quarta-feira, 12 de junho de 2013

Dúvidas sobre o Rito de Ordenação Presbiteral

Pax et bonum!

Um frade menor conhecido meu, atualmente morando na Itália, apresentou-me duas perguntas sobre o Rito de Ordenação Presbiteral, dizendo-me que elas foram feitas por seu Provincial, após ter participado de uma Missa Ritual de Ordenação aqui no Brasil. Como estas podem ser dúvidas de mais pessoas, resolvi responder numa postagem.
Pois bem, as dúvidas são:

1. Por que os presbíteros, depois da imposição das mãos, continuam com as mãos "levantadas", uma vez que a ação de transferir o Espírito Santo é unica e exclusiva do Bispo?

2. O Rito de Ordenação prevê que o Bispo ordenante amarre as mãos do ordenado? Qual o sentido?

*****
Resposta 1:

Podemos refazer a pergunta em três:
1. Por que os presbíteros impõem as mãos?
2. Por que, depois de impostas, permanecem com as mãos levantadas?
3. Este gesto não pertence somente ao bispo?
Respondemo-las sem distinção abaixo.
Tratando-se de cerimônias, a primeira coisa que devemos fazer é procurar nos rituais. Como se tratou de uma Missa na Forma Ordinária do Rito Romano, dentro da qual ocorreu a Ordenação Presbiteral, segundo o rito reformado, tomemos as rubricas pós-conciliares do ritual deste Sacramento.
Na edição lusitana, como disponível no site do Secretariado Nacional de Liturgia de Portugal, podemos ver (nn. 324-327):

324. O eleito aproxima-se do Bispo, que está de pé, diante da sede, com a mitra, e ajoelha diante dele.
325. O Bispo impõe-lhe as mãos sobre a cabeça, sem dizer nada. 
Depois do Bispo ter imposto as mãos, todos os presbíteros presentes, de estola, impõem as mãos ao eleito, sem dizer nada.
Após a imposição das mãos, os presbíteros ficam junto do Bispo até ao fim da Oração de Ordenação, mas de modo que a acção litúrgica possa ser facilmente vista pelos fiéis.
326. O eleito ajoelha diante do Bispo, e ele depõe a mitra, e de braços abertos diz a Oração de Ordenação (...).
327. Terminada a Oração de Ordenação todos se sentam. O Bispo recebe a mitra. O Ordenado levanta-se. Os presbíteros presentes voltam para os seus lugares. Um deles, porém, impõe ao Ordenado a estola à maneira presbiteral, e reveste-o com a casula.

Nestas rubricas nada se fala sobre o bispo e os demais presbíteros permanecerem com as mãos levantadas. Este texto está fiel ao latino que pode ser conferido aqui (nn. 129-131). Notamos somente que os presbíteros impõem as mãos obrigatoriamente por força das rubricas.
O texto do Cerimonial dos Bispos praticamente usa as mesmas palavras, sem dizer se o bispo e os presbíteros permanecem ou não com a mão estendida.
De onde viria este costume? Pertenceria a algum país em particular? Bem, o prudente é procurarmos nas rubricas do Rito na Forma Extraordinária (mais antiga). 
Leiamos o que manda o Pontificale, logo depois de dizer que o Bispo e os demais sacerdotes impõem as mãos sobre os ordenandos:

Quo facto, tam Pontifex, quam Sacerdotes, tenent manus dexteras extensas super illos. Et Pontifex stans cum mitra, dicit (...).

Eis aqui a razão! A rubrica, no rito mais antigo, manda que tanto o bispo quanto os demais sacerdotes mantenham a mão direita estendida/levantada sobre o(s) ordenando(s).
No Rito reformado nada consta a respeito. Faz-se, portanto, ou por costume originado nas rubricas do antigo, mantido por bispos e padres mais idosos e que o ensinaram a outros (isto é chamado jocosamente de "cacoete litúrgico" por liturgistas que tendem a desprezar as formas mais antigas), ou por novos bispos e padres que querem enriquecer a cerimônia do rito reformado com detalhes do rito mais antigo, sabendo que foi o uso por séculos na Igreja.
Permanecerem com a mão estendida, digamos, tem o mesmo valor de as imporem inicialmente. Sobre o significado, leiamos o que diz uma edição em inglês do Rituale Romanum, de 1964 (tradução livre minha):

{Quando se termina a Ladainha, os candidatos levantam-se e vão ajoelhar-se diante do bispo de dois em dois. O bispo impõe suas mãos sobre a cabeça de cada candidato, sem nada dizer. Esta ação tão simples, embora impressionante, é chamada de matéria essencial do sacramento. Ela significa que o poder do sacerdócio é conferido pelo bispo que impõe as mãos sobre o candidato, transmitindo-lhe o poder que o próprio bispo recebeu de Cristo através dos apóstolos e de seus sucessores.}
Depois de o bispo impor as mãos sobre eles, eles voltam para seus lugares e ajoelham-se. Quando todos estão em seus lugares, o bispo mantém sua mão direita erguida sobre eles. Em seguida os presbíteros que estão presentes aproximam-se e impõem as mãos sobre a cabeça de cada candidato. Então, formando um semicírculo começando do Lado do Evangelho, eles permanecem de pé atrás dos candidatos e mantêm a mão direita estendida sobre eles, da mesma forma como o bispo está fazendo.
O ato de os presbíteros tomarem parte na cerimônia de imposição de mãos é, talvez, um resquício de um tempo em que mais de um bispo participava da ordenação de presbíteros, e cada bispo presente impunha as mãos sobre os ordenandos. A presente cerimônia dos presbíteros de impor as mãos não tem outro propósito a não ser enfatizar o sinal exterior do poder sendo conferido através deste tipo de ação.

A resposta vem também com certa clareza no próprio Ritual de Ordenações reformado, onde se lê: "O ministro da sagrada Ordenação é o Bispo. Convém que a Ordenação do diácono em presbítero seja feita pelo Bispo da diocese. Mas os presbíteros presentes na celebração da Ordenação impõem as mãos sobre os candidatos juntamente com o Bispo 'por causa do espírito comum e semelhante do clero'" (n. 105). "Os presbíteros impõem as mãos aos candidatos juntamente com o Bispo, para significarem a recepção no presbitério" (n. 112).

Resposta 2:

A segunda pergunta já está dividida em duas. Passemos para a resposta.
Se é previsto o gesto de atar ou amarrar as mãos do ordenado, procuremos nas rubricas do Rito (n. 133). O momento em questão seria logo após a unção.

Depois, o Bispo põe o gremial de linho e, após ter sido feita, se parecer oportuno, uma explicação ao povo, unge com o santo crisma as palmas das mãos de cada Ordenado, ajoelhado diante de si (...). 
A seguir o Bispo e os Ordenados lavam as mãos.

Como se vê, este gesto não é previsto no rito reformado. Portanto, já se pode dizer que aí ele não é obrigatório. Na verdade, pode-se dizer que inexiste.
Passemos então para as rubricas mais antigas para procurarmos sua origem:

Tum Pontifex claudit, seu jungit manus cuilibet successive, quas sic consecratas aliquis ministrorum Pontificis albo panniculo lineo simul, videlicet, dexteram super sinistram alligat; et mox unusquisque ad suum redit; et sic clausas, et alligatas manus tenet. (...)  Interea dum Offertorium cantatur, vel etiam prius, ordinati Sacerdotes poterunt lavare manus suas cum medulla panis, et aqua bene mundare, atque extergere mappulis illis, quibus ligatae erant, et aqua ablutionis hujusmodi projiciatur in sacrarium.

Eis aqui a razão! Depois de ungidas e consagradas, as mãos dos ordenados são atadas com um pequeno pano de linho e desta forma voltam para seus lugares. Tocarão a patena e o cálice e somente depois do Evangelho, mais precisamente durante o canto do Offertorium ou um pouco antes, os ordenados poderão desatar as mãos, lavá-las e enxugá-las com esse mesmo pano, que assim já serve como um manustérgio. De fato, alguns textos o chamam de manutergium (ou variações: maniturgium).
Sendo assim, podemos afirmar que na Forma Extraordinária, somente, este gesto é previsto pelas rubricas e, portanto, obrigatório.
Mas qual o sentido?
Após algumas pesquisas podemos dar 3 interpretações:
1. Sentido funcional: como os dedos indicadores e polegares, bem como as palmas, foram ungidos, atar as mãos pode ter a intenção de deixar o óleo impregnar melhor a pele, bem como não permitir que ele pingue no chão ou nas vestes, já que estamos falando do Santo Crisma. Também serve para o momento de lavar as mãos, como já citado acima, estritamente seguindo a rubrica.
2. Sentido alegórico: uma das interpretações que encontrei pela web foi de que este gesto serve para recordar ao ordenado o que nosso Senhor disse a São Pedro, depois de perguntar se o amava e de lhe confiar o cuidado dos cordeiros e ovelhas: "Quando eras mais moço, cingias-te e andavas aonde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres" (Jo 21,18). Outra interpretação fala do gesto como recordação da expressão de São Paulo: "prisioneiro de Jesus Cristo" (Ef 3,1). Seria um sinal externo, na cerimônia, de que o presbítero está ligado a Cristo, o Sumo e Eterno Sacerdote.
3. Sentido da devoção popular: pessoalmente conhecia este gesto sendo feito da seguinte forma: depois de atado o sacerdote vai até sua mãe, se presente na Missa, para que ela o desate. Alguns o interpretariam como sendo sinal de pertença à Igreja, deixando de pertencer aos pais e aos cuidados meramente humanos. Esta apresentação à mãe parece ser costume antigo (pelo menos de várias décadas) não só no Brasil. Na web encontro a seguinte explicação ligada a esta entrega da fita (chamado também em alguns textos de manutergium), embora aparentemente separada da Missa: "Para sua mãe ele entrega o Maniturgium, que foi usado para limpar suas mãos, consagradas e santificadas quando o bispo as ungiu com o santo crisma na ordenação. O Maniturgium é um simples pedaço de linho branco que representa o sudário de Cristo, que protegeu seu sagrado corpo durante os 3 dias no sepulcro. O Maniturgium é dado à mãe, pois ela foi a primeira protetora do presbítero recém-ordenado, durante seu tempo em seu ventre. O Maniturgium é uma recordação ao povo de Deus de Seu amor e proteção, especialmente pelos sacerdotes. Quando a mãe do presbítero recém-ordenado for chamada por Deus, ela será sepultada segurando o Maniturgium de modo que todos no Céu e na terra saibam que ela é a mãe de um sacerdote. E no último dia, quando ressuscitarmos dos mortos, ela poderá apresentar o Maniturgium a Cristo Senhor e dizer-lhe: 'Meu filho também partilhou do vosso sacerdócio'".
No blog da Arquidiocese de Washington (EUA), um sacerdote chamado Monsenhor Charles Pope escreve: "De acordo com a tradição, a mãe de um padre deve guardar este pano precioso num lugar seguro. Em sua morte, este pano deve ser posto em suas mãos quando seu corpo estiver no caixão. Ele serve para recordar que um de seus filhos é um sacerdote. Ela, de acordo com a tradição, tem isto como uma glória especial, e deverá apresentar este manutergium ao Senhor no seu julgamento. Embora não haja um passe-livre para o Céu, é uma honra especial ter dado à luz um filho que se tornou um sacerdote".
Ainda sobre este mesmo costume e pensamento, lemos noutra página, num texto escrito por um sacerdote  dominicano chamado Louis R. Coronel: "Há também uma prática onde o sacerdote o dá à sua mãe, que continuará a guardá-lo até a sepultura. Assim, caso ela seja barrada de entrar no Céu, ela poderá mostrá-lo como prova de que criou um filho que é sacerdote. 
Este costume pode não ter uma base teológica, mas crê-se que ainda é digno de ser observado por muitas pessoas. Durante meu primeiro ano como sacerdote estive contemplando esta questão: 'Como alguém pode dizer que uma família é afortunada por ter um sacerdote?' Em minha introspecção eu percebi que não há nada a ver com popularidade ou prestígio. Uma família é afortunada por ter um sacerdote porque ela pode prontamente beneficiar-se dos sacramentos de nossa salvação. E os sacramentos são os meios para entrarmos no Céu".

Esperando ter respondido a este meu caro frade, pediria somente a todos que, tendo lido esta postagem, façam uma pequena prece pelas vocações sacerdotais em nossa Pátria. 
Deus nos dê muitos e santos sacerdotes!
***
Abaixo, três fotos de uma bem recente (01/06/2013) ordenação presbiteral (5 novos sacerdotes) da Fraternidade Sacerdotal São Pedro (na Forma Extraordinária do Rito Romano), por D. James D. Conley, na Catedral de Lincoln, Nebraska, EUA.




Por Luís Augusto - membro da ARS

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