terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Sobre o Natal do Senhor

Pax et bonum!
Um belo mosaico de tema natalino na Igreja de São João,
paróquia [anglicana] de Bishopstrow e Boreham, na Inglaterra
Eis a nossa primeira postagem do novo ano civil, conforme o tempo foi nos permitindo.
Ainda gozando de mais alguns dias do Tempo do Natal, e estando no que também pode se chamar de Tempo da Epifania (conforme a forma extraordinária do Rito Romano), é conveniente meditarmos e tentarmos haurir ainda mais algumas boas reflexões destas grandes solenidades de nosso Salvador, Jesus Cristo.
Não é preciso falarmos tanto sobre a necessidade de "recristianizarmos o Natal". Todos sabemos o quão este período foi sendo despojado de seu sentido cristão e mesmo religioso (de um modo amplo). As confraternizações encheram muitas bocas de "espírito natalino" ou de "magia do natal", expressões vagas que indicam uma simples embora absurda ignorância ou uma tentativa de apagar da memória humana a recordação e a devida gratidão, além da própria e necessária adoração, diante do Deus que se revestiu de nossa fragilidade, encarnando-se para nos remir de nossos pecados.

Duração
O Natal é um fato, um mistério e uma festa.
Como fato é o nascimento de Jesus de Nazaré, filho de Maria, tendo como pai adotivo José, em Belém da Judéia, na Palestina, no início de nossa Era. Todavia, este nascimento reveste-se de algo diferente, posto que a mãe é virgem e concebeu sem ser por meio de fecundação natural. Assim, o Natal começa a ser visto como mistério. Junto com isto entram as profecias de antes, durante e depois do nascimento e o fato de que o menino nascido é verdadeiro homem, mas também verdadeiro Deus: é o Filho de Deus, tendo a mesma substância/essência/natureza divina; é o Verbo divino pelo qual tudo foi criado.
E pelo fato de isto ser comemorado e atualizado misteriosamente no culto cristão, dizemos que o Natal é uma festa, um tempo e um ciclo da Sagrada Liturgia.
Segundo a classificação do Rito Romano, o Natal (o dia 25/12) é uma Festa de I Classe ou, usando a terminologia da Forma Ordinária, uma Solenidade. Sendo assim, o Natal inicia com I Vésperas (oração da tarde, no caso, no dia 24). Sendo uma das duas maiores solenidades (a outra, inigualável, é a Páscoa), estende-se por uma semana (Oitava do Natal) e nomeia um tempo de cerca de 20 dias. "O Tempo do Natal vai das Primeiras Vésperas do Natal do Senhor ao domingo depois da Epifania ou ao domingo depois do dia 6 de janeiro inclusive" (que é a Festa do Batismo do Senhor, na Forma Ordinária do Rito Romano), é o que nos diz as Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário.
O Natal possui 4 missas: Vigília, Noite, Aurora e Dia. A primeira é celebrada logo antes ou depois das I Vésperas, ou seja, no entardecer do dia 24. A segunda é celebrada durante a noite do dia 24. A terceira é celebrada ao amanhecer do dia 25 e a quarta durante todo o dia 25.
Como Ciclo considera-se o ciclo do Natal o período que abrange o Tempo do Advento, do Natal e da Epifania. Algumas obras estendem o ciclo até o 40º dia a partir do Natal, ou seja, o dia 02 de fevereiro - Apresentação do Senhor e Purificação da Virgem Maria.

Os textos do Natal
Do Ofício Divino e do Missal Romano podemos enfatizar alguns belos trechos que nos apresentam o grande mistério do Natal do Senhor Jesus Cristo.
Dentre eles podemos citar:

Ant. 3 das I Vésperas do Natal:
Verbum supérnum, a Patre ante témpora génitum, 
hódie pro nobis caro factum, exinanívit semetípsum.
Versão brasileira: Hoje o Verbo Divino, gerado pelo Pai já bem antes dos tempos,
humilhou-se a si mesmo e, por nós, se fez homem.

Do Hino das Laudes do Natal:
Beátus auctor sæculi
servíle corpus índuit,
ut carne carnem líberans
non pérderet quod cóndidit.
Versão brasileira: Autor feliz deste mundo,
tomou um corpo mortal.
A nossa carne assumindo,
livrou a carne do mal.

Oração das Laudes do Natal:
Deus, qui nos redemptiónis nostræ ánnua exspectatióne lætíficas, præsta, ut Unigénitum tuum, quem læti suscípimus redemptórem, veniéntem quoque iúdicem secúri vidére mereámur.
Versão brasileira: Ó Deus, que reacendeis em nós cada ano a jubilosa esperança da salvação, dai-nos contemplar com toda a confiança, quando vier como Juiz, o Redentor que recebemos com alegria.

Ant. 3 das II Vésperas do Natal:
In princípio et ante sæcula Deus erat Verbum: 
ipse natus est hódie Salvátor mundi.
Versão brasileira: No princípio, antes dos tempos, o Verbo era Deus.
E o Verbo hoje nasceu como nosso Salvador.

Ant. do Cântico Evangélico das II Vésperas do Natal:
Hódie Christus natus est; hódie Salvátor appáruit; 
hódie in terra canunt ángeli, lætántur archángeli; 
hódie exsúltant iusti, dicéntes: 
Glória in excélsis Deo, allelúia.
Versão brasileira: Jesus Cristo hoje nasceu, apareceu o Salvador.
Hoje na terra os Anjos cantam e se alegram os Arcanjos.
Hoje exultam de alegria os homens justos a dizer:

Glória a Deus nos altos céus. Aleluia, aleluia.

Oração das II Vésperas do Natal:
Deus, qui humánæ substántiæ dignitátem et mirabíliter condidísti et mirabílius reformásti, da, quæsumus, nobis eius divinitátis esse consórtes, qui humanitátis nostræ fíeri dignátus est párticeps.
Versão brasileira: Ó Deus, que admiravelmente criastes o ser humano e mais admiravelmente restabelecestes a sua dignidade, dai-nos participar da divindade do vosso Filho, que se dignou assumir a nossa humanidade.

Ressalta-se a eternidade de Cristo, seu aniquilamento e a alegria que tudo isto causa na humanidade que recebe o seu Salvador.
Esta última oração, posta acima, é exatamente a mesma que o sacerdote reza ao abençoar e misturar a água com o vinho, no cálice, durante a Santa Missa segundo a Forma Extraordinária do Rito Romano, apenas acrescentando, antes do pedido, a expressão "pelo mistério desta água e deste vinho".
No Missal, a noite e o dia do Natal são chamados de "santíssima" e "sacratíssimo". Dos três Prefácios podemos ver os seguintes trechos:

Do Prefácio I, que é o Prefácio único no Missal mais antigo:
...ut, dum visibíliter Deum cognóscimus, per hunc in invisibílium amórem rapiámur...
Versão brasileira: E, reconhecendo a Jesus como Deus visível a nossos olhos, aprendemos a amar nele a divindade que não vemos.

Do Prefácio II:
Qui, in huius venerándi festivitáte mystérii, invisíbilis in suis, visíbilis in nostris appáruit, et ante témpora génitus esse copit in témpore; ut, in se érigens cuncta deiécta, in íntegrum restitúeret univérsa, et hóminem pérditum ad cæléstia regna revocáret.
Versão brasileira: Ele, no mistério do Natal que celebramos, invisível em sua divindade, tornou-se visível em nossa carne. Gerado antes dos tempos, entrou na história da humanidade para erguer o mundo decaído. Restaurando a integridade do universo, introduziu no reino dos céus o homem redimido.

Do Prefácio III:
...dum nostra fragílitas a tuo Verbo suscípitur, humána mortálitas non solum in perpétuum transit honórem, sed nos quoque, mirándo consórtio, reddit aetérnos.
Versão brasileira: No momento em que vosso Filho assume nossa fraqueza, a natureza humana recebe uma incomparável dignidade: ao tornar-se ele um de nós, nós nos tornarmos eternos.

As lições do Natal
Na Encíclica Mediator Dei, o Papa Pio XII nos diz que a Sagrada Liturgia "na ocorrência do Natal do Redentor parece quase reconduzir-nos à gruta de Belém para que aí aprendamos que é absolutamente necessário nascer de novo e reformar-nos radicalmente, o que só é possível quando nos unimos íntima e vitalmente ao Verbo de Deus feito homem e nos tornamos participantes da sua divina natureza à qual fomos elevados" (n. 141).
O Papa Bento XVI, em sua última homilia da noite do Natal (2012) dizia: "A beleza deste Evangelho não cessa de tocar o nosso coração: uma beleza que é esplendor da verdade. Não cessa de nos comover o fato de Deus Se ter feito menino, para que nós pudéssemos amá-Lo, para que ousássemos amá-Lo, e, como menino, Se coloca confiadamente nas nossas mãos".
"Vamos até lá, a Belém: diz-nos hoje a liturgia da Igreja. Transeamus – lê-se na Bíblia latina – «atravessar», ir até lá, ousar o passo que vai mais além, que faz a «travessia», saindo dos nossos hábitos de pensamento e de vida e ultrapassando o mundo meramente material para chegarmos ao essencial, ao além, rumo àquele Deus que, por sua vez, viera ao lado de cá, para nós. Queremos pedir ao Senhor que nos dê a capacidade de ultrapassar os nossos limites, o nosso mundo; que nos ajude a encontrá-Lo, sobretudo no momento em que Ele mesmo, na Santa Eucaristia, Se coloca nas nossas mãos e no nosso coração."
"Os pastores apressaram-se… Uma curiosidade santa e uma santa alegria os impelia. No nosso caso, talvez aconteça muito raramente que nos apressemos pelas coisas de Deus. Hoje, Deus não faz parte das realidades urgentes. As coisas de Deus – assim o pensamos e dizemos – podem esperar. E todavia Ele é a realidade mais importante, o Único que, em última análise, é verdadeiramente importante. Por que motivo não deveríamos também nós ser tomados pela curiosidade de ver mais de perto e conhecer o que Deus nos disse? Supliquemos-Lhe para que a curiosidade santa e a santa alegria dos pastores nos toquem nesta hora também a nós e assim vamos com alegria até lá, a Belém, para o Senhor que hoje vem de novo para nós. Amém."
No fim do ano passado, na santa noite do Natal do Senhor, o Papa Francisco disse, em sua homilia: "Com eles [os pastores], detemo-nos diante do Menino, detemo-nos em silêncio. Com eles, agradecemos ao Pai do Céu por nos ter dado Jesus e, com eles, deixamos subir do fundo do coração o nosso louvor pela sua fidelidade: Nós Vos bendizemos, Senhor Deus Altíssimo, que Vos humilhastes por nós. Sois imenso, e fizestes-Vos pequenino; sois rico, e fizestes-Vos pobre; sois omnipotente, e fizestes-Vos frágil."

Concluindo
Será sempre atual e necessário, por fim, recordar a inclinação (na Forma Ordinária) e a genuflexão (Forma Extraordinária) que sempre se faz, por parte de todos na celebração, durante o Símbolo (seja o Niceno-constantinopolitano ou o Apostólico), quando se cita a fé na encarnação do Verbo no seio de Maria Santíssima pela ação do Espírito Santo. Esta adoração ao Deus que se esvazia, se humilha, se encarna é bastante eloquente e deveria ser feita com grande devoção. Infelizmente, nem os ministros ordenados costumam fazê-la... O que se dirá do povo? Na forma ordinária, a inclinação é substituída pela genuflexão no Natal e na Anunciação.
Que a rubrica, enquanto rubrica, seja obedecida. E que a adoração, a Deus somente devida, seja-lhe prestada com coração humilde e alegre, hoje e por todos os séculos. Amém.

Obs: Embora estejamos já chegando ao fim do Tempo do Natal, nosso voto de um santo Natal do Senhor a todos os visitantes e leitores do blog.

2 comentários:

Daniel Moy da Silva disse...

Um Santo Natal para vocês também. Deus os abençoe e os fortaleça nesse tão importante apostolado.

ARS disse...

Muito obrigado, Daniel.
E agora, um santo Tempo Comum para todos nós!