quinta-feira, 30 de junho de 2011

"O Portão para a Eternidade" - parte 2/3

II. Características essenciais do Rito Romano Clássico

A descrição da atmosfera geral que desenvolveu o Rito Romano, e em que ele tem vivido desde então, é apenas parte de seu atrativo único. Se tantos têm pedido por liberdade para participar do Rito que a Igreja cunhou como expressão de sua própria essência, esta surpreendente demanda também está ligada às características do próprio Rito nos vários passos em que ele se desdobra diante do espectador. Nossa apresentação seria incompleta, se não discutíssemos no mínimo alguns dos elementos mais importantes mostrados na celebração do Santo Sacrifício da Missa de acordo com a venerável tradição da Igreja.

a. Dois elementos exclusivos mas não essenciais

Todavia, dissipemos logo no começo alguns equívocos notórios. Duas características normalmente associadas ao Rito do qual estamos falamos são essenciais, mas não são típicas apenas do Rito Romano Clássico, desde que são padrões da liturgia católica até hoje, pelo menos em teoria: a língua litúrgica e a posição do celebrante durante a Missa. Uma Missa em latim não é exclusivamente uma Missa celebrada na forma tradicional, mas pode ser ainda qualquer celebração católica do Mistério do Altar. A Igreja nunca mudou sua convicção de que a língua latina é a mais apropriada expressão da palavra litúrgica na Igreja Latina e considera esta língua, de grandes partes da Igreja Primitiva, como sua própria língua-mãe. Até os dias atuais, o Romano Pontífice celebra a liturgia frequentemente em latim, e é seguido neste costume por um grande número de bispos nas ocasiões mais solenes do ano litúrgico. Nunca um Concílio ou Sínodo aboliu a língua latina como a língua da Igreja, e ainda mais porque os mais importantes documentos da Santa Mãe Igreja, inclusive os decretos do Concílio Vaticano II, estão escritos em latim. Aqui não é o lugar ou o momento de explicar todos os aspectos deste hábito, que certamente é um sinal de longevidade/eternidade, mas deve ser mencionado que pelo latim a Igreja tem sido capaz de preservar sua universalidade extra-nacional, sua ortodoxia, sua unidade, e a profundidade de sua qualidade cultural por cerca de dois mil anos.

O latim da Missa é claro, sóbrio e bem estruturado. Pelo fato de os textos fundamentais serem repetidos cotidianamente, até aqueles que não têm um conhecimento mais profundo desta língua clássica podem reconhecer o significado das palavras e participar da Missa independentemente das circunstâncias ou dificuldades nacionais ou culturais. Ao mesmo tempo, pelo uso do latim como língua litúrgica, o caráter sobrenatural dos Santos Mistérios é sublinhado e sua celebração é salvaguardada de mudanças arbitrárias ou preferências e gostos puramente subjetivos. Além disso, muitos consideram a música eclesiástica baseada nos textos da Missa latina – cantados na forma gregoriana ou em estilo polifônico conforme as famosas composições dos grandes mestres – como cantos que elevam e nutrem a alma. Estas são apenas umas poucas razões por que a Igreja Romana manteve o latim, totalmente independente da questão dos Ritos, como sua língua preferida até hoje.

Outras incompreensões se levantam frequentemente no que diz respeito à posição do celebrante ao altar. O chamado “altar do Sacrifício” que, via de regra, significa um altar solto no qual o sacerdote fica de frente para a assembleia nunca foi mencionado no Concílio Vaticano II e é atualmente uma introdução posterior. Algumas das rubricas do Rito mais novo parecem ainda pressupor que o celebrante esteja na mesma direção que o povo, esteja num altar solto ou num altar-mor que tenha um retábulo. Em todo caso, importantes estudos têm mostrado que a Igreja primitiva celebrava os Santos Mistérios voltada para o oriente, como sinal da ressurreição de Cristo, simbolizada pelo sol nascente. A assembleia e o sacerdote estariam na mesma posição, não importa se o sacerdote estivesse à frente ou atrás dos fiéis. Esta unidade também mostraria que, de um lado, o sacerdote representa a Igreja que oferece os dons a Deus e, do outro, que ele representa Cristo que se imola pela Igreja. Um dos mais recentes estudos acadêmicos, fundado em vários fatos que favorecem a posição orientada do sacerdote, tem um prefácio do Cardeal Joseph Ratzinger, que endossa a qualidade teológica desta tese. Num nível mais prático, pode-se notar que vários santuários populares pelo mundo ainda usam o chamado altar-mor e que mesmo a Capela Papal privada, no Palácio Apostólico, usada todos os dias por Sua Santidade, não tem um “altar de sacrifício” em que o celebrante fique de frente para o povo. Digo novamente, não é este o lugar para discutir a questão a fundo, mas o que foi dito é suficiente para mostrar que a posição do sacerdote voltado para o oriente junto com a assembleia não é exclusiva do Rito Romano Clássico.

b. Elementos essenciais típicos do Rito Clássico

Enquanto os elementos acima mencionados, o Latim e a posição do sacerdote junto do altar, contra um prejuízo tão espalhado, não são exclusivamente típicos apenas do Rito Romano Clássico, outros elementos estruturais do Rito podem ser reconhecidos como pertencentes mais precisamente à sua essência distintiva. Esta essência está envolta na atmosfera orante da admiração descrita no início deste artigo, mas pode ser identificada nas rubricas e textos do Rito contidos no Missal Romano que, por si, pode ser considerado como um monumento cultural.

1. Crescimento orgânico e detalhe inspirado

Antes de analisarmos algumas das práticas rituais, é importante notarmos que o padrão ritual apresentado nas páginas do Missal Romano, como um todo, não é o resultado do estudo de um indivíduo específico ou de um esforço acadêmico, e não foi concebido em um dado momento histórico por um grupo identificável de pessoas. Ninguém “inventou” a Missa ou quaisquer de suas partes. O desenvolvimento do Missal é o resultado de um processo temporal mais extenso para o qual membros da hierarquia e, notavelmente, os Pontífices Romanos, contribuíram não muito frequentemente através de algumas reorganizações e purificações do Rito, que permaneceu inalterado em geral e mesmo na maioria de seus detalhes. Se assim não foi em alguma parte, foi por mais elementos rituais que foram acrescentados ao todo, por já terem sido aceitos na maior parte das regiões da Igreja como expressões adequadas do Mistério litúrgico.

Historicamente, pode-se notar como o crescimento do Rito é mais um resultado do que chamamos teologicamente de “sensus fidelium”, significando o sentido da verdadeira fé de todos os fiéis sob a guia do Espírito Santo, não limitado apenas a um período específico da história da Igreja. Sob a direção prudente e cuidadosa da hierarquia, este “sensus fidelium” permite uma contínua osmose de elementos litúrgicos durante os séculos e garante a conformidade do Rito à sua base doutrinal na Revelação Divina. Assim, o Rito torna-se uma forma visível da fé cada vez mais fiel, especialmente em se tratando do Sacrifício e da Presença Eucarística do Senhor bendito. Bem recentemente, um livro, novamente bem introduzido pelo Cardeal Joseph Ratzinger, indicou com renovada ênfase que a modelagem do Rito Romano pode ser da melhor maneira sintetizada pela palavra “orgânica”. Em sua recomendação, o então Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé, agora Papa Bento XVI, assim se exprime: “Assim como um jardineiro cuida de uma planta enquanto ela se desenvolve, com devida atenção para o poder de crescimento e de vida que existe na planta, e as regras a que isto obedece, a Igreja deve dar um cuidado reverente à Liturgia ao longo dos tempos, distinguindo ações que auxiliam e curam daquelas que são violentas e destrutivas”. O Rito Romano Clássico apresenta a Igreja e todo os seus membros cultivando a Liturgia através do tempo e do espaço com cuidado de quem ama. Assim, o Rito conhece uma continuidade de significado e de ritual que nunca foi rompida. Ele não foi “construído” com concreto pré-moldado como uma construção moderna, mas tem crescido lenta e harmoniosamente no solo da Revelação, sob a luz da graça de Deus, como uma planta que mais ricamente desabrocha ao sol quanto mais profundamente está enraizada no chão.

Como consequência necessária da estrutura orgânica na liturgia acima exposta, o Rito apresenta grande continuidade em seus padrões e reflete um verdadeiro interesse por todos os detalhes. Até na vida humana, tudo que realmente importa tem uma rotina que não muda, e mesmo assim é sempre novo e emocionante. As expressão do amor profundo, as formas de respeito, as cerimônias civis, até o nascimento e a morte têm suas convenções fundamentais, mas nunca perdem sua grandeza e respeito. A repetição só é enfadonha quando se torna banal. O sol nascente, porém, a maré, os ventos e tempestades, as estações do ano e tantos outros fenômenos naturais são quadros de grandeza continuamente repetidos e que nunca cansam porque apontam para o seu autor, o Deus onipotente. Do mesmo modo, o detalhe da folha, a asa da borboleta, a simetria de um cristal são sempre fundamentalmente os mesmos de acordo com as espécies a que pertencem, e é exatamente esta fidelidade ao detalhe repetido sempre e sempre que cria a estonteante beleza de uma floresta, de um enxame de borboletas-monarca ou da neve caindo do céu invernoso. Assim como Deus, seu autor, o que é perfeito não precisa de mudança e sua aparição sempre dá novo prazer.

Por esta razão, a fidelidade ao padrão litúrgico, a repetição diária de palavras, movimentos e gestos idênticos, a leitura dos mesmo textos durante o ano, as festas e tempos litúrgicos recorrentes, a exatidão das rubricas indicando cada detalhe do Rito, a descrição precisa dos altares, dos vasos, dos instrumentos, das vestes e cores a serem usados mostra a perfeição de um Rito amadurecido através da modelagem constante efetuada pelo Divino. Deus é o autor último da Liturgia. Nós sabemos como são tão importantes os detalhes numa relação humana. Um sorriso, o tom da voz, o piscar dos olhos, todos os rituais da afeição humana são rubricas de amizade e amor negligenciadas somente com graves consequências para nossa vida diária. Quanto mais importam os detalhes em nosso relacionamento com Deus, não primeiramente para ele, mas para nós! Seria de espantar ele ter mostrado à sua Igreja como manter são e salvo este relacionamento fundamental, de que tudo depende? Não teria sido ele indiferente e distante deixando-nos sozinhos com nossa incapacidade de encontrar as palavras e os gestos corretos, que já destruiu tantos laços humanos de amor? Mas Deus não é distante e nem indiferente. Ele tornou-se homem para celebrar sobre o Calvário o gesto definitivo de amor redentor, que ele quer que seja repetido de forma sacramental por todo o sempre.

Assim, a forma do sacramento, todo importante para nossa salvação, foi instituída por Ele em seu padrão fundamental, e Ele enviou o seu Espírito para ensinar sua Igreja a como penetrar todos os seus gestos de culto com a mesma perfeição divina pelos séculos. Portanto, a fidelidade imutável ao padrão sacramental geral e ao detalhe litúrgico orgânico não é pobreza espiritual ou falta de criatividade, mas respeito e amor pela presença do divino em formas humanas perfeitas. O Rito cresceu organicamente para uma maior perfeição com o auxílio de Deus e assim o deve fazer, mas não necessita de mudanças diárias ou inovações puramente humanas, pois o Senhor habita nele, ele que “é o mesmo ontem, hoje e sempre”. Cristo é sempre novo e sempre o mesmo, e assim é a Liturgia de sua Igreja.

2. Realismo amoroso

Sendo um espelho da presença de Deus neste mundo e uma tradução de sua perfeição em gestos humanos, o Rito Romano apresenta um amoroso realismo quando trata da condição humana. Glória e Cruz, Graça e natureza, luz e treva são familiares ao padrão e ao detalhe do Rito. Como se tomaria demasiado tempo para explanar toda a riqueza de expressão relacionada a esta verdade, limitaremos nossas reflexões a alguns exemplos notáveis.

Depois de ter iniciado a Missa com o sinal-da-cruz, o Rito Romano Clássico segue com as chamadas “orações ao pé do altar”. Ao invés de imediatamente entrar no santuário, o sacerdote permanece de pé diante do primeiro degrau e, junto com o coroinha, recita um salmo introdutório com uma antífona. O salmo claramente intenta preparar o sacerdote para a celebração daquilo que é sacratíssimo: “Julgai-me, ó Deus, e separai a minha causa da gente ímpia”. Isto se torna mais claro com a recitação alternada do Confiteor com o qual o sacerdote e o coroinha confessam sua condição de pecadores a Deus, à corte celeste, e a cada um. Duas absolvições e uns versículos adicionais mostram que a Liturgia é muito consciente da necessidade de purificação antes que os Santos Mistérios possam ser celebrados de um modo digno. Quando, enfim, o sacerdote sobe ao altar, ele silenciosamente acrescenta uma oração que data da antiga Missa do Romano Pontífice e faz alusão à Capela Papal “Sancta Sanctorum”, no Palácio Lateranense, em Roma, e suas famosas relíquias: “Afastai de nós, Senhor, vos pedimos, as nossas iniquidades, a fim de merecermos entrar de alma pura no Santo dos Santos” e “Nós vos suplicamos, Senhor, pelos merecimentos dos vossos Santos, cujas relíquias aqui se encontram, e de todos os santos, vos digneis perdoar-me todos os meus pecados”. Somente, então ele beija o altar, que também contém relíquias de santos, e prossegue com a Missa.

O sacerdote e o povo estão claramente relembrados de sua necessidade de purificação espiritual, e a liturgia parece mesmo indicar que o celebrante tem necessidade desta purificação de modo mais urgente. Com toda a beleza e a elegância visível no Rito, desde o seu início, não se esquece da condição humana e, enquanto assinala ao sacerdote o papel de seu estado hierárquico como representante da Igreja e de Cristo, ela não o deixa esquecer que ele também é um pecador. O mesmo claro realismo é evidente nas orações do ofertório onde o celebrante fala de si mesmo como um “servo indigno” de Deus, e professa que ele oferece a hóstia por todos os presentes, mas também por seus próprios “inumeráveis pecados, ofensas e negligências”. Novamente, durante a oração silenciosa do Cânon da Missa, este silêncio somente é interrompido quando o sacerdote bate no peito depois da consagração e fala em voz alta: “E também a nós pecadores...” De modo similar, em sua oração privada antes da comunhão, o sacerdote implora a Deus que o livre, pelo seu sacratíssimo Corpo e Sangue, de todas as suas “transgressões” a fim de que o que ele “indignamente” presume receber, não se torne para ele “juízo e condenação”. Até nos últimos instantes da Missa, exatamente antes de dar a bênção final para os fiéis, esta realística visão da fragilidade humana é reiterada quando o celebrante pede ao Todo-poderoso para aceitar o sacrifício oferecido por ele, embora seja ele indigno. Sem nenhum clericalismo, o Rito Romano deixa muito claro que o sacerdócio é dado aos homens que precisam da clemência misericordiosa de Deus, ou seja, todos.

A mesma perspectiva realística sobre a vida é apresentada em todas as instâncias em que o Missal trata da condição humana em geral. Toda necessidade de nossa existência é relacionada, não apenas a comum condição de pecadores contra a qual estamos acostumados a lutar. A graça, a misericórdia, a generosidade e o auxílio de Deus são pedidos em quase todas as Coletas (Collecta) da Missa – como é chamada a oração introdutória depois da preparação aos pés do altar e o Kyrie eleison – e vários assuntos humanos sobre necessidade e indigência espiritual e material são mencionados. É impossível enumerar todas as orações neste contexto.  Basta apontar as Missas especiais e votivas em tempos de guerra, para implorar a paz, para evitar a morte, pelos viajantes e pelos enfermos, para uma boa morte e em ação de graças. Há um grande leque de orações a serem rezadas na Missa, como orações pela Igreja, pelos membros da hierarquia, a família, pelos inimigos e malfeitores, contra a fome, terremotos, furacões, doenças nos animais ou maus pensamentos, orações para implorar chuva, tempo tranquilo, o dom das lágrimas, o perdão dos pecados, orações pelos tentados, pela castidade, humildade, paciência e caridade, e finalmente orações pelos nossos amigos, nossos adversários, pelos que estão na prisão, nos mares e oceanos e por todos os vivos e mortos.

O Rito Romano Clássico, com todas as suas elevadas formas de Culto Divino, não esquece os detalhes da realidade do nosso dia a dia e parece espelhar o cuidado materno da Igreja por seus filhos, não negligenciando, mesmo nas situações mais extravagantes às quais nossa caminhada terrena nos possa levar. Pedidos materiais e espirituais semelhantes estão presentes no Rito, e podemos sentir o amor de Deus encarnado que experimentou a necessidade humana e não falha em recordar nossa condição cheia de privações. O realismo do Rito não é cínico, mas cheio de ternura, e enquanto “o mundo está ficando cada vez mais frio”, como de maneira adequada a Coleta para a Festa da Estigmatização de São Francisco de Assis expressa nosso estado presente, a afabilidade da atenção de Deus por nós, no Rito da Liturgia Clássica, ainda está aquecendo o nosso coração.

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Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

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