terça-feira, 20 de março de 2012

"Ad Orientem", um testemunho do séc. III na Liturgia das Horas

Obsecramus pro Christo, reconciliamini Deo

Pax et bonum!

No final da tradução que fiz da obra do Mons. Klaus Gamber, que levou o título de "Voltados para o Senhor", bem como noutras ocasiões, já fiz uso de uma citação da Instrução para aplicação das prescrições litúrgicas do Código de Cânones das Igrejas Orientais, n. 107 (trata-se de um documento da Santa Sé), que, depois de citar um testemunho de São João Damasceno (séc. VII~VIII), diz o seguinte:
...o celebrante que preside na celebração litúrgica ora voltado para o oriente, assim como o povo que participa. Não é uma questão de presidir a celebração com as costas voltadas para o povo, como muitas vezes é alegado, mas mais propriamente de guiar o povo na peregrinação rumo ao Reino, convocado para a oração até o retorno do Senhor.
Ontem, por causa da Solenidade de São José, Esposo da Bem-aventurada Virgem Maria e Patrono da Igreja Universal, não se rezou o Ofício da segunda-feira da IV semana da Quaresma. Folheando o Breviário (o volume para Quaresma e Páscoa, da Liturgia das Horas, Forma Ordinária), vi a interessante segunda leitura do Ofício das Leituras, tirada de uma homilia de Orígenes,  presbítero do séc. III, comentando a expiação feita anualmente pelo sumo sacerdote da antiga aliança. Lá se diz:
Ab oriénte tibi propitiátio venit. Inde est enim vir, cui Oriens nomen est, qui mediátor Dei et hóminum factus est.
Invitáris ergo per hoc, ut ad oriéntem semper aspícias, unde tibi óritur sol iustítiæ, unde semper tibi lumen náscitur: ut numquam in ténebris ámbules, neque dies ille novíssimus te in ténebris comprehéndat: ne tibi ignorántiæ nox et calígo subrépat, sed ut semper in sciéntiæ luce verséris, semper hábeas diem fídei, semper lumen caritátis et pacis obtíneas.
(Do oriente nos vem a propiciação. É de lá que vem aquele homem cujo nome é Oriente e que foi constituído mediador entre Deus e os homens.
Por esse motivo és convidado a olhar sempre para o oriente, de onde nasce para ti o Sol da justiça, de onde a luz se levanta sobre ti, para que nunca andes nas trevas, nem te surpreenda nas trevas o último dia; a fim de que a noite e a escuridão da ignorância não caiam sorrateiramente sobre ti, mas vivas sempre na luz da sabedoria, no pleno dia da fé e no fulgor da caridade e da paz.)

Nas Laudes, cotidianamente, temos uma confirmação desta interpretação pelo Santo Evangelho: dizemos "sobre nós fará brilhar o Sol nascente" (visitabit nos Oriens ex alto) no Benedictus, o Cântico de Zacarias.
Se a cada dia no Benedictus, e a cada ano no Ofício das Leituras do dia citado, os sacerdotes relêem este testemunho do genuíno e belo significado da orientação comum para o oriente, donde vem tanta motivação para se desinterpretar tal postura litúrgica que remonta aos primeiros séculos do cristianismo? O irmão sol, como dizia São Francisco, quando nasce, deveria ser para nós, como sempre tem sido no cristianismo, um símbolo, uma figura, daquele que há de vir, daquele que é "a luz verdadeira, que vindo ao mundo a todos ilumina" (Jo 1,9).

Por Luís Augusto Rodrigues Domingues - membro da ARS

PS: antes de concluir a postagem vi que "cheguei atrasado". O Salvem a Liturgia já mencionou esta leitura do Ofício numa postagem do ano passado. Bem, não faz mal recordar.

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