sábado, 23 de maio de 2015

O amor é um tesouro que encerra todos os bens - Meditação para o fim da Novena de Pentecostes

1. O amor é o tesouro de que fala o Evangelho, o qual nos cumpre adquirir a custo de tudo mais. A razão é porque ele é realmente aquele bem infinito que nos faz participantes da amizade de Deus. Aquele que acha Deus, acha tudo que pode desejar: Delectare in Domino, et dabit tibi petitiones cordis tui - "Deleita-te no Senhor, e ele te concederá as petições do teu coração". O coração humano está sempre procurando bens capazes de torná-lo feliz. Enquanto se dirige às criaturas para os obter, nunca se satisfaz, por mais que receba. Ao contrário, um coração que só quer a Deus, Deus lhe satisfará todos os desejos. Quais são com efeito os homens mais felizes na terra, senão os santos? E por quê? Porque só querem e buscam a Deus.
Estando um príncipe a caçar, viu um solitário percorrendo a floresta, e perguntou-lhe o que fazia nesse deserto. "Mas vós, senhor", retorquiu logo o anacoreta, "que vindes buscar aqui"? - "Eu", acudiu o príncipe, "ando em busca de caças". - "E eu", tornou o solitário, "busco a Deus".
O tirano que martirizou São Clemente de Ancira, ofereceu-lhe ouro e pedras preciosas para conseguir dele que renegasse a Jesus Cristo; mas o santo, dando um profundo suspiro, exclamou: "Ora, um Deus posto em paralelo com um pouco de lama!" Feliz de quem conhece o tesouro do divino amor e procura obtê-lo! Quem o conseguir, despojar-se-á por si mesmo de tudo, para não possuir senão a Deus. "Quando o fogo pega na casa", dizia São Francisco de Sales, "lançam-se todos os utensílios pela janela". E o Padre Segneri, o moço, grande servo de Deus, tinha costume de dizer: "O amor divino é um roubador que nos tira todos os afetos terrenos ao ponto de exclamarmos então: Senhor, que desejo senão a vós?" Deus cordis mei, et pars mea Deus in aeternum - "Deus de meu coração, e a minha porção, Deus, para sempre".
2. "Ó mundanos insensatos", exclama Santo Agostinho, "ó homens, aonde ides para contentar o vosso coração? Bonum quod quaeritis, ab ipso est. Aproximai-vos de Deus, recuperai a sua graça, buscai o seu amor, porque só ele pode dar-vos a felicidade que andais procurando". Nós ao menos não sejamos tão insensatos, e, como nos exorta o mesmo santo Doutor, de hoje em diante, busquemos unicamente o amor de Deus, busquemos o único bem, no qual estão encerrados todos os outros: Quaere unum bonum, in quo sunt omnia bona. Mas não podemos achar este bem, sem renunciar a todo o afeto pelas coisas da terra, como o ensina Santa Teresa: Desapega o teu coração das criaturas e acharás a Deus.
Meu Deus, no passado não foi a vós que busquei, mas me busquei a mim mesmo e às minhas satisfações; e por elas me apartei de vós, que sois o Bem supremo. Mas Jeremias me consola, assegurando-me que sois só bondade para os que vos buscam - Bonus est Dominus animae quaerenti illum. Amadíssimo Senhor meu, compreendo o mal que fiz deixando-vos, e arrependo-me de todo o coração. Vejo que sois um tesouro infinito; não querendo deixar inútil esta luz, renuncio a tudo, e escolho-vos para único objeto dos meus afetos.
Ó meu Deus, meu amor, meu tudo, por vós suspiro. Vinde, ó Espírito divino, e com o santo fogo do vosso amor, consumi em mim todo o afeto de que não sois o objeto. Fazei-me todo vosso, e que tudo vença para vos agradar. 
Ó Maria, minha Advogada e Mãe, ajudai-me com as vossas orações.

Fonte: Meditações para todos os dias do anno, Tomo II, p. 121-123.

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