quinta-feira, 26 de março de 2015

O lava-pés

Pax et bonum!

D. Fouad Twal, patriarca latino de Jerusalém,
durante o lava-pés na Missa Vespertina da Ceia do Senhor de 2014
Estamos nos últimos dias da Quaresma, às portas da Semana Santa.
Para ajudar na compreensão de um dos gestos mais presentes na memória popular, acerca do Tríduo Pascal, segue a tradução de parte de um artigo da Catholic Encyclopedia, seguida das indicações do Missal Romano e do Cerimonial dos Bispos (conforme a Forma Ordinária do Rito Romano).

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Devido ao uso geral de sandálias nos países orientais, o gesto de lavar os pés era conhecido em quase todo lugar, desde tempos antigos, como um dever de cortesia a ser mostrado aos convidados ou hóspedes (Gn 18,4; 19,2; Lc 7,44; etc.). A ação de Cristo depois da Última Ceia (Jo 13,1-15) também revestiu tal gesto com um profundo significado religioso e, de fato, até o tempo de São Bernardo encontramos escritores eclesiásticos, pelo menos ocasionalmente, dando a esta cerimônia o termo Sacramentum em seu sentido mais amplo, pelo qual sem dúvida queriam dizer que possuía a virtude do que agora chamamos de sacramental. O mandamento de Cristo de lavar os pés uns dos outros deve ter sido entendido inicialmente no sentido literal, pois São Paulo (1Tm 5,10) implica que uma viúva, para ser honrada e consagrada na Igreja, deveria ser "conhecida pelo seu bom comportamento, tenha educado bem os filhos, exercido a hospitalidade, lavado os pés dos santos, socorrido os infelizes e praticado toda espécie de boas obras". Esta tradição, podemos crer, nunca foi interrompida, embora a evidência nos séculos antigos seja dispersa e descontínua. Por exemplo, o Concílio de Elvira (ano 300), no cân. xlviii estabelece que os pés dos que estão prestes a ser batizados não devem ser lavados por sacerdotes, mas presumivelmente por clérigos ou pelo menos por leigos. Esta prática de lavar os pés durante o batismo manteve-se por longo tempo na Gália, em Milão e na Irlanda, mas aparentemente não era conhecida em Roma ou no Oriente. Na África, o nexo entre esta cerimônia e o batismo tornou-se tão estreito que parecia perigoso o gesto ser tomado erroneamente com parte integral do rito do próprio batismo (Santo Agostinho, Ep. LV, "Ad Jan.", n. 33). Por conta disso, o gesto de lavar os pés foi, em muitos lugares, fixado para um dia que não fosse aquele em que acontecia o batismo. Nas ordens religiosas, a cerimônia encontrou acolhida como prática de caridade e humildade. A Regra de São Bento manda que ela seja realizada todo sábado, para toda a comunidade, por aquele que exerceu o ofício de cozinheiro durante a semana; ao mesmo tempo em que também se prescrevia que o abade e os irmãos lavassem os pés do que eram recebidos como hóspedes. O ato era religioso e devia ser acompanhado por orações e salmos, "pois em nossos hóspedes o próprio Cristo é honrado e recebido". O lava-pés litúrgico (se podemos confiar na evidência negativa de nossos registros mais antigos) parece ter se estabelecido no Ocidente e no Oriente somente em data relativamente tardia. Em 694, o XVII Sínodo de Toledo ordenou a todos os bispos e presbíteros em posição de superioridade, sob pena de excomunhão, que lavassem os pés dos que lhes estavam submissos. O assunto também é discutido por Amalário e outros liturgistas do séc. IX. Se o costume de observar este lava-pés (ou mandato ou "maundy", termo inglês usado para a Quinta-feira Santa, originado da frase latina "Mandatum novum do vobis" - "Eu vos dou um novo mandamento", que são as primeiras palavras da antífona inicial) na Quinta-feira Santa, desenvolveu-se fora da prática batismal originalmente vinculada a este dia, não parece claro, mas logo tornou-se um costume universal nas catedrais e igrejas colegiadas (N.T. igrejas em que se reza o Ofício Divino diariamente por cônegos). Na segunda metade do séc. XII o papa lavava os pés de doze subdiáconos após a Missa e de treze homens pobres após o jantar. O "Caeremoniale episcoporum" afirma que o bispo deve lavar os pés ou de treze homens pobres ou de treze de seus cônegos. O prelado e seus assistentes estão paramentados e o Evangelho "Ante diem festum paschae" é cerimonialmente cantado com incenso e velas no início do momento. Muitos soberanos da Europa também costumavam realizar o mandato. O costume ainda se mantém nas cortes da Áustria e da Espanha.

Fonte: Thurston, Herbert. "Washing of Feet and Hands." The Catholic Encyclopedia. Vol. 15. New York: Robert Appleton Company, 1912. Disponível em http://www.newadvent.org/cathen/15557b.htm.

Para a Forma Ordinária do Rito Romano (forma mais comum em nossas paróquias e dioceses brasileiras), as rubricas litúrgicas são as que estão no Missal Romano, e no Cerimonial dos Bispos. Recorde-se que as rubricas são claras ao utilizar o termo latino viri, ou seja, homens. Portanto, as rubricas não permitem que um sacerdote convide mulheres para o lava-pés.

"Depois da homilia, onde razões pastorais o aconselhem, procede-se ao Lava-pés. Os homens designados, conduzidos pelos ministros, vão ocupar os bancos reservados para eles em lugar conveniente. O sacerdote (depois de tirar a casula, se for necessário), aproxima-se de cada um deles, deita-lhes água nos pés e enxuga-os com a ajuda dos ministros.
Depois do Lava-pés, o sacerdote lava e enxuga as mãos, retoma a casula e regressa à sua cadeira, de onde dirige a oração universal". (Missal Romano, Próprio do Tempo, Sagrado Tríduo Pascal, Missa Vespertina da Ceia do Senhor)

"Após a homilia, na qual serão postos em relevo os importantíssimos mistérios que nesta Missa são recordados, ou seja, a instituição da Sagrada Eucaristia e da ordem sacerdotal, bem como o mandamento do Senhor sobre a caridade fraterna, procede-se, onde razões pastorais o aconselharem, ao lava-pés. Os homens que para isso tenham sido escolhidos são conduzidos pelos ministros para os assentos preparados em lugar adequado. O bispo depõe a mitra e a casula, mas não a dalmática, no caso de a usar, cinge-se, se for conveniente, com um gremial de linho adequado, aproxima-se de cada um dos homens, deita-lhes água nos pés e enxuga-os, ajudado pelos diáconos. Enquanto isso, cantam-se as antífonas indicadas no Missal, ou outros cantos adequados.
Depois do lava-pés, o Bispo volta para a cátedra, lava as mãos e retoma a casula. Como nesta Missa não se recita o símbolo, segue-se imediatamente a oração universal". (Cerimonial dos Bispos, 301-302)

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

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