quarta-feira, 4 de abril de 2012

"Pange, lingua, gloriosi" - o belo hino do nobre triunfo da Cruz

Pax et bonum!

Na última postagem falamos do hino "Vexilla regis" ("Do Rei avança o estandarte").
Recordando ainda o belo contexto para o qual este hino foi composto pelo grande bispo e poeta cristão do séc. VI, Venâncio Fortunato, saibamos que sua colaboração altamente artística e profundamente espiritual não cessa por aí.
O hino do Ofício das Leituras e das Laudes (Forma Ordinária) são, ambos, partes de um só grande Hino deste autor: o "Pange, lingua, gloriosi" (no Brasil "Cantem, meus lábios, a luta"). Ao que tudo indica, foi composto para a mesma ocasião que o hino anterior: a acolhida da relíquia da Cruz doada pelo imperador bizantino Justino II à rainha Santa Radegunda, em 569.
Na hinologia cristã provavelmente não se encontram versos mais belos que estes na exaltação da vitória de nosso Senhor pelo fiel madeiro da santa Cruz.
Como na postagem anterior, segue a tradução do artigo da Catholic Encyclopedia e, em seguida, algumas observações minhas.
Que este Hino, como o anterior, incline nosso coração para a meditação dos grandes mistérios que celebramos nestes dias. Que todos aqueles que o rezarem, façam-no devotamente, na unção que se derrama sobre o cantar da Igreja por longos 1500 anos.
Recordemo-nos destes antiquíssimos versos quando reverenciarmos a imagem do Crucificado e quando adorarmos Aquele que vive e reina para sempre e que pela Cruz nos trouxe a salvação.
Pange, lingua, gloriosi

Estas palavras dão início a um hino que celebra a Paixão. Este, sem rimas, é geralmente creditado a Venâncio Fortunato (séc. VI).
O hino foi antes atribuído a Claudiano Mamerto (séc. V), por Gerbert, em sua obra "Musica sacra", por Bähr, em sua "Die christi, Dichter", e por vários outros. Pimont, que cita várias outras autoridades em seu auxílio, é especialmente enfático em sua atribuição a Mamerto, e responde a vários críticos em sua "Note sur l'auteur du 'Pange... proelium certaminis'" (Hymnes du brév. rom. III,70-76), de modo que dificilmente será correto dizer com Mearns (Dict. of Hymnol. 2nd ed., 880), que "ele tem sido algumas vezes, aparentemente sem razão, atribuído a Claudiano Mamerto". Excluindo a estrofe conclusiva ou doxologia, o hino é composto de dez estrofes, que em alguns manuscritos e em algumas edições do Missal Romano aparecem na seguinte disposição:

Pange lingua gloriosi prœlium certaminis
Et super crucis tropæo dic triumphum nobilem,
Qualiter Redemptor orbis immolatus vicerit.

No Breviário Romano (Forma Extraordinária), o hino está indicado para o Domingo da Paixão (V da Quaresma) e para os ofícios feriais seguintes, incluindo a Quarta-feira Santa, e também para as festas da Invenção da Santa Cruz, da Exaltação da Santa Cruz, da Coroa de Espinhos e das Cinco Chagas. No uso litúrgico deste breviário, o hino é dividido em dois, sendo as cinco primeiras estrofes recitadas nas Matinas ("Pange lingua gloriosi"), e as cinco seguintes (começando com as palavras "Lustra sex qui iam peregit") nas Laudes; aqui cada linha é dividida em duas, gerando estrofes de seis versos. Por ex:

Pange lingua gloriosi
Lauream certaminis,
et super crucis trophæo
Dic triumphum nobilem:
Qualiter Redemptor orbis
Immolatus vicerit.

O hino inteiro é cantado durante a cerimônia da Adoração da Cruz, na Sexta-feira Santa, imediatamente depois dos "Improperia" ou "Lamentos do Senhor", mas de modo peculiar, sendo precedido pela oitava estrofe, enquanto as estrofes que seguem são alternadas pelas quatro primeiras linhas e pelas duas últimas linhas da oitava estrofe dividida.
É digno de nota que, na estrofe citada mais acima, "lauream" não foi elogiado pelos hinologistas, que declararam que não havia aí pleonasmo algum, já que "proelium" refere-se a batalha e "certamen" à ocasião ou causa dela. Assim, "proelium certaminis" significa a batalha pelas almas dos homens (ver Kayser, "Beiträge zur Gesch. und Erklärung der ältesten Kirchenhym.", Paderborn, 1881, p. 417). Ele muito adequadamente cita São Cipriano (ep. ad Ant., 4): "Prælium gloriosi certaminis in persecutione ferveret", e acrescenta que "certamen" revela a importância e a dimensão desta luta e torna mais claro o que o mestre pensou com todo o poema. 
Nas mãos dos corretores, o hino sofreu várias emendas sob o interesse da exatidão clássica das frases e da métrica. A forma corrigida é a que se encontra atualmente no Breviário Romano (Forma Extraordinária). A forma mais antiga, com a leitura de vários manuscritos, encontra-se em March (Latin Hymns, 64; com notas gramaticais e outras, 252), Pimont (Les Hymnes etc., III, 47-70, com uma nota sobre a autoria, 70-76), etc. A Comissão para o Canto Gregoriano estabeleceu, por ordem de Pio X, que se restaurasse à forma antiga os textos litúrgicos em várias ocasiões. No Gradual, a forma mais antiga do "Pange lingua" é a que é apresentada, de modo que pode ser comparada com a forma ainda em uso em nosso Breviário.
Para as leituras variantes de manuscritos, ver "Analecta Hymnica" (Leipzig, 1907), 71-73. Dreves atribui o hino a Fortunato. Veja também o "Hymnarium Sarisburiense" (Londres, 1851), 84.

Fonte: Henry, Hugh. "Pange Lingua Gloriosi." The Catholic Encyclopedia. Vol. 11. New York: Robert Appleton Company, 1911. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/11441c.htm.

O Pange, lingua na Liturgia Horarum (Forma Ordinária do Rito Romano)

Assim como para o Vexilla regis, vemos que o trabalho de restauração às formas originais, iniciado no tempo de São Pio X, também fez voltar o Pange, lingua ao texto original na reforma após o Concílio Vaticano II.
A doxologia (última estrofe) é igual para os dois hinos e, embora antiga, não é do autor (Venâncio Fortunato).
O primeiro hino é composto pelas estrofes 1-4 e 6 do original mais a doxologia.
O segundo, pelas estrofes 7-10 do original mais a doxologia.
A quinta estrofe não é utilizada na Liturgia das Horas. Para ver o texto, bem como ver enumeradas as correções ao longo dos séculos, que formaram o texto atualmente em uso na Forma Extraordinária, clique aqui.
Mesmo as versões brasileiras, que normalmente prezam pela métrica e pelas rimas mais do que pela fidelidade ao texto (o que é negativo), fazem-nos compreender o excelso lugar de honra que a Cruz do Senhor tem para nela, como São Paulo, nos gloriarmos.

Para o Ofício das Leituras: 

Pange, lingua, gloriósi

Pange, lingua, gloriósi
prœlium certáminis,
et super crucis tropæo
dic triúmphum nóbilem,
quáliter redémptor orbis
immolátus vícerit.

De paréntis protoplásti
fraude factor cóndolens,
quando pomi noxiális
morte morsu córruit,
ipse lignum tunc notávit,
damna ligni ut sólveret.

Hoc opus nostræ salútis
ordo depopóscerat,
multifórmis perditóris
arte ut artem fálleret,
et medélam ferret inde,
hostis unde læserat.

Quando venit ergo sacri
plenitúdo témporis,
missus est ab arce Patris
Natus, orbis cónditor,
atque ventre virgináli
carne factus pródiit.

Lustra sex qui iam perácta
tempus implens córporis,
se volénte, natus ad hoc,
passióni déditus,
agnus in crucis levátur
immolándus stípite.

Æqua Patri Filióque,
ínclito Paráclito,
sempitérna sit beátæ
Trinitáti glória,
cuius alma nos redémit
atque servat grátia. Amen.

Versão brasileira: Cantem meus lábios a luta

Cantem meus lábios a luta
que sobre a cruz se travou;
cantem o nobre triunfo
que no madeiro alcançou
o Redentor do Universo
quando por nós se imolou.

O Criador teve pena
do primitivo casal,
que foi ferido de morte,
comendo o fruto fatal,
e marcou logo outra árvore,
para curar-nos do mal.

Tal ordem foi exigida
na obra da salvação:
cai o inimigo no laço
de sua própria invenção.
Do próprio lenho da morte
Deus fez nascer redenção.

Na plenitude dos tempos,
a hora santa chegou
e, pelo Pai enviado,
nasceu do mundo o autor;
e duma Virgem no seio
a nossa carne tomou.

Seis lustros tendo passado,
cumpriu a sua missão.
Só para ela nascido,
livre se entrega à Paixão.
Na cruz se eleva o Cordeiro,
como perfeita oblação.

Glória e poder à Trindade.
Ao Pai e ao Filho, louvor.
Honra ao Espírito Santo.
Eterna glória ao Senhor,
que nos salvou pela graça
e nos remiu pelo amor.

Para as Laudes:

En acétum, fel, arúndo

En acétum, fel, arúndo,
sputa, clavi, láncea;
mite corpus perforátur,
sanguis, unda prófluit;
terra, pontus, astra, mundus
quo lavántur flúmine!

Crux fidélis, inter omnes
arbor una nóbilis!
Nulla talem silva profert
flore, fronde, gérmine.
Dulce lignum, dulci clavo
dulce pondus sústinens!

Flecte ramos, arbor alta,
tensa laxa víscera,
et rigor lentéscat ille
quem dedit natívitas,
ut supérni membra regis
miti tendas stípite.

Sola digna tu fuísti
ferre sæcli prétium,
atque portum præparáre
nauta mundo náufrago,
quem sacer cruor perúnxit
fusus Agni córpore.

Æqua Patri Filióque,
ínclito Paráclito,
sempitérna sit beátæ
Trinitáti glória,
cuius alma nos redémit
atque servat grátia. Amen.

Versão brasileira: O fel lhe dão por bebida

O fel lhe dão por bebida
sobre o madeiro sagrado.
Espinhos, cravos e lança
ferem seu corpo e seu lado.
No sangue e água que jorram,
mar, terra e céu são lavados.

Ó cruz fiel sois a árvore
mais nobre em meio às demais,
que selva alguma produz
com flor e frutos iguais.
Ó lenho e cravos tão doces,
um doce peso levais.

Árvore, inclina os teus ramos,
abranda as fibras mais duras.
A quem te fez germinar
minora tantas torturas.
Leito mais brando oferece
ao Santo Rei das alturas.

Só tu, ó Cruz, mereceste
suster o preço do mundo
e preparar para o náufrago
um porto, em mar tão profundo.
Quis o cordeiro imolado
banhar-te em sangue fecundo.

Glória e poder à Trindade.
Ao Pai e ao Filho Louvor.
Honra ao Espírito Santo.
Eterna glória ao Senhor,
que nos salvou pela graça
e nos remiu pelo amor.

Por Luís Augusto - membro da ARS

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