quarta-feira, 13 de maio de 2015

"Reforma da Reforma" - Uma entrevista com D. Malcolm Ranjith

Pax et bonum!

Vocês conhecem a expressão inglesa "old but gold"? Significa algo como "antigo, mas valioso". Pois bem, recentemente encontrei uma entrevista com D. Albert Malcolm Ranjith Patabendige Don, Cardeal Arcebispo de Colombo, no Sri Lanka, do ano de 2006. Já vai quase uma década da entrevista, mas este tempo é pequeno para certos assuntos e suas palavras continuam atuais.
A entrevista foi dada ao jornal francês La Croix, em 25/06/2006, e foi conduzida por Isabelle de Gaulmyn. Encontrei-a em inglês no Chiesa, de Sandro Magister.
Segue a tradução.

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Têm-se a impressão de que a liturgia é uma prioridade para Bento XVI.
Correto. Quando se olha para trás, para a história da liturgia no passar dos anos, vê-se quão importante para todos é ouvir a Deus e tocar o transcendente. A Igreja sempre esteve atenta para que sua vida litúrgica devesse estar orientada para Deus e devesse trazer com isso uma atmosfera profundamente mística. Agora, de alguns anos para cá, a tendência tem sido esquecer isso e substituí-lo por um espírito de completa liberdade, que deixa tudo aberto a uma criatividade sem raiz e sem profundidade.

A liturgia tem se tornado um objeto de controvérsia, de debate na Igreja, e até um fator de séria divisão?
Eu penso que isto seja um fenômeno puramente ocidental. A secularização no Ocidente tem levado a uma profunda divisão entre aqueles que se refugiam no misticismo, esquecendo a vida, e aqueles que trivializam a liturgia, privando-a do seu papel de mediadora com o transcendente. Na Ásia - por exemplo, no Sri Lanka, meu próprio país - todos, não importa a sua religião, são muito conscientes da necessidade do homem de ser trazido para o transcendente. E isto deveria refletir-se também na vida cotidiana. Não penso que o senso do divino deveria ser rebaixado ao nível humano, mas que o homem deveria ser elevado ao nível sobrenatural, onde podemos nos aproximar do Mistério divino. Agora, a tentação de assumir o comando deste Mistério divino, de tentar controlá-lo, é forte numa sociedade que diviniza o homem, como a sociedade do Ocidente o faz. Oração é um dom: liturgia não se determina pelo homem, mas pelo que Deus faz nascer dentro dele. Isto implica numa atitude de adoração a Deus, o Criador.

Você acha que a reforma conciliar foi longe demais?
Não é uma questão de ser anti-conciliar ou pós-conciliar, conservador ou progressista! Eu acho que a reforma litúrgica do Vaticano II nunca saiu do papel. Ademais, esta reforma não começou com o Vaticano II: na realidade, ela precedeu o Concílio, vindo à existência com o movimento litúrgico no início do séc. XX. Se nos conformamos ao que a Sacrosanctum Concilium do Vaticano II diz, a questão era fazer da liturgia a rota de acesso à fé, e as mudanças nesta área se pensavam como emergindo de forma orgânica, mantendo a tradição em vista, e não de uma maneira acidental, casual. Tem havido várias tendências que baniram da vista o significado autêntico da liturgia. Poder-se-ia dizer que a direção da oração litúrgica na reforma pós-conciliar nem sempre tem sido o reflexo dos documentos do Vaticano II e, neste sentido, poder-se-ia falar de uma correção necessária, uma reforma da reforma. A liturgia deve ser reconquistada, no espírito do Concílio.

Através de que passos concretos?
Hoje, os problemas da liturgia giram em torno da linguagem (vernáculo ou latim) e da posição do sacerdote, se ele fica de frente para a assembleia ou de frente para Deus. Aqui eu lhe conto uma surpresa: em nenhum lugar do decreto conciliar se fala que o sacerdote deva ficar de frente para a assembleia, nem que o uso do latim esteja proibido! Se o uso da língua comum é permitido, notavelmente na Liturgia da Palavra, o decreto é muito claro ao dizer que o uso da língua latina deveria ser mantido no rito latino. Estamos esperando o papa dar-nos suas diretrizes nessas matérias.

E quanto a todos que seguiram, com um grande senso de obediência, as reformas pós-conciliares - precisam ouvir que estavam equivocados?
Não, isto não deveria tornar-se um problema ideológico. Eu percebi o quanto os jovens sacerdotes amam celebrar o rito Tridentino. Deve-se esclarecer que este ritual, seguindo o Missal de Pio V, não foi "banido". Seu uso deveria ser mais encorajado? O papa é quem decide. Mas é certo que uma nova geração está procurando uma maior orientação rumo ao mistério. Não é uma questão de forma, mas de substância. Para falar da liturgia, o que é necessário não é apenas um espírito científico ou histórico-teológico, mas acima de tudo uma atitude de meditação, oração e silêncio.
Mais uma vez, não é uma questão de ser progressista ou conservador, mas simplesmente de permitir à pessoa rezar, ouvir a voz do Senhor. O que acontece na celebração da glória do Senhor não é meramente uma realidade humana. Se este aspecto místico é esquecido, tudo se mistura e se confunde. Se a liturgia perde sua dimensão mística e celeste, então quem ajudará o homem a livrar-se de seu egoísmo e auto-escravização? A liturgia deve ser acima de tudo uma estrada para a liberdade, abrindo o homem ao infinito.

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

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