quarta-feira, 20 de julho de 2016

Entrevista com o Pe. João Dias Rezende Filho (Arquidiocese de São Luís, Maranhão)

Pax et bonum!

Após o discurso do Cardeal Robert Sarah, na abertura da Conferência Sacra Liturgia UK 2016, achamos por bem entrevistar um sacerdote brasileiro, nordestino, que já tivesse experiência em algumas características que costumam entrar no contexto de "reforma da Reforma".
Apresentamos a todos, então, o Pe. João Dias Rezende Filho, da Arquidiocese de São Luís, Cidade de São Luís, Estado do Maranhão, na entrevista que ele nos concedeu no último dia 13.

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Caro padre, a bênção. Obrigado por ter aceitado participar desta entrevista conosco.
1. Há quanto tempo V. Revma. é sacerdote? Atualmente é pároco? Se sim, de onde?
Deus abençoe todos vocês! De nada, eu que agradeço poder conversar com vocês. Fui ordenado padre no dia 07 de setembro de 2013, então, no próximo mês de setembro completarei 3 anos de sacerdócio. Sou Administrador Paroquial na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, na Vila São Luís, paróquia pertencente à Arquidiocese de São Luís do Maranhão, onde sou incardinado, isto é, onde estou canonicamente vinculado, de acordo com as normas do Direito da Igreja, chamado Direito Canônico. Sou, assim, sacerdote diocesano.

2. V. Revma. celebra a Santa Missa nas duas formas do Rito Romano? Considera isso algo importante para se amar concretamente o Rito Romano, ou seja, não amá-lo apenas pela metade? 
Celebro nas duas formas do Rito Romano desde que fui ordenado e vejo como algo natural e que, sem dúvida, tem enriquecido a minha vida sacerdotal e espiritual com graças sobrenaturais e também com uma visão mais profunda do zelo que se deve ter pelo Sagrado e, como você disse na pergunta, com um amor pelas duas formas do nosso rito latino.
3. Como aprendeu a celebrar a Santa Missa na Forma Extraordinária? Quando isso aconteceu e quem serviu de inspiração e apoio? Foi algo que nasceu de V. Revma. ou veio de um pedido externo?
O meu primeiro contato com a Missa na forma extraordinária, também chamada de Missa Tridentina, se deu de modo indireto. Explico: Eu ainda pequeno, através de meus avós maternos e de uma tia-avó, ouvi falar da Missa como era celebrada antes do novo Missal promulgado pelo Beato Paulo VI. Sublinho que meus avós e minha tia não eram saudosistas e muito menos sedevacantistas, mas eles, sem dúvidas, expressavam certo desconforto diante de liturgias onde muitas vezes faltava sacralidade e recolhimento para a oração. Eu ouvi essas conversas em casa. Depois tive a graça de ter um religioso próximo, primo de minha avó, esta mesma avó materna, que sempre teve muito zelo na celebração da Santa Missa. De maneira que nasci num ambiente que sempre me levou a uma grande curiosidade pela Missa na forma como era celebrada antes do Concílio Vaticano II. Lembro bem que ia à Missa aos domingos e a liturgia, algumas vezes um pouco barulhenta, já me causava desconforto e dispersão, não sabia dizer bem por quê, mas as Missas onde o padre celebrava com mais zelo, onde a música era menos agitada, ainda não sabia a diferença entre música litúrgica e sacra e as demais, me faziam rezar melhor, eu parecia mais próximo de Deus e Deus de mim e até mesmo das pessoas que estavam nas Missas, uma comunhão maior entre todos... Lembro que aí já sentia vontade de ser padre, isto eu devia ter uns 6, 7 anos. Foi quando comecei a “brincar” de celebrar Missas (risos)... E na casa de meu avô, que era professor universitário e gostava muito de ler, tinha três Bíblias e uma delas, a maior, me encantava, cheia de belas ilustrações e ao final, um tesouro, um glossário com muitos termos litúrgicos. Eu era muito curioso e perguntava tudo. Ao perguntar a eles por que que em tal domingo o padre estava com uma roupa verde, eu nem sabia o nome casula, estola, e em outro domingo com a roupa vermelha, por exemplo, eles me disseram: "Tome esta Bíblia e ao final dela tem uma lista de palavras. Lá vai descobrir as respostas para suas perguntas"... E lá estavam os termos litúrgicos todos com suas definições... foi um maravilhamento... Tenho até hoje esta Bíblia. É do início da década de 70, creio que de 1971... então, o glossário é muito bem feito e muita coisa baseada ainda na forma anterior ao Concílio... Não sei se já estou falando demais, não sou muito objetivo.

Não, padre, pode continuar, fique à vontade.
Obrigado. Depois passei, com uns 12, 13 anos, a frequentar bastante, aos domingos, a Missa na Igreja de Santo Antônio, no Centro de São Luís, onde nesta época o atual Arcebispo de Teresina era o reitor, pois o seminário ficava bem ao lado da Igreja. E foi, me recordo bem, um dos primeiros padres a me chamar muita atenção pelo zelo que ele tinha na Santa Missa. Não estou falando mal (risos), mas a maioria dos padres só usava estola para rezar as Missas, mesmo aos domingos, já o então Pe. Jacinto sempre estava de casula. Chamou-me atenção a veste diferente. Lembro que o padre ficava à porta da Igreja, já paramentado, recebendo todos que chegavam para a Missa, isso me encantou e despertou ainda mais a minha vocação. E foram as homilias dele as primeiras que realmente passei a prestar atenção, que prenderam minha atenção e que eu comecei a entender pouco a pouco. Eu gostava muito de ir à Missa. E contava os dias para chegar o Domingo e ir à Missa de Santo Antônio. Bom, vou dar um salto, senão não chegamos ao fim. Eu acabei o ensino médio, fui fazer faculdade de Direito, queria ser diplomata... Eu gostava muito de ler e meus pais e avós diziam que a carreira jurídica seria boa. Enfim, a vocação vem novamente à tona. Eu não queria me formar em Direito, mas não contei nada aos meus pais. Levei o curso até o fim e me formei, fui a São Paulo, passei lá um ano e seis meses, lá fiz preparatórios para o Itamaraty, mas conheci lá a OFS (Ordem Franciscana Secular) e a vocação foi mais forte ainda. Então, em 2005, decidi mesmo ser padre. E, no seminário, comecei a ler mais sobre liturgia e a perceber o tesouro que temos e que, infelizmente, muitas vezes deixamos enterrados.... Um grande amigo, que hoje mora no Rio, tinha um DVD da Administração Apostólica São João Maria Vianney, onde o Pe. Claudiomar, que na época eu não conhecia pessoalmente, ensinava a Missa e eu comecei a assistir. Depois conheci um padre maranhense que mora em Fortaleza que me ajudou e tirou muitas dúvidas e um frei muito amigo que também me ajudou muito e me ensinou muitas coisas sobre a Missa na forma extraordinária. Então, foi assim. Eu fui ordenado e já estava sabendo celebrar nas duas formas. Nesta mesma ocasião conheci um grupo de pessoas, alguns jovens, outros já pais de família, mães de família, que gostariam de ter a Missa na forma extraordinária sempre. Foi quando de fato unimos forças e foi fundada a Associação Ad Maiorem Dei Gloriam, sempre com o apoio decisivo do frei amigo que falei ainda há pouco e que é o diretor espiritual da Associação, que promove a celebração da Missa conforme o Missal de São Pio V aqui em São Luís.

4. Recentemente (05/07), S. Ema., o Cardeal Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, fez um discurso inaugurando a conferência Sacra Liturgia do Reino Unido, onde tratou de uma implementação mais fiel da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium. V. Revma. concorda que ainda estamos longe de certas metas e objetivos dos Padres Conciliares? Como V. Revma. vê esta questão?
Creio que tenham sido dados passos importantes. Os Papas todos têm dado exemplo de grande zelo pela liturgia e de uma visão muito salutar do patrimônio litúrgico que temos, procurando ressaltar a continuidade com a Sagrada Tradição bimilenar de nossa Fé. Há, sem dúvida, muito a melhorar, mas também há um clero jovem e muito esperançoso com a noção clara de que a lei da oração é a lei da fé. O modo como rezamos, como nos conduzimos, ou melhor, nos deixamos conduzir na Santa Missa e em outras ações sagradas, expressa a profundidade e autenticidade de nossa Fé e evangeliza, catequiza. Uma Missa bem celebrada é a melhor catequese, salvo engano o Papa Emérito Bento XVI disse esta verdade profunda.
Assim, eu vejo essa questão como uma continuidade. O Concílio Vaticano II não funda uma nova Igreja, logo deve ser interpretado e aplicado em continuidade com toda a vida da Igreja de antes. É, de fato, algo que segue na esteira da Tradição. Não há rupturas, pelo menos penso que não deve haver. Infelizmente, muitos distorcem e acabam fazendo tabula rasa de todos os outros Concílios e de toda a Tradição e Magistério anterior ao Vaticano II. Mas estou certo, e creio que a Igreja pensa assim, que isto é um grande erro.

5. A parte mais citada do longo discurso do Cardeal Sarah foi, sem dúvida, um de seus pedidos: a adoção da orientação comum do celebrante e da assembleia na Liturgia Eucarística. V. Revma. concorda que esta pequena mudança pode trazer transformações positivas quanto à forma com que sacerdotes e fiéis participam da Santa Missa? Como é a experiência de V. Revma. neste ponto? Como foram e são as resistências?
Eu, desde que assumi esta paróquia, que é a minha primeira, onde estou só (antes passei 3 meses como vigário), procurei mostrar ao nosso povo toda riqueza da nossa Igreja, seja ela litúrgica, teológica, espiritual, social, e aqui me refiro à Doutrina Social da Igreja. Nossa paróquia é de periferia, tenho 13 comunidades, 2 bem rurais, um povo simples, mas muito bom, muito sagaz, inteligente e, sobretudo, muito sedento de Deus e interessado em aprofundar a sua vida espiritual. Eu nunca impus nada. Sempre conversei antes, argumentei. Aliás, eu fiz, lembro agora, logo no início, todos os sábados à tarde, encontros para formação litúrgica... e teve uma boa acolhida, uma boa participação, vinham 70, 80 pessoas, os coordenadores das comunidades, das pastorais, movimentos. Foram 4 meses de encontros formativos. E tentei sempre fazer com que entendessem que a Missa é o que há de mais importante na vida do cristão. É o ponto alto para nós, onde nos alimentamos da Palavra de Deus e, espantosamente, nos alimentamos do próprio Deus, a Palavra Viva e encarnada, o Pão que não é mais pão, mas é o Próprio Cristo. Então, fiz com que vissem a Missa como um subir à montanha, momento de encontro íntimo de cada um com Jesus, com a pessoa mais importante de toda nossa vida. A maioria entendeu e tem entendido.
Assim, fizemos algumas reformas e adaptações na nossa Matriz, recolocamos o Sacrário no centro do presbitério em um altar-mor que foi feito... e aos poucos fomos colocando a liturgia como deve ser. Afinal, a Liturgia é obra de Deus em nosso favor. É a ação de Cristo que se entrega ao Pai pelo Espírito para nossa salvação, portanto, como ensina o Monsenhor Marini naquele pequeno grande livro Liturgia Mistério da Salvação, é Dom, é um presente de Deus, não cabe a nós fazer outra coisa a não ser receber esse imenso e belo presente e nos maravilharmos com ele, pois ele, aí já cito a Sacrosanctum Concilium, este presente que é a liturgia faz com que já na terra possamos participar e antegozar realidades celestiais que nos ultrapassam, que nos transcendem. Não temos o direito de manipular o que Deus nos dá como Dom, a Liturgia não é minha, é de Deus.
Sinto algumas resistências de fora, mas sigo fazendo aquilo que a Igreja pede e que minha consciência me pede, de modo que, graças a Deus, minha consciência em nada me acusa. E aos poucos vejo, com grande alegria, o bem que Deus vai fazendo por meio de meu sacerdócio, que trago como diz São Paulo, em vaso de argila, mas com imensa gratidão ao Senhor que, sem mérito algum de minha parte, me escolheu. Então, em suma, celebramos ad orientem, também com arranjo beneditino no altar, celebramos nas duas formas, procuramos educar também os chamados ministérios de música. Falando nisso, temos um grupo de jovens que são acólitos também e que cantam muito bem e já estão bons no latim e cantam Missa de Angelis já e estão aprendendo outros cantos litúrgicos e tradicionais. E são jovens simples e bons que demonstram um imenso amor pelo Sagrado, por Deus e pelas pessoas, já que querem que elas também experimentem esse grande dom de entrar na Liturgia Divina como quem entra nos Tabernáculos celestes. Enfim, eu, graças ao meu Bom Deus, não tenho do que me queixar. Dificuldades, temos, mas se não houver, algo está errado. A presença da Cruz é uma constante na vida do cristão, não é mesmo?

Sim, padre, é verdade.

6. Bem, ainda sobre o pedido do Cardeal Sarah, algumas pessoas perguntam se foi uma lei, um decreto, uma instrução da Congregação, e a Sala de Imprensa da Santa Sé já esclareceu (para quem, por acaso, não tinha entendido) que foram palavras pessoais do Prefeito e não novas diretrizes litúrgicas oficiais. V. Revma. acha que muitos presbíteros aderirão ao pedido do Cardeal? 
Nós vimos pelas redes sociais como surgiram resistências. É natural que hajam, afinal, as interpretações e aplicações mais estapafúrdias da Sacrosanctum Concilium aconteceram, triste e infelizmente, por muitos lugares. E mesmo os sacerdotes que respeitam a Sagrada Liturgia, obedecem às prescrições do Missal, a maioria celebra sempre versus populum. Então, celebrar voltado para o povo tornou-se a forma usual. Sobretudo aqui no Brasil, é natural que haja algum tipo de impacto, mas entendi desde o início que o Cardeal Sarah estava apenas dando uma orientação, sugerindo. Gostei muito de um texto do padre José Eduardo que fala que o ad orientem interior é muito importante, isto é, o zelo interior do padre, o sacerdote estar espiritualmente voltado para o Cristo, uma orientação espiritual para Deus, isso é muito interessante. Eu, por exemplo, pensei em mim mesmo, quando li o texto do Pe. José Eduardo, e refleti: quando celebro a Missa no altar móvel de nossa Matriz, voltado para o povo mesmo, coloco o crucifixo no altar, porém, mais ainda, eu fico de olhos baixos ou mesmo fechados, eu baixo a cabeça... enfim, minhas expressões corporais e faciais, de certo modo, dão a entender que ali estou em um diálogo com Deus, que ali naquele momento da Oração Eucarística estou voltado completamente para Deus, assim como toda assembleia litúrgica deve estar voltada para Ele, claro. Gostei muito da análise dele.

7. Fora a orientação comum (celebração ad orientem), o Cardeal também citou o equilíbrio entre o uso do vernáculo e do latim (para evitar a exclusão deste) e o canto da liturgia (especialmente o canto gregoriano). Como V. Revma. acha que esses pedidos podem ser melhor atendidos? Tudo isso deve partir de quem? Como dar um pontapé inicial?
Aqui na minha paróquia o pontapé inicial fui eu mesmo quem deu e encontrei, graças a Deus, resistências, mas também corações muito abertos. Creio que não haja receita, cada caso é um caso. As mudanças devem ser graduais e bem explicadas. Convidar o povo para formações, que foi o que procurei fazer aqui em nossa paróquia, mostrar a riqueza espiritual do canto gregoriano que, no fundo, é tão simples... tanto que é chamado de cantochão, é plano... em geral, as coisas mais belas são as mais simples mesmo. Até me lembrei de uma frase da poetisa mineira Adélia Prado, em uma entrevista dela ao Roda Viva, na TV Cultura: “A Missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum”. Essa frase é perfeita. Eu busco sempre isso, tento viver a simplicidade com solenidade e amor.
Retomando sobre as resistências, há casos onde haverá maiores resistências, mas estas não devem nos desanimar nunca, pelo contrário, se é difícil é porque, muito provavelmente, é vontade de Deus. As coisas de Deus não são tão fáceis. Há resistências aqui em nossa paróquia também, na maioria veladas. As pessoas não têm muita coragem de dizer as coisas na cara do padre, sabe? (risos) O que é uma pena, pois se viessem conversar comigo eu explicaria a razão das coisas e, creio, as pessoas compreenderiam. Aos que têm dificuldade eu digo que não desanimem e que, sobretudo, rezem. A oração pode tudo. Unam-se e rezem e sejam humildes, não discutam com quem não quer fazer um caminho comum de busca da Verdade. É preciso perceber isso, ter um certo feeling e saber calar. A palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro.
Creio que a maior dificuldade é quando o pontapé inicial não parte do sacerdote e, muitas vezes, infelizmente, é da parte dos sacerdotes que surgem as maiores resistências, mas é como já falei: ter simplicidade e fé, e também prudência. Não se coloquem como martelos dos padres. O melhor é rezar, silenciar e esperar. Pelos padres, o dever dos leigos é rezar e amá-los, são sempre Alter Christus - outro Cristo - e lembro muito das revelações que Santa Catarina de Sena teve e em uma delas Nosso Senhor diz que não devemos fazer críticas e condenações aos sacerdotes. Ele diz que Deus mesmo punirá os maus sacerdotes. Está na obra Diálogo, de Santa Catarina. No tempo certo Deus atenderá as preces feitas com fé e amor. As demoras de Deus servem para nos educar também.

8. Novamente sobre a Forma Extraordinária do Rito Romano, como V. Revma. resumiria seus efeitos, seus frutos na vocação sacerdotal?
Vou falar do que tenho vivido. Ela me ajuda a rezar com mais zelo a Missa na forma ordinária, ela me aproxima mais de Deus e me ajuda em minha oração pessoal mesmo, na Liturgia das Horas, por exemplo, me deixa mais centrado em Deus e me ajuda a não transmitir aos outros algo meu, mas me enche daquilo que realmente as pessoas buscam em um padre, me enchem de espiritualidade, de Deus. Eu procuro sempre não falar uma palavra minha, mas uma palavra divina, me deixar guiar pelo Espírito de Cristo e ser de fato um porta-voz dEle.
Apesar de minhas fraquezas e limitações, sinto que a Missa tem me ajudado muitíssimo no meu ministério. Muitos dos frutos são interiores, são frutos de conversão diária. Alguns frutos também em nossos paroquianos não são, muitas vezes, quantitativos, mas há frutos qualitativos. Creio que as pessoas estejam mais fortes espiritualmente para enfrentar as tribulações e dificuldades do dia-a-dia e tenham compreendido que participar com piedade e devoção da Santa Missa é nos unirmos mais ao Mistério de Amor de um Deus que se fez um de nós, se fez homem, assumiu nossas misérias e morreu por nós, que deu tudo por nós, até a Si mesmo e que, por isso tudo, não está alheio aos nossos sofrimentos, às nossas mazelas, mas nos convida a entreolhar, na Liturgia, coberta pelos véus dos sacramentos, a nossa Vitória, a nossa Ressurreição, é aquele antegozar o Céu que já falei nessa nossa conversa.

9. Que mensagem V. Revma. deixaria para os jovens sacerdotes que, embora simpáticos, ainda não celebram a Santa Missa na Forma Extraordinária, seja por medo, por pressões ou por outros motivos?
Sejam um pouco malucos (risos). Rezem muito e Nosso Senhor vai lhes dar coragem! E peçam a intercessão de nossa Mãe, Maria Santíssima. Ela tem muito prestígio com Ele! (risos). Bom, estou rindo, mas é coisa séria. Há que se ter um pouco de loucura. Os santos são loucos, não? Loucos de amor por Deus. Deus é louco de amor por nós. Como o Pai da Parábola de Lucas 15, que corre desesperado de amor misericordioso e pula no pescoço do filho que volta maltrapilho e sujo.... enfim, não desanimem. Venham aqui em São Luís celebrar em nossa paróquia! Serão muito bem vindos. E ousem! O Motu Proprio do nosso Papa Emérito é claro: nós podemos celebrar livremente nesta forma do rito romano que nunca foi revogada. E contem sempre com minhas orações.

10. Por fim, gostaria que meditássemos sobre algumas palavras de São João Paulo II aos bispos do Ceará e do Piauí no ano de 1995:
“Compreende-se (...) como o brasileiro gosta dos sinais exteriores da fé! Ele quer ver as Igrejas com as suas características religiosas, com as expressões autênticas da arte sacra que despertam a piedade e levam à oração, ao recolhimento e à contemplação do mistério de Deus. Ele quer ouvir com alegria bater os sinos de vossas Igrejas convocando-o para as celebrações litúrgicas ou convidando-o para as orações do dia ou da tarde em louvor da Virgem Maria! (...) Ele quer sentir nas músicas de vossas Igrejas o apelo ao louvor de Deus, à ação de graças, à prece humilde e confiante e se sente desconfortável quando esses cantos em sua letra envolvem uma mensagem política ou puramente terrena, e em sua expressão musical não apresentam a característica de música religiosa, mas são marcadamente profanos no ritmo, na linha melódica e nos instrumentos musicais de acompanhamento. (...)
Procurai dar um clima de piedade e dignidade às celebrações litúrgicas, sabendo fazê-las alegres nos momentos devidos e sempre espiritualmente confortadoras. O ministério da Palavra, que está intimamente ligado à Liturgia Eucarística (cf. Sacrosanctum Concilium, 56), contenha sempre, do início ao fim, uma mensagem espiritual. (...) Ver a Igreja como Igreja, e não simples promotora da reforma social. Este é um dever que promana da Fé e não prévia exigência para uma posterior pregação do Evangelho. (...)
Vosso povo, caríssimos irmãos no episcopado, quer ver os padres como verdadeiros Ministros de Deus, inclusive na sua veste e no seu modo externo de proceder. Ele quer ver o homem de Deus nos ministros de sua Igreja, uma presença que lhes inspire amor, respeito, confiança. O povo tem direito e isso pode exigi-lo de seus pastores. O que os homens querem, o que esperam é que o sacerdote com o seu testemunho de vida e com sua palavra, lhes fale de Deus” (Trechos do Discurso do Papa João Paulo II aos bispos da CNBB dos regionais Nordeste 1 e 4 em visita ad limina apostolorum, 05/09/1995).
O Maranhão, quanto à vida religiosa, não parece ser tão diferente do Piauí e do Ceará. Passados 21 anos destas exortações de São João Paulo II aos nossos bispos, V. Revma. acha que muita coisa mudou no nordeste brasileiro ou elas ainda permanecem atuais?
Bom, creio que algumas coisas mudaram sim. Não podemos ser catastrofistas e só enxergar as coisas ruins. Não queria me tomar como exemplo, mas tenho procurado fazer, no limite das minhas forças, mas contando com a Força do Alto, o possível para ser um sinal de Deus no mundo. Tenho procurado viver como sinal de um Deus próximo que mostra amor e acolhida e que, sobretudo, se compadece, sofre junto com o povo e que mostra a cruz como caminho para a Vida e não para a morte. Assim como eu, vejo que outros padres também se esforçam. Vejo que surgem boas vocações, que surgem novos padres com este ânimo de levar as pessoas a Cristo. Rezemos para que os promotores vocacionais, reitores, bispos saibam acolher estas vocações e, verdadeiramente, promovê-las para o bem do povo. A Igreja precisa retomar o seu protagonismo espiritual na vida de nossa sociedade. Contamos todos com as orações de vocês também e o bom testemunho, que há de convencer e de falar mais alto que as palavras.

Caro padre, novamente agradecemos pela disponibilidade. Pedimos a Deus, pelos méritos da Santíssima Virgem Maria, de São Luís e do Servo de Deus Pe. Reus, que abençoe com abundância o ministério e o apostolado de V. Revma.
Muito obrigado! Muito obrigado mesmo. Espero não ter sido enfadonho e muito prolixo e ter preenchido as expectativas de vocês. Ah, gosto muito do Pe. Reus, o seu Curso de Liturgia é livro de constante consulta. Que Deus abençoe vocês todos também e perseverem na oração, da doutrina dos Apóstolos e na Caridade! Sem Amor, sem Caridade não se vai adiante. Deus ou Nada, que aliás é o título da entrevista do Cardeal Sarah ao Nicolas Diat, equivale a dizer, Amor ou Nada. E Amor é serviço, doação, ação em prol do outro. E não há maior ação neste mundo que a oração. Rezem muito pela Igreja, pelo Clero e por todos! Nossa Senhora, Mãe das Dores e Senhora do Amparo, nos conceda coragem para suportamos nossas dores e seja o nosso amparo nas tribulações!

Um comentário:

CRIS CORINTO disse...

Parabéns Pe. João por ser esse lindo instrumento de Deus. Deus o abençoe. Amém.