quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Beleza e Rito Litúrgico

Pax et bonum!

Muito recentemente encontrei este interessante texto do Pe. Mauro Gagliardi, Consultor do Departamento para as Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice (como o Pe. Nicola Bux) e professor de teologia no Pontifício Ateneu Regina Apostolorum de Roma.

BELEZA E RITO LITÚRGICO
Uma resposta ao espírito utilitarista da modernidade
Por Pe. Mauro Gagliardi


ROMA, 13 de Dezembro 2010 (Zenit.org).- Na introdução do primeiro volume de seu monumental "Herrlichkeit" (A Glória do Senhor), no qual desenvolveu uma teologia sistemática centrada no transcendentalismo da beleza, Hans Urs von Balthasar escreve:

"Beleza é a última coisa que o intelecto pensante se atreve a abordar, desde que só ela dança como um incontido esplendor em volta da dupla constelação da verdade e do bem e sua inseparável e mútua relação. A beleza é desinteressada, sem a qual o mundo antigo se negaria a entender a si mesmo, um mundo que tanto imperceptível e ainda inconfundivelmente deu adeus ao nosso novo mundo, um mundo de interesses, deixando-o à sua avareza e tristeza. 
Não mais amada ou fomentada pela religião, a beleza é tirada do seu rosto como uma máscara, e sua ausência expõe características naquela face, que ameaça tornar-se incompreensível para o homem. Já não nos atrevemos a acreditar na beleza e fazemos dela uma mera aparência, para mais facilmente a eliminarmos. 
Nossa situação hoje em dia mostra que a beleza tanto requer a si mesma quanto, no mínimo, a verdade e a bondade requerem coragem e decisão, e ela não se permitirá ser separada e banida de suas duas irmãs sem levá-las consigo num ato de misteriosa vingança" (H.U. von Balthasar, "A Glória do Senhor: Uma Estética Teológica," Volume 1, "Seeing the Form," T&T Clark, Edinburgh 1982, p. 18).

Estas são palavras de condenação, por um teólogo muito moderno, do espírito utilitarista da modernidade, que é incapaz de apreciar o valor das coisas belas que não são, ao mesmo tempo, úteis.
Como pode o espírito utilitarista compreender o valor dos pequenos detalhes - como o trabalho de tantos pintores para decorar as abóbadas de inumeráveis igrejas? Estas pinturas, que não são prontamente vistas da nave, são consideradas inúteis. 
Ou como se justifica o trabalho de mestres do mosaico que gastaram dias colocando ladrilhos em lugares que nem são visíveis nas catedrais medievais? Se o olho humano jamais verá a pintura ou o mosaico, qual foi o propósito de tanto trabalho? Neste caso a beleza implica em perca de tempo e energias? 
E novamente, qual o propósito da beleza dos paramentos e dos vasos sagrados, se o homem pobre morre de fome ou não tem com o que cobrir sua nudez? A beleza não está subtraindo dos recursos para cuidar dos necessitados?

Radiação de Deus

No entanto, a beleza é útil. É útil precisamente quando é gratuita, quando não procura um uso imediato, quando é radiação de Deus. 

Bento XVI afirma: "A relação entre mistério acreditado e mistério celebrado manifesta-se, de modo peculiar, no valor teológico e litúrgico da beleza. De fato, a liturgia, como aliás a revelação cristã, tem uma ligação intrínseca com a beleza: é esplendor da verdade (veritatis splendor). Na liturgia, brilha o mistério pascal, pelo qual o próprio Cristo nos atrai a Si e chama à comunhão. [...] 

"A beleza da liturgia pertence a este mistério; é expressão excelsa da glória de Deus e, de certa forma, constitui o céu que desce à terra. [...] a beleza não é um fator decorativo da ação litúrgica, mas seu elemento constitutivo, enquanto atributo do próprio Deus e da sua revelação. Tudo isto nos há de tornar conscientes da atenção que se deve prestar à ação litúrgica para que brilhe segundo a sua própria natureza." (Sacramentum Caritatis, 35).

Quem não sabe como apreciar o valor gratuito da beleza e, particularmente, da beleza litúrgica, não será capaz de cumprir adequadamente o ato do culto divino. 

Von Balthasar continua: "Quem, em sua menção, esboçar nos lábios um sorriso, julgando isso um brinquedo exótico de um passado  burguês, certamente - alguém poderá pensar -, às claras ou não, não é mais capaz de rezar e, em breve, nem mesmo de amar".

A beleza do rito, quando é assim, corresponde à própria ação santificante da Sagrada Liturgia, que é a obra de Deus e do homem, celebração que dá glória ao Criador e Redentor e que santifica a criatura redimida. De acordo com a natureza composta do homem, a beleza do rito deve sempre ser física e espiritual, investimento no visível e no invisível. Por outro lado, cai-se no esteticismo quando se deseja satisfazer gostos, ou no pragmatismo que excede as formas na busca utópica por um contato "intuitivo" com o divino. Na realidade, em ambos os casos cai-se da espiritualidade na emotividade.

Hoje o risco do esteticismo é menor, e bem maior o do pragmatismo informal. No presente momento não estamos tanto na necessidade de simplificar e "cortar", mas de redescobrir o decorum e a majestade do culto divino. A Sagrada Liturgia da Igreja não atrairá as pessoas de nosso tempo vestindo-se do tom acinzentado do cotidiano ou do anonimato, com o qual ele já está tão acostumado, mas pondo o manto real da verdadeira beleza. A Liturgia de hoje precisa cada vez mais de vestes novas e jovens, as quais a tornarão [a beleza] percebida como uma janela aberta para o Céu, com um ponto de contato com o Deus Uno e Trino, para quem se ordena a adoração, por meio de Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote.

Tradução para o inglês por ZENIT

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Fonte: http://www.zenit.org/rssenglish-31224

Estola "tradicional" dobrada (extremidades nos lados) junto com manípulo (no meio).
Veja-se os detalhes, recordando que esta nunca seria usada de modo muito visível, ou seja, normalmente o povo não veria esses detalhes. Exemplo de "beleza gratuita".
Estola "moderna" sobre túnica. Esta, usada apenas com túnica, por causa da permissão da CNBB, por exemplo, e, portanto, vista por todos, quase não tem detalhes no corte ou adornos. Cabe lembrar grande parte das estolas atualmente vendidas com casulas ou, pior, o abandono da estola quando se usa casula (realidade em muitas paróquias), já que "o povo não vê". Esta prática é contra as disposições da Igreja: "O sacerdote que se veste com a casula, conforme as rubricas, não deixe de pôr a estola. Todos os ordinários vigiem para que seja extirpado qualquer costume contrário." (Redemptionis Sacramentum, 123)

Tradução por Luís Augusto - memro da ARS

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