XVI Semana do Tempo Comum, depois de Pentecostes

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O Círio Pascal


A bênção do "círio pascal", que é uma coluna de cera de tamanho excepcional, normalmente fixa num grande castiçal especialmente destinado para este propósito, é um elemento notável da celebração do Sábado Santo. A bênção é feita pelo diácono, paramentado com uma dalmática branca. Uma longa oração eucarística, o "Præconium Paschale" ou "Exsultet", é cantado por ele, e durante o canto o círio é primeiramente ornamentado com os cinco grãos de incenso e, enfim, aceso com o fogo novo abençoado [assim foi até a Reforma da Semana Santa sob Pio XII]. Depois, noutra parte da celebração, durante a bênção da água batismal, o mesmo círio é mergulhado três vezes na água, às palavras: Descendat in hanc plenitudinem fontis virtus Spiritus Sancti (A virtude do Espírito Santo desça sobre a plenitude desta água). Do Sábado Santo até a Ascensão do Senhor o círio pascal permanece no santuário, no lado do Evangelho [junto do ambão, como atestam vários séculos anteriores], e é aceso para a Missa cantada e as Vésperas solenes aos Domingos. É apagado após o Evangelho do dia da Ascensão e, então, removido.
 Sacerdote incensando o Círio Pascal na Vigília Pascal
Os resultados de uma recente pesquisa parecem mostrar ser necessário admitir uma remota antiguidade para o círio pascal. Dom Germain Morin (Revue Bénédictine, Jan., 1891, e Set., 1892), contra Mons. Duchesne e outros, sustentou com êxito a autenticidade da carta de São Jerônimo a Presídio, diácono de Placência (Migne, P.L., XXX, 188), na qual o santo responde a um pedido para que ele compusesse um carmen cerei (poema ao círio), em outras palavras, uma forma de bênção, como o nosso "Exsultet". Esta referência deve claramente pressupor a existência, em 384, do próprio círio, que deveria ser abençoado pelo diácono de um modo particular, e a resposta do santo torna provável que a prática nem era recente e nem peculiar à Igreja da Placência. Santo Agostinho (Cidade de Deus XV,22) menciona casualmente que ele compôs uma laus cerei [louvor ao círio] em verso; e dos exemplares de composições similares — todas, contudo, trazendo uma estreita familiaridade com nosso "Exsultet" — encontradas nas obras de Enódio (Opusc., 14 e 81), parece não poder haver base suficiente para se duvidar da retidão desta afirmação.
Castiçal do Círio Pascal - Abadia de São Clemente de Casauria - Castiglione a Casauria, Itália
Ademais, Mons. Mercati já tem mostrado boas razões para acreditar que o "Præconium paschale" existente do Rito Ambrosiano foi composto, na essência, pelo próprio Santo Ambrósio ou também fundamentado em hinos dos quais ele era o autor (cf. "Studi e Testi", XII, 37-38). Não há, portanto, ocasião para se negar ao Papa Zózimo o crédito de ter concedido o uso do círio pascal às igrejas suburbicárias de Roma, embora a menção deste fato apena seja encontrada na segunda edição do "Liber Pontificalis". Mons. Duchesne argumenta que esta instituição não deixou traço algum nos Ordines romanos mais puros da antiguidade, como o Ordo de Einsiedeln e o de Santo Amando; mas estes falam de duas faculæ (tochas) que eram carregadas até a fonte diante do papa e eram mergulhadas na água, como se faz agora com o círio pascal. A questão do tamanho ou da quantidade não parece ser vital. O concílio mais antigo que trata do assunto, o IV de Toledo (ano de 633, cap. ix), parece colocar juntas a bênção da lucerna e do cereus como sendo de igual importância e parece ligá-los, ambos, simbolicamente a algum sacramentum, isto é, algum mistério da iluminação batismal e à Ressurreição de Cristo. E é sem dúvida que o círio pascal deve ter derivado sua origem dos esplendores da Vigília Pascal nos primeiros séculos cristãos. [A celebração matutina ou pouco mais tarde do Sábado Santo, até a reforma de Pio XII, certamente representava por antecipação uma celebração que acontecia à noite, nos primeiros tempos.] Ela culminava com a bênção da fonte e com o batismo dos catecúmenos, seguido imediatamente da Missa pouco depois da meia-noite, na madrugada da Páscoa. Ainda no tempo de Constantino, Eusébio conta-nos (De Vita Constantini, IV, xxii) que o imperador "transformou a noite da vigília sagrada num fulgor diurno, acendendo por toda a cidade pilares de cera (kerou kionas), enquanto lâmpadas ardentes iluminavam todas as partes, de modo que esta mística vigília tornava-se mais brilhante que a mais brilhante luz do dia". Outros Padres, como São Gregório de Nazianzo e São Gregório de Nissa, também dão vívidas descrições da iluminação da vigília pascal. É certo, além disso, através de evidências que remontam ao tempo de Tertuliano e Justino, mártir, que os catecúmenos eram batizados nesta Vigília Pascal e que esta cerimônia do batismo era referida como photismos, isto é, iluminação. De fato, parece ser muito provável que a isto se faça referência em Hb 10,22, onde as palavras "ser iluminado" parecem ser utilizadas no sentido de ser batizado (cf. São Cirilo de Jerusalém, Cat. i, n. 15). Se designado conscientemente ou não para este propósito, o círio pascal tipificou Jesus Cristo, "a verdadeira luz que ilumina todo homem que vem a este mundo", rodeado pelos seus iluminados, isto é, os discípulos que acabam de ser batizados, cada um portando uma luz menor. Na cera virgem ainda um último simbolismo reconheceu a carne puríssima que Cristo derivou de sua bem-aventurada Mãe, no pavio a alma humana de Cristo, e na chama a divindade da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Ademais, os cinco grãos de incenso postos em forma de cruz recordam as sagradas chagas mantidas no corpo glorificado de Cristo e o acendimento do círio com o fogo novo serviu como uma viva imagem da ressurreição.

Castiçal do Círio Pascal - Abadia de Santa Maria Arabona - Manopello, Itália
Muito se poderia dizer da prática medieval e de tempos posteriores com relação ao círio pascal. Aprendemos da autoridade de Beda, falando no ano 701, que era comum em Roma inscrever a data, e outras coisas particulares do calendário, ou no próprio círio ou num pergaminho fixado a ele. Além disso, em várias basílicas italianas o castiçal pascal era uma construção de mármore que era um adjunto permanente do ambão ou do púlpito. Vários destes ainda existem, como em São Lourenço fora dos muros, em Roma. Naturalmente a tendência medieval era glorificar o círio pascal fazendo-o cada vez maior. Em Durham fala-se de um magnífico com dragões, escudos e sete braço, que era tão grande que tinha que ficar no centro do coro [localizado entre a nave e o presbitério]. O Processional de Sarum de 1517 estabelece que o círio pascal, sem dúvida o da Catedral de Salisbury, deve ter aproximadamente 11m de altura, enquanto aprendemos do diário de Machyn que, em 1558, no reinado da Rainha Maria, cerca de 140kg de cera foram usados para o círio pascal da Abadia de Westminster. Na Inglaterra, estes grandes círios, depois de terem sido usados pela última vez na bênção da fonte na vigília do Domingo de Pentecostes, eram geralmente derretidos para serem feitas pequenas velas a serem usadas gratuitamente nos funerais dos pobres (cf. Wilkins, "Concilia", I, 571, e II, 298). Em Roma, os Agnus Dei [discos de cera abençoados pelo Papa; são um sacramental] eram feitos dos restos dos círios pascais, sendo que Mons. Duchesne parece considerá-los como provavelmente mais antigos que o próprio círio pascal.

 Castiçal do Círio Pascal - Catedral de São Lourenço - Trapani, Itália
 Castiçal do Círio Pascal - Basílica de São Clemente - Roma, Itália - lateral e frente
  Castiçal do Círio Pascal - Basílica de São Lourenço fora dos muros - Roma, Itália
 Castiçal do Círio Pascal - Basílica de São Paulo fora dos muros - Roma, Itália

Fonte: Thurston, Herbert. "Paschal Candle." The Catholic Encyclopedia. Vol. 11. New York: Robert Appleton Company, 1911. http://www.newadvent.org/cathen/11515b.htm.

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

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