terça-feira, 1 de abril de 2014

Sobre o Pai Nosso [na Missa], a saudação da paz e o desrespeito às normas da Liturgia

Pax et bonum!

Há alguns dias recebemos um email que nos apresentava três questionamentos sobre a Forma Ordinária do Rito Romano, além de manifestar a insatisfação com a situação de indisciplina e relaxamento por parte de muitos membros do clero de nosso país.
As dúvidas eram as seguintes:
a) Aprendi que devemos rezar o Pai Nosso, na Missa, de mãos postas. Mãos erguidas nunca foi o gesto de leigos; não teria origem protestante? E quanto a dar as mãos, não seria algo de origem ocultista (ex: fazer correntes, etc)?
b) Já vi informações de que o Rito da Paz é opcional. Não é uma mera invenção sem verdadeiro lugar na Liturgia? Não seria melhor omiti-lo, já que comumente causa tumultos?
c) Qual é a explicação para o desrespeito às normas litúrgicas?
A formulação acima adapta um pouco o original de nossa emitente, mas conserva as dúvidas. Respondemos abaixo.

1. Sobre a forma de rezar o Pai Nosso na Missa
Para praticamente tudo que diz respeito à Missa na Forma Ordinária do Rito Romano, no contexto de suas rubricas e cerimônias, basta-nos consultar o próprio Ordinário da Missa e a Instrução Geral sobre o Missal Romano. Ademais, sobre abusos podemos consultar a Instrução Redemptionis Sacramentum.
O que dizem, pois, estes textos?
"...sacerdos, iunctis manibus, dicit: (...) Extendit manus et, una cum populo, pergit: Pater noster..." ()
O trecho indica que o sacerdote diz a monição de mãos juntas e que as estende para, com o povo, rezar. Todavia, o gesto é indicado no singular e, portanto, pertence, na rubrica, apenas ao sacerdote.
Não se faz menção de como a assembleia deva estar, nada se prescreve.
A Instrução Geral do Missal descreve a mesma coisa: "Expleta Prece eucharistica, sacerdos, manibus iunctis, dicit monitionem ante Orationem dominicam, quam deinde una cum populo profert, manibus extensis" (n. 152). Embora a expressão "com as mãos estendidas" esteja posta depois de dizer que o sacerdote reza com o povo, não se pode deduzir que diga respeito a todos. Na Profissão de Fé, por exemplo, como a inclinação às palavras da Encarnação é prescrita, aqui sim, para todos, a rubrica di-lo claramente: Ad verba Et incarnátus est, etc. omnes profunde se inclinant.
Sabendo que não é prescrita posição alguma para o povo durante a Oração do Senhor, convém perguntar, sobre a posição "de mãos estendidas" para o povo: É conveniente? Não seria uma tentação da clericalização? Não seria uma invenção recente?
Este gesto ou postura da espiritualidade cristã é comumente conhecido como orans, ou seja, orante, o que está a fazer oração. É muito antigo e bastante conhecido em nossa iconografia. Há vários ícones da Virgem Maria e de alguns santos nesta posição. Isto pode indicar que se trate de uma postura conhecida na oração pessoal e talvez também na oração comunitária. Também é considerada um símbolo da alma que entra no Céu ou dos santos intercedendo pela alma de um falecido, já que comumente ilustrava as proximidades de um túmulo (cf. Catholic Encyclopedia, Orans). Todavia não temos testemunhos de seu uso por parte do povo na Liturgia.
O Pe. Edward McNamara, professor de liturgia no Pontifício Ateneu Regina Apostolorum, diz que "em alguns países, Itália, por exemplo, a Santa Sé atendeu ao pedido dos bispos para que quem quisesse pudesse adotar esta postura durante o Pai Nosso. Normalmente um terço a metade dos fiéis reunidos escolhem fazê-lo" (cf. Zenit, Holding Hands at the Our Father?).
Portanto, não é um uso ilícito, mas o correto é que esteja oficialmente permitido, a exemplo do que fez a Itália, ou seja, através de um pedido dos bispos. Ademais, não se pode afirmar que tenha origem protestante, já que a postura orans é conhecida de muitos séculos na Igreja.
Sobre dar as mãos, o mesmo Pe. Edward nos diz: "O ato de dar-se as mãos normalmente enfatiza a unidade pessoal ou do grupo do ponto de visto humano ou físico e é mais típico da espontaneidade de pequenos grupos. Daí segue-se que nem sempre cai bem quando colocado no contexto de reuniões maiores, onde algumas pessoas sentem-se desconfortáveis e um tanto impostas quando o fazem.
O uso desta prática durante a oração do Pai Nosso poderia causar distração e diminuir o sentido de adoração e petição da oração que é dirigida a Deus, sentido explicado nos n. 2777-2865 do Catecismo da Igreja Católica, em favor de um significado mais meramente humano e horizontal.
Por todas essas razões, ninguém deveria ter nenhum mal-estar em não participar deste gesto se não se sente inclinado a fazê-lo. Essas pessoas simplesmente estarão seguindo o costume universal da Igreja, e não deveriam ser acusadas de ser causa de desarmonia" (cf. Zenit, idem).
Seguido o reverendo professor de Liturgia, não entendemos que o gesto seja proveniente de ocultismo, mas mais facilmente do pensamento horizontal, seguindo a ideia de "a união faz a força" e similares, o que não quer dizer que o achamos conveniente. Concordamos, pois, com o Pe. McNamara, quanto à argumentação contra a prática do rezar o Pai Nosso de mãos dadas na Missa.
Quanto ao sacerdote, lembremos que as rubricas mandam-no rezar a Oração do Senhor de mãos estendidas, ou seja, obrigatoriamente não deverá ele inventar de dar as mãos aos coroinhas, concelebrantes ou diáconos.

2. Sobre a forma de realizar a saudação da paz na Missa
Quanto à saudação da paz, primeiramente indicamos uma postagem nossa de 2012 só sobre este tema.
Que a comunicação do sinal da paz seja facultativa, este é um fato que pode ser atestado pelo Ordinário da Missa e pela Instrução Geral sobre o Missal Romano. A Instrução diz, após o anúncio sacerdotal ("A paz do Senhor esteja sempre convosco"): "Depois, conforme o caso (no latim: pro opportunitate), o sacerdote acrescenta: 'Meus irmãos e minhas irmãs, saudai-vos em Cristo Jesus'. O sacerdote pode dar a paz aos ministros, mas sempre permanecendo no âmbito do presbitério, para que não se perturbe a celebração. Faça o mesmo se por motivo razoável quiser dar a paz para alguns poucos fiéis. Todos, porém, conforme as normas estabelecidas pela Conferência dos Bispos, expressam mutuamente a paz, a comunhão e a caridade. Enquanto se dá a paz, pode-se dizer: 'A paz do Senhor esteja sempre contigo', sendo a resposta: 'Amém'" (n. 154).
O Ordinário diz de modo similar: "Deinde, pro opportunitate, diaconus, vel sacerdos, subiungit: Offérte vobis pacem". A expressão "pro opportunitate", que se repete, indica a não obrigatoriedade. Deveras, a omissão do sinal da paz pode ter várias justificativas, sobretudo a fim de que "não se perturbe a celebração". A Instrução, noutra parte anterior, ainda diz: "Convém, no entanto, que cada qual expresse a paz de maneira sóbria apenas aos que lhe estão mais próximos".
Poderíamos dizer que a ideia de "ne celebrátio turbétur", ou seja, "que não se perturbe a celebração", sempre deverá ser levada em conta, não só para a Oração do Senhor ou o sinal da paz.
Por outro lado, os abusos não tolhem o valor e a importância do sinal. Sobre seu significado, recomendamos novamente a postagem acima indicada.

3. Sobre as causas e justificativas para o desrespeito às normas litúrgicas
Poderíamos escrever muito sobre isso, mas optamos apenas por apontar alguns bons textos.
a. Observância das normas litúrgicas e “ars celebrandi” - texto preparado pelo Departamento das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice;
b. Quo vadis, Liturgia? - texto do então Pe. Bugnini sobre as coisas negativamente surpreendentes da época (1964-65), tradução nossa;
c. Declaração sobre as iniciativas litúrgicas arbitrárias - declaração vaticana de 1966, escrita durante o Concílio, ainda anos antes da edição nova do Missal, tradução nossa;
d. Bagunçando a Missa: o problema do narcisismo sacerdotal hoje em dia - interessante texto de autores estadunidenses sobre as razões psicológicas que levam os sacerdotes à libertinagem litúrgica, tradução nossa.

Por Luís Augusto - membro da ARS

Um comentário:

Anônimo disse...

Artigo muito bem elaborado e fundamentado. PARABÉNS ao ARS !!!