segunda-feira, 29 de junho de 2009

Mas o que é o Pálio?




PAX et BONVM!
Aproveitando hoje a Solenidade de São Pedro e São Paulo (não para o Brasil, que foi ontem), junto com o encerramento do Ano Paulino, e ainda mais a graça de nosso Arcebispo, D. Sérgio da Rocha, ter recebido, hoje pela manhã, o Pálio das mãos do Santo Padre (como avisado na postagem anterior), juntei um material razoável que trata exatamente do pálio.
Espero que seja de utilidade para todos!

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Desenvolvimento e forma

Não se pode determinar o período em que o pálio foi introduzido. De acordo com o liber pontificalis, já estava em uso em Roma na pouco antes da metade do séc. IV, pois lá se diz que o papa Marcos († 336) presenteou com o pálio o bispo de Óstia, consagrador do papa. Por mais fidedigna que seja esta informação, em todo caso o pálio deve ter sido usado em Roma pelo menos desde antes do séc. VI, senão o autor do liber pontificalis, que viveu no início do séc. VI, não teria podido se referir à sua concessão ao bispo de Óstia por parte de um papa da primeira metade do séc. IV. Mas também concessões mais seguramente atestadas, por exemplo, a São Cesário de Arles, em 513, pelo papa Símaco, provam que o pálio entrou em uso em Roma pelo menos no decurso do séc. V.
No ocidente, sempre, apenas o papa tem tido direito próprio de vestir o pálio; todos os outros bispos sempre foram apenas autorizados a usá-lo por uma concessão especial dada por ele. Alguns exemplos de concessões do pálio são já encontrados no séc. VI, especialmente no pontificado de Gregório Magno. Foram, sobretudo, os vigários papais e os metropolitas achados dignos da honra do pálio, mas provavelmente simples bispos também, sufragâneos do metropolita de Roma, bem como bispos que não pertenciam àquela circunscrição, entre os quais o primeiro a obter o pálio foi Siágrio de Autun, das mãos de Gregório Magno. O pálio certamente não terá já se tornado um ornamento geral dos arcebispos por volta do séc. VI, mas provavelmente nem mesmo no séc. VIII. Em todo caso, como podemos ver nas correspondências entre São Bonifácio e o papa Zacarias, durante a época em que viveram não havia obrigação para os metropolitas de pedirem o pálio em Roma. Tal obrigação se pode ver apenas na segunda metade do séc. IX e deve ter entrado em prática aproximadamente entre os anos 750 e 850. Sua introdução teve como propósito uma mais profunda conexão entre os metropolitas e a Sé de Pedro, o centro de unidade da vida eclesial, a eliminação dos esforços de auto-engrandecimento de alguns metropolitas daquele tempo e uma nova consolidação da estrutura de metropolitas, que havia entrado em dissolução e decadência. (...)
Muito interessante é a história do desenvolvimento original do pálio. Tendo sido, sem dúvida, originalmente uma veste dobrada em si mesma na forma de uma faixa, de acordo com todas as evidências já estava em uso no séc. VII, e já no séc. VI como uma mera faixa branca. Era colocado ao redor dos ombros, pescoço e peito de tal maneira que uma extremidade descesse pela frente do ombro esquerdo e a outra por trás. Alfinetes para fixar o pálio não foram usados inicialmente, e provavelmente entraram em uso no séc. VIII, provavelmente conforme uma nova maneira de se colocar o pálio: deixando as duas extremidades caírem pelo meio do peito e das costas, ao invés de pelo ombro esquerdo, como até então; uma inovação que certamente exigiu o uso de alfinetes. A mudança não foi tão significativa, mas foi o primeiro passo para a última mudança completa na remodelagem do pálio. O próximo passo consistiu em dar permanentemente ao pálio, através de uma nova costura das partes unidas, a forma que até então só tinha quando vestido [da última maneira descrita]. Quando isso ocorreu não se pode determinar com exatidão, mas em todo caso logo após o primeiro passo, e tão cedo também fora de Roma, onde o pálio ainda no séc. IX obteve uma forma fixa. O terceiro e ultimo passo foi dar ao pálio a forma de um anel (círculo), com uma tira pendente na frente e atrás. A metade da esquerda era feita, em memória do uso original, de uma camada dupla de tecido. Assim colocado, o pálio, na forma de T, em oposição ao anterior, na forma de Y, agora desce sobre os braços e não sobre os ombros. O pálio moderno agora estava essencialmente completo, sendo apenas necessário diminuir suas medidas. Esta diminuição teve início aproximadamente no séc XIV, mas se acentuou mais desde o fim do séc. XV, até finalmente chegar, no decurso do séc. XVII às dimensões de hoje, sendo que uma posterior diminuição não seria mais possível. Uma visão geral desta transformação do pálio pode ser vista nesta imagem:



Quanto ao material do pálio, desde tempos imemoriais tem sido feito de lã branca, mas mesmo no séc. X outros materiais não eram por si inadmissíveis, como se deduz de uma bula do papa João XV ao Arcebispo Liavizo de Hamburgo.

Como ornamentos do pálio apenas cruzes têm sido empregadas. No início apenas duas eram usadas, uma na extremidade da frente e outra na de trás. Um número maior só parece ter se tornado comum durante o séc. IX, sendo que não existiu nenhum preceito determinado quanto a isso em toda a idade média. O pálio do Arcebispo Klemens August de Colônia († 1761) ainda mostrava oito cruzes, não seis como atualmente.

Quanto à cor, nos monumentos mais antigos as cruzes eram normalmente pretas, sendo que aparecem vermelhas também. A maioria dos liturgistas medievais descrevem as cruzes como vermelhas. Nos poucos pálios que foram preservados da idade média, as cruzes são pretas na sua maioria e azul escuro; são vermelhas no fragmento de um pálio do séc. XV, do museu da catedral de Trier. Das oito cruzes do pálio do Arcebispo Klemens August, duas eram pretas e as outras vermelhas. Em resumo, em relação à cor das cruzes, até os tempos mais recentes não havia nenhuma regra fixa, apenas que seriam pretas (ou azul escuro) ou vermelhas, mas não de outra cor.
[...]
Os alfinetes, com que se fixa o pálio desde o séc. VIII, permaneceram mesmo quando o pálio recebeu uma forma fixa, talvez inicialmente ainda para afixar o pálio à casula. Depois, pelo menos até 1300, eram apenas mera decoração, razão pela qual atualmente há presilhas ou nós junto às cruzes para receber os alfinetes.
[...]
Quanto aos dias de uso, o pálio usado pelos arcebispos e [alguns] bispos é restrito. É apenas em certas festas solenes citadas no Pontificale e em ocasiões muito especiais, como as Sagradas Ordenações e a bênção de abades e religiosas, em que devem usar esta vestimenta, a não ser que lhes tenha sido concedido algum privilégio especial.

Fonte: Pe. Joseph Braun, Die liturgischen Paramente in Gegenwart und Vergangenheit. Trechos em inglês em http://www.newliturgicalmovement.org/2008/01/pallium-history-and-present-use.html.

Significado

Bem cedo no séc. VI o pálio foi considerado uma veste litúrgica, a ser usada apenas na igreja e, de fato, somente durante a Missa, a menos que um privilégio especial determinasse algo mais. Isto se prova pela correspondência entre Gregório Magno e João de Ravena sobre o uso do pálio. As normas que regulavam o uso original do pálio não podem ser determinadas com segurança, mas seu uso, mesmo antes do séc. VI, parece ter um caráter definitivamente litúrgico. Desde tempos antigos algumas restrições mais ou menos limitaram o uso do pálio a certos dias. Seu uso indiscriminado, permitido a Hincmar de Reims, por Leão IV (851), e a Bruno de Colônia, por Agapito II (954), era contrário ao costume geral. Nos séc. X e XI, como hoje, a regra geral era limitar o uso do pálio a poucas festas e a outras ocasiões extraordinárias. O caráter simbólico ligado ao pálio data do tempo em que se tornou obrigação para os metropolitas a petição da permissão à Santa Sé para usá-lo. A evolução deste caráter se concluiu por volta do fim do séc. XI; desde então o pálio é sempre designado nas bulas papais como símbolo da plenitudo pontificalis officii. No séc. VI o pálio era símbolo do ofício e da potestade papal, e por essa razão o papa Félix transmitiu seu pálio ao seu arquidiácono, quando, contrário ao costume, ele o nomeou seu sucessor. Por outro lado, quando usado pelos metropolitas, o pálio originalmente significou simplesmente a união com a Sé Apostólica, e foi símbolo das virtudes que devem adornar a vida daquele que o veste.

Origem

Há muitas e diferentes opiniões sobre a origem do pálio. Alguns o ligam a uma investidura por parte de Constantino Magno (ou um de seus sucessores); outros o consideram uma imitação do efod dos hebreus, paramento umeral do sumo sacerdote. Outros também declaram que sua origem se liga a um manto de São Pedro, que era símbolo de seu ofício de supremo pastor. Uma quarta hipótese encontra sua origem no manto litúrgico que, afirmam, era usado pelos primeiros papas, e que no passar do tempo foi dobrado na forma de uma faixa; uma quinta diz que sua origem data do costume de dobrar o manto comum - pallium, uma veste exterior em uso nos tempos imperiais; uma sexta declara que foi introduzido imediatamente como um adorno litúrgico do papa, o qual, porém, não era inicialmente uma faixa estreita de pano, mas, como o nome sugere, uma veste larga, longa e dobrada. (…) Dar sua origem a uma investidura do imperador, ao efod do sumo sacerdote judeu ou a um lendário manto de São Pedro é completamente inadmissível. A visão correta deve ser a de que o pálio foi introduzido como insígnia litúrgica do papa, e não parece improvável que tenha sido adotado como um similar de sua contraparte, o omofórion pontifical, ainda em uso na Igreja Oriental.


Palavras do Santo Padre, o papa Bento XVI,
na conclusão da homilia da Missa de hoje (29/06/2009)

Volto-me a vós, caros Irmãos no episcopado, que nesta hora recebereis da minha mão o pálio. Ele foi confeccionado com a lã de ovelhas que o Papa abençoou na festa de Santa Inês. Deste modo, ele recorda as ovelhas e os cordeiros de Cristo, que o Senhor resolveu confiar a Pedro com o intuito de os apascentar (cf. Jo 21,15-18). Recorda o rebanho de Jesus Cristo, que vós, caros Irmãos, deveis apascentar em comunhão com Pedro. Recorda-nos o próprio Cristo, que como Bom Pastor levou sobre os ombros a ovelha ferida, a humanidade, para levá-la de volta para casa. Recorda-nos o fato de que Ele, o supremo Pastor, quis fazer-se ele mesmo Cordeiro, para ser carregado dentro do destino de todos nós; para nos carregar e nos curar por dentro. Queremos rezar ao Senhor, a fim de que nos conceda sermos Pastores justos, seguindo seus passos, “não constrangidos, mas espontaneamente, como agrada a Deus… com ânimo generoso… modelos do rebanho” (1Pd 5,2s). Amém.



Bento XVI com o pálio papal atual


Paramentos episcopais orientais (veja o omofórion/omophorion longo dobrado e o curto)

Por Luís Augusto - membro da ARS

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