quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O que a oposição à Missa Tradicional realmente significa?

"O que a oposição à Missa Tradicional realmente significa?"
Peter Kwasniewski
Cardeal Raymond Burke celebrando Missa Pontifical na Forma Extraordinária
no Altar da Cátedra, na Basília de São Pedro, em 25/10/2014

No mundo pós-Summorum, o antigo Rito romano não pode mais ser considerado proibido, duvidoso, marginal ou obsoleto. Ele goza dos mesmos direitos de cidadania do Novus Ordo: duas formas do Rito Romano - uma chamada de Ordinária por ter sido mais recentemente promulgada e mais amplamente usada, a outra chamada de Extraordinária, o Usus Antiquior (uso mais antigo), merecendo respeito por seu venerável uso - podendo cada uma ser livremente celebrada por qualquer sacerdote do rito Romano, sem a necessidade de nenhuma permissão especial. Poder-se-ia pensar que, como gesto de reconciliação no coração da Igreja, as duas formas estariam florescendo lado a lado, com os católicos sendo privilegiados por toda parte ao experimentar ambas, oferecidas de maneira bela e reverente.
Mas isto ainda está longe da realidade e, infelizmente, ainda há bispos e presbíteros demais que se opõem à Missa tradicional, amarram-na com condições opressivas, ou recorrem a políticas de poder para assegurar que seus apoiadores sejam devidamente advertidos e penalizados por abraçarem imprudentemente a nossa herança Católica.
Ao passo em que hoje (NT: este texto foi publicado no dia 14/09/2014) comemoramos o VII aniversário da implementação do Summorum Pontificum, cujas provisões entraram em efeito no dia 14 de setembro de 2007, será ao mesmo tempo edificante e sensato considerar o significado que o próprio Joseph Ratzinger atribuiu à oposição à Missa tradicional. O que significa quando alguém se opõe a esta Missa, ou àqueles que a celebram, ou àqueles que a estimam como uma forma de oração querida a eles?
No livro-entrevista "Sal da Terra", publicado em 1997, Ratzinger disse:
"Sou de opinião, com certeza, de que o rito antigo deveria ser concedido muito mais generosamente para aqueles que o desejam. É impossível encontrar algo que poderia ser perigoso ou inaceitável nisso. Uma comunidade está pondo seu próprio ser em jogo ao declarar subitamente que aquilo que era sua mais sagrada e elevada posse está estritamente proibido, e quando faz a saudade disso parecer algo absolutamente indecente. Isso é confiável? Não será proibido amanhã o que é prescrito hoje?" (176-77)
Dez anos antes do Summorum, ele estava pondo seu dedo no xis do problema. Se a liturgia, que era a posse mais sagrada e elevada da Igreja por séculos, o objeto de total veneração e honra, os meios de santificação para um sem número de Católicos, é repentinamente proibida, e se o desejo de prestar culto como nossos antepassados fizeram é tratado como errado, o que dizer sobre a própria Igreja, seu passado, sua tradição e os seus próprios santos? Realmente, sua credibilidade desaparece inteiramente, suas proclamações tornam-se ditames arbitrários. Houve algo fatalmente falho, por todo este tempo, com nosso ato central de culto? Estavam todos os papas do passado, que amorosamente cultivaram esta liturgia, enganados e todos os missionários que a levaram por todo o globo mal orientados? Poderiam eles dizer, nas palavras de Agur, filho de Jaque, de Massa: “Não aprendi a sabedoria e não conheci a ciência do Santo”? (Pr 30, 3).
Em "Deus e o mundo" (2002), outra daquelas entrevistas esplendidamente perspicazes e doutrinalmente robustas que agora, em retrospecto, servem para uma tal leitura melancólica, Ratzinger voltou ao ponto:
"Para fomentar uma verdadeira consciência em matéria litúrgica, também é importante que a proibição contra a forma da liturgia em vigor até 1970 seja levantada. Qualquer um que, hoje em dia, advoque a existência contínua desta liturgia ou tome parte nela é tratado como um leproso; toda tolerância termina aí. Nunca houve nada assim na história; ao fazer isto estamos desprezando e proibindo o passado inteiro da Igreja. Como alguém pode confiar no presente dela se as coisas estão assim? Devo dizer, de forma bastante aberta, que eu não entendo porque tantos de meus irmãos no episcopado têm se submetido em grande medida a esta regra de intolerância, que sem razão aparente é oposta a se fazerem as reconciliações internas na Igreja". (416)
Aqui nós temos uma linguagem surpreendentemente semelhante à que encontraremos cinco anos depois na carta do Papa Bento aos Bispos, que acompanhou o Summorum Pontificum. Uma vez mais, encontramos a intrigante insistência sobre a posse da correta atitude quanto à imortal e vivificante herança da Igreja. Os ritos litúrgicos que cresceram das sementes apostólicas durante a permanência da Igreja através da história são frutos daquele que é o Senhor e doador da Vida, e elas não podem, por elas mesmas, nem morrer e nem trazer morte - e nem podem ser legitimamente proibidas.
Isto explicaria por que o Papa Bento XVI, no Summorum Pontificum, diz que a Missa Latina Tradicional “deve gozar da devida honra pelo seu uso venerável e antigo" e, na Carta aos Bispos, acrescenta: "Aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós, e não pode ser de improviso totalmente proibido ou mesmo prejudicial. Faz-nos bem a todos conservar as riquezas que foram crescendo na fé e na oração da Igreja, dando-lhes o justo lugar".
Dar a devida honra, que se traduz na celebração atual do rito, não é um assunto opcional, e é por isso que deveríamos polidamente rejeitar que sejamos nós ou nossos amigos católicos categorizados como pessoas com certas "preferências": "Ó, você prefere o antigo e eu prefiro o novo". Não, isto vai além das preferências, rumo à própria estrutura da Fé Católica: aquelas coisas que são veneráveis e antigas devem receber a devida honra; o que as gerações anteriores tiveram como sagrado deve ser sagrado - e grande! - para nós também; é nossa incumbência preservar estas riquezas e certificarmo-nos de que elas ocupem seu lugar adequado na vida da Igreja hoje.
Novamente, um sinal de que estamos lendo corretamente o Papa Bento é que a instrução esclarecedora Universae Ecclesiae vem à luz para enfatizar estes pontos. De fato, a seção 8 deste documento é surpreendente em sua simplicidade sem compromissos, em sua total falta de qualificações restritas ou lacunas:
"O Motu Proprio Summorum Pontificum constitui uma expressão privilegiada do Magistério do Romano Pontífice e do seu próprio múnus de regulamentar e ordenar a Liturgia da Igreja e manifesta a sua preocupação de Vigário de Cristo e Pastor da Igreja universal. O Motu Proprio se propõe como objetivo:
a) oferecer a todos os fiéis a Liturgia Romana segundo o Usus Antiquior, considerada como um tesouro precioso a ser conservado;
b) garantir e assegurar realmente a quantos o pedem o uso da forma extraordinária, supondo que o uso da Liturgia Romana vigente em 1962 é uma faculdade concedida para o bem dos fiéis e que por conseguinte deve ser interpretada em sentido favorável aos fiéis, que são os seus principais destinatários;
c) favorecer a reconciliação ao interno da Igreja."
Com estes pontos estabelecidos, podemos prontamente ver por que qualquer movimento na tentativa de obstruir ou diminuir a presença do usus antiquior na Igreja seria apenas uma causa de grande dano hoje e de estrago a longo prazo.
Primeiro, isto seria um ato e um sintoma de desobediência, algo que nunca é abençoado por Deus e sempre é por ele punido. Mais especificamente, constituiria desobediência às provisões legais do Papa Bento XVI no Summorum Pontificum (e seus esclarecimentos na Universae Ecclesiae), bem como à bem conhecida afirmação de São João Paulo II de que "em toda a parte deverá ser respeitado o espírito de todos aqueles que se sentem ligados à tradição litúrgica latina, mediante uma ampla e generosa aplicação das diretrizes, já há tempos emanadas pela Sé Apostólica, para o uso do Missal Romano segundo a edição típica de 1962". Como demonstrado acima, não basta abster-se de falar mal dos ritos sacramentais tradicionais; eles devem ser conhecidos e amados, reintroduzidos e promovidos, estudados nos seminários, oferecidos generosamente aos fiéis como um tesouro precioso.
Segundo, e mais profundo, o culto divino toca o coração da vida espiritual de uma pessoa, o que há de mais íntimo e querido. Qualquer recusa a compartilhar os tesouros da Igreja, quaisquer restrições mão-de-ferro contra aquilo que já está disponível (ou deveria estar), só pode provocar ira, decepção e desconfiança, ferindo a unidade da Igreja, que é um bem frágil e de valor enorme. Certos bispos, presbíteros e leigos podem não ter grande amor pela Forma Extraordinária, mas eles têm o dever de reconhecer e respeitar a minoria considerável que o tem, e considerar que privá-los disso, ou conceder-lhes de má vontade, é praticamente a coisa mais ofensiva que se possa fazer — como dar um tapa na esposa, na mãe ou na avó de um homem. Para ser contundente, aqueles que sinceramente querem paz e compreensão mútua fariam melhor agindo com generosidade ou então podem acabar com outra Guerra Fria eclesiástica nas mãos. E quem é que deseja isso?
Não é necessário ter graduação em física nuclear para ver que um número significativo e grande de católicos está afluindo a paróquias e capelas onde a Missa tradicional está sendo celebrada, e com suas (em média) famílias numerosas e forte adesão ao homeschooling, o futuro pertence a eles. Em 1988 havia cerca de 20 missas tradicionais semanalmente aos domingos; hoje o número passa de 500. Não há razão para lutar contra este movimento, e há todas para apoiá-lo.
Apesar da ansiedade daqueles que acham difícil dar uma chance à paz e à coexistência mútua, a Forma Extraordinária não é um problema para a Igreja, e, como Ratzinger/Bento ajuda-nos a ver, nunca poderia haver um problema nela ou a partir dela. Em vez disso, pode-se encontrar atitudes infelizes de tradicionalistas que afastam ou provocam — e, para ser bastante justo, isso corta dos dois lados, já que os promotores do Novus Ordo frequentemente exibem atitudes ofensivas próprias, numa espécie de fusão peculiar entre liberalismo teórico e totalitarismo prático. A coisa a ser feita não é limitar e controlar zelosamente o usus antiquior como se ele fosse uma substância viciante perigosa, abordagem que apenas alimenta aquelas atitudes infelizes, mas ensinar e modelar uma atitude correta, recebendo de braços abertos, com a humildade e a simplicidade das crianças, tudo que a própria Igreja concede, de modo que isto se torne algo normal e natural, não algo proibido (e assim, talvez, mais atraente?), controverso ou causador de divisões.
Demos a palavra final ao Papa Bento, de sua Carta aos Bispos de 7 de julho de 2007:
"Vem-me à mente uma frase da segunda carta aos Coríntios, quando Paulo escreve: 'Falamo-vos com toda a liberdade, ó Coríntios. O nosso coração abriu-se plenamente. Há nele muito lugar para vós, enquanto no vosso não há lugar para nós (…): pagai-nos na mesma moeda, abri também vós largamente o vosso coração' (2Cor 6,11-13). É certo que Paulo fala noutro contexto, mas o seu convite pode e deve tocar-nos também a nós, precisamente neste tema. Abramos generosamente o nosso coração e deixemos entrar tudo aquilo a que a própria fé dá espaço".

Fonte: http://www.newliturgicalmovement.org/2014/09/what-does-opposition-to-traditional.html

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

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