O lugar do batistério na igreja

Pax et bonum!

Um membro da ARS, numa conversa sobre reforma e construção de igrejas, recentemente levantou uma dúvida bastante interessante: "Onde deve ficar a pia batismal na igreja?"
Primeiramente precisamos procurar uma resposta oficial da Igreja, ou seja, da Congregação para o Culto Divino ou do Código de Direito Canônico.
O Código de Direito Canônico, no Cân. 858, afirma que toda igreja paroquial deve ter uma "fonte batismal" e que o Ordinário do lugar pode permitir que haja fonte batismal noutra igreja ou oratório no limite da paróquia.
A Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium (n. 128), falando da promoção da arte, menciona apenas a "dignidade e funcionalidade do batistério".
O Ritual do Batismo (edição reformada a partir do Concílio Vaticano II, ou seja, na Forma Ordinária) fala o seguinte nas Preliminares Gerais.

19. A fonte baptismal ou o recipiente em que, quando for o caso, se prepara a água para a celebração do Baptismo no presbitério, há-de brilhar pelo asseio e bom gosto artístico. [...]
21. [...] Se o baptistério estiver construído em forma de fonte de água corrente, a bênção será dada à água jorrando da fonte.
22. Podem usar-se legitimamente quer o rito de imersão, que é mais apto para significar a participação na morte e ressurreição de Cristo, quer o rito de infusão.
24. Para a celebração da palavra de Deus prepare-se um lugar adequado no baptistério ou na igreja.
25. O baptistério, ou lugar onde está a fonte baptismal com água corrente ou não, é reservado ao sacramento do Baptismo e deve ser verdadeiramente digno, pois ali renascem os cristãos pela água e pelo Espírito Santo. Seja em capela situada dentro ou fora da igreja, seja em outro lugar dentro da igreja à vista dos fiéis, de futuro construir-se-á por forma a corresponder a uma numerosa participação.
Terminado o tempo da Páscoa, é conveniente conservar o círio pascal em lugar de honra no baptistério, para se acender na celebração do Baptismo e nele se poderem acender facilmente as velas dos baptizandos.
26. Os ritos que, na celebração do Baptismo, devem ser realizados fora do baptistério, celebrem-se nos lugares da igreja que mais adequadamente respondam ao número das pessoas presentes e às diversas partes da liturgia baptismal. Para aqueles ritos que costumam realizar-se no baptistério, também podem escolher-se outros lugares mais aptos na igreja, se a capela do baptistério for demasiado pequena para conter todos os catecúmenos ou todas as pessoas presentes.

(Celebração do Baptismo das Crianças, 19.21-22.24-26)

Deduz-se daqui os seguintes pontos:
1. Parece haver, na Forma Ordinária, preferência pela construção de uma fonte e pelo batismo realizado por imersão. Todavia, compreende-se que isto não parece ser tão simples.
2. O batistério é um lugar específico, dentro ou fora da igreja, onde está a fonte ou a pia batismal. Ele é reservado para a realização do batismo. Não parece correto, conforme a prática ou o ensinamento da Igreja, a pia batismal estar "solta" num lugar do templo, sem uma delimitação, sem um espaço verdadeiramente reservado para isto.
3. É interessante haver um lugar de honra no batistério para nele colocar o pedestal para o círio pascal.
4. O batistério não deve ser um lugar acanhado, apertado, mínimo, já que se pede que possa corresponder a uma numerosa participação. Seu espaço deve ser ao menos suficiente para o sacerdote (junto do qual normalmente estará ao menos um coroinha), os pais e um padrinho. Pensando em batismos de várias pessoas, deve-se dar ainda mais atenção às dimensões da área do batistério.
5. Fala-se também de dignidade, asseio e arte. 
6. Não se pode absolutamente conceber o batistério, portanto, como reduzido apenas a um espaço vazio com uma pia batismal.

É conveniente também analisarmos o que a Igreja já falou anteriormente sobre o batistério. Essa informação nós temos no Rituale Romanum (Forma Extraordinária) de 1925.

Proprius Baptismi solemnis administradni locus est Baptisterium in ecclesia vel in oratorio publico.
Quaelibet Parœcialis ecclesia, revocato ac reprobato quovis contrario statuto vel privilegio vel consuetudine, baptismalem habeat fontem, salvo legitmo jure cumulativo aliis ecclesiis jam quæsito.
Loci Ordinarius potest pro fidelium commoditate permittere vel jubere ut fons baptismalis ponatur etiam in alia ecclesia vel publico oratorio intra parœciæ fines.
[...]
Baptisterium sit decenti loco et forma, materique solida, et quæ aquam bene contineat, decenter ornatum, et cancellis circumseptum, sera et clave munitum, atque ita obseratum, ut pulvis, vel aliæ sordes intro non penetrent, in eoque, ubi commode fieri potest, depingatur seu collocetur imago sancti Joannis Christum baptizantis.
[...]

(Rituale Romanum, Tit. II, Cap. I, 42-43.46)

Resumidamente o Rituale Romanum fala:
1. que o batismo solene deve ser realizado em Batistério na igreja ou oratório;
2. que toda igreja paroquial deve ter uma fonte batismal;
3. que o batistério, para comodidade dos fiéis, pode ser construído noutra igreja ou oratório nos limites da paróquia;
4. que o batistério esteja em lugar decente, bem como tenha forma decente e a pia ou fonte seja feita de material sólido, coberta com uma tampa para que nela não entre pó ou sujeira;
5. que o batistério seja ornamentado e cercado por grades, com cadeado e chave;
6. que, se for possível, tenha imagem ou pintura de São João batizando o Cristo.

O Servo de Deus Pe. Reus, SJ, ao falar do batistério, resume também estas regras utilizando indicações do Concílio Plenário Brasileiro (1939):

Antigamente existiam igrejas destinadas ao batismo. No meio estava a fonte batismal (fons baptismalis, piscina), um tanque de alvenaria, para o qual se descia por degraus. Ali se fazia o batismo por imersão. Quando o batismo dos adultos se tornou mais raro, usavam-se bacias que se chamavam também fontes batismais (fons baptismalis). Desde o século XII se começou a colocá-la num suporte e a dar-lhe a forma mais agradável de cálix. É a pia batismal moderna. Mas nem a forma nem o material está prescrito pela lei universal, contanto que o material seja sólido. (Rit. Rom. tit. II, n. 46.)
O batistério seja fechado e cercado de grades, munido de fechadura e chave. Quando comodamente pode ser, seja nele pintada ou colocada uma imagem de Jesus Cristo batizado por S. João Batista e tenha uma pia de mármore bem fechada, de sorte que poeira ou outras imundícies não possam penetrar no interior. (C. B. n. 178, § 1.)

(Curso de Liturgia, 191-192)

O autor Denis Robert McNamara, leigo bastante versado em Sagrada Liturgia e gabaritado em Arquitetura, põe uma pergunta e sua respectiva resposta na obra Catholic Church Architecture and the Spirit of the Liturgy (abaixo segue tradução nossa):

O que deveríamos considerar ao planejar nosso batistério?
Nos primeiros séculos da Igreja, os batistérios normalmente eram construções separadas do corpo principal de uma igreja. Os que ainda não tinham sido batizados não eram ainda considerados "cidadãos"da Igreja e, logo que recebiam seu Batismo fora da Igreja, iam em procissão triunfantes para dentro do edifício da igreja. Muitos batistérios assim existem até hoje nas grandes igrejas do mundo. Com o passar dos séculos, o Batismo foi normalmente reduzido ao derramamento da água sobre a cabeça de uma criança e as fontes começaram a encolher e a perder sua significância arquitetural. No século XX, o Batismo foi novamente entendido como um sacramento de nascimento, morte e purificação ritual. A plenitude do sinal foi vista como melhor expressa na imersão do catecúmeno na água mais do que no mero derramamento (infusão), e a noção de fontes maiores em que os adultos poderiam entrar e andar tornou-se popular. Nos anos depois do Concílio Vaticano II, uma maior ênfase foi posta no Batismo como entrada na comunidade eclesial, e assim os batistérios tornaram-se mais proeminentes e foram comumente colocados no corpo da igreja, às vezes no fundo do corredor central da igreja. Enquanto isto tornou os batistérios mais visíveis, criou um incômodo para procissões funerais e de casamento. Já que vários pastores queriam que seus batistérios fossem visíveis na Vigília Pascal, fontes foram frequentemente colocadas na frente da igreja.
Não existe um lugar "correto" para colocar um batistério numa igreja, mas a localização deve aderir a vários princípios. Primeiro, a colocação do batistério deve sugerir "entrar" na igreja ao receber este sacramento de Iniciação. A recente prática de colocar o batistério no santuário (N.T.: popularmente se conhece por "presbitério") atrás ou próximo do altar deveria ser totalmente evitado; o Batismo significa a entrada na igreja, não o destino final. Segundo, já que o Batismo nas grandes paróquias normalmente envolve muitas pessoas das famílias e várias crianças, ter assentos e boa visão do batistério é importante, embora não seja essencial. Terceiro, já que o Batismo é uma  preparação para a completude na Eucaristia, alguma conexão com o altar é desejável, seja nas linhas de visão ou nos materiais. 
O batistério é um lugar de importante atividade sacramental, logo seu material e design devem anunciar este fato. Os batistérios com pia de fibra de vidro vistos nos anos recentes deveriam ser totalmente rejeitados. A forma octagonal do batistério faz uma conexão com uma longa tradição de simbolizar o "oitavo dia", o dia depois do sétimo dia da criação de Deus, significando o eterno descanso do paraíso glorificado do Céu. Já que o Batismo provê o ponto de entrada para este paraíso, a própria arquitetura pode dar um gosto daquela glória. Mas a glória do Batismo vem do simbolismo do batistério como "ventre e sepultura". O plano centralizado do batistério remonta à antiga forma dos sepulcros, que frequentemente eram edifícios circulares com base na forma dos montes/colinas em que se fazia o enterro. O Batismo provê a entrada para uma nova vida, mas apenas como "morte" do velho eu, onde se desce por vários degraus, como se descesse para o sepultamento. Depois do ritual de lavagem com a água batismal, o recém-batizado então sobe os degraus do outro lado, indicando um renascimento como uma nova criação, para fora do túmulo, que é ao mesmo tempo como sair do ventre da mãe, "nascer de novo", no sentido adequado do termo.

É impossível darmos regras ou detalhes fora do costume e da disciplina da Igreja.
Numa reforma ou construção, portanto, o pároco deve estar atento às regras atuais e à história da Igreja e decidir como fazer da melhor forma.
Cabe ainda falar da prática romana atual, e com isso refiro-me à celebração de batismo pelo Santo Padre. Duas são as ocasiões notáveis: o batismo de adultos na Basílica de São Pedro, na Vigília Pascal, e o batismo de filhos de funcionários do Vaticano na Capela Sistina, na Festa do Batismo do Senhor.
A Basílica de São Pedro possui um batistério. Uma capela com uma pia batismal feita a partir da tampa de um sarcófago do séc. IV. Na parede do fundo da capela há uma grande pintura do Batismo do Senhor. Todavia, na Vigília Pascal uma pia batismal móvel é trazida para perto do Altar da Confissão (o altar-mor, sob o baldaquino), perto do ambão, provavelmente por praticidade, dada a distância entre o altar e o batistério. Veja-se, por exemplo, o vídeo da Vigília Pascal deste ano (2018), a partir de 1h30:


Abaixo o vídeo da Santa Missa da Festa do Batismo do Senhor deste ano (2018), com o batismo de crianças iniciando por volta de 52min31s:


Abaixo, imagens de alguns notáveis batistérios:

Batistério nas ruínas da Basílica de São João de Éfeso. Há degraus de um lado e de outro.
Batistério da Igreja de Santa Eufêmia, séc. V.
Batistério da Basílica de Santa Maria Maior
Batistério da Basílica de São João do Latrão
Outra vista do Batistério da Basílica de São João do Latrão
Batistério da Basílica de São Pedro
Batistério Neoniano de Ravena, final do séc. IV ou início do séc. V
Batistério de Santa Maria Maggiore de Nocera Superiore, séc. VI
Batistério da Catedral da Sé de São Paulo
Gostaria de acrescentar aqui, para fins de piedade e informação, a belíssima inscrição existente no Batistério de São João do Latrão, em Roma, segundo consta num artigo do site do Opus Dei:

A piscina circular onde antigamente os cristãos eram batizados por imersão fica no centro, rodeada por oito formosas colunas de pórfiro com capitéis jônicos e coríntios. Essas colunas sustentam uma arquitrave, que tem inscritos uns versos em latim, atribuídos ao Papa São Sisto III (432-440), onde se resume, de forma admirável, a doutrina cristã sobre o Batismo. Soam tão magnificamente, que vale a pena lê-los na língua original. Acrescentamos a tradução abaixo. 

GENS SACRANDA POLIS HIC SEMINE NASCITVR ALMO
QVAM FECVNDATIS SPIRITVS EDIT AQVIS
VIRGINEO FETV GENITRIX ECCLESIA NATOS
QVOS SPIRANTE DEO CONCIPIT AMNE PARIT
COELORVM REGNVM SPERATE HOC FONTE RENATI
NON RECIPIT FELIX VITA SEMEL GENITOS
FONS HIC EST VITAE QVI TOTVM DILVIT ORBEM
SVMENS DE CHRISTI VVLNERE PRINCIPIVM
MERGERE PECCATOR SACRO PVRGANTE FLVENTO
QVEM VETEREM ACCIPIET PROFERET VNDA NOVVM
INSONS ESSE VOLENS ISTO MVNDARE LAVACRO
SEV PATRIO PREMERIS CRIMINE SEV PROPRIO
NVLLA RENASCENTVM EST DISTANTIA QVOS FACIT VNVM
VNVS FONS VNVS SPIRITVS VNA FIDES
NEC NVMERVS QVEMQVAM SCELERVM NEC FORMA SVORVM
TERREAT HOC NATVS FLVMINE SANCTVS ERIT

Aqui nasce um povo de nobre estirpe destinado ao Céu,
que o Espírito gera nas águas fecundadas.
A Mãe Igreja dá à luz na água, com um parto virginal
os que concebeu por obra do Espírito divino.
Esperai o reino dos céus, os renascidos nesta fonte:
a vida feliz não acolhe os nascidos uma só vez.
Aqui está a fonte da vida, que lava toda a terra,
que tem o seu princípio nas chagas de Cristo.
Submerge-te, pecador, nesta corrente sagrada e purificadora,
cujas ondas, a quem recebem envelhecido, devolverão renovado.
Se quiseres ser inocente, lava-te nestas águas,
tanto se te oprime o pecado herdado como o próprio.
Nada separa já os que renasceram, feitos um
por uma só fonte batismal, um só Espírito, uma só fé.
A nenhum aterrorize o número ou a gravidade dos seus pecados:
o que nasceu desta água viva será santo.

Postado por Luís Augusto - membro da ARS 

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