sexta-feira, 4 de abril de 2014

Hóstia - o pão usado no culto cristão - Parte 2

Pax et bonum!

Prosseguimos com nossa postagem sobre o pão usado no culto cristão, o qual, durante a Santa Liturgia, é transubstanciado no Corpo de nosso Senhor Jesus Cristo.
Eis aqui a segunda parte de nossa tradução do artigo da Catholic Encyclopedia.
Para ver a primeira parte, clique aqui.
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Hóstia
Moldes para hóstias
Os moldes usados para as hóstias são instrumentos de ferro semelhantes a moldes de waffle (N.T.: também chamado de gofre, em Portugal), compostos de duas paletas que se unem através de duas alças dobradas que servem como alavanca. O Abade Corblet diz que a existência deles estabeleceu-se por volta do início do séc. IX, embora não se conheça nenhuma espécie existente, em tempos recentes, que date de antes do séc. XII. Todavia, a descoberta, de algum tempo atrás, de um desses moldes em Cartago, leva-nos de volta ao séc. VI ou VII, antes da destruição desta cidade pelos árabes. Neste molde, ao redor do monograma de Cristo, está a inscrição: HIC EST FLOS CAMPI ET LILIUM (Delattre, "Un pèlerinage aux ruinesde Carthage", 31, 46) (N.T.: "Este é a flor do campo e o lírio"). Infelizmente esta preciosa relíquia da antiguidade cristã está incompleta.
A placa inferior de um molde para hóstias é gravada com duas, quatro ou seis figuras de hóstias que, por meio de pressão, são reproduzidas na massa e fixadas enquanto se assa. Do séc. IX ao XI os moldes faziam hóstias muito grossas e tendo aproximadamente o tamanho da palma da mão. Por volta do fim do séc. XI as dimensões foram consideravelmente reduzidas de modo que, com o mesmo instrumento, quatro hóstias, duas grandes e duas pequenas, poderiam ser moldadas. Com um molde do séc. XIII, preservado em Saint-Croix de Poitiers, duas hóstias grandes e três pequenas podem ser feitas ao mesmo tempo, e um molde de Naintre (Vienne) faz cinco hóstias de uma vez, todos variando no tamanho. Um certo número de moldes para hóstias trazem a data da fabricação, o nome do responsável e o brazão do doador. Um molde do séc. XIV, em Saint-Barban (Haute-Vienne), faz hóstias de diferentes tipos para a Quaresma e para a Páscoa. As maiores medindo cerca de 5,4cm de diâmetro e as menores com cerca de 2,9cm; no mesmo período algumas hóstias grandes tinham o diâmetro de cerca de 6,99cm. Um molde do séc. XV em Bethine (Vienne) faz hóstias trazendo a figura do Cordeiro triunfante, da Sagrada Face rodeada de flor-de-lis, também da Crucificação e da Ressurreição. No séc. XVI em Lamenay (Nievre), as hóstias eram feitas representando Jesus Cristo sentado em seu trono e dando sua bênção, sendo o fundo preenchido com estrelas; em Montjean (Maine-et-Loire) elas eram estampadas com a imagem de Cristo Crucificado e Cristo Ressuscitado, delicadamente emoldurada com lírios e rosas num aspecto heráldico. Em Rouez (Sarthe) há um molde que faz duas hóstias; uma representa Cristo carregando sua cruz e traz a inscrição: QUI. VEULT. VENIRE. POST. ME. TOLLAT. CRUCEM. SUAM. ET. SEQUATUR. ME. (N.T.: "Quem quiser vir após mim tome a sua cruz e me siga"); a outra representa a Crucificação e está assim inscrita: FODERUNT. MANUS. MEAS. ET. PEDES. MEOS. DINUMERAVERUNT. OMNIA. OSSA. MEA. (N.T.: "Traspassaram minhas mãos e meus pés e contaram todos os meus ossos").
Moldes de ferro para hóstias dos séc. XVII e XVIII têm sido preservados em grande número, e são bastante similares aos que se usam atualmente, tendo a estampa do Cordeiro deitado sobre o livro, Cristo na Cruz, ou as letras IHS emitindo raios e circuladas com uvas e espinhos.
Molde do fim do séc. XVIII
Entre os moldes para hóstias mais notáveis que escaparam de destruição, podemos mencionar os de Beddes, Azy, Chassy e Vailly (Cher), todos os quatro pertencendo ao séc. XIII; os de Palluau (Indre), de Crouzilles e Savigny, etc. Notáveis entre as coleções de estampas dos moldes de ferro para hóstias são as de M. Dumontet em Bourges, de M. Barbier de Montault em Limoges, a do museu de Cluny, e a do museu Eucarístico de Paray-le-Monial.
Molde do séc. XIII do Museu de Cluny
As Igrejas Orientais geralmente usam um molde de madeira. Para deixar as hóstias assadas no molde bem redondas, elas são cortadas com tesouras, um furador ou um compasso, do qual uma das pernas termina numa faca.

Forma e dimensões
A primeira menção à forma das hóstias encontra-se em Santo Epifânio, no séc. IV, quando ele diz: "hoc est enim rotundae formae" (N.T.: algo como "Porque isto tem a forma redonda"), mas o fato já tinha sido registrado pelas pinturas das catacumbas e por baixos-relevos muito antigos. A unidade de forma e tamanho só lentamente foi estabelecida, e costumes diferentes prevaleceram em diferentes províncias. Em tempos antigos os Concílios tentaram introduzir a uniformidade neste ponto; um ocorrido em Arles, em 554, ordenava a todos os bispos daquela província, a que usassem hóstias da mesma forma das que eram usadas na Igreja de Arles. De acordo com Mabillon, no início do séc. VI as hóstias eram tão pequenas e finas como agora, e afirma-se que tornou-se costume a partir do séc. VIII abençoar hóstias pequenas destinadas aos fiéis, uma vantajosa medida que dispensava a fração da hóstia e a queda de fragmentos que disso decorria.
Por volta do séc. XI, encontramos certa oposição a este costume, que então se difundia em geral, de reservar uma hóstia grande para o sacerdote e uma pequena para cada comungante. Todavia, no séc. XII o novo costume prevalecia na França, na Suíça e na Alemanha; Honório de Autun afirma, de forma geral, que as hóstias tinham a forma de "denarii" (N.T.: "denários", uma moeda). Os mosteiros resistiram por um mais longo tempo, e ainda no séc. XII o antigo sistema vigorava em Cluny. Em 1516 o Missal de Rouen prescrevia que o celebrante partisse a hóstia em três, a primeira parte para ser posta no cálice, a segunda parte para ser recebida na Sagrada Comunhão pelo celebrante e os ministros e a terceira para ser guardada como Vi'atico para os moribundos. Os Cartuxos reservavam uma hóstia muito grande, e dela retiravam um pedaço para cada Viático. Eventualmente todas as hóstias eram feitas redondas e suas dimensões variavam, embora pouco. Todavia, algumas muito maiores eram às vezes consagradas para serem postas em ostensórios, por ocasião da Exposição do Santíssimo Sacramento. Atualmente em Roma as hóstias grandes têm 9cm de diâmetro e as pequenas 4cm. Em outros países elas não costumam ser tão grandes. Em 1865, Pio IX autorizou os sacerdotes exilados na Sibéria a consagrarem a Eucaristia com pão de trigo que não tivesse a forma de uma hóstia redonda.

Figuras
A partir de antigos monumentos de pintura, escultura e epígrafes temos visto o uso geral de traçar uma cruz nos pães eucarísticos que eram chamados  decussati (do latim decussis, uma moeda marcada com um x). Para os antigos cristãos que falavam o grego, a cruz (X), sendo a inicial do nome de Cristo (Xpistos [isto é, Christos]), estava constantemente em evidência; logo se concebeu a ideia de substituir a cruz plana pelo monograma (o XP - chiro, ou quirô), e finalmente acrescentou-se aí, em cada lado, as letras Alfa e Ômega (isto é, o princípio e o fim) como nos moldes de Cartago. Em certos países a cruz plana continuou a existir por um longo tempo; na Diocese de Arles nenhum outro sinal era tolerado até a Revolução. Começando com o séc. XII, todavia, o crucifixo foi quase universalmente substituído pela cruz, embora esta forma iconográfica nunca tenha sido obrigatória. Além da Crucificação encontramos a Ressurreição, Cristo à coluna, o anjo segurando um cálice, o Cordeiro deitado ou de pé, Nossa Senhora em Belém, no Calvário ou sendo assunta ao céu, a Última Ceia, a Ascensão, a Sagrada Face, São Martinho dividindo seu manto, Santa Clara portando um cibório, os símbolos dos Evangelistas, etc.
Modelo de uma hóstia grande, para rito romano, de fabricante brasileiro
Inscrições
O pão feito pelos padeiros romanos trazia o nome ou as iniciais de quem o tinha feito, e parece que esta prática teria se estendido mesmo ao pão Eucarístico, mas neste assunto nossa informação é um tanto vaga. Frequentemente lemos uma inscrição de caráter místico ou simbólico, tais como as que se encontram nos moldes para hóstia de Cartago. Aqui vão algumas das mais comuns: "I H S" (Jesus) (N.T.: considerando o grego, mas também é interpretada segundo o latim e significaria Iesus Hominum Salvator - Jesus Salvador dos Homens); "I H S X P S" (isto é, Iesus Christus); "Hoc est corpus meum" (N.T.: "Isto é o meu corpo"); "Panis quem ego dabo caro mea est" (N.T.: "O pão que eu darei é a minha carne"); "Ego sum panis vivus qui de coelo descendi" (N.T.: "Eu sou o pão vivo que desceu do céu"); "Si quis manducaverit ex hoc pane vivet in aeternum" (N.T.: "Se alguém comer deste pão viverá para sempre"); "Ego sum via veritas et vita" (N.T.: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida"); "Ego sum resurrectio et vita" (N.T.: "eu sou a ressurreição e a vida"); "Plectentes coronam de spinis imposuerunt in capite ejus" (N.T.: "Puseram sobre sua cabeça uma coroa trançada de espinhos"); "Foderunt manus meas et pedes meos; dinumeraverunt omnia ossa mea" (N.T.: "Traspassaram minhas mãos e meus pés; contaram todos os meus ossos"); "Et clamans Jesus voce magna emisit spiritum" (N.T.: "E clamando Jesus com voz forte, entregou o espírito"); "Resurrectio Domini" (N.T.: "Ressurreição do Senhor"); "In hoc signo vinces, Constantine" (N.T.: "Neste sinal vencerás, Constantino").
Molde moderno para hóstias do rito romano
Pão fermentado
As hóstias fermentadas dos gregos (N.T.: chamadas comumente de prósfora) têm um tamanho grande, e às vezes são redondas, triangulares ou na forma de uma cruz, mas mais frequentemente quadradas. Na parte mais interior elas têm uma impressão quadrangular dividida em quatro partes iguais por uma cruz grega e trazendo a inscrição IC XC NI KA (Iesous Christos nikai), isto é "Jesus Cristo é o vitorioso".
Prósfora, o pão fermentado que se torna o Santíssimo Sacramento na Liturgia Bizantina
Prósfora cortada durante a proskomidia.
A parte quadrada, que será consagrada, é chamada de Cordeiro.
Molde de madeira para a prósfora
O corban dos Coptas é um pão fermentado branco e redondo, plano na parte de baixo, convexo na parte de cima, do tamanho da palma da mão. É marcado com doze pequenos quadrados que contêm cada um uma cruz em honra dos Doze Apóstolos. No centro um quadrado maior (isbodion) é marcado com uma cruz maior dividida em quatro menores; é o símbolo de Cristo. Esta porção central é usada para a Comunhão do celebrante, as outras partes ("pérolas") sendo distribuídas aos fiéis. A inscrição diz: "Agios, agios, agios Kurios" (N.T.: "Santo, Santo, Santo é o Senhor"); ou ainda "Kurios Sabaoth" (N.T.: "Senhor dos exércitos") ou "agios iskuros, agios athanatos, agios o theos" (N.T.: "Santo forte, santo imortal, santo Deus"). 
Corban, o pão utilizado pelos cristãos coptas
Sacerdote copta escolhendo o corban
Molde de madeira para corban
Os cismáticos Armênios usam uma hóstia com tamanho e espessura próximos de uma moeda de cinco francos ou um dólar (N.T.: 3,7cm de diâmetro) e trazem a estampa de um crucifixo tendo à direita um cálice encimado por uma hóstia e à esquerda uma lança ou uma cruz. 
Sacerdote armênio escolhendo o pão
Os Mingrelianos têm uma pequena hóstia redonda, pesando pouco mais que 28g e tendo um quadrado estampado, com a inscrição significando: "Jesus Cristo é o vitorioso". A Confissão de Augsburgo (N.T.: Luteranos) mantiveram o uso de pequenas hóstias redondas, que os Calvinistas rejeitaram sob o pretexto de que elas não eram pão. Na Alemanha as Igrejas Evangélicas usam pães brancos, redondos, com 8cm de diâmetro por 9cm de espessura. 
A Antiguidade cristã transmitiu-nos as píxides ou caixas destinadas a guardar a Eucaristia, mas como elas estariam relacionadas aos vasos sagrados, não é necessário nos determos nelas, mas simplesmente nas caixas nas quais se mantinham os pães do altar antes da consagração e que geralmente eram muito simples. Na Idade Média, durante a Renascença, estas caixas eram bastante ricas, feitas de prata, marfim e esmalte. Antigas caixas para hóstias são muito raras, mas as de uso atual são de lata ou papelão, geralmente com algum enfeite.

Fonte: Leclercq, Henri. "Host." The Catholic Encyclopedia. Vol. 7. New York: Robert Appleton Company, 1910. 

Apêndice
A TV Canção Nova disponibilizou há alguns anos um vídeo que apresenta o processo industrializado de fabricação de hóstias, que pode ser assistido abaixo:



Traduzido por Luís Augusto - membro da ARS

Um comentário:

Swytz Tavares disse...

Excelente artigo instrutivo sobre as normas disciplinares litúrgicas da confecção das SANTAS HÓSTIAS... Parabéns a ARS.