinariatos dos Anglicanos agora em plena comunhão com a Igreja é um belo exemplo disso. Mas eles trazem esses dons com humildade, e a Igreja, em sua materna sabedoria, faz uso deles como ela julgar apropriado.
Uma das mais claras e belas expressões das intenções dos Padres do Concílio encontra-se no início do segundo capítulo da Constituição, que considera o mistério da Santíssima Eucaristia. No artigo 48 lemos:
"É por isso que a Igreja procura, solícita e cuidadosa, que os cristãos não entrem neste mistério de fé como estranhos ou espectadores mudos, mas participem na ação sagrada, consciente, ativa e piedosamente, por meio duma boa compreensão dos ritos e orações; sejam instruídos pela palavra de Deus; alimentem-se à mesa do Corpo do Senhor; dêem graças a Deus; aprendam a oferecer-se a si mesmos, ao oferecer juntamente com o sacerdote, que não só pelas mãos dele, a hóstia imaculada; que, dia após dia, por Cristo mediador, progridam na unidade com Deus e entre si, para que finalmente Deus seja tudo em todos".
Meus irmãos e irmãs, é isto que os Padres Conciliares queriam. Sim, certamente, eles discutiram e votaram formas específicas de alcançar suas intenções. Mas sejamos bem claros: as reformas rituais propostas na Constituição, tais como a restauração da oração dos fiéis na Missa (n. 53), a extensão da concelebração (n. 57) ou algumas de suas regras tais como a simplificação desejada pelos artigos 34 e 50, estão todas subordinadas às intenções fundamentais dos Padres Conciliares que acabei de traçar. Elas são meios para um fim, e é o fim que devemos alcançar.
Se pretendemos caminhar rumo a uma implementação mais autêntica da Sacrosanctum Concilium, são estas metas, estes fins que devemos manter diante de nós em primeiro lugar e acima de tudo. Pode ser que, se os estudarmos com olhos limpos e com o benefício da experiências das últimas cinco décadas, vejamos algumas reformas rituais específicas e certas regras litúrgicas numa luz diferente. Se, hoje, a fim de "comunicar um vigor sempre crescente à vida cristã entre os fiéis" e "ajudar a chamar a humanidade inteira para o seio da Igreja" algumas dessas precisarem ser reconsideradas, peçamos ao Senhor que nos dê o amor, a humildade e a sabedoria para assim o fazer.
Eu levanto esta possibilidade de olhar novamente para a Constituição e para a reforma que seguiu sua promulgação porque não acho que podemos honestamente ler nem mesmo o primeiro artigo da Sacrosanctum Concilium hoje e nos contentarmos por termos alcançado suas metas.
Meus irmãos e irmãs, onde estão os fiéis de que falaram os Padres Conciliares? Muitos dos fiéis hoje são infiéis: eles não vêm mais para a liturgia. Para usar as palavras de São João Paulo II: muitos cristãos estão vivendo num estado de "apostasia silenciosa"; eles "vivem como se Deus não existisse" (Exortação Apostólica Ecclesia in Europa, 28/06/2003, 9).
Onde está a unidade que o Concílio esperou alcançar? Nós ainda não chegamos lá. Temos feito real progresso em chamar a humanidade inteira para o seio da Igreja? Eu acho que não. E já temos feito muita coisa para a liturgia!
Em meus 47 anos de vida como sacerdote e depois de mais de 36 anos de ministério episcopal, posso atestar que muitas comunidades e indivíduos católicos vivem e rezam a liturgia reformada seguindo o Concílio com fervor e alegria, derivando dela vários, se não todos, dos bens que os Padres Conciliares desejaram. Isto é um ótimo fruto do Concílio. Mas da minha experiência eu também sei - agora também através do meu serviço como Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos - que há muitas distorções da liturgia em toda a Igreja hoje, e que há muitas situações que poderiam ser melhoradas para se alcançar as metas do Concílio. Antes de eu refletir sobre possíveis melhoras, consideremos o que aconteceu em seguida à promulgação da Constituição sobre a Sagrada Liturgia.
Enquanto a obra oficial de reforma acontecia, algumas interpretações erradas muito sérias da liturgia emergiram e se enraizaram em diferentes lugares pelo mundo. Esses abusos da Sagrada Liturgia cresceram por causa de uma compreensão errônea do Concílio, resultando em celebrações litúrgicas que eram subjetivas e que eram mais focadas nos desejos da comunidade individual do que no culto sacrifical do Deus todo-poderoso. Meu predecessor como Prefeito da Congregação, o Cardeal Francis Arinze, uma vez chamou este tipo de coisa de "a Missa do faça-você-mesmo". Até São João Paulo viu a necessidade de escrever o seguinte em sua Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia (17/04/2003):
"A este esforço de anúncio por parte do Magistério correspondeu um crescimento interior da comunidade cristã. Não há dúvida que a reforma litúrgica do Concílio trouxe grandes vantagens para uma participação mais consciente, ativa e frutuosa dos fiéis no santo sacrifício do altar. Mais ainda, em muitos lugares, é dedicado amplo espaço à adoração do Santíssimo Sacramento, tornando-se fonte inesgotável de santidade. A devota participação dos fiéis na procissão eucarística da solenidade do Corpo e Sangue de Cristo é uma graça do Senhor que anualmente enche de alegria quantos nela participam. E mais sinais positivos de fé e de amor eucarísticos se poderiam mencionar.
A par destas luzes, não faltam sombras, infelizmente. De fato, há lugares onde se verifica um abandono quase completo do culto de adoração eucarística. Num contexto eclesial ou outro, existem abusos que contribuem para obscurecer a reta fé e a doutrina católica acerca deste admirável sacramento. Às vezes transparece uma compreensão muito redutiva do mistério eucarístico. Despojado do seu valor sacrificial, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro fraterno ao redor da mesa. Além disso, a necessidade do sacerdócio ministerial, que assenta na sucessão apostólica, fica às vezes obscurecida, e a sacramentalidade da Eucaristia é reduzida à simples eficácia do anúncio. Aparecem depois, aqui e além, iniciativas ecumênicas que, embora bem intencionadas, levam a práticas na Eucaristia contrárias à disciplina que serve à Igreja para exprimir a sua fé. Como não manifestar profunda mágoa por tudo isto? A Eucaristia é um dom demasiado grande para suportar ambiguidades e reduções.
Espero que esta minha carta encíclica possa contribuir eficazmente para dissipar as sombras de doutrinas e práticas não aceitáveis, a fim de que a Eucaristia continue a resplandecer em todo o fulgor do seu mistério" (n. 10).
Havia também uma realidade pastoral aqui: se por razões boas ou não algumas pessoas poderiam ou iriam participar ou não dos ritos reformados. Elas ficaram longe, ou só participaram da liturgia não-reformada onde podiam encontrá-la, mesmo quando essa celebração não era autorizada. Desta forma a liturgia tornou-se uma expressão de divisões dentro da Igreja, mais do que uma de unidade católica. O Concílio não quis que a liturgia nos dividisse uns dos outros! São João Paulo II trabalhou para curar esta divisão, ajudados pelo Cardeal Ratzinger que, enquanto Bento XVI, buscou facilitar a reconciliação interna necessária na Igreja estabelecendo em seu Motu Proprio Summorum Pontificum (07/07/2007) que a forma mais antiga do Rito Romano está disponível sem restrição para os indivíduos e grupos que quiserem aproveitar suas riquezas. Na providência de Deus, agora é possível celebrar nossa unidade católica respeitando e até alegrando-se numa legítima diversidade de prática ritual.
Podemos ter construído uma muito nova e moderna liturgia em vernáculo, mas se não lançamos os fundamentos corretos, se nossos seminaristas e clérigos não estão "imbuídos plenamento do espírito e da virtude da liturgia" como o Concílio pediu, então eles não podem formar o povo confiado a seu cuidado. Precisamos levar as palavras do próprio Concílio muito a sério: seria "fútil" esperar por uma renovação litúrgica sem uma completa formação litúrgica. Sem esta formação essencial o clero poderia até prejudicar a fé das pessoas no mistério Eucarístico.
Não quero que pensem que estou sendo excessivamente pessimista, e digo novamente: há vários, vários fiéis leigos homens e mulheres, vários clérigos e religiosos para os quais a liturgia, tal como reformada depois do Concílio, é uma fonte de muito fruto apostólico e espiritual, pelo que agradeço a Deus todo-poderoso. Mas, pela minha breve análise até aqui, penso que vocês concordarão que podemos fazer melhor de modo que a Sagrada Liturgia realmente se torne a fonte e o cume da vida e da missão da Igreja hoje, no início do século XXI, como os Padres do Concílio tão seriamente desejaram.
À luz dos desejos fundamentais dos Padres Conciliares e das diferentes situações temos visto surgir após o Concílio, gostaria de apresentar algumas considerações práticas sobre como podemos implementar a Sacrosanctum Concilium mais fielmente hoje. Embora eu sirva como Prefeito da Congregação para o Culto Divino, faço-o com toda a humildade enquanto sacerdote e bispo, na esperança de que elas promovam reflexões e estudos maduros e uma boa prática litúrgica na Igreja.
Não será uma surpresa se eu disser que em primeiro lugar devemos examinar a qualidade e a profundidade de nossa formação litúrgica, de como imbuímos nosso clero, religiosos e fiéis leigos com o espírito e a virtude da liturgia. Muitas vezes assumimos que nossos candidatos para a ordenação ao sacerdócio ou ao diaconato permanente "sabem" o bastante sobre a liturgia. Mas o Concílio não estava insistindo sobre conhecimento aqui, embora, é claro, a Constituição tenha enfatizado a importância dos estudos litúrgicos (cf. n. 15-17). Não, a formação litúrgica que é primária e essencial é uma como que imersão na liturgia, no profundo mistério de Deus, nosso Pai amoroso. É uma questão de viver a liturgia em todas as suas riquezas, de modo que, tendo bebido profundamente de sua fonte, sempre tenhamos uma sede de seus deleites, sua ordem e beleza, seu silêncio e contemplação, sua exultação e adoração, sua habilidade de nos conectar intimamente com aquele que opera nos e através dos ritos sagrados da Igreja.
Eis por que aqueles que estão "em formação" para o ministério pastoral devem viver a liturgia tão plenamente possível em seus seminários e casas de formação. Candidatos ao diaconato permanente deveriam também ter uma imersão numa intensa vida litúrgica por um período prolongado. E, acrescento, que a plena e rica celebração do uso mais antigo do Rito Romano, o usus antiquior, possa ser uma parte importante da formação litúrgica para o clero, pois como podemos compreender ou celebrar os ritos reformados com uma hermenêutica de continuidade se nunca experimentamos a beleza da tradição litúrgica que os próprios Padres do Concílio conheceram?
Se dermos atenção a isto, se nossos novos sacerdotes e diáconos realmente tiverem sede da liturgia, eles mesmos serão capazes de formar aqueles que estão confiados aos seus cuidados - mesmo que as circunstâncias e possibilidades litúrgicas de sua missão eclesial sejam mais modestas que as do seminário ou de uma catedral. Estou ciente de vários sacerdotes em tais circunstâncias que formam seu povo no espírito e na virtude da liturgia, e cujas paróquias são exemplos de grande beleza litúrgica. Devemos lembrar que a nobre simplicidade não é a mesma coisa que um minimalismo redutivo ou um estilo vulgar e negligente. Como nosso Santo Padre, o Papa Francisco, ensina em sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: "A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia, que é também celebração da atividade evangelizadora e fonte dum renovado impulso para se dar" (n. 24).
Em segundo lugar, penso que é muito importante que sejamos claros sobre a natureza da participação litúrgica, da participatio actuosa para a qual chamou o Concílio. Houve muita confusão aqui em décadas recentes. O artigo 48 da Constituição afirma: "a Igreja procura (...) que os cristãos não entrem neste mistério de fé como estranhos ou espectadores mudos, mas participem na ação sagrada, consciente, ativa e piedosamente, por meio duma boa compreensão dos ritos e orações". O Concílio vê a participação como primeiramente interna, surgindo "duma boa compreensão dos ritos e orações". Os Padres chamaram os fiéis a cantar, a responder ao sacerdote, a assumir ministérios litúrgicos que são corretamente seus, certamente, mas insiste-se que tudo deve ser feito "consciente, ativa e piedosamente".
Se entendemos a prioridade de internalizar nossa participação litúrgica evitaremos o ativismo litúrgico perigoso e barulhento que tem sido tão proeminente em décadas recentes. Não vamos para a liturgia para apresentar algo, fazer coisas para os outros verem: nós vamos para estar conectados com a ação de Cristo por meio de uma internalização dos ritos, orações, sinais e símbolos litúrgicos externos. Pode ser que nós, cuja vocação é ministrar liturgicamente, precisemos lembrar disto mais do que os outros! Mas também precisamos formar os outros, particularmente nossas crianças e jovens, no verdadeiro significado da participação litúrgica, no verdadeiro jeito de rezar a liturgia.
Em terceiro lugar, tenho falado do fato de que algumas reformas introduzidas no seguimento do Concílio podem ter sido feitas juntamente com o espírito da época e que houve uma crescente quantidade de estudos críticos, por filhos e filhas fiéis da Igreja, perguntando se o que de fato foi produzido verdadeiramente implementou as metas da Constituição ou se na realidade foi além. Esta discussão às vezes apareceu sob o título de uma "reforma da reforma" e sei que o Pe. Thomas Kocik apresentou um estudo erudito sobre esta questão na conferência Sacra Liturgia em Nova Iorque há um ano atrás.
Não penso que possamos recusar a possibilidade ou o desejo de uma reforma oficial da reforma litúrgica, porque seus proponentes fazem algumas importantes reivindicações em sua tentativa de ser fiéis à insistência do Concílio, no artigo 23 da Constituição, de "conservar a sã tradição e abrir ao mesmo tempo o caminho a um progresso legítimo" e para que "não se introduzam inovações, a não ser que uma utilidade autêntica e certa da Igreja o exija, e com a preocupação de que as novas formas como que surjam a partir das já existentes".
De fato, posso dizer que quando fui recebido em audiência pelo Santo Padre em abril passado, o Papa Francisco pediu-me para estudar a questão de uma reforma da reforma e de como enriquecer as duas formas do Rito Romano. Será um trabalho delicado e peço a paciência e as orações de vocês. Mas se pretendemos implementar mais fielmente a Sacrosanctum Concilium, se pretendemos alcançar o que o Concílio desejou, esta é uma questão séria que deve ser estudada cuidadosamente e sobre a qual se deve agir com a necessária clareza e prudência.
Nós sacerdotes, nós bispos carregamos uma grande responsabilidade. Como nosso bom exemplo edifica uma boa prática litúrgica; como nossa falta de zelo ou erros fazem mal à Igreja e à sua Sagrada Liturgia!
Nós sacerdotes devemos ser adoradores em primeiro lugar e antes de tudo. Nosso povo consegue ver a diferença entre um sacerdote que celebra com fé e outro que celebra com pressa, frequentemente olhando para o relógio, quase como que a dizer que quer voltar para a televisão logo que possível! Padres, não podemos fazer nada mais importante do que celebrar os sagrados mistérios: guardemo-nos da tentação da preguiça litúrgica, porque esta é uma tentação do diabo.
Devemos lembrar que não somos os autores da liturgia, somos seus humildes ministros, sujeitos à sua disciplina e suas leis. Também somos responsáveis por formar aqueles que nos assistem em ministérios litúrgicos tanto no espírito como na virtude da liturgia e também em suas regras. Algumas vezes tenho visto sacerdotes ficarem de lado para deixar ministros extraordinários distribuirem a Sagrada Comunhão: isto está errado, é uma negação do ministério sacerdotal bem como uma clericalização dos leigos. Quando isso acontece é um sinal de que a formação aconteceu de forma muito errada e que precisa ser corrigida.
Também tenho visto sacerdotes, e bispos, paramentados para celebrar a Santa Missa, pegarem telefones e câmeras e usá-los na Sagrada Liturgia. Esta é uma prova terrível daquilo que eles entendem que estão fazendo quando colocam as vestes litúrgicas, que nos vestem como um alter Christus - e muito mais, como ipse Christus, Cristo mesmo. Fazer isto é um sacrilégio. Nenhum bispo, presbítero ou diácono vestido para o ministério litúrgico ou presente no santuário deveria tirar fotogafias, mesmo em grandes Missas concelebradas. Que os sacerdotes frequentemente façam isso em tais Missas, ou que conversem entre si e se sentem de forma casual, é um sinal, penso eu, de que precisamos repensar a conveniência delas, especialmente se levam os sacerdotes a este tipo de comportamento escandaloso que é tão indigno do mistério sendo celebrado, ou se o mero tamanho dessas concelebrações leva ao risco da profanação da Santa Eucaristia.
Quero fazer um apelo a todos os sacerdotes. Vocês podem ter lido meu artigo em L'Osservatore Romano há um ano atrás (12/06/2015) ou minha entrevista com o jornal Famille Chrétienne em maio deste ano. Em ambas as ocasiões eu disse que creio ser muito importante que retornemos o quanto antes possível para uma comum orientação, dos sacerdotes e fiéis voltados juntos na mesma direção - para o oriente ou pelo menos para a abside - para o Senhor que vem, naquelas partes dos ritos litúrgicos em que estamos nos dirigindo a Deus. Esta prática é permitida pela legislação litúrgica corrente. É perfeitamente legítima no rito moderno. De fato, penso ser isto um passo muito importante para assegurar que em nossas celebrações o Senhor esteja verdadeiramente no centro.
E assim, queridos padres, peço a vocês que implementem esta prática onde for possível, com prudência e com a necessária catequese, certamente, mas também com a confiança de um pastor de que isto é algo bom para a Igreja, algo bom para o nosso povo. O próprio juízo pastoral de vocês determinará como e quando isto será possível, mas talvez iniciar no primeiro domingo do Advento deste ano, quando esperamos "o Senhor que virá" e "que não tardará" (cf. Introito, Missa da Quarta-feira da Primeira Semana do Advento) possa ser um bom tempo. Caros padres, devemos ouvir novamente o lamento de Deus proclamado pelo profeto Jeremias: "eles voltaram suas costas para mim" (2,27). Voltemo-nos novamente para o Senhor!
Também gostaria de fazer um apelo aos meus irmãos bispos: por favor, conduzam seus sacerdotes e seu povo rumo ao Senhor desta forma, particularmente em grande celebrações em suas dioceses e na catedral. Por favor, formem seus seminaristas na realidade de que não somos chamados para o sacerdócio para estarmos nós mesmos no centro do culto litúrgico, mas para conduzir os fiéis até Cristo, como companheiros de adoração. Por favor, facilitem esta simples e profunda reforma em suas dioceses, suas catedrais, suas paróquias e seus seminários.
Nós bispos temos uma grande responsabilidade, e um dia teremos que responder ao Senhor por nossa administração. Não somos os donos de nada! Como São Paulo ensina, somos meramente "os servos de Cristo e os administradores dos mistérios de Deus" (1Cor 4,1). Somos responsáveis por assegurar que as realidades sagradas da liturgia sejam respeitadas em nossas dioceses e que nossos sacerdotes e diáconos não observem apenas as leis litúrgicas, mas conheçam o espírito e a virtude da liturgia, de onde elas emergem. Fui muito estimulado a ler a apresentação sobre "O Bispo: Governador, Promotor e Guardião da Vida Litúrgica da Diocese", feita pelo Arcebispo Alexander Sample de Portland, Oregon, Estados Unidos da América, para a conferência Sacra Liturgia de 2013, e fraternalmente estimulo meus irmãos bispos a estudarem suas considerações cuidadosamente.
Neste ponto, repito o que eu disse noutra ocasião, que o Papa Francisco pediu-me para continuar a obra litúrgica iniciada pelo Papa Bento (cf. mensagem para o Sacra Liturgia USA 2015, Nova Iorque). Só porque temos um novo papa não significa que a visão de seu predecessor agora é inválida. Pelo contrário, como sabemos, nosso Santo Padre, o Papa Francisco, tem o maior respeito pela visão litúrgica e pelas medidas que o Papa Bento implementou em total fidelidade às intenções e metas dos Padres Conciliares.
Antes de concluir, permitam-me por favor mencionar algumas outras formas que também podem contribuir para uma implementação mais fiel da Sacrosanctum Concilium. Uma delas é que devemos cantar a liturgia, devemos cantar os textos litúrgicos, respeitando as tradições litúrgicas da Igreja e regozijando no tesouro da música sacra que é nosso, mais especialmente aquela música própria do Rito Romano, o canto gregoriano. Devemos cantar a música litúrgica sagrada, não meramente música religiosa, ou pior, canções profanas.
Devemos fazer o justo equilíbrio entre as línguas vernáculas e o uso do latim na liturgia. O Concílio nunca quis que o Rito Romano fosse exclusivamente celebrado em vernáculo. Mas quis permitir um aumento do seu uso, particularmente para as leituras. Hoje seria possível, especialmente com os modernos meios de impressão, facilitar a compreensão de todos quando o latim for usado, talvez na Liturgia Eucarística, e isto é particularmente adequado para reuniões internacionais onde o vernáculo local não é compreendido por muitos. E naturalmente, quando o vernáculo for usado, ele deve ser uma tradução fiel do original latino, como recentemente afirmou para mim o Papa Francisco.


Tradução por Luís Augusto Rodrigues Domingues - membro da ARS

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Programação do Sacra Liturgia 2016 (Reino Unido)

Pax et bonum!

Hoje comemoramos o nono aniversário de publicação da Carta Apostólica sob a forma de Motu Proprio Summorum Pontificum, do Papa Bento XVI, grande marco na vida litúrgica da Igreja no séc. XXI.
Pois bem, dos dias 5 a 8 deste mês (ou seja, desta terça, anteontem, até sexta-feira) está ocorrendo um dos mais respeitados eventos no âmbito da tradição litúrgica ocidental, o Sacra Liturgia.
Nesta postagem estamos falando da edição inglesa/britânica do evento, que acontece em Londres.
Segue a programação, que pode inspirar, por suas partes e pelos temas das palestras, outros eventos pelo mundo e, assim esperamos, aqui no Brasil.

Na terça-feira (05/07) o evento começou com as incrições pela manhã, teve Vésperas Solenes (na Forma Extraordinária) e reflexões de abertura pelo bispo D. Dominique Rey, uma sessão inaugural (que pela sua relevância falaremos noutra postagem) pelo Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e um concerto de música sacra (que iniciou às 19h).

Ontem, quarta-feira (06/07), a primeira palestra foi de Dom Alcuin Reid, sobre o Debate dos Padres Conciliares sobre o Esquema sobre a Sagrada Liturgia.
Após um coffee break, Dom Charbel Pazat de Lys falou sobre a Natureza Pública da Liturgia e o Prof. Peter Stephan falou sobre as Vicissitudes da Liturgia e da Arquitetura mostradas no exemplo da Catedral de Santa Edwiges de Berlim.
Após o almoço, Dr. Jennifer Donelson tratou sobre Origens e Efeitos da Missa Lecta: formação musical sacerdotal numa cultural de missa rezada.
Após o chá houve debates sobre música sacra.
Às 19h o Cardeal Robert Sarah celebrou Missa Solene na Forma Ordinária do Rito Romano (terceira edição típica do Missal, 2002).

Hoje, quinta-feira (07/07), mais três palestras ocorrem antes do almoço:
Dr. Clare Hornsby fala sobre o Concílio de Florença de 1439.
Pe. Michael Lang fala sobre a Reforma Litúrgica Tridentina numa perspectiva histórica.
O bispo D. Alan Hopes fala sobre uma revisão da tradução da Liturgia das Horas.
À tarde, Prof. Joris Geldhof tratará da Liturgia além do secular e Dr. Stephen Bullivant sobre a Nova Evangelização e a (reforma da) Reforma Litúrgica, especialmente em territórios de missão.
Aproveitando o aniversário do Summorum Pontificum, a noite terminará com um Pontifical Solene na Forma Extraordinária do Rito Romano (edição de 1962) celebrado pelo Arcebispo D. Salvatore Cordileone.

Amanhã, sexta-feira (08/07), as palestras serão:
Liturgia e Deus Triuno: repensando a teologia trinitariana, por Prof. Helmut Hoping.
O caráter ético dos Mistérios: observações de um teólogo moral, por Pe. Michael Cullinan.
Fazer o mundo liturgicamente: manejo da Criação e cuidado com os pobres, por Prof. David Fagerberg.
Culto Divino: o Missal e os livros litúrgicos próprios da tradição anglicana, por Mons. Andrew Burnham.
O dia termina com reflexões conclusivas por D. Salvatore Cordileone.
O evento será fechado com uma Missa Solene/Culto Divino segundo a tradição litúrgica do Ordinariato Pessoal para Anglicanos, celebrada por Mons. Keith Newton.

Confira o site oficial: http://sacraliturgiauk.org/
A programação original, com mais detalhes, encontra-se aqui.

Eis aí um evento bastante rico que esperamos dar muitos bons frutos para a sadia renovação da vida litúrgica da Igreja.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

A Missa Votiva do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo

Pax et bonum!
Preciosíssimo Sangue de Cristo, pintura de autor anônimo, séc. XVII ou XVIII

Entramos no mês de julho, entramos num novo semestre. No Calendário Romano Geral da Forma Extraordinária do Rito Romano, celebramos hoje, 01/07, a Festa do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Sobre esta devoção, diz São João XXIII (Carta Apostólica Inde a primis, 9-10):
Ao aproximar-se a festa e o mês dedicados ao culto do Sangue de Cristo, preço do nosso resgate, penhor de salvação e de vida eterna, façam-na os fiéis objeto de meditações mais devotas e de comunhões sacramentais mais freqüentes. Iluminados pelos salutares ensinamentos que promanam dos Livros sagrados e da doutrina dos padres e doutores da Igreja, reflitam no valor superabundante, infinito desse Sangue verdadeiramente preciosíssimo, do qual "uma só gota pode salvar o mundo todo de toda culpa", como canta a Igreja com o Angélico Doutor, e como sabiamente confirmou o nosso predecessor Clemente VI.
Porquanto, se infinito é o valor do Sangue do Homem-Deus, e se infinita foi a caridade que o impeliu a derramá-lo desde o oitavo dia do seu nascimento, e depois, com superabundância, na agonia do horto (cf. Lc 22,43), na flagelação e na coroação de espinhos, na subida ao Calvário e na crucifixão, e, enfim, da ampla ferida do seu lado, como símbolo desse mesmo Sangue divino que corre em todos os sacramentos da Igreja, não só é conveniente, mas é também sumamente justo que a ele sejam tributadas homenagens de adoração e de amorosa gratidão por parte de todos os que foram regenerados nas suas ondas salutares.
Pois bem, na Reforma Litúrgica Conciliar e pós-Conciliar, esta festa foi unida à festa do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, sendo ambos agora celebrados na unidade do mistério do Santíssimo Sacramento, no dia de Corpus Christi.
O Missal reformado, todavia, permanece trazendo uma Missa Votiva ao Preciosíssimo Sangue de nosso amado Salvador.
Eis abaixo as orações e antífonas do Próprio desta Missa (textos da atual tradução brasileira do Missal Romano):

MISSAS VOTIVAS
5. PRECIOSÍSSIMO SANGUE
DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Paramentos vermelhos.

Antífona da entrada (Ap 5,9-10)
Vós nos resgatastes, Senhor, pelo vosso Sangue,
de todas as raças, línguas, povos e nações,
e fizestes de nós um reino para o nosso Deus.

Oração do dia
Ó Deus, que resgatastes a todos
pelo Sangue precioso do vosso Filho,
conservai em nós a obra de vossa misericórdia
para que, celebrando sem cessar
o mistério de nossa salvação,
possamos alcançar os seus frutos.
Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
na unidade do Espírito Santo.

Sobre as oferendas
Ao vos apresentar, Senhor Deus, as nossas oferendas,
possamos, por estes sacramentos, 
aproximar-nos de Jesus, o Mediador da nova aliança,
e renovar-nos pela aspersão salutar de seu Sangue.
Por Cristo, nosso Senhor.

Prefácio da Paixão do Senhor, I
O poder da cruz
Na quinta semana da Quaresma e nas Missas dos mistérios da cruz e da Paixão do Senhor.
V. O Senhor esteja convosco.
R. Ele está no meio de nós.
V. Corações ao alto.
R. O nosso coração está em Deus.
V. Demos graças a Deus.
R. É nosso dever e nossa salvação.
Na verdade é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso. O universo inteiro, salvo pela Paixão de vosso Filho, pode proclamar a vossa misericórdia. Pelo poder radiante da cruz, vemos com clareza o julgamento do mundo e a vitória de Jesus crucificado. Por ele, com os anjos e todos os santos, nós vos louvamos, cantando (dizendo) a uma só voz:
Santo, Santo, Santo...

Antífona da comunhão (Cf. 1Cor 10,16)
O cálice de bênção pelo qual damos graças
é a comunhão no Sangue de Cristo;
e o pão que partimos é a comunhão no Corpo do Senhor.

Depois da comunhão
Restaurados, ó Deus,
pelo alimento e a bebida da salvação,
fazei sejamos sempre lavados
pelo Sangue de nosso Salvador;
torne-se ele em nós
uma fonte que jorra para a vida eterna.
Por Cristo, nosso Senhor.
Ou:
Restaurados pelo alimento e a bebida celestiais,
nós vos pedimos, ó Deus todo-poderoso,
livreis do temor do inimigo
aqueles que foram resgatados
pelo Sangue precioso do vosso Filho.
Que vive e reina para sempre.

Que os textos acima sirvam para a pia meditação, por parte de quem os ler.
Ademais, fazemos um especial convite a todos os sacerdotes para que celebrem hoje, e/ou noutros dias do mês de julho, esta Missa Votiva do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.
"As Missas votivas sobre os mistérios do Senhor ou em honra da Bem-aventurada Virgem Maria, dos Anjos, de algum Santo ou de todos os Santos, podem ser celebradas para favorecer a devoção dos fiéis nos dias de semana do Tempo comum, mesmo que ocorra uma memória facultativa" (Instrução Geral sobre o Missal Romano, 375).

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Natureza e sentido da coroação da imagem da Virgem Maria

Pax et bonum!
Salve Maria!

Nestes últimos dois dias do mês de maio, dedicado tão carinhosamente à devoção filial para com a Santíssima Virgem Maria, gostaríamos de partilhar um link para o Ritual de Coroação de Imagem da Bem-aventurada Virgem Maria (em pdf).
Trata-se aqui do rito de coroação de uma imagem célebre, a quem o povo já acorre com bastante confiança. 
É conveniente que esta coroação seja feita por um bispo. Daqui se entende, como afirma o autor da Apresentação, D. Clemente Isnard, OSB, que não se trata de um rito para as coroações populares no fim do mês de maio. Todavia, a explicação do rito, as rubricas, a estrutura e mesmo parte das orações podem servir de inspiração.
Da explicação do rito, temos uma breve e interessante catequese:

Natureza e sentido da coroação da imagem da Virgem Maria

O costume de representar Nossa Senhora coroada com diadema real foi-se propagando desde os tempos do Concílio de Éfeso, tanto no Oriente como no Ocidente. Os artistas cristãos frequentemente pintavam a gloriosa Mãe do Senhor assentada em trono real, ornada de insígnias régias e rodeada de uma corte numerosa de anjos e santos. Nessas imagens por vezes aparece o divino Redentor cingindo a Mãe com coroa refulgente.
(...)
[Pelo rito de coração de uma imagem de Nossa Senhora,] a Igreja proclama que com razão se deve considerar e invocar a Virgem Maria como Rainha, pois ela é:
- Mãe do Filho de Deus e do Rei Messias: de fato Maria é Mãe de Cristo, do Verbo encarnado, no qual foi criado "tudo o que existe no céu e na terra, o visível e o invisível, Tronos, Dominações e Potestades", Mãe do Filho de Davi, do qual o anjo profetizou: "Será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi seu pai, e reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e seu reino não terá fim"; por isso Isabel, cheia do Espírito Santo, saudou Maria, grávida de Cristo, como "Mãe do Senhor".
- Companheira santa do Redentor: a Virgem Maria, nova Eva, por desígnio eterno de Deus, teve parte eminente na obra da salvação, pela qual Cristo Jesus, novo Adão, nos remiu e adquiriu, não com ouro ou prata corruptível, mas com o próprio sangue e fez de nós um reino para o nosso Deus. 
- Discípula perfeita de Cristo: a Virgem de Nazaré, consentindo no projeto divino, progredindo na peregrinação da fé, ouvindo e guardando a Palavra de Deus, e conservando fielmente a união com o Filho até à cruz, mereceu de maneira superior "a coroa da justiça", "a coroa da vida", "a coroa da glória", prometida aos fiéis discípulos de Cristo; portanto, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celeste. E, para que mais plenamente estivesse conforme a seu Filho, Senhor dos senhores (cf. Ap 19,16) e vencedor do pecado e da morte, foi exaltada pelo Senhor como "Rainha do Universo".
- Membro supereminente da Igreja: a Serva do Senhor, que se tornou a perfeição final do velho Israel e o santo começo do novo Povo de Deus, é "a porção máxima, a porção ótima, a porção principal, a porção distintíssima da Igreja"; bendita entre as mulheres, pelo singular encargo, que lhe foi confiado para com Cristo e todos os membros do seu corpo místico, é também pela abundância de virtudes e plenitude de graça que ela se eleva sobre a raça eleita, sacerdócio real, gente santa que é a Igreja. Pois a glória da Santíssima Virgem, filha de Adão, irmã dos homens, não só honra o povo de Deus, mas ainda enobrece todo o gênero humano.