quinta-feira, 24 de maio de 2012

Pentecostes na Jerusalém do séc. IV

Pax et bonum! 

Retornando aos belos testemunhos da "Peregrinação de Etéria", leiamos hoje como os cristãos celebravam Pentecostes na Cidade Santa. Mais uma vez o testemunhos destes católicos incansáveis nos interpela.
Mais uma vez vemos, como já desde as outras celebrações do Tríduo Pascal, o forte sentido de vigília, que mantinha os cristãos em oração desde tarde da noite até o dia seguinte inteiro, suportando, como parecia ser uma amada tradição, subir o Monte das Oliveiras e de lá descer em procissão até a Cidade.
O relato está na II parte da obra, no site Veritatis Splendor. Infelizmente, e não sei por qual motivo, a página só está acessível pelo cache do Google.

XLIII
1. [Pentecostes] E no quinquagésimo dia após a Páscoa, que é um domingo, dia em que maior é a fadiga para o povo, iniciam-se as comemorações, como sempre, a partir do primeiro canto do galo [talvez por volta das 3h da madrugada]; vela-se na Anástasis [=Santo Sepulcro], para que o bispo leia o texto que sempre lê aos domingos e é o que se refere à Ressurreição do Senhor; a seguir, tudo se passa, na Anástasis, como de costume, o ano inteiro. 
2. Ao nascer do dia, dirige-se o povo todo à igreja maior, isto é, ao Martyrium [=por trás do Calvário], e também aí, tudo quanto é costume fazer-se, faz-se; pregam os sacerdotes e a seguir o bispo; tudo se faz conforme a lei, isto é, a Oblação segue o rito observado aos domingos. Mas nesse dia, apressa-se a dispensa no Martyrium para que se dê antes da hora terceira (=9h). E após a Missa no Martyrium, todos, sem exceção, entoando hinos, conduzem o bispo a Sion [=o Cenáculo], de modo, porém, a estar em Sion à terceira hora, exatamente [hora em que o Espírito Santo desceu no cenáculo, segundo as Escrituras].
3. Aí lêem o trecho dos Atos dos Apóstolos que narra como desceu o Espírito sobre eles para que, em todas as línguas, todos entendessem o que diziam [At. 2,1-12]; a seguir, de acordo com o rito, celebra-se a missa. E os presbíteros lêem, aí, esse passo dos Atos dos Apóstolos porque, segundo se lê, esse é o lugar em Sion, há agora aí outra igreja, onde, outrora, após a Paixão do Senhor, estava reunida a multidão com os apóstolos quando o fato se deu, tal como acima o descrevemos. Segue-se a Missa de acordo com o rito, faz-se a Oblação, e, no instante em que se dispensa o povo, toma a palavra o arquidiácono e diz: "Hoje, imediatamente após a sexta hora (=12h), todos devemos estar presentes no Eleona [Monte das Oliveiras], na igreja do Imbomon [lugar da Ascensão]".
4. Recolhe-se o povo todo, portanto, cada qual à sua casa, para descansar; e, imediatamente após o almoço, vão ao Monte das Oliveiras, isto é, ao Eleona, todos na medida de suas forças, de maneira tal, porém, que nem um só cristão permanece na cidade e não há um só que para lá não se dirija
5. E, chegando eles ao Monte das Oliveiras, isto é, ao Eleona, vão primeiro ao Imbomon, que é a elevação de onde subiu o Senhor aos céus, e aí sentam-se o bispo, os sacerdotes e o povo; e fazem leituras e dizem, intercalando-os, hinos e recitam antífonas atinentes a esse dia e lugar; também as orações que intercalam contêm, sempre, expressões que convêm ao dia e lugar; lêem ainda o passo do evangelho referente à Ascenção do Senhor [Mc. 16,19; Lc. 24,50-51] e, nos Atos dos Apóstolos, o trecho que fala da Ascenção do Senhor aos céus, após a Ressurreição [At. 1,4-11]. 
6. E são, depois disto, abençoados os catecúmenos e os fiéis; à nona hora (=15h) desce e, cantando hinos, vão à igreja do Eleona, isto é, à gruta onde o Senhor se detinha e instruía os seus apóstolos. Quando chegam, já passa da hora décima (=16h); comemoram aí o Lucernare, fazem uma prece, os catecúmenos são abençoados e, depois, os fiéis. E logo descem daí, com hinos, todos sem exceção, em companhia do bispo, recitando hinos e antífonas relativos a esse dia; assim vêm, passo a passo, até o Martyrium
7. É noite quando chegam às portas da cidade e a procissão segue à luz de, talvez, duzentos círios de igreja, por causa do povo; e visto que da porta da cidade há um bom pedaço até a igreja maior, isto é, o Martyrium, chegam bem tarde, à segunda hora da noite (=20h), talvez, porque é devagar, bem devagar que vão o tempo todo, por causa do povo, a fim de que, mesmo indo a pé, não se canse. E, ao se abrirem as portas grandes que dão para o mercado, entra o povo todo no Martyrium, com o bispo, entoando hinos. Uma vez na igreja, dizem hinos, fazem uma prece, abençoam-se os catecúmenos e depois os fiéis; daí, de novo, com hinos, dirigem-se à Anástasis.
8. Igualmente, chegando à Anástasis, recitam hinos e antífonas, fazem uma oração, abençoam-se os catecúmenos e depois os fiéis; o mesmo se faz também junto à Crux. E, de novo, daí, o povo cristão, em peso, entoando hinos, acompanha o bispo a Sion.
9. Chegando, fazem leituras apropriadas; dizem Salmos e antífonas, rezam uma oração, abençoam-se os catecúmenos e depois os fiéis, e dispensa-se o povo. Após a dispensa, aproximam-se todos do bispo, a fim de beijar-lhe a mão, e, a seguir, voltam todos a casa à meia-noite, talvez. Suportam, pois, a maior fadiga nesse dia, visto que, desde o primeiro cantar do galo, velam na Anástasis, e, a seguir, durante o dia inteiro, não descansam nunca; e, de tal forma se estendem todas as celebrações que, só à meia-noite, após o término do ofício em Sion, é que voltam para casa.

Por Luís Augusto - membro da ARS

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