quarta-feira, 8 de julho de 2009

Dois anos de Summorum Pontificum

PAX et BONVM!

Embora já passe uma hora do fim do dia 7/7/9, finalmente posto algo sobre este segundo aniversário do Motu Proprio Summorum Pontificum, do papa Bento XVI, sobre o uso da liturgia romana anterior às reformas pós-conciliares.
Rendemos graças a Deus por este documento, pelo qual muito já se enriqueceu a vida litúrgica de muitas paróquias e comunidades religiosas pelo mundo afora. Infelizmente não faltaram (e não faltam) posições preconceituosas e cheias de temores infundados, como já advertera o Santo Padre na carta aos bispos que acompanhava o documento.

Nesta ocasião recordamos também a publicação da mais nova encíclica do Santo Padre - CARITAS IN VERITATE, sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade.

Ainda no contexto do Summorum Pontificum, segue uma notícia interessante sobre o novo apostolado litúrgico dos monges beneditinos de Núrsia (responsáveis pelo próprio Santuário de São Bento):

O dia 7 de julho de 2009 marca o segundo aniversário do Motu Proprio do Papa Bento XVI Summorum Pontificum. Para esta ocasião, os monges de Núrsia têm o prazer de anunciar um novo apostolado litúrgico, dado a nós pela Santa Sé. O Mosteiro de São Bento em Núrsia foi solicitado para celebrar o Santo Sacrifício da Missa in utroque usu – de acordo com as formas ordinária e extraordinária do Rito Romano.

Entrevista com o prior, Fr. Cassian Folsom, OSB

Esta decisão diz respeito ao Concílio Vaticano II?

Seria útil ler cuidadosamente o documento conciliar sobre a Liturgia, Sacrosanctum Concilium. SC 22 diz que: “Regular a sagrada Liturgia compete unicamente à autoridade da Igreja, a qual reside na Sé Apostólica e, segundo as normas do direito, no Bispo”. O Motu Proprio Summorum Pontificum, do Papa Bento, simplesmente reitera esse princípio, e legisla quanto ao uso do rito antigo ao lado do novo. O Papa Bento também enfatiza que o modo de interpretar os documentos do Concílio é pela hermenêutica da continuidade. Esse princípio está também expressado no documento sobre a liturgia onde se diz: "que as novas formas como que surjam a partir das já existentes” (SC 23). O que estamos realmente falando aqui é sobre legitimar o pluralismo, que o Concílio também defende: “Não é desejo da Igreja impor, nem mesmo na Liturgia, a não ser quando está em causa a fé e o bem de toda a comunidade, uma forma única e rígida” (SC 37). Assim, de todo modo, a celebração da Missa in utroque usu diz respeito ao Concílio Vaticano II. Estamos abraçando ambos os usos, e chegando a outros grupos em busca da unidade. Este é um caminho bem conciliar.

Mas isto não significa “atrasar o relógio”?

Pelo contrário, eu vejo um mosteiro “utriusque usus” como algo bem avançado, especialmente em termos de um autêntico ecumenismo. Com isso quero dizer duas coisas. Primeira, o ethos (caráter) da forma extraordinária é muito similar ao ethos de vários ritos orientais, e assim celebrar a Eucaristia de acordo com o Novus Ordo e o Ordo Antiquior permite-nos servir como uma ponte entre Oriente e Ocidente. Segunda, eu penso que precisamos de uma boa dose de “ecumenismo interno” na Igreja, para sermos capazes de dialogar com católicos ligados a formas litúrgicas mais antigas, sem prejuízo ideológico.

Como você, como um liturgista, pode justificar tal decisão?

É precisamente como um liturgista que eu tive a oportunidade de estudar e experimentar a rica variedade de tradições litúrgicas que existe na Igreja. É “politicamente correto” para católicos de rito Latino serem entusiastas do rito Bizantino. Por que não é “politicamente correto” ser entusiasta também da forma extraordinária? A história da liturgia mostra claramente uma multiplicidade de usos dentro do único rito Romano. É graças a vários anos de estudo da liturgia que eu cheguei a ver a importância desta unidade na diversidade. De fato, eu levantei esta questão na presença do então Cardeal Ratzinger numa conferência litúrgica em Fontgombault, na França, em 1997. Como um liturgista, eu também gostaria de dizer que não há um rito perfeito; há aspectos positivos e negativos em todas as tradições litúrgicas. A única liturgia perfeita é a celeste. Além do mais, tanto a forma extraordinária quanto a ordinária podem ser bem ou mal celebradas. Para uma comparação ser justa, devemos colocar o melhor de ambas lado a lado.

Como os dois usos podem influenciar-se mutuamente?

A forma ordinária salienta alguns elementos como a participação dos fiéis, o uso do vernáculo, o desenvolvimento contínuo da liturgia pela adição de novos santos ao calendário, etc.: tudo isto é importante. No risco de simplificar demais, eu diria que a forma ordinária salienta a compreensão racional, oração em prosa, por assim dizer. A forma extraordinária, talvez você o diga, também fornece rico alimento para o intelecto, mas conta muito com o gesto, o simbolismo, a intuição, o silêncio, a ação ritual sem palavras, a oração em poesia. O homem entende tanto racionalmente como intuitivamente. Ele precisa tanto da prosa como da poesia. Se os dois usos, como duas culturas diferentes, puderem pacientemente conviver ao longo do tempo, podem tornar-se amigos.

Que benefício pastoral surgirão deste novo apostolado?

O Mosteiro de São Bento em Núrsia está numa posição única. A vida pastoral da cidade é muito bem servida pelo clero diocesano. A Basílica, por outro lado, não é uma paróquia, mas um santuário, cuja atenção pastoral está focada nos peregrinos que vêm de todas as partes do mundo. Somos uma comunidade internacional servindo a um público internacional. Os peregrinos vêm para uma liturgia especificamente Beneditina, que é caracterizada pelo que eu poderia chamar de um estilo contemplativo ou monástico. Esta é a nossa única contribuição. A forma extraordinária é muito tendente a este estilo contemplativo e até místico, razão pela qual os jovens se sentem tão atraídos por ela. Nós celebramos a Missa na forma ordinária neste mesmo estilo, razão pela qual as pessoas vêm de tão longe e em tão grande número para participar de nossa Missa Dominical.

Não seria melhor ser simplesmente como todos os outros?

Para usar uma expressão tirada do mundo do comércio, crescimento e desenvolvimento dependem de se encontrar um “nicho” que tenha diferencial. Este especial apostolado de celebrar a Eucaristia in utroque usu, faz do mosteiro de Núrsia diferente, único. Tenho certeza de que isso contribuirá para o crescimento da comunidade, numa época em que os jovens não se interessam numa vocação que signifique viver “simplesmente como todos os outros”.


Tradução por Luís Augusto e Ângelo - membros da ARS

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