segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Uma reflexão sobre a Liturgia celebrada "ad orientem"

Pax et bonum!

Peço perdão a todos por não ter podido postar nada sobre o Consistório, nem sobre Cristo Rei, nem sobre a Vigília pela vida humana nascente (pedida pelo papa para este dia 27, sábado).
Encontrei, porém, um texto muito interessante e recente (06/11/10) na internet, que mostra um pouco do panorama de apego a costumes, desconhecimento da tradição, benefício das práticas tão recomendadas no contexto de Reforma da Reforma e excesso de temor nos sacerdotes.
O texto fala da primeira experiência de um padre quanto a celebrar voltado com o povo para a mesma direção. Traz um belo cume, mas termina de modo, diria, "infeliz".
Não culpo o autor do desabafo (Pe. Richard Simon, Paróquia de Saint Lambert, Skokie - Illinois, EUA). Diria que se trata de um daqueles textos que nos interpelam (sobretudo os padres), pedindo de nós uma atitude concreta, que nos retire da estagnação.
O Novo Movimento Litúrgico, sua necessidade e atitudes, é uma realidade tanto na base como no topo da hierarquia. Todavia há resistências (e não poucas), por diversos motivos.
Desejo, pois, uma boa leitura.
Deus abençoe com coragem, prudência e caridade o Pe. Richard (o "Pe. Sabetudo", ou no original: Reverend Know-it-all) e tantos outros sacerdotes que se encontram receosos de colaborar com o Santo Padre, com medo (constato-o com tristeza) do povo ou de seus bispos.

***

Ao contrário do usual "Pe. Sabetudo" desta semana, eu gostaria de partilhar algumas reflexões sobre uma recente experiência. Ao fim de uma conferência sobre os Padres da Igreja, eu rezei a forma ordinária da Missa, o chamado Novus Ordo, em inglês. Não foi diferente de nenhuma outra Missa no Novus Ordo, a não ser por uma exceção.

Para o Ofertório, o Cânon e o Pai nosso eu fiquei voltado para o altar e não para a assembleia. Eu rezei as orações iniciais da cadeira do presidente, onde permaneci para as leituras. Usei um microfone, como de costume. Rezei, então, o Credo e as orações dos fiéis, desci para receber as oferendas do pão e do vinho e, então, voltei-me diretamente para o altar, não indo ficar do outro lado dele. O diácono e eu nos voltamos para a assembleia para o "Orai, irmãos e irmãs..." Voltei-me para ela novamente para a saudação da paz e depois para o "Felizes os convidados..." Depois da distribuição da Sagrada Comunhão, retornei para a cadeira do presidente e terminei a Missa como de costume. A música foi muito simples, com um pouco de órgão, a maior parte com canto plano em inglês, um pouco de latim nas partes ordinárias da Missa, todas as orações e leituras em inglês. Avisei a assembleia que faria isso essa vez apenas como parte da conferência que estávamos tendo na paróquia. Não estive voltado para a assembleia por cerca de 14 dos 55 minutos, ao todo.
Fiz isso como uma experiência. Suspeitei que os Padres do Concílio Vaticano II nunca imaginaram a Missa voltada para o povo. Eu queria saber como a Missa do Vaticano II realmente devia se parecer: um pouco de inglês, de latim, canto gregoriano, canto sem instrumento e um equilíbrio quanto a voltar-se para o povo, ao me dirigir a ele, e voltar-se para o altar, ao me dirigir ao Pai. Penso que seja isso o que é indicado pelas rubricas do Missal quando se fala de seus momentos da Missa em que o padre deve se voltar para a assembleia:

1) Na saudação inicial (IGMR 124);
2) Ao fazer o convite para a oração dizendo: "Orai, irmãos e irmãs..." (IGMR 146);
3) Ao fazer a saudação da paz (IGMR 154);
4) Ao apresentar a Hóstia e o Cálice antes da comunhão dizendo: "Felizes os convidados..." (IGMR 157);
5) Ao convidar o povo para rezar antes da Oração depois da Comunhão (IGMR 165);
6) Ao dar a bênção final (Ordo Missae 141).

O fato de essas rubricas existirem parece assumir que o sacerdote não esteja voltado para a assembleia durante algum tempo na liturgia.

Depois da Missa, os comentários foram variados. Alguns amaram, uma boa parte não gostou e alguns ficaram zangados. Particularmente, alguém zangado apontou para mim e dizia que "o Papa mandou uma carta a todos os padres mandando-lhes ficar de frente para o povo". Ora, como é que você pode provar algo que jamais aconteceu? Roma nunca disse nada sobre ter que ficar de frente para o povo durante a Missa. Deve-se fazê-lo apenas seis vezes. É um dos grandes mistérios do nosso tempo: por que, da noite para o dia, a maioria dos altares nas igrejas católicas foram virados?

Houve certas experiências nos anos 50 por pessoas como Balthasar Fischer, baseado na ideia de que os primeiros Cristãos celebravam a Missa de frente para a assembleia. De acordo com o Dicionário Oxford da Igreja Cristã, o costume de não ficar voltado para o povo se originou no clero franco por volta do ano 700 ou 800. Eu queria saber por que escrevem isso.

Por duas razões, eu fiquei em dúvida se a Missa sempre foi celebrada completamente de frente para a assembleia. Voltar-se para o oriente, o que normalmente significa ficar de costas para o povo, é a postura comum na oração litúrgica da tradição Bizantina, Siríaca, Armênia, Copta e Etíope. Ainda é o costume na maior parte dos ritos orientais, pelo menos durante a Oração Eucarística. Fazem-no desde tempos imemoriais até hoje. Não teriam feito isso só para se adaptar aos bárbaros francos do ocidente, 700 anos depois de Cristo. Este costume da assembleia e do sacerdote estarem voltados para a mesma direção na oração tem sido universal até 1967. Os primeiros Cristãos foram judeus por um século depois de Pentecostes, pelo menos de acordo com o sociólogo Rodney Stark. Voltar-se para uma direção sagrada e não para a assembleia era normal nos serviços da sinagoga, de onde a Missa se desenvolveu. Os judeus ortodoxos ainda se voltam para o oriente, ou mais precisamente, para Jerusalém, e não para a assembleia em grande parte do serviço (culto). É um gesto natural.

Eu, todavia, queria não ter celebrado a Missa sem ser voltado para a assembleia, e não por causa da raiva dirigida a mim. Sou um padre católico. Estou acostumado a pessoas se zangando comigo. Eu queria não ter celebrado a Missa na postura que acredito ter sido a assumida pelos Padres do Concílio Vaticano II, porque esta foi uma das experiências mais belas da minha vida sacerdotal! Você não pode imaginar como foi dizer coisas como "nós", "Pai nosso", "para nós" de pé, à frente da assembleia, estando todos juntos numa expressão física de unidade. Não importa o quanto alguém possa argumentar em contrário: é impossível dizer "nós" enquanto se olha para 500 pessoas sem estar falando para elas.

A Missa é uma oração dirigida ao Pai, e não obstante a nossa melhor intenção, nós clérigos a dirigimos à assembleia, para onde estamos olhando. Não importa o que você faça. A face humana é algo muito poderoso. Último sábado, à noite, eu percebi pela primeira vez que eu sou parte de uma família de fé voltada para o mesmo Pai celeste. Eu senti como se fosse parte de uma Igreja em oração. Nunca tinha me dado conta do quanto é solitário celebrar a Missa de frente para o povo. E estou lá olhando para você, mas não sou parte de você. Já por 13 ou 14 minutos, você não estava olhando para mim. Estávamos olhando para Deus.

Amo a Missa Tridentina, ou como devemos chamar, a "forma extraordinária". Acho que o Santo Padre tem sido sábio ao permitir seu reavivamento para aqueles a quem ela tem seu significado. Seu senso de solenidade é muito bonito e consagra uma dimensão essencial do mistério do culto. Eu ensinei latim por 25 anos, eu entendo os complexos rituais da Missa antiga. Eles significam muito para mim. Ainda, não acho que se deveria retornar para o uso exclusivo do latim. Acho que os Padres Conciliares estavam certos sobre simplificar a Missa.

O Espírito Santo antecipou as dificuldades de nossos tempos. A simplificação dos belos e complexos gestos da Missa Trindentina é inteiramente apropriada aos tempos em que vivemos. No mesmo sentido deveria haver um balanço pastoral entre a língua comum e a "linguagem sagrada". As pessoas rezam melhor em sua própria língua-mãe. Lembremos que o latim era o vernáculo quando a Missa era em grego. O próprio latim foi uma concessão para a mente popular. Dito isto, nós clérigos deveríamos admitir que nós consagramos os abusos litúrgicos que estiveram no coração da rebelião contra a tradição. Nós ficamos estagnados nos anos 60 e nos tornamos incapazes de olhar para a hemorragia de nossas assembleias. Nós falhamos em inspirar o povo com um sentido de sagrado e sublime e gerações foram se perdendo do Senhor e do Evangelho.

Eu sei que a maioria das pessoas na minha assembleia se ofenderiam se eu começasse a ficar de frente para o altar regularmente, porque não estão acostumados a isso. Eu seria acusado de sectarismo ou de algum crime parecido, então acho que não vai dar certo. Mas de agora em diante, toda vez que eu celebrar a Missa olhando para a assembleia, e eles olhando para minha cara feia, eu me lembrarei de como poderia ser e de como deveria ser. Tenho medo de estar sendo um apresentador tanto quanto um sacerdote. Eu quero ser um sacerdote, mas o show deve continuar.



Obs: talvez os números citados da IGMR e do OM não correspondam com a edição brasileira ou mesmo com a latina na terceira edição (não verifiquei).

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

Um comentário:

Rafael disse...

Ah, que magnífico artigo. Muito obrigado pela tradução.

Se todos os padres do mundo tivessem a oportunidade de celebrar ad Orientem ao menos uma vez na vida, as coisas seriam diferentes. Este padre, se cada vez que celebrar versus populum se lembrar que deve orientar-se a Deus, vencerá a tentação de ser um animador de auditório que esta posição suscita. E isso produzirá com o tempo muitos frutos, tanto para ele, sacerdote, quanto para o povo fiel. Pode ter certeza disso.