sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

"Ajudemos o Santo Padre a trazer Deus ao mundo"

Pax et bonum!

Descobri ontem uma entrevista com o Pe. Nicola Bux (muito conhecido no contexto do Novo Movimento Litúrgico). Ele é Consultor do Departamento para as Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice.
A entrevista é de maio deste ano e não a encontrei em português. Ela foi dada na Espanha.
Fica uma grande recomendação de leitura: a seção de estudos do dito Departamento no próprio site do Vaticano.

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- Poderia explicar em que consiste a participação ativa de mente e de coração?

Diz São Paulo em sua Carta aos Romanos, no capítulo 12, que devemos oferecer nossos corpos como sacrifício razoável, agradável a Deus. Essa é uma participação “ativa”, ou seja, de ato, de ação. Nossa ação máxima é a de unir nossa vida a Cristo e, sobretudo, oferecer nossa vida na oferta de Cristo no sacrifício da Cruz. Esta é a Missa.

Esta é a participação, a parte que falta quando São Paulo, na carta aos colossenses, diz “completo em minha carne o que falta ao sofrimento de Cristo, em favor de seu corpo, que é a Igreja”. Ele quer dizer que essa atividade, essa ação na liturgia é unir nossa vida à de Cristo. Essa é a participação de que a Constituição Litúrgica do Concílio fala: promover, pedir. Portanto, que os fiés na liturgia sejam conscientes de que cumprem essa parte, que falta - em certo sentido - a Cristo. Alguém pode dizer: "Como pode ser? À Redenção de Cristo falta algo?” Não, ela é completa, “tudo está consumado”. É nossa parte a que falta, temos que fazer nossa parte. Isto requer que voltemos o olhar para Cristo, que o contemplemos.

- Diante da participação ativa, quais são as características da má participação?

Sua característica é que, ao invés de partir de Cristo, partimos de nós mesmos, de nossas ideias, de nossos projetos, do desejo de êxito, de organizar a liturgia, de criá-la, de mudá-la segundo os gostos subjetivos e, em suma, pondo no centro da liturgia não o Senhor, mas nós mesmos. Creio que hoje um sintoma deste centralismo humano, antropológico, é a cadeira do celebrante no centro da Igreja. Nunca na história se fez assim. Inclusive o bispo antigamente não se sentava nunca no centro, mas encabeçava a assembleia, enquanto era o altar que estava no centro.

- Mas a hoje a sédia está no centro…

Pusemos o homem no centro, ao invés de Deus. Alguém pode objetar que o sacerdote representa Cristo. Sem dúvida, está certo, mesmo que numa medida muito reduzida. Antes Cristo era representado pela centralidade do santuário, do altar. O sacerdote é um ministro de Cristo, portanto, importante, mas não pode estar sempre no centro, quando oferece a ação de graças, a Eucaristia.

- Por que a entrada do Novus Ordo se fez de uma maneira tão súbita e, para alguns, tão traumática?

A reforma litúrgica foi imposta por especialistas estudiosos que depois se serviram de um decreto papal para poder dar força a essa reforma. É uma reforma que não respeita o desenvolvimento que se tinha dado antes (1950, 1960) em continuidade, é uma reforma que criou um trauma. Todos recordamos quando foi promulgado o calendário dos santos, em 1970; houve muitas reações polêmicas; assim também quando foi promulgado o ‘Ordo Missæ’, porque se via que vinha obrigada uma forma de celebrar que não se relacionava com as formas precedentes.

- Isto quer dizer que a reforma de Paulo VI não foi boa?

Era boa, estaba bem intencionada, mas quiçá o próprio Paulo VI, como alguns estudiosos têm aprofundado, não pensava que se tivesse ultrapassado as fronteiras que a constituição litúrgica tinha estabelecido, sobretudo no artigo 23, por exemplo: “que as novas formas devem se desenvolver organicamente a partir das já existentes”. O rito de Paulo VI pode ser celebrado digna e corretamente se se recupera o sentido da liturgia que tem o rito tradicional.

- Qual é o objetivo das reformas litúrgicas do Santo Padre?

Seguir o Papa significa voltar a dar a centralidade a Cristo na liturgia, que é o lugar da presença de Deus, onde o homem o pode encontrar. O homem de hoje procura a Deus. “No mundo há muitos lugares onde a fé corre o risco de se apagar”, diz Bento XVI aos bispos despois de revogar as excomunhões aos quatro bispos ordenados por Dom Lefebvre. No mundo a fé corre o risco de se apagar, há uma necessidade de fazer Cristo estar presente no mundo. E não há melhor modo de o fazer do que celebrar a Liturgia de modo ‘mistérico’, digno, profundo. Assim é que devemos seguir o Papa que conhece bem a liturgia do ponto de vista histórico, moral, jurídico, pastoral.

- De já, Bento XVI deseja aprofundar o estudo da liturgia. 

Todos - tanto amantes da tradição como os que amam a inovação - temos que estudar mais as fontes litúrgicas, a patrística, as Sagradas Escrituras, a teologia medieval e moderna, para descobrir tudo o que se desenvolveu em 2000 anos de história da Igreja. Sempre houve reformas litúrgicas, mas não de uma maneira traumática, e sim com um desenvolvimento orgânico. A liturgia deve se desenvolver como se desenvolve uma paisagem; não com terremotos, mas com uma modificação sem traumas, quase sem se dar conta. Hoje somos muito sensíveis com o meio ambiente. Não queremos que a paisagem se desgaste, queremos que seu desenvolvimento seja respeitado. Assim tambén deve ser com a liturgia.

- Que se celebre a Missa com dignidade também parece ser um dos objetivos deste pontificado.

Diz o Santo Padre que deve haver cada vez mais comunidades e lugares exemplares, que celebrem a liturgia com bom exemplo, com a adoração a Deus. “Participar” quer dizer adorar a Deus, conhecer que ele está presente. Saber que nós servimos a Deus, que o glorificamos. Isto é o que hoje é necessário, para que os jovens que buscam climas e ambientes ‘chamativos’ entrem nestes ambientes, que não são iguais aos do mundo. São distintos porque são o lugar do Céu na Terra, o lugar do encontro do homem com Deus. Os jovens podem se admirar da beleza das igrejas.

 - A tradição artística da Igreja poderia ser de grande ajuda para propiciar este encontro…

Aqui, na Espanha, tendes alguns retábulos muito bonitos que são semelhantes às iconostases orientais. Quando alguém entra e vê estes retábulos extraordinários, olhos e coração vão para o alto: a cor, o esplendor, a glória dada ao divino. Também o ouvido, que escuta a música gregoriana e polifônica. São coisas que procuram as gerações jovens. Sem falar da língua sagrada, do latim. Hoje os jovens vivem numa sociedade multicultural. Não têm o problema de dizer “não entendo a língua”, como as gerações passadas. Devemos recriar este clima da liturgia, que ajuda a geração de hoje a não procurar lugares errados, mas a Deus, a procurar a si mesma encontrando a Deus.

- O sacerdote olhando para a Cruz, em vez de para os fieis, cumpre uma função escatológica?

Falei anteriormente que a liturgia é um olhar para o Senhor. [Olhar] de todos, porque a liturgia está inteiramente orientada para o Senhor; é adoração e contemplação do Senhor. A posição do sacerdote é voltado para o oriente, ou seja, de onde sai o sol, isto é, Cristo, sol da justiça, o “sol que surge do alto”, como diz São Lucas no Cântico de Zacarias, “o Senhor que vem e virá”. Este olhar, fisicamente, está significado pelo fato de que também o sacerdote olha para o oriente. E todos os fieis, se vêem que o sacerdote faz isso, também olharão para o oriente. Como diz o Santo Padre em seus escritos de teólogo, “a Missa não é uma espécie de círculo fechado”, onde o que fazemos é justamente um círculo e nos olhamos uns aos outros, mas está aberta ao futuro que vem, que irrompe.



- A Missa ad orientem ajuda os fieis a penetrar no mistério eucarístico?

A palavra “escatologia” quer dizer “as últimas coisas que entram no tempo”, do grego “escatá”. É o Senhor que faz as últimas coisas, as coisas sempre novas, o Senhor que vem renovar a terra. A orientação do sacerdote para a abside, para a Cruz, é um fato muito importante. Atualmente o Santo Padre põe a Cruz sobre o altar para que, inclusive se não se pode celebrar voltado para o Oriente, a Cruz seja o ponto de orientação; para que os fieis não olhem para o sacerdote, mas para Cristo, para a Cruz. Isso é muito importante como modo de continuar a reforma litúrgica, que não se acaba, que continua sempre, em cada geração. Portanto, a orientação para o Senhor, também física, psicologicamente, ajuda os fieis a entender que a liturgia está orientada para o Senhor.

- Pode-se dizer, então, que a Missa Gregoriana é celebrada “de costas para o povo”?

É uma expressão astuta, porque não é verídica. A Missa de frente para o povo foi criada no séc. XX, por um movimento de opinião que pensava em reverter as coisas. Por desgraça, conseguiram-no. A Missa não é “de costas para o povo”. Basta ver as liturgias orientais, que se celebram todas voltadas para o santuário. Há um parte em que se está voltado para a assembleia, a Liturgia da Palavra, mas a da anáfora, da Eucaristia, é voltada para o Senhor. Na Liturgia da Palavra, Deus nos fala. Na da Eucaristia nós oramos ao Senhor, respondemo-lhe. Isto é um ponto muito importante, da perspectiva teológica, psicológica e missionária.

- Frente aos que acusam a Missa Gregoriana de ‘esteticista’, o que se lhes deve responder?

Eu conheço muitos partidários da Missa nova que têm um gosto “esteticista”. É a tentação de todos, a tentação da forma. Não se trata de uma condenação, porque o homem tem olhos e necessita da forma. Nenhum conteúdo pode chegar a mim sem ela. Se vejo um doce, um bolo, que esteja deformado, não o como. Se, porém,  ao invés disto, está bonito, está confeitado, etc., me atrai.

A Liturgia é uma forma (em grego ‘éstesi’ e ‘forma’ são sinônimos), que deve atrair. Não é errado que haja estética. Até a teologia, diz Hans Urs von Balthasar, é uma estética, é uma beleza que atrai, porém que atrai para o conteúdo. Portanto, a estética não é algo exclusivo dos partidários da Missa Gregoriana. Está também nos da liturgia nova. A estética é a forma através da qual chegamos ao conteúdo principal da liturgia que é “Aquele que é a belleza”, por definição “o mais belo dos filhos dos homens”. Somos atraídos por Ele.

Queria concluir convidando a sacerdotes, bispos, e também ao Arcebispo de Madri, a quem tive a honra de conhecer no Sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia, que sei que é uma pessoa com grande clarividência, compreensiva, que aprofunda as coisas, a promover esta realidade. Realidade de muitos jovens, que - pode-se ver na Internet - querem a celebração da liturgia tradicional. Assim convido os bispos a não fechar os olhos diante dessa realidade. A realidade vem antes de nossas ideias e, como pais, precisam exercer a paternidade, encorajando, apoiando, corrigindo, ajudando. Porque assim nós ajudaremos neste trabalho do Santo Padre de trazer Deus ao mundo e de ajudar os homens a encontrar a Deus.

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Original em espanhol: Alba Digital. Entrevista de José R. Barros. (Link não encontrado)
Traduzido por Luís Augusto - membro da ARS

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