segunda-feira, 2 de abril de 2012

"Vexilla regis prodeunt" - O Hino das Vésperas da Semana Santa, um verdadeiro tesouro

Pax et bonum!

É segunda-feira da Semana Santa. Pela terceira vez nossas bocas recitaram ou cantaram o hino "Vexílla Regis pródeunt" (no Brasil "Do Rei avança o estandarte").
Os corações mais sensíveis aos textos da Sagrada Liturgia logo percebem a profundidade deste Hino. Os corações mais superficiais, ignoram-no.
Talvez nem todos saibam, mas este hino é de um grandioso valor histórico, por se tratar, como outros, de um dos mais antigos hinos cristãos existentes até hoje. E mais, foi composto para uma ocasião ímpar, ligada à relíquia verdadeira do Santo Lenho, a cruz em que nosso Senhor Jesus Cristo deu a vida por nós.
Segue, portanto, a tradução do artigo da Catholic Encyclopedia acerca desta belíssima composição, mais algumas observações relacionadas. Que ela brote do fundo de nossas almas e eleve-nos aos santíssimos mistérios que celebramos nestes dias.

Vexilla Regis prodeunt

Este "hino mundialmente famoso, um dos maiores no tesouro da Igreja Latina" (Neale), e "certamente um dos mais emocionantes de nossa hinologia" (Duffield), foi escrito por Venantius Fortunatus, e foi cantado pela primeira vez numa procissão de 19 de novembro de 569, quando uma relíquia da verdadeira Cruz, enviada pelo Imperador Justino II do Oriente, a pedido de Santa Radegunda, foi realizada com grande pompa de Tours até o seu mosteiro de Saint-Croix em Poitiers. Seu uso processional original é relembrado no Missal Romano na Sexta-feira Santa, quando o Santíssimo Sacramento é levado em procissão do repositório até o altar-mor. Seu principal uso, todavia, é no Ofício Divino, sendo que o Breviário Romano o assinala para desde as Vésperas do Sábado antes do I Domingo da Paixão (V da Quaresma) até a Quinta-feira Santa, e nas Vésperas das Festas da Santa Cruz, como a da Invenção (3 de Maio), da Exaltação (14 de setembro), e do Triunfo (16 de julho, "pro aliquibus locis" ou seja, para algumas regiões).
Originalmente o hino possuía oito estrofes. No séc. X, as estrofes 7 e 8 foram gradualmente substituídas por outras novas ("O crux ave, spes unica", e a doxologia "Te summa Deus trinitas"), embora tenham sido mantidas em alguns lugares. A segunda estrofe sobreviveu à omissão das outras duas, e passou dos manuscritos para vários breviários impressos. Os que corrigiram o Breviário no Pontificado de Urbano VIII (+1644) revisaram todo o hino sob o interesse da prosódia clássica (vocalização segundo as leis dos acentos e das quantidades). Eles omitiram as estrofes 2, 7 e 8, que são as seguintes:

Confixa clavis viscera 
Tendens manus, vestigia 
Redemptionis gratia 
Hic immolata est hostia.

Fundis aroma cortice, 
Vincis sapore nectare, 
Iucunda fructu fertili 
Plaudis triumpho nobili.

Salve ara, salve victima 
De passionis gloria 
Qua vita mortem pertulit 
Et morte vitam reddidit.

Pimont acha que o hino nada perdeu com essas omissões, e que "seu andamento é mais ativo e sua unção mais penetrante". Os corretores também substituíram as duas últimas linhas da primeira estrofe pelas da oitava, e mudaram de "reddidit" para "protulit", dando-nos a estrofe tal qual está em nossos breviários:

Vexilla regis prodeunt, 
Fulget crucis mysterium, 
Qua vita mortem pertulit 
Et morte vitam protulit.

[Do Rei avançam estandartes
Fulge o mistério da cruz
onde a vida padece a morte
e na morte a vida produz.]

É desnecessário indicar com mais detalhes as mudanças feitas pelos corretores, dado que nossos Breviários dão o texto revisado, e o Gradual Vaticano apresenta o antigo. Em geral, as mudanças feitas pelos corretores nos hinos da Igreja não são apreciadas pelos hinologistas. (...) O Gradual Vaticano dá evidências claras do desejo e do propósito da Comissão para o Canto Gregoriano, estabelecida por Pio X, para restaurar os textos originais. O Antifonário (1912) dá igual mostra de uma intenção de manter os textos revisados. Assim, o Gradual (1908) traz apenas a forma antiga do hino, enquanto o Antifonário traz apenas a forma revisada. Curiosamente, o Processional (1911) traz ambas as formas.

O "Vexilla" tem sido interpretado simbolicamente para representar o Batismo, a Eucaristia e os outros sacramentos. Clichtoveus explica que assim como os vexilla são os estandartes militares dos reis e príncipes, então os estandartes de Cristo são a cruz, os flagelos, a lança e os demais instrumentos da Paixão "com os quais ele lutou contra o antigo inimigo e expulsou o príncipe deste mundo". Kayser, p. 397, diverge de ambos e mostra que o vexillum é a cruz que (no lugar da águia) suplantou, sob Constantino, a antiga bandeira da cavalaria Romana.
Este estandarte tornou-se nas mãos dos cristãos um pedaço quadrado de tecido sustentado por uma barra cruzando uma haste dourada, e tendo bordado nele símbolos cristãos ao invés dos antigos ornamentos romanos. O esplendor e o triunfo sugerido pela primeira estrofe só pode ser plenamente apreciado recordando a ocasião de quando hino foi cantado pela primeira vez - a triunfante procissão dos muros de Poitiers até o mosteiro, com bispos e príncipes participando, e com toda a pompa e aparato de uma grande celebração eclesiástica. "E ainda, depois de treze séculos, quão grande é nossa emoção quando esses acentos imperecíveis chegam aos nossos ouvidos!" (Pimont). Gounod tomou uma melodia bastante plana baseada neste canto como objeto de sua "Marcha para o Calvário", em "Redenção", na qual o coro canta o texto primeiramente de modo bem lento e, então, depois de um intervalo, em fortissimo, ou seja, com o máximo de intensidade sonora. (...)

Henry, Hugh. "Vexilla Regis Prodeunt." The Catholic Encyclopedia. Vol. 15. New York: Robert Appleton Company, 1912. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/15396a.htm.
Obs: dados sobre os escritores citados, favor recorrer ao original no link acima.

O Vexilla Regis na Liturgia Horarum (Forma Ordinária do Rito Romano)

Com a Reforma Litúrgica após o Concílio Vaticano II, também o Ofício Divino foi revisto e modificado.
Interessa-nos saber que, na Forma Ordinária do Rito Romano, nossa Liturgia das Horas traz este hino também com modificações.
Ele traz sete estrofes. A primeira foi restaurada à forma original. A segunda corresponde à terceira do original. A terceira, à quinta do original. A quarta foi restaurada à forma original da sexta do original. A quinta foi restaurada à forma original da oitava do original. A sexta e a sétima não existem no original e foram adições posteriores de algum poeta, como vimos, e que permanecem como as últimas estrofes também no Breviário Romano (Forma Extraordinária).

Letras e áudio

O texto original do Hino, com as duas estrofes adicionais, pode ser conferido aqui, no Preces Latinæ.
O texto litúrgico com alterações do séc. XVII, usado na Forma Extraordinária do Rito Romano, pode ser conferido aqui.
O texto litúrgico com restaurações ao original, usado na Forma Ordinária do Rito Romano, é o que segue. Sua melodia gregoriana, em mp3, pode ser baixada aqui.


Vexílla regis pródeunt,
fulget crucis mystérium,
quo carne carnis cónditor
suspénsus est patíbulo;

Quo, vulnerátus ínsuper
mucróne diro lánceæ,
ut nos laváret crímine,
manávit unda et sánguine.

Arbor decóra et fúlgida,
ornáta regis púrpura,
elécta digno stípite
tam sancta membra tángere!

Beáta, cuius brácchiis
sæcli pepéndit prétium;
statéra facta est córporis
prædam tulítque tártari.

Salve, ara, salve, víctima,
de passiónis glória,
qua Vita mortem pértulit
et morte vitam réddidit!

O crux, ave, spes única!
hoc passiónis témpore
piis adáuge grátiam
reísque dele crímina.

Te, fons salútis, Trínitas,
colláudet omnis spíritus;
quos per crucis mystérium
salvas, fove per sæcula. Amen.

O texto em português, rítmico e não literal, na edição brasileira da Liturgia das Horas, é o seguinte:

Do Rei avança o estandarte,
fulge o mistério da Cruz,
onde por nós foi suspenso
o autor da vida, Jesus.

Do lado morto de Cristo,
ao golpe que lhe vibraram,
para lavar meu pecado
o sangue e água jorraram.

Árvore esplêndida e bela,
de rubra púrpura ornada,
de os santos membros tocar
digna só tu foste achada.

Ó Cruz feliz, dos teus braços
do mundo o preço pendeu;
balança foste do corpo
que ao duro inferno venceu.

Salve, ó altar, salve vítima,
eis que a vitória reluz:
a  vida em ti fere a morte,
morte que à vida conduz.

Salve, ó cruz, doce esperança,
concede aos réus remissão;
dá-nos o fruto da graça,
que floresceu na Paixão.

Louvor a vós, ó Trindade,
fonte de todo perdão,
aos que na Cruz foram salvos,
dai a celeste mansão.

Vexillum Regis ou Cruz de Justino II ou Crux Vaticana

O Lábaro ou Estandarte do Rei é também como se pode chamar o relicário com a relíquia do Santo Lenho (a cruz do Senhor) que ele ostenta, e que foi doado a Roma pelo mesmo imperador bizantino Justino II, no séc. VI, que antes doou um fragmento maior para a rainha Santa Radegunda, o que deu origem ao Hino de que estamos falando, como relatado acima.
É o item mais antigo do chamado Tesouro de São Pedro (na Basílica Vaticana).
No relicário está gravada a seguinte inscrição: LIGNO QVO CHRISTVS HVMANVM SVBDIDIT HOSTEM DAT ROMÆ IVSTINVS OPEM ET SOCIA DECOREM (com o madeiro em que Cristo subjugou o inimigo do gênero humano, Justino dá uma ajuda a Roma e, sua esposa, o ornamento).
A Crux Vaticana como chegou em nossos dias
A Crux Vaticana após a última restauração
Há poucos anos o relicário foi totalmente restaurado pois, passados cerca de 1500 anos de fumaça, das velas, as pedras preciosas e o próprio ouro ficaram obscurecidos.
Nesta restauração foram acrescentadas doze pérolas ao redor do lugar onde ficam os fragmentos da Cruz. Após isto, a Crux Vaticana permaneceu exposta para veneração pública, de novembro de 2009 até abril de 2010.

Fonte:

Por Luís Augusto - membro da ARS

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