sexta-feira, 6 de maio de 2016

A história do Tempo Pascal, por Dom Prosper Guéranger

Damos o nome de Tempo Pascal ao período entre o Domingo de Páscoa e o Sábado seguinte ao Domingo de Pentecostes (N.T.: considerava-se aqui a Oitava de Pentecostes). É a porção mais sagrada do Ano Litúrgico, para a qual converge todo o ciclo. Facilmente entenderemos se refletirmos sobre a grandeza da Festa da Páscoa, que é chamada a Festa das Festas, a Solenidade das Solenidades, da mesma forma, diz São Gregório, que a parte mais sagrada do Templo era chamada de Santo dos Santos; e o livro da Sagrada Escritura, onde se descrevem os esponsais entre Cristo e a Igreja, é chamado de Cântico dos Cânticos. É neste dia que a missão do Verbo Encarnado atinge o objetivo para o qual incessantemente tendeu até então: a humanidade é erguida de sua queda e reconquista o que havia perdido pelo pecado de Adão.
O Natal deu-nos um Homem-Deus; mal passaram três dias desde que testemunhamos seu Sangue infinitamente precioso derramado em nosso resgate; mas agora, no dia da Páscoa, nosso Jesus não mais é a Vítima da morte: ele é um Conquistador, ele destrói a morte, a filha do pecado, e proclama vida, a vida imortal que ele adquiriu para nós. A humilhação das faixas que o atavam, os sofrimentos de sua Agonia e Cruz, essas coisas passaram; agora tudo é glória, glória para ele e glória também para nós. No dia da Páscoa, Deus reconquista, pela Ressurreição do Homem-Deus, sua criação tal como ela a fez no início; o único vestígio agora deixado de morte, é aquela semelhança do pecado que o Cordeiro de Deus dignou-se tomar sobre si mesmo. Não é Jesus somente que retorna para a vida eterna; toda a raça humana também ressurgiu para a imortalidade junto com nosso Jesus. "Por um homem veio a morte", diz o Apóstolo, "e por um Homem a Ressurreição dos mortos: e assim como em Adão todos morrem, também em Cristo todos viverão" (1Cor 15,21-22).
O aniversário desta Ressurreição é, portanto, o grande Dia, o dia de alegria, o dia por excelência; o dia para o qual todo o ano olha em expectativa, e no qual se forma toda a economia [N.T. da salvação]. Mas sendo o mais santo dos dias, pelo fato de abrir-nos o portão do Céu - no qual deveremos entrar porque ressuscitamos junto com Cristo -  a Igreja deveria fazer-nos chegar até ele bem preparados pela mortificação corporal e pela compunção do coração. Foi para isto que ela instituiu o Jejum da Quaresma, e nos fez olhar, durante a Setuagésima, para a alegria de sua Páscoa e ficarmos cheios de sentimentos apropriados para a aproximação de tão grande solenidade. Nós obedecemos e passamos pelo período de nossa preparação e agora o sol pascal levantou-se sobre nós!
Mas não era suficiente solenizar o grande Dia em que Jesus, nossa Luz, erguei-se das trevas do túmulo: havia outro aniversário que clamava por nossa grata celebração. O Verbo Encarnado ressurgiu no primeiro dia da semana, o mesmo dia em que antes, ele, o Verbo Incriado do Pai, iniciou a obra da Criação, chamando a luz e separando-a das trevas. O primeiro dia foi assim enobrecido pela criação da luz. Ele recebeu uma segunda consagração pela Ressurreição de Jesus, e deste tempo em diante, o Domingo, e não o Sábado, é o Dia do Senhor. Sim, nossa Ressurreição em Jesus, que teve lugar no Domingo, deu a este primeiro dia uma preeminência sobre todos os outros dias da semana: o preceito divino do Sabbath foi abrogado junto com as outras ordenações da Lei Mosaica, e os Apóstolos instruíram os fiéis a santificarem o primeiro dia da semana, que Deus dignificou com esta dupla glória, a criação e a regeneração do mundo. Sendo, pois, o Domingo o dia da Ressurreição de Jesus, a Igreja escolheu este dia, em preferência a qualquer outro dia, para esta comemoração anual. A Páscoa dos Judeus, em consequência de sua fixação no dia décimo quarto dia da lua de Março (aniversário da saída do Egito) caía por sua vez em cada dia da semana. A Páscoa Judaica era apenas uma figura; a nossa é a realidade e põe fim à figura. A Igreja, portanto, desfez este seu último laço com a Sinagoga; e proclamou sua emancipação fixando a mais solene de suas Festas num dia em que jamais cairia aquele, em que os Judeus mantém sua Páscoa agora sem sentido. Os Apóstolos decretaram que a Páscoa Cristã jamais fosse celebrada na décima quarta lua de Março, mesmo que este dia fosse um Domingo; mas que se mantivesse em todo lugar no Domingo seguinte ao dia em que o obsoleto calendário da Sinagoga ainda o marca. (...)
A Igreja põe sobre todos os seus filhos a obrigação de receber a Sagrada Comunhão na Páscoa. Este preceito baseia-se nas palavras de nosso Redentor, que deixou à sua Igreja a missão de determinar o tempo do ano em que os cristãos deveriam receber o Santíssimo Sacramento. Nos tempos antigos, a Comunhão era frequente e, algures, até diária. Pouco a pouco, o fervor dos fiéis para com este augusto Mistério foi decrescendo, como vemos num decreto do Concílio de Ágata (Agde), ocorrido em 506, em que se definia que os fiéis que não se aproximassem da Comunhão no Natal, na Páscoa e em Pentecostes deveriam ser considerados como tendo deixado de ser católicos. (...)
Foi no ano de 1215, no Quarto Concílio Geral do Latrão, que a Igreja, vendo a crescente indiferença de seus filhos, decretou com pesar que os cristãos devessem estar estritamente obrigados à Comunhão somente uma vez por ano, e que esta Comunhão de obrigação deveria ser feita na Páscoa. A fim de mostrar aos fiéis que este era o extremo limite de sua condescendência diante da tibieza, ela declara, no mesmo Concílio, que aquele, que presumir quebrar esta regra, deve ser proibido de entrar numa igreja pelo resto da vida, e deve ser privado de sepultura cristã após a morte, como se tivesse livremente se separado do elo exterior da unidade católica. (...)
E quando refletimos sobre quantos daqueles que fazem sua Comunhão Pascal e que não deram a devida atenção à Penitência Quaresmal, como se não existisse tal obrigação, é impossível não nos entristecermos e não nos perguntarmos, dentro de nós mesmos: até quando Deus suportará tais infrações da Lei Cristã?
Os cinquenta dias entre a Páscoa e Pentecostes sempre foram considerados pela Igreja como os mais sagrados. A primeira semana, que é mais expressamente devotada à celebração da Ressurreição de nosso Senhor, é guardada como uma única Festa prolongada; mas o restante dos cinquenta dias é também marcado por honras especiais. Sem dizer nada da alegria, que é a característica deste período do ano, cuja expressão é o Alleluia, a tradição cristã marcou o Tempo Pascal com duas práticas, que o distinguiam de todos os outros tempos. A primeira é que o jejum não é permitido durante o inteiro intervalo: é uma extensão do antigo preceito de nunca jejuar num Domingo, e todo o Tempo Pascal é considerado como um grande Domingo. Esta prática, que parece ter vindo dos tempo dos Apóstolos, foi aceita pelas Regras Religiosas tanto do Oriente como do Ocidente, mesmo pelas mais severas. A segunda consiste em não se ajoelhar no Ofício Divino, da Páscoa até Pentecostes. As Igrejas Orientais têm mantido esta prática fielmente até hoje. Ela foi observada por muito tempo pelas Igrejas Ocidentais também, mas hoje em dia isto há menos que uma sobra disto. A Igreja Latina já há muito admitiu genuflexões na Missa durante o Tempo Pascal. (...)
O Tempo Pascal, então, é como uma Festa prolongada. (...) Santo Ambrósio falando sobre isso diz: "Se os Judeus não se satisfazem com o Sabbath de cada semana, mas ainda observam um que dura um mês inteiro, e outro que dura um ano inteiro, quanto mais não deveríamos nós honra a Ressurreição de nosso Senhor? Daí nossos ancestrais terem nos ensinado a celebrar os cinquenta dias como a continuação da Páscoa. Há sete semanas, e a Festa de Pentecostes começa na oitava. ...Durante estes cinquenta dias, a Igreja não observa nenhum jejum, como não faz em nenhum Domingo, pois este é o dia me que nosso Senhor ressurgiu: e todos estes cinquenta dias são como vários Domingos" [In Lucam, lib. viii. cap. xxv.]

Tradução parcial do capítulo sobre o Tempo Pascal, da famosa obra "O Ano  Litúrgico", do Servo de Deus Dom Prosper Guéranger.

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