sexta-feira, 22 de maio de 2015

Meditação sobre o Mistério de Pentecostes - fogo sobre as cinzas


Era uma vez a quarta das cinzas. Era uma vez o domingo das línguas de fogo. Admirável que aqui o fogo apareça apenas depois das cinzas!
No caminho que tomamos desde aquele dia, em que ouvíamos falar da necessidade de nos convertermos e de crermos nas santas palavras do Senhor Jesus Cristo, recordávamos solenemente a irmã morte corporal e a certeza de sua vinda. Somos o pó.
Estamos ainda neste caminho. Estamos mesmo neste caminho?
Entre os quarenta dias de preparação penitencial, com fortíssima índole catequética e batismal, e os cinquenta dias de exultação e festa, levando a termo a preparação anterior, encontra-se um cenáculo, um jardim, um caminho, um monte, um sepulcro, como partes de um eixo que liga o primeiro tempo ao novo tempo.
No sexto dia da criação, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança e inspirou nele o sopro da vida para que se tornasse um ser vivente e reinasse sobre toda a criação (cf. Gn 1,26-27;2,7).
No sexto dia da Grande Semana, Deus se fez desfigurado, sem aparência humana (cf. Is 52,14), “deu um forte grito e expirou” (Mc 15,37). Mas “regnavit a ligno Deus” - Deus reinou do lenho (cf. Hino Vexilla Regis)!
No primeiro dia da criação, Deus criou a luz, o dia, e separou-a das trevas.
No oitavo dia, o novo primeiro, a luz de Cristo que ressurge glorioso vem dissipar as trevas do coração e da mente (cf. oração ao acender o círio pascal), ele, que iluminou sereno o gênero humano ao regressar dos infernos, e que vive e reina pelos séculos dos séculos (cf. Precônio Pascal).
Este domingo dura cinquenta dias. Ele finge anoitecer, por assim dizer, com o término da solenidade de Pentecostes.
E nesse domingo de fogo, o Domingo de Pentecostes, ponto de chegada e de partida, milhares de línguas por toda a terra dirão “Vinde” e clamarão ao Santo Espírito: “do céu mandai luminoso raio” (cf. Sequência de Pentecostes).
Esse dia era a “Festa da Colheita”, a “Festa das Primícias” ou “Festa das Semanas” para o povo da Antiga Aliança. Era realmente a segunda festa mais importante para os judeus. Iniciavam o período da colheita apresentando um feixe de cevada e concluíam este tempo oferecendo pães feitos de trigo novo. Dizia a lei: “Contareis cinquenta dias até o dia seguinte ao sétimo sábado, e apresentareis ao Senhor uma nova oferta” (Lv 23,16).
No fim dos tempos bíblicos, porém, o significado da cultura dos campos foi modificado, e esta grande festa passou a comemorar a doação ou entrega da Lei no Monte Sinai, quando Deus desceu sobre o monte no meio de chamas (cf. Lv 19). Nesta ocasião os judeus dedicavam-se a ler e meditar as Escrituras, e a festa em Jerusalém trazia para seus muros uma grande quantidade de “judeus piedosos de todas as nações que há debaixo do céu” (cf. At 2).
E o que comemora o povo da cruz? O que comemoramos nós, os discípulos de Jesus Cristo?
Nosso grande Deus, amigo dos homens, que “sabe de que é que somos feitos, e não se esquece de que somos pó” (Sl 102,14), trouxe fogo sobre estas cinzas. Sim, foi cinquenta dias depois de quando nosso único Senhor e Salvador “arrombou as portas da morte e quebrou os seus ferrolhos; destruiu as prisões do inferno e derrubou o poder satânico” (cf. Responsório do Ofício das Leituras do Sábado Santo) que o Espírito Santo, o Prometido e Doce Hóspede da alma, foi-nos dado, foi derramado sobre nós por Cristo exaltado pela direita de Deus Pai (cf. At 2,33).
Comemoramos a entrega da Lei, mas de forma tão nova, tão magnífica! A nova lei é escrita pelo Espírito do Deus vivo nas tábuas de carne de nossos corações (cf. 2Cor 3,3)! “A lei do Espírito de Vida nos libertou, em Jesus Cristo, da lei do pecado e da morte” (cf. Rm 8,2)!
Ó, que seríamos sem a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o Pai dos pobres, a Luz dos corações? Aliás, o que somos quando longe dele, quando sem o seu auxílio? Sórdidos (sujos), áridos (secos), doentes, rígidos (duros), frígidos (frios, apáticos), dévios (extraviados, desviados), enfim, “nada há no homem, nada de inocente” (cf. Sequência de Pentecostes). E quando assim nos percebemos, é a ele que devemos chamar: Lavai, regai, curai, dobrai, aquecei, guiai! Estes gritos e gemidos não podem ficar presos ao grande Pentecostes, mas devem brotar pressurosos de nossos lábios e corações a qualquer momento.
Bendito Domingo rosado, que concluindo a alvura do Tempo Pascal, anima-nos em tons rubros, que nos lembram sangue e fogo! Em alguns países e reinos, em nossa era cristã, lançam pétalas de rosa do teto das igrejas em memória das línguas de fogo, tocam trombetas em memória do vento impetuoso. Em nenhum destes sinais, porém, a mesma descida do Doador dos Dons é realizada e perpetuada como quando as mãos consagradas ungem com o precioso e Santo Crisma!
Para as mãos do ordenado, Pentecostes! Para o templo dedicado, Pentecostes! Para a fronte do confirmado, Pentecostes! O Senhor Deus, fonte de toda santidade, tudo santifica com o orvalho de seu Espírito (cf. Oração Eucarística II) através do Santo Crisma e sobretudo naquele mistério da Confirmação!
Se voltarmos o nosso olhar para nossas almas, para os santos apóstolos, para a Igreja em Pentecostes, veremos que tudo o que aconteceu já havia sido antecipado numa alma predileta, na Virgem Fiel, no Espelho da Perfeição Divina, Nossa Senhora, nossa Dama, nossa Suserana, nossa Rainha, nossa Mãe e Mãe de Deus, a pan'agia - toda Santa - e tota pulchra - toda formosa.
De fato, aqui convém revisitar o Santo Evangelho e perceber que sobre ela desceu o Espírito Santo, que a força do Altíssimo a envolveu (cf. Lc 1,35); que, cheia dele, sua alma engrandeceu o Senhor, e que, enfim, “deu ao mundo o Salvador” (cf. Prefácio do Natal I). Ora, o que acontece por ocasião de Pentecostes? Nosso Santíssimo Redentor não havia prometido que o Espírito Santo desceria sobre nós, que nos daria sua força e que nós seríamos suas testemunhas até os confins do mundo (cf. At 1,8)? Que honra altíssima e que dever imperioso são estes que recebemos por ocasião de nossa Confirmação e que acabam por se renovar cada vez que celebramos este Domingo das línguas de fogo? Precisamos dar ao mundo o Salvador, como a Sempre Virgem Maria! É isto!
O mesmo Espírito Santo, este onipotente “Dedo da Mão Direita do Pai” (cf. Veni Creator), é o mesmo que envolveu a Santíssima Virgem Maria na Anunciação do Senhor, o mesmo que conduziu nosso Redentor Jesus Cristo para o deserto (cf. Mt 4,1), o mesmo que encheu os Apóstolos para a pregação, a profecia e os sinais! Foi ele, sim, ele que nos conduziu também para o deserto da Quaresma, que nos encheu para a evangelização com atos e palavras, que gera em nós o mesmo Jesus Cristo para que seja ele a viver em nós! Não o percebemos? Por acaso o ignoramos?
Como, afinal, deveríamos preparar-nos para esta festa? Tomemos como norte o vexillum, o estandarte que ostenta a Legião de Maria. Que há nele? O que há no mais baixo? Quem o pisa? Quem paira no mais alto? Não bastando este belo símbolo que nos apresenta o mundo e a serpente pisados pela Rainha dos Apóstolos, aureolada de vermelho, radiante, e encimada pelo Espírito Santo, tomemos o próprio Compromisso ou Promessa que os Legionários fazem para ingressar na Legião. Sabei ou recordai que lá se suplica ao Espírito Santíssimo que desça, que encha, a fim de que os atos débeis que são nossos sejam sustentados por seu poder e se tornem instrumentos de seus soberanos desígnios! Que belo é dizer que sem ela não se pode conhecê-lo ou amá-lo! Que belo é confiar que ele converterá nossa fraqueza em força! (cf. Manual da Legião de Maria)
Não nos esqueçamos que Deus vem deitar fogo sobre nossas cinzas e, portanto, não penseis em Pentecostes sem vos recordardes da Santa Quaresma e de todo o Tempo Pascal. Não vos esqueçais que a vinda do Paráclito exigia a glorificação de Cristo pela Ascensão. Não vos esqueçais que a subida de Cristo somente ocorreu depois que ressuscitou ao terceiro dia. Não vos esqueçais que “era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na sua glória” (Lc 24,26). Foi “um grande preço” (cf. 1Cor 6,20), o de nossa redenção!
Recorramos à proteção da Santa Mãe de Deus para que o Consolador Magnífico nos encontre como convém, não só na conclusão do jubiloso Tempo Pascal, mas todos os dias de nossa vida.
Empreguemos nossa inteligência e nossa vontade em ouvir a exortação do Apóstolo das nações – o grande São Paulo:
“Exorto-vos, pois, (...) que leveis uma vida digna da vocação à qual fostes chamados. (…) Não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê de suas idéias frívolas. (…) Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras. (…) Não deis lugar ao demônio. (…) Não contristeis o Espírito Santo de Deus, com o qual estais selados para o dia da Redenção.” (Ef 4,1.17.22.27.30)
Ó Deus, que nos perscrutais e nos conheceis, que sabeis tudo de nós, que de longe penetrais nossos pensamentos (cf. Sl 138), não nos rejeiteis de vossa face, e nem nos priveis de vosso santo Espírito (cf. Sl 50). Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

Texto preparado para um encontro com membros da Legião de Maria, num domingo da Quaresma.
Por Luís Augusto - membro da ARS

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