domingo, 2 de agosto de 2009

Deus no centro, não o homem


Pax et bonum!

Mui recentemente encontrei dois textos, não tão novos, mas bem interessantes. São duas entrevistas semelhantes tanto nas perguntas como nas respostas. As duas foram feitas por Bruno Volpe, do Pontifex. A primeira ao Card. Darío Castrillón Hoyos, ex-prefeito da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, e a segunda a Dom Albert Malcolm Ramjith, ex-secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e atual arcebispo de Colombo (Sri Lanka).

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Eminência, o que é a Santa Liturgia?
Respondo assim: a Liturgia é a presença viva de Deus, tal como disseram também os Padres da Igreja, e a busca do sagrado. Uma Liturgia que não põe Deus no centro, não é católica. Para ser mais claro, na Liturgia, o sacerdote nunca deve ser protagonista, colocar-se em evidência. Citemos, por exemplo, o que aconteceu em Lourdes durante a recente viagem do Papa.

O que aconteceu?
Um sacerdote considerou oportuno, segundo o seu gosto, mudar as palavras da Ave Maria. Você percebe? Pretende-se mudar uma oração nascida da fé e pela mania de protagonismo.

Eminência, o que a Liturgia sofre hoje em dia?
Creio que diminuiu, ao menos em parte, o sentido do sagrado. O sentido místico e o valor da Cruz. Não compreendo certos celebrantes que se sentem grandes fazendo-se senhores e donos da Missa, que é o maior símbolo do amor de Deus pelo homem.

Por que algumas vezes, em nome de uma estranha ideia de criatividade litúrgica, ocorrem tantos abusos?
Quando o celebrante se enche de orgulho, inventando ou criando coisas, faz Cristo desaparecer de sua mente e coração. Esquece-o. Lembre que Cristo está sempre no primeiro lugar. Às vezes, nas Missas, falta o sentido de Deus, o Verbo Encarnado que, na Liturgia da Igreja, encontra sua glória. Uma pessoa humilde e simples chega à igreja e se ajoelha. Hoje ajoelhar-se causa estranheza, parece estar fora de tempo e de lugar.

O que pode dizer do Rito Romano antigo?
Que é belo. Que o latim deve ser valorizado nas escolas e nos seminários. Mas o centro continua sendo a Cruz e Cristo. Você pensa que Mozart escreveu certas belezas olhando para o mar? Não. Tinha Cristo e um “pedaço de pão”, que é a Sagrada Eucaristia, como ponto alto de suas inspirações.

O que pensa da Comunhão na mão?
A Liturgia se baseia também na Tradição. É necessário voltar a dar valor ao silêncio, à genuflexão, e compreender e fazer compreender, também às crianças, que não é belo tomar na mão o Corpo de Cristo, especialmente depois de pegar num brinquedo. Devemos respeitá-lo, reverenciá-lo. Com respeito, de joelhos, e sem tocá-lo.

Hoje, muitas vezes, briga-se pela Liturgia…
Isto está mal. A Liturgia não deve converter-se nunca em objeto de discussões. É o cúmulo brigarmos precisamente por causa do supremo ato de amor. Todos devem ser respeitosos quanto às ideias dos outros. Por exemplo, se o Papa está administrando a Comunhão aos fieis de joelhos, aqueles que querem que o sacramento se administre assim, cantam vitória. Se acontece o contrário, exultam os outros. Deste modo, não se progride…

O que é preciso?
Respeito, caridade e abandonar o orgulho. Com moderação, e o digo aos próprios “tradicionalistas”. São insaciáveis. Repito-o: insaciáveis. E assim fazem mal a nós e a si mesmos. Inundam você com cartas, escrevem na internet. Há aqueles que querem que a Basílica de Santa Maria Maior seja dedicada exclusivamente à Missa antiga. Repito-o: moderação e medida. Soberba e orgulho são o contrário do ato de Amor contido na Eucaristia.

Traduzido por Luís Augusto – membro da ARS

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Excelência, o que é a Liturgia?
Poder-se-ia responder à sua pergunta apenas com uma afirmação: Actio Christi. Basta esta resposta para iluminar o tema que, por si, parece-me amplamente exaustivo.

Ao dizer Actio Christi, o que deseja expressar?
A definição da Liturgia não a dou eu, nem nenhum outro, mas está nas próprias atas do Concílio Vaticano II, no documento Sacrosanctum Concilium, ao qual dirijo minha atenção e convido você a fazer o mesmo: que ele seja lido junto com o Catecismo da Igreja.

Actio Christi… mas como conjugar isso com a ars celebrandi?
Repito que a Missa é mistério, transcendência, busca e glória de Deus. A Missa projeta-nos à glória de Deus e, portanto, é evidente que o protagonista do Sacrifício Eucarístico não é o homem, mas Deus.

Então, o senhor é contra uma visão antropológica da Liturgia…
Com certeza, mas não é ideia pessoal minha, mas da Igreja. Em resumo, considerar o homem como o eixo da celebração termina sendo uma brincadeira desagradável e, talvez, inclusive um engano. Creio que o verdadeiro mal da Liturgia consiste em outra coisa…

Em quê?
Orgulho, orgulho e, mais uma vez, orgulho! Destaco-o três vezes. Quando o homem, inclusive na Missa, pretende substituir a Deus cai no orgulho, como se lê também no Apocalipse. Uma visão orgulhosa e antropológica arruína a Liturgia e desfigura o sentido do sagrado.

Portanto, o homem não cria a Liturgia…
Absolutamente. O homem não cria nada. A Liturgia não é propriedade do homem, mas de Deus. Só Deus pode nos dar o Sacrifício da Missa. Na celebração é necessária a presença e a participação no mistério que se celebra. A Liturgia é uma ação bela e celestial, recordando uma vez mais o livro do Apocalipse…

Mas no tempo houve visões racionalistas querendo explicar inclusive aquilo que, por natureza, não é assim…
Insisto: a Missa, que não é um alegre espetáculo, é sacrifício, dom, transcendência. Logo requer participação, mas também doação e dar glória ao Senhor.

Por que o senhor fala de orgulho?
Faço referência a quando o homem, na celebração, pretende colocar-se no lugar de Deus. O protagonista da Missa é Deus, nunca o homem e, portanto, nunca o sacerdote celebrante.

O que é necessário para restituir a dignidade à Santa Missa?
Sobrietas: lembre-se desta palavra latina. A Missa deve ser sóbria, simples e elegante, pondo Deus no centro e não o homem. Deve-se recuperar a sobriedade, eliminando o orgulho terreno que, normalmente, realiza espetáculos.

Traduzido por Luís Augusto – membro da ARS

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