sábado, 4 de dezembro de 2010

A Liturgia Ferida

Pax et bonum!

Estava preparando um texto para uma Oficina de Liturgia a ser dada por mim no Encontro Estadual do Ministério de Música e Artes da RCC daqui do Piauí (hoje e amanhã, dias 4 e 5) quando, ao procurar outros textos que servissem de referência, encontrei um discurso muito interessante.
Fiz questão de o traduzir logo, sobretudo por não o ter encontrado em português, mas apenas em inglês e espanhol, fontes das quais me vali.
Boa leitura!

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A Liturgia Ferida

Por Dom Marc Aillet, bispo de Bayonne, França
Discurso dado numa conferência teológica intitulada "Fidelidade de Cristo, Fidelidade do Sacerdote", de 11 a 12 de março na Pontifícia Universidade Lateranense.
Dom Marc, que estudou teologia na Universidade de Friburgo, foi professor de teologia moral no Seminário Maior de Toulon. Ele foi apontado para bispo de Bayonne em Outubro de 2008. O texto do discurso de Dom Marc apareceu em italiano e francês no site da Congregação para o Clero (www.clerus.org). A tradução para o inglês é de Gregor Kollmorgen, para o Novo Movimento Litúrgico (www.newliturgicalmovement.org), com algumas pequenas alterações nossas (http://www.adoremus.org/index.html).

Na origem do Movimento Litúrgico, era vontade do Papa São Pio X, especialmente no motu proprio Tra le Sollecitudini (1903), restaurar a Liturgia e tornar sua riqueza mais acessível no intuito de novamente fazer dela a fonte de uma autêntica vida cristã, sublinhar o desafio de uma crescente secularização e encorajar os fieis a consagrar o mundo a Deus. Por isso, a definição de Liturgia do Concílio como "fonte e cume da vida e da missão da Igreja".

Contra todas as expectativas, como frequentemente apontado pelos Papas João Paulo II e Bento XVI, a implementação da reforma litúrgica às vezes levou a uma sistemática dessacralização, enquanto se foi permitindo que a liturgia fosse cada vez mais impregnada da cultura secularizada de todo o mundo ao redor, perdendo assim sua própria natureza e identidade: "Este mistério de Cristo a Igreja anuncia e celebra em sua liturgia, a fim de que os fiéis vivam e dêem testemunho dele no mundo" (CIC, 1068).

Sem negar os verdadeiros frutos da reforma litúrgica, pode-se dizer, todavia, que a liturgia tem sido ferida pelo que João Paulo II definiu como "práticas inaceitáveis" (Ecclesia de Eucharistia §10), e que Bento XVI denunciou como "deformações no limite do suportável" (Carta aos Bispos que acompanha o motu Proprio Summorum Pontificum). Assim também a identidade da Igreja e do sacerdote foi ferida.

Nos anos seguintes ao Concílio, nós testemunhamos um tipo de oposição dialética entre os defensores do culto litúrgico e os promotores da abertura para o mundo. Porque estes reduziram a vida cristã apenas a esforços sociais, baseados numa interpretação secular da fé, aqueles, reagindo, refugiaram-se na liturgia pura beirando o "rubricismo", com o risco de encorajar os fieis a se protegerem excessivamente do mundo.

Na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, o Papa Bento XVI põe um fim a essa controvérsia e reúne essa oposição. A ação litúrgica deve reconciliar fé e vida. Precisamente como Celebração do Mistério Pascal de Cristo, verdadeiramente presente no meio do seu povo, a Liturgia dá uma forma eucarística a toda a vida cristã para torná-la "culto espiritual agradável a Deus" [§70]. Assim, o compromisso do cristão no mundo e o próprio mundo, através da Liturgia são chamados a ser consagrados a Deus.

O compromisso do cristão com a missão da Igreja e na sociedade encontra, de fato, sua fonte e seu impulso na Liturgia - trazidos para o dinamismo da oblação do amor de Cristo que aí se faz presente.

A primazia que Bento XVI deseja dar à Liturgia na vida da Igreja ("o culto litúrgico é a suprema expressão da vida presbiteral e episcopal", disse aos bispos da França reunidos em Lourdes, em 14 de setembro de 2008, numa Assembleia Plenária Extraordinária) faz voltar a adoração ao centro da vida do sacerdote e dos fieis. No lugar de um "cristianismo secular" que normalmente acompanhou a implementação da reforma da liturgia, o Papa Bento XVI deseja promover um "cristianismo teológico", o único capaz de servir ao que ele chamou de prioridade que predomina nesta fase da história, isto é, "fazer Deus presente neste mundo e dar ao povo acesso a Deus" (Carta aos Bispos da Igreja Católica, 10 de março de 2009). Onde, de fato, o sacerdote melhor aprofunda sua identidade do que na Liturgia (tão bem definida pelo autor da Carta aos Hebreus: "todo pontífice é escolhido entre os homens e constituído a favor dos homens como mediador nas coisas que dizem respeito a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados" (Hb 5,1))?

A abertura para o mundo à qual o Vaticano II chamou tem sido frequentemente interpretada, nos anos seguintes ao Concílio, como um tipo de "conversão à secularização". Esta atitude não careceu de generosidade, contudo, levou ao obscurecimento da importância da Liturgia, e minimizou a observância cuidadosa dos ritos, considerados distantes demais da vida do mundo, que precisa ser amado e com o que se deve estar plenamente conectado até por ele se fascinar.

O resultado foi uma grave crise de identidade do sacerdote, que não poderia mais perceber a importância da salvação das almas e a necessidade de anunciar ao mundo a novidade do Evangelho da Salvação. A Liturgia é, sem dúvida, o lugar privilegiado para se aprofundar a identidade do sacerdote, chamado a "combater a secularização", pois, como disse Jesus, em sua Oração Sacerdotal: "Não peço que os tires do mundo, mas sim que os preserves do mal. Eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo. Santifica-os pela verdade. A tua palavra é a verdade." (Jo 17,15-17)

Isto certamente será possível através de uma mais rigorosa observância das normas litúrgicas que preservam o sacerdote da necessidade, mesmo inconsciente, de chamar para si a atenção dos fieis: o ritual litúrgico que o celebrante é chamado a receber filialmente da Igreja permite, de fato, aos fieis, chegarem mais facilmente à presença de Cristo Senhor, de quem a celebração litúrgica deve ser um sinal eloquente, e que deve sempre estar em primeiro lugar.

A liturgia é ferida quando os fieis são abandonados às arbitrariedades do celebrante, suas manias, suas ideias pessoais ou opiniões, às suas próprias feridas. Daqui também se segue a importância de não banalizar os ritos que, desprendendo-nos do mundo secular e, assim, da tentação do imanentismo, têm o dom de nos fazer mergulhar rapidamente no Mistério e nos abrir ao Transcendente.

Neste sentido, ninguém enfatizará o bastante a importância do silêncio anterior à celebração litúrgica (no nártex interior [entrada da Igreja], onde estamos livres das preocupações, mesmo legítimas, do mundo secular, a fim de entrar no tempo e no espaço sagrado onde Deus revelará seu Mistério), muito menos do silêncio na Liturgia [que leva] ao abrir-se mais prontamente à ação de Deus; e o apropriado momento de ação de graças, integrado ou não à celebração, a fim de avaliarmos a missão que nos espera, uma vez que estamos voltando para o mundo. A obediência do sacerdote às rubricas é também em si mesmo um sinal eloquente e silencioso de seu amor pela Igreja de quem ele é apenas um ministro, ou seja, um servo.

Daqui também se tira a importância da formação, dos futuros sacerdotes, em liturgia e especialmente em participação interior, sem a qual a participação exterior defendida pela reforma seria sem alma e se favoreceria uma compreensão parcial da liturgia que acabaria por se expressar em termos de uma excessiva teatralização dos papeis, "cerebralização" redutiva dos ritos e abusiva auto-celebração da assembleia.

Se a participação ativa, que é o princípio operacional da reforma litúrgica, não é o exercício do "senso sobrenatural da fé", a liturgia não é mais obra de Cristo e sim obra dos homens.

Insistindo na importância da formação litúrgica dos sacerdotes, o Concílio Vaticano II fez da Liturgia uma das principais disciplinas dos estudos eclesiásticos, evitando reduzi-la a uma mera formação intelectual: de fato, antes de ser um objeto de estudo, a liturgia é vivência, ou melhor, é "transcender a própria vida para imergir na vida de Cristo". É a imersão por excelência de toda a vida cristã: imersão no senso da fé e no senso da Igreja, em louvor, adoração e missão.

Somos, pois, chamados a um verdadeiro "Sursum corda". A frase do prefácio, "corações ao alto", introduz os fieis ao coração dos corações da liturgia: a Páscoa de Cristo, isto é, sua passagem deste mundo para o Pai. O encontro de Jesus ressuscitado com Maria Madalena na manhã da Ressureição é muito significativo neste sentido: com o seu "Noli me tangere" [Não me toques], Jesus convida Maria Madalena a "olhar as realidades do alto", fazendo-a perceber em seu coração que ele ainda não subiu para o Pai e pedindo-lhe para contar aos discípulos que ele deve ir para seu Deus e nosso Deus, seu Pai e nosso Pai.

A liturgia é precisamente o lugar desta elevação, este estender-se no rumo do Deus que dá à vida um novo horizonte e, enfim, sua orientação definitiva, desde que não consideremos isso como material disponível para nossas manipulações antropocêntricas ("tudo para o homem"), mas que observemos, com filial obediência, as prescrições da Santa Igreja.

Como o Papa Bento XVI disse na conclusão de sua homilia na Solenidade de São Pedro e São Paulo [29 de Junho de 2008]: "Quando o mundo inteiro se tornar uma liturgia de Deus; quando, em sua realidade, ele se tornar adoração, então ele terá chegado à sua meta e estará são e salvo".

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Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

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