quarta-feira, 29 de junho de 2011

"O Portão para a Eternidade" - parte 1/3

Pax et bonum!

Depois de cerca de 4 meses finalmente concluí a tradução do belíssimo artigo The Gateway to Eternity - The Classical Roman Rite and its meaning for the Church, do Mons. Michael Schmitz, vigário geral e superior provincial para os EUA do Institute of Christ the King Sovereign Priest, uma Sociedade de Vida Apostólica de Direito Pontifício, fundada em Gabon, na África, e cuja casa mãe fica em Florença, na Itália.  Uma de suas metas é a santificação dos sacerdotes e possui certa índole missionária. Parte importante de seu carisma é a adoção exclusiva da Forma Extraordinária do Rito Romano para a vida litúrgica.
Bem, não é que eu demore tanto, mas às vezes a tradução passa por longas pausas, devido a tantas coisas que têm prioridade no cotidiano. Eis a razão para os quatro meses.
O artigo trata do significado da Forma Extraordinária do Rito Romano para a Igreja e beira ao poético, com um notável lirismo que encanta.
Certamente pode haver alguma imprecisão (não sou profissional), mas a intenção foi de oferecer uma tradução boa, fidedigna.
Bom proveito!

O Portão para a Eternidade
O Rito Romano Clássico e seu significado para a Igreja
Por Mons. R. Michael Schmitz


O Rito Romano Clássico, por vários anos escondido e despercebido, a cada dia traz mais e mais jovens pessoas para dentro de sua esfera. O Instituto de Cristo Rei e Sumo Sacerdote é profundamente grato ao Santo Padre pelos seus planos que intentam a liberação mundial de um Rito que pertence à herança genuína da Igreja.

I. A Atmosfera do Rito Romano Clássico

Para melhor compreender que grande dom é o Rito Romano Clássico para todos, queremos chamar a atenção para alguns pontos fundamentais que dizem respeito ao ritual da Igreja enfatizado por esta última decisão, antes de apresentarmos várias características essenciais do próprio Rito. Como questão de fato, esta permissão – um motu proprio, significando a própria decisão do Romano Pontífice e marcado pela sua autoridade oficial – sublinha algumas características muito importantes da atmosfera geral da vida litúrgica clássica da Igreja: divina liberdade, duradoura juventude, harmoniosa multiplicidade, universalidade transcendente, beleza sobrenatural.

a. Divina liberdade

O Rito Romano remonta ao início da Igreja e passou por um longo desenvolvimento orgânico e frutuoso por cerca de dois milênios. Contudo, o Indulto não trata de algo velho de um passado esquecido ou de uma peça da antiguidade descoberta no porão da Santa Mãe Igreja por um grupo de nostálgicos. Pelo contrário, o Indulto Geral simplesmente estabelece a todos a possibilidade do livre acesso ao pleno tesouro litúrgico da Igreja. Este tesouro nunca envelheceu. Cada vez mais pessoas jovens, e bem jovens, perguntaram às autoridades da Igreja por que este venerável Rito não mais era acessível à maior parte do povo. Se não há razão, eles argumentaram, este Rito é um brilhante monumento de cultura musical, linguística e artística. Grandes mestres como Leonardo da Vinci, Michelangelo, Mozart, Verdi, Tiepolo, Chagall, Chaucer, Goethe, Tolkien, para nomear apenas uns poucos dentre milhares, foram inspirados por ela ou trabalharam por ela. As gerações mais jovens quiseram não mais estar alheias a esta herança de perfeição, excelência e beleza. Além disso, várias pessoas jovens expostas ao Rito Romano Clássico através de informações na internet ou por uma visita ocasional a uma tal “Missa Latina Tradicional”, sentiram-se espiritualmente elevados e puderam experimentar a admiração e a santidade permeando o Rito Clássico. Ao lado daqueles que ainda guardavam memórias desta fonte única de inspiração, eles insistentemente pediram uma liberação geral do Rito e a aplicação generosa dos passos previamente dados pela Santa Sé para encorajar a permissão para a sua celebração.

Assim, uma permissão mais geral do Rito Romano Clássico só pode ser percebida como um ato de liberdade e recebida com um grande alívio. Seria uma satisfação, para muitos, gozar finalmente de uma verdadeira e plena liberdade litúrgica e participar do Rito que, com poucas mudanças no transcurso dos séculos, tem sido o coração da Igreja por mais de 1500 anos. Agora, todos poderão sentir-se livres para descobrir a continuidade da vida litúrgica na Igreja e estudar a profundidade de seu significado teológico. O Rito Romano Clássico nunca foi proibido ou abolido, mas de alguma forma pareceu ter escorregado naquilo que os romanos chamaram de “damnatio memoriæ”, uma interdição da memória. A memória viva da Igreja, no entanto, é baseada na liberdade da graça. Nada que é divino pode ser apagado dela. A liberdade da graça é mais forte que o prematuro esquecimento ideológico. Com o Indulto, a Divina Liberdade abriu uma porta. Esta porta deve ter ficado bloqueada momentaneamente, mas o tesouro atrás dela esteve sempre vivo e presente.

b. Duradoura juventude

Consequentemente, o Indulto Geral não trata de formas de culto de ontem, mas de uma liturgia divinamente inspirada, ligada à própria juventude da Igreja. Esta liturgia manteve sua juventude inalterada até hoje. A própria Igreja inicia a Missa após o sinal-da-cruz com as palavras: “Introibo ad altarem Dei, ad Deum qui lætificat iuventutem meam; Subirei ao altar de Deus, ao Deus que alegra a minha juventude”.

O Instituto de Cristo Rei e Sumo Sacerdote (Institute of Christ the King Sovereign Priest) é um bom exemplo deste espírito jovem da liturgia. Por uma questão de fato, não poderíamos estar mais longe de sermos um bando de saudosistas. A grande maioria de nossos padres está bem abaixo dos quarenta, e temos tantas jovens vocações que não podemos aceitá-las todas no Seminário Internacional. O ramo das irmãs religiosas que apenas acrescentamos ao Instituto não tem nenhuma irmã acima dos trinta. Nós certamente acolhemos todas as idades em nossa liturgia e somos especialmente gratos àqueles que sempre foram fiéis a ela, mas é notável quantas jovens famílias e jovens adultos solteiros vêm às Missas celebradas no Rito Romano Clássico. O número de adolescentes e crianças é semelhantemente impressionante. Muitos nos contaram que sentem que o Rito que celebramos contribui para o rejuvenescimento da Igreja, e os visitantes se impressionam pelos tantos rostos jovens que eles vêem em nossas celebrações dominicais. Mais uma vez, o Rito que celebramos mostra muito claramente que ele não pode ser identificado com um grupo de idade ou a um específico período de tempo do passado. Nada dele é poeirento, mofado ou antiquado. O Rito Romano Clássico aparece tão atemporal quanto uma obra de arte, quanto as imutáveis expressões de amor, quanto o oceano, as montanhas ou o céu estrelado. Os grandiosos e eternos gestos de Deus estão presentes em seus rituais e revelam uma profundidade e uma beleza que não pode diminuir nem desaparecer. A juventude do Rito é um reflexo da juventude de Deus que jamais muda.

c. Harmoniosa multiplicidade

A multiplicidade na unidade é um grande dom. A Igreja Católica, durante sua longa vida, fomentou muitas culturas as quais estiveram todas crescendo no berço da unidade de fé. Um grande número da população dos Estados Unidos, Itália, Espanha, Filipinas, Alemanha, os países da América do Sul, França, Irlanda e tantas, tantas outras nações, adorou na unidade da Fé Católica, sendo ainda suas culturas tão diversas quanto podem ser. Frequentemente, a Igreja tem sido comparada a um grande jardim com muitas árvores, arbustos e flores diferentes, apresentando inúmeras formas, cores e perfumes enquanto todas mostram o mesmo movimento harmonioso em direção a um foco. Os milhares de excepcionalmente heroicos e santos homens e mulheres, grupos e ordens, movimentos e eventos históricos influenciados pela Igreja são prova desta variedade refletindo o insondável abismo da copiosa magnificência de Deus.

O esplendor da vida litúrgica da Igreja revelou a mesma diversidade harmônica em tantas formas possíveis que tornaram-se mais expressivas e ricas no passar dos séculos. O arranjo das expressões litúrgicas entre as chamadas “famílias de Rito” na Igreja Católica é impressionante, se apenas pensarmos nos Maronitas, Ucranianos, Greco-Católicos, Siro-malabares, Caldeus uniatas, Armênios e Coptas. Todos estes ritos são veneráveis monumentos de antiguidade eclesiástica, e eles sobreviveram mesmo sob as mais difíceis circunstâncias e mantêm os fiéis unidos a eles fortes em sua fé e joviais em sua esperança cristã. Até recentemente esta variedade também fez parte do Rito Latino, e muitas dioceses e ordens religiosas tinham seu próprio ritual que eles consideravam como uma outra possibilidade de mostrar a grande riqueza da cultura católica. É verdade que o Rito Romano conheceu uma crescente tendência para unificação, embora nunca excluindo qualquer coisa que fosse “digna e razoável”, mas incluindo mais e mais na diversificada fortuna de expressões litúrgicas no único Rito Romano. Por gerações o Rito Latino foi crescendo para tornar-se um caleidoscópio perfeitamente unificado da multiplicidade Católica Romana, integrada num único Rito através de um processo orgânico que sempre foi compreendido como um dom do Espírito de Deus.

d. Universalidade transcendente

O Rito Romano é universal. Ele sempre teve uma dimensão global no tempo e no espaço. Antes de tudo, ele nunca foi aceito como sendo uma invenção puramente humana. Nada na Igreja é venerado ou mantido simplesmente por ser antigo. A Igreja sempre se relaciona primeiramente com o presente e não com o passado ou o futuro. A presença com que nos relacionamos é a presença de Cristo e sua redenção. É uma presença meta-histórica, significando que o Senhor e sua graça não dependem do tempo ou da história, mas se estendem à imensa eternidade de Deus. O Deus-homem Jesus Cristo não pertence a nenhum período de tempo, mas é o tempo que pertence a ele. Embora tendo vivido verdadeiramente como homem num certo momento da história no qual operou nossa Redenção, sua divindade tornou sua pessoa e suas ações presentes para todos os tempos, que por ele são para sempre mudados. A presença atemporal de Cristo é o próprio Mistério que a Igreja celebra em seus altares. Por esta razão, o Rito de suas celebrações, inicialmente organizado pelo Senhor e seus primeiros discípulos, e logo em seguida desenvolvido sob a guia do Espírito Santo pelo “sensus fidelium”, o harmônico senso da fé da Igreja inteira, revela a atemporalidade de sua Esposa. Pela ação atemporal de Cristo, a Igreja pode torná-lo presente a todos os tempos em seus altares. O seu Rito é como uma janela para a eternidade.

O Rito é celebrado num momento histórico que é transcendido pelo próprio Rito. De modo semelhante, o Rito tem uma dimensão de espaço porque sua celebração depende das circunstâncias locais. Por sua vez, todavia, o local é transcendido, como o tempo, já que o espaço torna-se sagrado porque é consagrado pela Presença de Cristo, através de sua Igreja e seu Rito. O ato supremo de obediência à vontade do Pai sobre a cruz, com o qual o Senhor quis operar a nossa Salvação, é colocado para além do tempo e do espaço pelo poder divino. Por essa razão, esta ação será apresentada a qualquer tempo e espaço, consagrada por Cristo através do Rito instituído por ele e celebrado pela Igreja.

Consequentemente, o próprio Rito, embora rico de elementos individuais de várias épocas e lugares, no todo exala o hálito Divino da presença eterna. Tendo preservado num longo desenvolvimento orgânico apenas as formas mais adaptadas para conter o Divino em sinais e gestos humanos, a estrutura visível do Rito foi transformada num instrumento único da Presença Divina neste mundo. O Rito Romano Clássico ser experimentado como “de outro mundo”, algo percebido também pelo observador inexperiente e talvez estranhado, vem do fato de que o Rito não é moldado seguindo as modas e gostos de certas épocas e lugares, mas aquilo que se realiza e celebra, o Sacrifício da Redenção, celebrado na Cruz por Jesus Cristo, o único que é Sacerdote e Vítima, o Cordeiro apocalíptico de Deus.

e. Beleza sobrenatural

Os elementos acima mencionados criam uma atmosfera de íntima comunicação entre o humano e o Divino. O mistério da Encarnação prolonga-se, assim, no ritual. O próprio Cristo deixou a Igreja como um legado de salvação a ser perpetuado até o fim da história. A natureza humana de Cristo é o “organon divinitatis”, o instrumento da Divindade, como Cirilo de Alexandria formula no séc. IV e Tomás de Aquino explica cerca de oito séculos depois. Não, todavia, um instrumento exterior ao agente, como uma mera ferramenta, um martelo, por exemplo, mas um instrumento unido ao agente pela graça divina, a graça da união, que faz com que a natureza humana de Cristo seja totalmente penetrada pela Divindade, mais que o óleo umedecendo um pedaço de pano ou a chama brilhando numa barra de ferro incandescente, para usar os exemplos dos Padres Gregos da Igreja. Em Cristo, todo o humano é divino, razão pela qual sua vida terrena é a revelação contínua da verdade divina, o sacrifício da Cruz é o preço de nossa salvação, sua ressurreição corporal é o triunfo da vida eterna e seu coração, o altar da Redenção.

Esta lei da Encarnação, da unidade entre natureza e graça, entre humanidade e Divindade, é visível em seu Corpo místico, a Igreja. Não que a graça da perfeita união seja continuada inconsideradamente em todos os seus membros ou ações. A Segunda Pessoa Divina tornou-se um homem histórico e individual; não se encarnou na coletividade. Todavia, sua graça dá uma união indestrutível ao elemento humano na Igreja e é particularmente densa nos momentos em que ele prometeu a presença nas ações dela. Por esta razão, a voz dela é infalível quando ela ensina de modo definitivo em seu nome, suas ações são divinas quando ela fielmente celebra os ritos sacramentais que ele instituiu para a salvação da multidão, e suas leis falam da vontade dele quando ela caminha rumo aos mandamentos. Se o bem-aventurado corpo humano do Senhor foi acertadamente chamado de instrumento de sua divindade, seu Corpo místico com significado não inferior foi referido como o “Cristo expandido na terra”. Tristemente, é bem óbvio que nem tudo que é humano na Igreja pode ser considerado divino, mas o centro de sua vida, sua doutrina divina, sua liturgia e sua lei são sustentadas pela ação sobrenatural de Cristo e gozam da plena consequência da regra da Encarnação, que conectou para sempre a humanidade com a Trindade.

Esta íntima unidade parece diretamente tangível na Igreja através do que tem sido chamado inúmeras vezes de “fonte e cume” de sua vida, que é o Santo Sacrifício da Missa. Aqui, Cristo está substancialmente presente com sua Humanidade e sua Divindade, com seu Corpo e sua Alma. Tudo na vida da Igreja tem como foco esta Presença e a celebração do Sacrifício que torna esta vida possível. Consequentemente, a ação litúrgica que envolve o momento próprio do Sacrifício, nas palavras da consagração instituídas pelo Senhor durante a Última Ceia, revelam o poder divino que transforma sinais humanos em farois de luz celestial. O banal não tem lugar nesta conversão misteriosa. Todas as sílabas, cada gesto, e até os medidos espaços de silêncio, repetidos através dos tempos em obediência à Divina vontade de salvação, têm um significado diretamente ligado à Imensidão do Divino e que foge a todos os disparates humanos.

A clara luz da eterna liberdade, a alegria refrescante da duradoura juventude, a harmonia única da multiplicidade unificada e a transcendência sobrenatural (lit. no original: de outro mundo) de tempo e espaço são fundidas numa ação de beleza indizível que não pode ser reduzida a meras palavras. O sinal sacramental vela e revela o ato do Deus-Homem Jesus Cristo, porque apresenta elementos de sua própria existência concentrados num momento de transfiguração do humano no Divino. O sacrifício da humanidade de Cristo glorifica pela eternidade esta existência e, assim, o Monte Calvário e o Monte Tabor são mesclados num único Momento de Redenção no qual os raios da ressurreição não podem ser obscurecidos pela sombra da Cruz. O esplendor deste instante é capturado pela pureza sóbria de um Rito que toca o divino no silêncio e descobre a verdade do Sacrifício no simples gesto de elevar uma hóstia branca no triunfo da ressurreição.

Deus é beleza. Sua criação fulgura em infindáveis facetas de sua majestade. A Vitória sobre a Cruz, seguida pela triunfante Ressurreição é a exaltação de sua Majestade na face da morte. Nada é de beleza tão essencial quanto este Gesto Redentor do Divino Amor. Este mesmo Divino Gesto, sob a forma de sinais humanos divinizados, é repetido em nossos altares a cada dia. Repentinamente, entende-se por que todo detalhe durante a celebração é de inexorável valor e por que, através de uma influência sobrenatural, a totalidade dos gestos humanos da Missa formam uma inteira ação sacramental cuja beleza não se pode explicar a não ser pela constante intervenção divina. O Sacramento do Altar não pode ser reduzido nem ao seu significado intelectual, nem apenas às suas palavras, suas ações ou ao seu efeito espiritual. O Santo Sacrifício da Missa forma uma unidade em que todos os elementos tomam parte na beleza do todo. A grandeza, mesmo de uma Missa rezada, consiste no fato de que Deus elevou a natureza pela graça, e ainda mais no centro da liturgia que celebra sua glória e nossa redenção. A Beleza, então, não é uma decoração negligenciável para uma ação da qual só importa a validade sacramental, mas uma indicação inconfundível da presença Divina. Esta é a razão pela qual o próprio Deus nos deu uma Missa que é um vislumbre do céu.

***

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

Nenhum comentário: