domingo, 1 de abril de 2012

Semana Santa na Jerusalém do séc. IV - Domingo de Ramos da Paixão do Senhor

Pax et bonum!

Aproveitando estes dias sublimes da Semana Santa, estaremos postando os trechos da Peregrinação de Etéria referentes à Liturgia de Jerusalém nestes dias.

Mas o que é a Peregrinação de Etéria?
Trata-se de um relato escrito por uma cristã do séc. IV (por volta do ano 380), que realizou uma peregrinação pelo oriente, sobretudo pelos lugares sagrados.
Seu relato encontra-se fragmentado, mas é um documento histórico de inestimável valor.
Lendo-o vemos a quão distante época remontam tantas cerimônias que nossa Sagrada Liturgia traz até hoje.
O texto português, em duas partes, pode ser lido aqui e aqui, no Veritatis Splendor.
O texto latino (Itinerarium Egeriæ) pode ser lido aqui, na Bibliotheca Augustana, da Alemanha.

Neste primeiro dia da Semana Santa, o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, onde se comemora a entrada solene do Senhor na cidade santa, e se proclama o Evangelho da Paixão, como prelúdio da Sexta-feira Santa, leiamos como os cristãos o celebravam há cerca de 1600 anos atrás.

***


XXX
1. [Semana Santa: Domingo de Ramos] No dia seguinte, isto é, no domingo em que se entra na semana pascal aqui chamada "septimana maior", celebram-se, desde o primeiro cantar dos galos até de manhã, as cerimônias costumeiras na Anástasis e junto à Cruz, o que quer dizer que vão, como sempre, à igreja maior, chamada Martyrium por estar situada no Gólgota, isto é, atrás da Cruz onde o Senhor padeceu; daí o nome de "Martyrium".
2. Depois de celebrarem o culto, segundo o costume na igreja maior, antes, porém, de se dispersar o povo, toma a palavra o arquidiácono e diz, primeiro: "Durante toda esta semana, a partir de amanhã à nona hora, reunamo-nos no Martyrium, isto é, na igreja maior". A seguir, falando novamente, diz: "Hoje, à sétima hora [13h], devemos estar presente no [monte] Eleona".
3. Saindo da igreja maior, isto é, do Martyrium, acompanham o bispo à Anástasis, entoando hinos. Na Anástasis, terminadas as cerimônias que é costume realizar aos domingos após a dispensa no Martyrium, cada um, imediatamente, retirando-se à sua casa, apressa-se a comer para que, chegando a sétima hora, todos se encontrem na igreja de Eleona, isto é, no Monte das Oliveiras, onde se situa a gruta na qual pregava o Senhor.

XXXI
1. À sétima hora, portanto, todo o povo, e também o bispo, sobe à igreja do Monte das Oliveiras, isto é, o Eleona; recitam hinos e antífonas adequados a esse dia e lugar e igualmente leituras. Por volta da hora nona [15h], entoando hinos, sobem ao "Imbomon", isto é, ao sítio de onde subiu o Senhor aos céus, e aí se sentam, pois todo o povo, estando sempre presente o bispo, é convidado a sentar-se e só os diáconos permanecem o tempo inteiro de pé. Também aí recitam hinos e antífonas apropriadas ao lugar e ao dia e, igualmente, leituras intercaladas e orações.
2. Aproximando-se a undécima hora [17h], lêem o passo do Evangelho segundo o qual as crianças correram ao encontro do Senhor com ramos e palmas dizendo: "Bendito seja o que vem em nome do Senhor" [Mt 21,8-9]. Levantam-se, imediatamente, o bispo e todo o povo e, do alto do Monte das Oliveiras, descem todos a pé. E caminha todo o povo à frente do bispo, entoando hinos e antífonas e repetindo sempre "Bendito seja o que vem em nome do Senhor".
3. E todas as crianças da região, até mesmo as que, pela pouca idade, não podem andar pelos seus próprios pés e que os pais carregam ao colo, todas levam ramos, umas de palmas, outras de oliveiras; e acompanham o bispo tal como foi acompanhado o Senhor [Mt. 21,8].
4. Do alto do monte até a cidade e daí até a Anástasis, através de toda a cidade, o caminho todo perfazem-no todos a pé, mesmo as senhoras e os chefes; todos, cantando, acompanham o bispo lentamente, mui lentamente, para que se não canse o povo; e, continuando sempre, chegam, já tarde, à Anástasis. E, embora cheguem tarde, celebram contudo o Lucernare, fazem uma nova oração junto à Crux e dispersam-se.

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