sexta-feira, 17 de junho de 2011

A Tiara papal ou Triregnum

É a coroa papal, um rico acessório para a cabeça, ornado com pérolas e pedras preciosas, com a forma semelhante à de uma colmeia, encimada por uma pequena cruz, e circulada por três diademas reais. Por conta dos três diademas é às vezes chamada de triregnum. A tiara é um ornamento não-litúrgico, que, portanto, só é utilizado para ocasiões não-litúrgicas, procissões cerimoniais indo para ou voltando de uma igreja, procissões papais cerimoniais, tal como houve em determinadas ocasiões até Rome ser ocupada pelos piemonteses, e em atos solenes de jurisdição, como, por exemplo, decisões dogmáticas solenes. O papa, como os bispos, usa a mitra em funções litúrgicas pontificais. A tiara é mencionada pela primeira vez na "Vita" do Papa Constantino (708-715) contida no "Liber Pontificalis". Ela aí é chamada de camelaucum e é mencionada no que se chama de "Constitutum Constantini", a suposta Doação do Imperador Constantino, provavelmente inventada no séc. VIII. Dentre a prerrogativas atribuídas ao papa neste documento, há especialmente um ornamento branco para a cabeça chamado phrygium, que o distinguia. Isto naturalmente pressupõe que, no tempo em que o documento foi escrito, era costumeiro o papa usar tal ornamento. Três períodos podem ser distinguidos no desenvolvimento da tiara. O primeiro período vai até o tempo em que esta era adornada com um diadema real; neste período, o ornamento papal para a cabeça era, como claramente se conhece pelo "Constitutum Constantini" e pelo Ordo IX de Mabillon (séc. IX), meramente um chapéu de material branco semelhante a um capacete. Pode ter havido um corte ao redor da borda inferior do chapéu, mas este ainda não tinha de modo algum o caráter de um diadema real. Não é positivamente conhecida a data em que a cobertura de cabeça papal foi adornada com um tal diadema. Na época da Doação de Constantino, isto é, no séc. VIII, a cobertura de cabeça papal ainda não tinha nenhum diadema real, como é evidente, pelo texto do documento. No séc. IX também nenhum diadema parece ter existido. É verdade que o Ordo IX chama o chapéu papal de regnum, mas a descrição que o Ordo dá deste chapéu nada tem de uma coroa, mas apenas que o regnum era um chapéu/boné semelhante a um capacete, feito de material branco. Os resquícios de monumentos não dão pistas quanto ao período em que a cobertura de cabeça papal passou a ser ornada com um diadema real. Até o séc. XII, a tiara era não só raramente representada na arte, mas também é incerto se a faixa decorativa na borda inferior destina-se a representar apenas um corte ou um diadema. Isto é ainda mais verdade quanto à representação da tiara nas moedas de Sérgio III (904-911) e Bento VII (974-983), as únicas representações do séc. X e também as mais antigas. Provavelmente, a cobertura de cabeça papal recebeu a tiara no momento em que a mitra se desenvolveu a partir da tiara, talvez no séc. X, a fim de distinguir a mitra e a tiara uma da outra. Em qualquer caso, a última foi provida de uma coroa por volta de 1130, como se aprende de uma declaração de Suger de Saint-Denis [um famoso abade francês, de importância no tocante à arquitetura gótica]. A primeira aparição comprovada da palavra tiara como designação da cobertura de cabeça papal está na vida de Pascoal II (1099-1118), no "Liber Pontificalis".

O segundo período de desenvolvimento da tiara se estende até o pontificado do Papa Bonifácio VIII (1294-1303). Há um grande número de representações da tiara que pertencem a este período, e destes, as romanas têm, naturalmente, o maior valor. O diadema permaneceu um simples anel, embora ricamente ornamentado, até o começo da segunda metade do séc. XIII; tornou-se então uma coroa antiga ou "dentada" [com pontas para cima]. Os dois lóbulos (caudæ) na parte de trás da tiara são vistos pela primeira vez em pinturas e esculturas no séc. XIII, mas eram, sem dúvida, costumeiros antes disso. Estranho dizer que eram de cor preta, como é evidente, tanto a partir de resquícios de monumentos quando de inventários, e esta cor foi mantida até o séc. XV. Quando a tiara é representada em escultura e pintura como uma peça entrançada, isto parece surgir do fato de que no séc. XIII, a tiara era feita de tiras trançadas juntas. De muita importância para a tiara foi o terceiro período de desenvolvimento que começou com o pontificado de Bonifácio VIII. É evidente a partir do inventário dos tesouros papais de 1295 que a tiara na época ainda tinha apenas um diadema real. A mudança, entretanto, logo apareceria. Durante o pontificado de Bonifácio VIII, uma segunda coroa juntou-se à primeira. Três estátuas do papa, que foram feitas durante a sua vida e sob seus olhos, e das quais duas foram encomendadas pelo próprio Bonifácio, não deixam dúvidas quanto a isso. Duas dessas estátuas estão na cripta de São Pedro, e a terceira, geralmente chamada erroneamente de uma estátua de Nicolau IV, está na igreja do Latrão. Em todas as três a tiara tem duas coroas. O que levou o Papa Bonifácio VIII a fazer essa mudança, se apenas o amor da pompa, ou se ele desejava expressar pela tiara com duas coroas suas opiniões sobre a dupla autoridade papal, nada se pode determinar. A primeira notícia de três coroas está contida em um inventário do tesouro papal do ano 1315 ou 1316. Como para os túmulos dos papas, o monumento de Bento XI (+1304) em Perugia mostra uma tiara do tipo antigo, o túmulo e a estátua de Clemente V, em Uzeste de Gironde [na França, quando o papa morou em Avignon] foram mutilados pelos calvinistas, de modo que nada se pode verificar nelas sobre a forma da tiara. A estátua em cima do túmulo do Papa João XXII é adornada com uma tiara com duas coroas. A primeira representação de uma tiara com três coroas, portanto, é oferecida pela efígie de Bento XII (+1342), cujos restos são preservados no museu em Avignon. A tiara de três coroas é, portanto, a regra para os monumentos da segunda metade do séc. XIV, embora, como um anacronismo, haja casos isolados da tiara com uma coroa por volta do séc. XV. Desde o séc. XV a tiara não recebeu nenhuma alteração digna de nota. Tiaras caras foram feitas especialmente nos pontificados de Paulo II (+1464), Sixto IV (+1484) e, sobretudo, no pontificado de Júlio II, que tinha uma tiara avaliada em 200 mil ducados, feita pelo joalheiro Caradosso de Milão.

Várias hipóteses, algumas bem singulares, foram propostas acerca da origem da cobertura de cabeça papal, discussão aqui desnecessária. O nome mais antigo para o chapéu/boné do papa, camelaucum, bem como a Doação de Constantino, claramente apontam para o Oriente Bizantino [pois camelaucum vem do grego]; Muito dificilmente se duvida que o modelo de onde foi tomado o chapéu/boné do Papa se encontre no camelaucum da idumentária da corte bizantina. A adoção, por parte dos papas, do camelaucum como um adorno para a cabeça no séc. VII ou pelo menos no séc. VIII é suficientemente explicada pela importante posição que eles alcançaram exatamente neste período, na Itália e sobretudo em Roma; embora não pudessem assumir uma coroa, já que não eram soberanos, eles poderiam usar um camelaucum, que era usado pelos dignitários do Império Bizantino.

Fonte: Braun, Joseph. "Tiara." The Catholic Encyclopedia. Vol. 14. New York: Robert Appleton Company, 1912. <http://www.newadvent.org/cathen/14714c.htm>.

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

*****

Significados:

Os autores dão vários significados para as três coroas. Sendo que todos se referem a um triplo poder.
O significado das três coroas evoluiu no decorrer da história. Tradicionalmente, o triplo poder (militar, civil e religioso) era igualmente exprimido por três títulos:
- Pai de reis
- Regente do Mundo
- Vigário de Cristo

A maioria dos autores assim explicam:
- A primeira coroa é símbolo do poder da Ordem Sagrada, pelo que o Papa é Vigário de Cristo sucessor de São Pedro , nomeando os bispos e sendo, por excelência, o grande Pai da Cristandade.
- A segunda coroa representa o poder da Jurisdição, em virtude do poder das chaves, ou seja, o de ligar e desligar na terra e no céu.
- A terceira coroa representa o poder do Magistério, em virtude da infalibilidade papal.

Outros autores dizem que as três coroas expressam as três fases da Igreja: militante (na terra), padecente (no purgatório) e triunfante (no céu).

Outra explicação fala das três funções do papa:
- Sacerdote: (bispo de Roma)
- Rei: Chefe de Estado soberano
- Mestre : árbitro e detentor do magistério supremo, dotado de infalibilidade.

Ainda temos que o Papa é para os cristãos:
- Sacerdote soberano
- Grande juiz
- Legislador

E por fim, outros dividem as coroas pelos poderes:
- Temporal: Chefe de Estado soberano
- Espiritual: Chefe da Igreja
- Moral: superioridade em relação aos outros poderes do mundo

Fonte: http://www.ecclesiaheraldica.com.br/inicio/modules/articles/article.php?id=2

Algumas imagens:


Gregório I com o camelaucum

Inocêncio III

Leão VIII

 
Bonifácio VIII

Bonifácio VIII


Bonifácio VIII


Leão XIII (1878-1903)

São Pio X (1903-1914)


Bento XV (1914-1922, infelizmente foi a única foto que encontrei relativa a ele e sua tiara)

Pio XI (1922-1939)

Venerável Pio XII (1939-1958)

Beato João XXIII (1958-1963)

Servo de Deus Paulo VI (1963-1978), último papa coroado

2 comentários:

Caio Vinícius disse...

A foto de Pio IX é na verdade de Pio XI.

Anônimo disse...

A Tiara papal é apenas mais um símbolo de nossa S.Igreja e faz parte da identidade católica NÃO podemos despreza-la ELA TEM QUE VOLTAR A SER USADA NA PLENITUDE DE SEU SIGNIFICADO COMO AUTORIDADE SUPREMA DO PAPA, COMO BISPO E PATRIARCA DE ROMA E DE TODA A IGREJA DE CRISTO, AO NEGAR OS NOSSOS SÍMBOLOS,
ESTAMOS NEGANDO A NÓS MESMOS.