sábado, 20 de fevereiro de 2010

Apontamentos para a Quaresma

Pax et bonum!

Caríssimos, para esta santa Quaresma recém iniciada gostaria de fazer alguns apontamentos, com base no magistério da Igreja.
Um dos documentos mais interessantes, dos últimos 50 anos, a tratar sobre a penitência, talvez seja a Encíclica PÆNITENTIAM AGERE, do Beato João XXIII, de 01/07/62.
Esta carta é apresentada como um "convite à penitência pelo bom êxito do Concílio" [Vaticano II]. O mesmo espírito de penitência pedido pelo papa deveria ter permanecido antes, durante e depois do Concílio.
Desejo, pois, partilhar o desejo deste papa com todos os que lerem esta postagem.
Deus nos dê uma santa Quaresma!

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Assim inicia o papa:

Fazer penitência pelos próprios pecados é, para o homem pecador, segundo o explícito ensinamento de nosso Senhor Jesus Cristo, a primeira condição, não apenas para solicitar o perdão mas ainda para chegar à salvação eterna. Evidente se torna, pois, quão justificada seja a atitude da Igreja católica, dispensadora dos tesouros da divina Redenção, a qual sempre considerou a penitência como condição indispensável para o aperfeiçoamento da vida de seus filhos e para seu melhor futuro.

Falando da penitência no Antigo Testamento:

Ora, se interrogarmos os livros do Antigo e do Novo Testamento, vemos que todo gesto de mais solene encontro entre Deus e a humanidade - para nos exprimirmos em linguagem humana - sempre foi precedido de um mais persuasivo apelo à oração e à penitência.

Após citar os exemplos de Moisés e Joel, fala da penitência com a vinda do Filho de Deus:

E o próprio Jesus não inicia o seu ministério com a imediata revelação das sublimes verdades da fé, e sim com o convite a purificar a mente e o coração de tudo o que pudesse impedir o frutuoso acolhimento da boa-nova: "A partir desse momento começou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus" (Mt 4,17). Ainda mais do que os profetas, o Salvador exige dos seus ouvintes à mudança total do espírito, no reconhecimento sincero e integral dos direitos de Deus: "Eis que o Reino de Deus está no meio de vós" (Lc 17,21); a penitência é força contra as forças do mal; ensina-nos o próprio Jesus Cristo: "O Reino dos Céus sofre violência, e os violentos se apoderam dele " (Mt 11,12).

E a penitência não é para os principiantes, apenas, mas para todos:

Não se deve crer que o convite à penitência seja dirigido somente àqueles que pela primeira vez devem entrar a fazer parte do Reino de Deus. Na realidade, todos os cristãos têm o dever e a necessidade de fazer violência a si mesmos, ou para repelir os seus inimigos espirituais, ou para conservar a inocência batismal, ou para readquirir a vida da graça perdida com a transgressão dos preceitos divinos.

Penitência interior e exterior:

Antes de tudo é necessária a penitência interior, isto é, o arrependimento e a purificação dos próprios pecados, o que especialmente se obtém com uma boa confissão e comunhão, e com a assistência ao sacrifício eucarístico. (...) Vãs seriam, com efeito, as obras exteriores de penitência se não fossem acompanhadas da limpeza interior da alma e do sincero arrependimento dos próprios pecados. Neste sentido deve-se entender o severo aviso de Jesus: "Se não fizerdes penitência, todos igualmente perecereis" (Lc 13,5).
Além disto, devem os fiéis ser convidados também à penitência exterior, quer para sujeitarem o corpo ao comando da reta razão e da fé, quer para expiarem as suas culpas e as dos outros. (...)
A primeira penitência exterior que todos devemos fazer é a de, com ânimo resignado e confiante, aceitarmos de Deus todas as dores e sofrimentos que se nos deparam na vida, e tudo o que importa fadiga e incômodo no exato cumprimento das obrigações do nosso estado, no nosso trabalho cotidiano e no exercício das virtudes cristãs.

Esforços pessoais

Além das penitências que necessariamente temos de enfrentar pelas dores inevitáveis desta vida mortal, mister se faz que os cristãos sejam tão generosos a ponto de também oferecerem a Deus mortificações voluntárias, à imitação do nosso divino Redentor, que, segundo a expressão do príncipe dos apóstolos, "morreu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, a fim de vos conduzir a Deus. Morto na carne, foi vivificado no espírito" (1Pd 3,18). "Pois que Cristo sofreu na carne, deveis também vós munir-vos desta convicção" (1Pd 4,1). Sirvam nisto de exemplo e de incitamento também os santos da Igreja, cujas mortificações infligidas ao seu corpo, não raro inocentíssimo, enchem-nos de admiração e quase nos assustam. Ante esses campeões da santidade, cristã, como não oferecer ao Senhor alguma privação ou pena voluntária da parte também dos fiéis, que talvez tantas culpas tenham a expiar? Elas são tanto mais agradáveis a Deus quanto não vêm da enfermidade natural da nossa carne e do nosso espírito, mas espontânea e generosamente são oferecidas ao Senhor em holocausto de suavidade.

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Por Luís Augusto - membro da ARS

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