quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Ad Orientem - palavras do Bispo de Tulsa - EUA


Renascimento de antigo rito traz múltiplas vantagens e algumas noções erradas

Porque a Missa é tão necessária e fundamental à nossa experiência Católica, a liturgia é um tópico constante em nossas conversas. Eis porque quando nos reunimos tão frequentemente refletimos sobre as orações e as leituras, discutimos a homilia, e - provavelmente - debatemos sobre a música. O elemento crítico nessas conversas é uma compreensão de que nós Católicos prestamos culto da maneira que o fazemos por causa daquilo que a Missa é: Sacrifício de Cristo, oferecido sobre os sinais sacramentais do pão e do vinho.
Se nossa conversa sobre a Missa deve "ter algum sentido", então nós temos que compreender esta verdade essencial: Na Missa, Cristo nos une a si, ao passo em que se oferece em sacrifício ao Pai pela redenção do mundo. Nós podemos nos oferecer deste modo porque nos tornamos membros de seu Corpo pelo Batismo.
Nós queremos recordar também que todos os fieis oferecem o Sacrifício Eucarístico como membros do corpo de Cristo. É errado pensar que somente o sacerdote oferece a Missa. Todos os fieis tomam parte na oblação, muito embora o sacerdote tenha um papel único. Ele permanece "na pessoa de Cristo", a Cabeça histórica do Corpo Místico, de modo que, na Missa, está o corpo de Cristo inteiro: Cabeça e membros juntos fazem a oblação.

Para a mesma direção

Desde tempos antigos, a posição do sacerdote e do povo refletia esta compreensão da Missa, uma vez que o povo rezava, de pé ou de joelhos, no lugar que visivelmente correspondia ao Corpo de Nosso Senhor, enquanto que o sacerdote estava junto do altar, à frente, como Cabeça.
Nós formávamos o Cristo inteiro - Cabeça e membros - tanto sacramentalmente pelo Batismo como visivelmente pela nossa posição e postura. Igualmente importante era que todos - celebrante e assembleia - olhavam para a mesma direção, uma vez que estavam unidos a Cristo, oferecendo ao Pai o único, irrepetível e aceitável sacrifício do próprio Cristo.
Quando estamos as mais antigas práticas litúrgicas da Igreja, encontramos o sacerdote e o povo voltados para a mesma direção, normalmente para o leste/oriente/nascente, na espera de que quando Cristo voltar, virá "do oriente". Na Missa, a Igreja mantém-se vigilante, aguardando a sua volta. Esta posição singular é chamada ad orientem, que simplesmente significa, "para o oriente".

Múltiplas vantagens

Por aproximadamente dezoito séculos tem sido norma litúrgica celebrar a Missa estando o sacerdote e o povo ad orientem. Deve haver sólidas razões para a Igreja ter mantido tal postura por tanto tempo. E há! A primeira de todas é que a liturgia Católica sempre manteve uma maravilhosa adesão à Tradição Apostólica. Nós vemos a Missa, e de fato toda a expressão litúrgica da vida da Igreja, como algo que temos recebido dos Apostólos e que se espera mantermos intacto (cf. 1Cor 11,23).
A segunda razão é que a Igreja guardou esta singular posição voltada para o leste por causa da maneira sublime com que ela revela a natureza da Missa. Mesmo alguém alheio à Missa, refletindo sobre o celebrante e os fieis estando voltados para a mesma direção, reconheceria que o sacerdote se encontra à frente do povo, que participa de uma única e mesma ação, que seria - ele notaria com uma reflexão um pouco maior - um ato de culto.

Uma inovação com consequências inesperadas

Nos últimos 40 anos, todavia, esta orientação partilhada foi perdida; agora o sacerdote e o povo acostumaram-se a se voltar para direções opostas. O sacerdote está de frente para o povo enquanto o povo está de frente para o sacerdote, ainda que a Oração Eucarística seja dirigida ao Pai e não ao povo.
Esta inovação foi introduzida após o Concílio Vaticano [II], em parte para ajudar o povo a compreender a ação litúrgica da Missa, fazendo com que vejam o que acontece, e em parte como uma conformação à cultura contemporânea onde se espera que pessoas que exercem autoridade estejam voltadas para aqueles a quem servem, como um professor atrás de sua escrivaninha.
Infelizmente tal mudança teve um número de efeitos imprevistos e bem negativos. O primeiro de todos, foi uma séria ruptura com a antiga tradição da Igreja. Segundo, dá-se a aparência de que o sacerdote e o povo estão numa conversa sobre Deus, mais do que num culto a Deus. Terceiro, coloca-se uma desordenada importância na personalidade do celebrante, por estar ele colocado numa espécie de palco litúrgico.

Recuperando o sagrado

Mesmo antes de sua eleição como sucessor de São Pedro, o papa Bento nos tem chamado a atenção para a antiga prática litúrgica da Igreja, a fim de se restaurar um culto Católico mais autêntico. Por esta razão, restaurei o venerável uso da posição ad orientem quando eu celebro a Missa na Catedral.
Esta mudança não pode ser interpretada erronamente como o Bispo "ficando de costas para os fieis", como se eu não desse atenção ou fosse hostil. Tal interpretação perde o foco de que, voltando-se para a mesma direção, a postura do celebrante e da assembleia torna explícito o fato de estarmos todos juntos caminhando para Deus. O sacerdote e o povo estão juntos nesta peregrinação.
Também seria uma noção equivocada olhar para a recuperação desta antiga tradição como sendo um mero "retrocesso". O papa Bento tem falado repetidamente sobre a importância de se celebrar a Missa ad orientem, mas sua intenção não é a de encorajar os celebrantes a se tornarem "antiquários litúrgicos". Antes, Sua Santidade deseja que descubramos o que esteve por trás desta tradição e a tornou viável por tantos séculos, a saber, a compreensão da Igreja de que o culto da Missa é primária e essencialmente o culto que Cristo oferece ao seu Pai.

D. Edward J. Slattery, bispo de Tulsa. Ad Orientem in Eastern Oklahoma Catholic - The Magazine of the Catholic Diocese of Tulsa - Setembro 2009, Volume 2.


Traduzido por Luís Augusto - membro da ARS

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