domingo, 19 de abril de 2009

Catena Aurea: Comentários ao Evangelho pelos Santos Padres: II Domingo de Pascoa, João 20, 19-31

Caríssimos leitores, chama-se "Catena Aurea" (Cadeia de Ouro) a obra que contém a coletânea de comentários dos Padres da Igreja sobre os 04 Evangelhos (versículo por versículo) catálogada na Idade Média por São Tomás de Áquino. Essa obra é importantíssima, pois além de mostrar o testemunho da Tradição e do Magistério na exegese dos Evangelhos, preservou alguns comentários cuja fonte, desde aquela época, se perdeu.

Esta obra nunca foi editada no Brasil e só existe na internet em espanhol, inglês e latim. Visando mais uma vez o bem das almas resgatadas por Nosso Senhor, a ARS assumiu a tarefa de traduzir os comentários da Catena Aurea referente ao Evangelho de cada Domingo. É uma tradução nossa, de acordo com nossas pobres capacidades, por isso, pedimos a compreensão caso haja algumas insuficiências. Esperamos mesmo assim contribuir para o bem das almas cristãs e principalmente com os sacerdotes para uma melhor elaboração de suas homílias.

Evangelho do II Domingo da Páscoa (João 20, 19-31)

DOMINICA II PASCHAE

I PARTE (v. 19- 25)
Na tarde do mesmo dia, que era o primeiro da semana, os discípulos tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus. Jesus veio e pôs-se no meio deles. Disse-lhes ele: A paz esteja convosco! Dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor. Disse-lhes outra vez: A paz esteja convosco! Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós.
Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.
Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Os outros discípulos disseram-lhe: Vimos o Senhor. Mas ele replicou-lhes: Se não vir nas suas mãos o sinal dos pregos, e não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e não introduzir a minha mão no seu lado, não acreditarei!

Crisóstomo, in Ioannem, hom. 85.
Ouvindo os discípulos o que Maria lhes anunciava, era dedutível que não lhe dessem crédito, ou que, mesmo nela acreditando, se afligissem, pensando que não haviam sido dignos de que o Senhor a eles se mostrasse. Mas pensando isso, o Senhor não deixou passar um só dia para lhes aparecer . Pois como eles sabiam que Ele havia ressuscitado e ansiavam por vê-lo, ainda que dominados pelo medo, ao cair da tarde, o próprio Senhor se lhes apresentou. E por isso se diz: “Na tarde do mesmo dia, que era o primeiro da semana, os discípulos tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus”.

Beda.
Aqui se vê a debilidade dos apóstolos, eis que estavam reunidos e com a portas fechadas por temor aos judeus, que antes a haviam sido o motivo de sua dispersão. “Jesus veio e pôs-se no meio deles”. Ele lhe aparece ao cair da tarde, porque este era o momento em que, naturalmente, os apóstolos mais teriam medo.

Teofilacto.
Ou melhor, porque era quando deviam estar todos reunidos. Fechadas, contudo, as portas, a fim de demonstrar-lhes que ressuscitou do mesmo modo, isto é, com o sepulcro lacrado com uma pedra.

Santo Agostinho, in serm. Pasch.
Há alguns que de tal maneira se admiram deste fato, que chegam a correr perigo, ao aduzir contra os divinos milagres argumentos contrários à razão. Argumentam, por exemplo, deste modo: Se o corpo que rescuscitou do sepulcro é o mesmo que esteve suspenso na cruz, como pode entrar a porta fechadas? Se compreendesses o modo, não seria milagre. Onde acaba a razão, começa a fé.

Santo Agostinho, in Ioannem, tract., 121.
As portas fechadas não podiam impedir a passagem a um corpo no qual habita a Divindade. Assim pôde penetrar as portas Aquele que, ao nascer, deixara imaculada a Mãe.

Crisóstomo, ut supra.
É a de admirar-se que não o tiveram por fantasma; mas isto foi porque a mulher, prevenindo-lhes, neles infundira muita fé. Porém, o próprio Senhor, ao apresentar-se diante deles, acalma com sua voz as dúvidas de seu espírito e lhes diz: “A paz esteja convosco!”, isto é, não vos alarmeis. Com o que recorda as palavras que lhes dissera antes de morrer: “Eu vos dou a minha paz” (Jo 14, 27). E outra lhes tinha dito: “Em mim tereis a paz” (Jo 16, 33).

Gregório, In Evang. hom. 26.
E, como à vista daquele corpo, vacilasse a fé dos que o viam, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os cravos lhes haviam perfurado as mãos; a lança lhe havia aberto o lado. As feridas se conservavam para curar o coração dos que duvidaram.

Crisóstomo, in Ioannem, hom. 85.
E como antes de morrer lhes havia dito “outra vez os vereis e se alegrará vosso coração”, o Senhor agora cumpre essa promessa. Por isto o Evangelista acrescenta: “Os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor”.

Santo Agostinho, De civ. Dei, 22, 19.
É de se crer que a claridade com que, na ressurreição, os justos, no reino do Pai, resplandecerão como o sol, no corpo de Cristo foi ocultada aos olhos dos discípulos, porque a debilidade do olhar humano não a teria podido suportar, naquele momento em que teriam de reconhecê-lo e ouvi-lo.

Crisóstomo, ut supra.
Todos estes acontecimentos alentavam uma firmíssima fé no coração dos discípulos. E porque haviam de sustentar uma guerra implacável da parte dos judeus, outra vez o Senhor anuncia-lhes a paz. Diz-lhe, pois, novamente: “A paz esteja convosco!”.

Beda.
A repetição é confirmação e, assim se repete, porque a virtude da caridade é dupla, ou porque o próprio Senhor fizera de duas coisas uma (Ef. 2).

Crisóstomo, ut supra.
Também demonstra que a Santa Cruz tem a virtude de apagar toda tristeza e trazer-nos todos os bens, isto é, a paz. Esta paz havia sido anunciada às mulheres, porque este sexo muito estava imerso na tristeza, desde a maldição pronunciada por Deus: “Parirás teus filhos em meio às dores de parto” (Gn 3,16). E como estivessem removidos todos os obstáculos e os caminhos futuros se aplainam, Cristo lhes diz: “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio”.

São Gregorio, ut supra.
Certamente o Pai envio o Filho, a quem constituiu Redentor do gênero humano por meio da encarnação. Assim, diz: “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio”. Isto é, ao enviar-vos em meio ao escândalo da perseguição, amo-vos com a mesma caridade com que me amou o Pai, que me enviou a sofrer a Paixão.

Santo Agostinho, in Ioannem, tract., 121.
Nós sabemos que o Filho é igual ao Pai, mas nestas palavras reconhecemos o Mediador, porque Ele se manifesta dizendo: “Ele a mim e eu a vós”.


Crisóstomo, ut supra.
Assim, elevou o espírito de seus discípulos, pelos fatos e pela dignidade de sua missão. E mais, não pede o poder ao Pai, mas o dar a partir de sua própria autoridade. Por isso, segue-se: “Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: Recebei o Espírito Santo.”

Sant Agustinho, De Trin. 4, 20.
O sopro corporal de sua boca não foi a substância do Espírito Santo, senão uma conveniente demonstração de que o Espírito Santo não procede tão somente do Pai, mas também do Filho. Quem será tão insensato que diga que o Espírito, dado por insuflação, é diferente do que, após a ressurreição, o Senhor enviou aos apóstolos?

San Gregorio, In Evang. Hom. 26.
Porque, pois, dá-lo primeiro a seus discípulos sobre a terra e depois o envia desde o céu, senão porque são dois os preceitos da caridade, a saber, o amor a Deus e o amor ao próximo? Na terra se dá o Espírito do amor ao próximo; do céu, o Espírito do amor de Deus. Pois, assim como é uma a caridade e dois os preceitos, assim não é mais que um o Espírito duas vezes dado: o primeiro pelo Senhor sobre a terra, e depois descido do céu. Porque no amor do próximo se aprende a chegar ao amor de Deus.

Crisóstomo, ut supra.
Dizem alguns que por esta insuflação o Senhor não lhes deu o Espírito Santo, apenas os fez aptos para receber-lo. Pois, se Daniel ao ver o anjo desmaiou, que teria acontecido aos discípulos se recebesse tão inefável graça se antes não tivessem sido prevenidos? Não será pecado dizer que eles receberam então o poder da graça espiritual, não de ressuscitar mortos nem fazer milagres, mas de perdoar os pecados. Daqui segue: “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.”.

San Agustín, in Ioannem, tract., 121.
A caridade da Igreja, que pelo Espírito Santo se infunde em nossos corações, perdoa os pecados dos que são participantes daquela, mas retêm os daqueles que não são. Por isso, depois que disse “Recebei o Espírito Santo", falou do perdão dos pecados e de sua retenção.

São Gregório, ut supra.
Convém saber que aqueles que receberam o Espírito Santo para viver inocentemente e aproveitar aos outros na pregação, receberam-no visivelmente depois da ressurreição do Senhor, não para converter a poucos, senão a muitos; digno é, pois, de considerar como aqueles discípulos chamados a tão pesado cargo de humildade, foram elevados ao apogeu de tanta glória. É aqui que não só encontraram a segurança de si mesmos, mas também receberam a magistratura do juízo supremo, para que, fazendo-se às vezes de Deus, retenham a alguns seus pecados e os perdoe a outros! Na igreja são agora os Bispos os que ocupam seu lugar e o poder de ligar e desligar é parte do governo que lhes corresponde. Grande honra, porém de pesada carga! Duro é que o que não saiba governar sua vida, faça-se juiz da alheia.

Crisóstomo, in Ioannem, hom. 85.
Se o sacerdote ordena corretamente sua vida, mas não cuida com diligência da dos outros, condena-se com o réprobos. Sabendo, pois, a magnitude deste perigo, tende-lhes respeito, mesmo que ele não seja de muita nobreza, pois não é justo que sejam julgados pelos que estão debaixo de sua jurisdição. E, ainda que sua vida seja muito censurável, não queiras ferir-lhe em nada daquilo que Deus lhe confiou, pois nem o sacerdote, nem o anjo nem o arcanjo, nada podem fazer por si mesmos nas coisas que lhes forma encomendadas por Deus, pois o Pai, pelo Filho e pelo Espirito Santo, a quem o sacerdote empresta sua voz e sua mão, tudo administram. Não é justo, pois, que por malícia de alguém sejam escandalizados acerca de nossas crenças aqueles que se convertem à fé.

Encontrando-se reunidos todos os discípulos, só faltava Tomé, por causa da primeira dispersão, pelo que se diz: “Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus.”.

Alcuíno.
Em grego, chama-se Dídimo; em latim, Gêmeo [geminus] ou Dúbio [dubius], por causa do coração dúbio em crer. Tomé quer dizer abismo, porque com fé reta penetrou na profundidade dos abismos de Deus.

São Gregório, ut supra.
Não foi casualidade que aquele discípulo eleito estivesse ausente, senão obra da divina clemência, para que, enquanto o discípulo incrédulo toca as feridas do corpo de seu Mestre, cura em nós as feridas da infidelidade. Mais proveitosa foi para nossa fé a incredulidade de Tomé, que a fé de todos os discípulos; porque, enquanto ele confirma a fé com o toque, nosso espírito nela é confirmado, depondo toda dúvida.

Beda.
Perguntar-se-á porque João afirma que Tomé estava ausente naquele momento, quando Lucas diz que dois discípulos que haviam ido a Emaus voltaram a Jerusalém, encontrando reunidos os doze. Mas é preciso entender que mediou certo espaço de tempo desde a hora que se ausentou Tomé e a que Jesus esteve em meio deles.

Crisóstomo, in Ioannem, hom. 86.
Assim como é censurável acreditar em tudo com demasiada facilidade, também o é acusar a Tomé grosseiramente. Dizendo os apóstolos “Vimos o Senhor”, não acreditou, não tanto por neles não acreditar, mas por crê-lo impossível. Por isso, afirma-se: “Os outros discípulos disseram-lhe: Vimos o Senhor. Se não vir nas suas mãos o sinal dos pregos, e não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e não introduzir a minha mão no seu lado, não acreditarei”. Este, mais rude que os outros, buscava a fé pelos sentidos (com o tato), e nem sequer dava crédito a seus próprios olhos. Assim, não lhe bastou dizer “se eu não vir”, mas acrescentou “e não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e não introduzir a minha mão no seu lado, não acreditarei”.

II PARTE (v. 26-31)

Oito dias depois, estavam os seus discípulos outra vez no mesmo lugar e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse: A paz esteja convosco!
Depois disse a Tomé: Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé.
Respondeu-lhe Tomé: Meu Senhor e meu Deus!
Disse-lhe Jesus: Creste, porque me viste. Felizes aqueles que crêem sem ter visto!
Fez Jesus, na presença dos seus discípulos, ainda muitos outros milagres que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos, para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.
Crisóstomo, in Ioannem, hom. 86.
Considera a clemência do Criador, que para salvar a alma de Tomé, aparece e se aproxima, mostrando-lhe suas feridas. Sem dúvida, os discípulos que lhe anunciaram a ressurreição e o próprio Jesus, que a havia prometido, eram dignos de fé. Porém, porque Tomé o exigia, o Senhor não lhe negou. Não aparece a ele no momento, mas passado oito dias, para que, advertido pelos discípulos, inflamasse mais ainda seu desejo e fosse mais fiel daí por diante.

San Agustín, in serm. Pass.
Perguntas-me em que consiste a extensão do corpo de Jesus, havendo entrado fechadas as portas? Respondo: Se andava sobre o mar, onde está o peso do seu corpo? O Senhor o constituiu Senhor, e acaso porque ressuscitou deixou de sê-lo?

Crisóstomo, ut supra.
Apresentou-se, pois, Jesus e não esperou que Tomé perguntasse, para que ele soubesse que, quando falava aos discípulos, o Senhor lhe estava ouvindo, razão por que usa as mesmas palavras deTomé, e o repreende e corrige, em primeiro lugar. Assim segue: “Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado.” Logo, o corrige: “Não sejas incrédulo, mas homem de fé”.Vê aqui a dúvida da incredulidade antes de que os apóstolos recebessem o Espírito mas, depois, permaneceram firmes. Digno é averiguar porque o corpo incorruptível conservava as chagas dos cravos, mas não te admires, pois era por condescendência, para demonstrar-lhes que Ele era o mesmo que havia sido crucificado.

Santo Agustinho, De Symbolo.
Podia, se tivesse querido, haver feiro desaparecer de seu corpo ressuscitado e glorificado todos os sinais de suas feridas; mas Ele sabia porque as conservava. Pois assim como convenceu a Tomé, que não acreditou sem haver tocado e visto, assim as mostrará a seus inimigos, não para dizer como a Tomé “Crestes, porque me vistes”, senão para que, repreendendo-os com a verdade lhes diga: Eis aqui o homem a quem crucificastes; Vede as feridas que lhe fizestes; reconhecei o lado que lanceastes; que por vós e para vós foi aberto e que, contudo, não quisestes entrar.

Santo Agostinho, De civ. Dei., 22, 20.
Não sei como o amor aos bem aventurados nos atrai de tal maneira, que desejaríamos ver no céu as chagas que pelo nome de Cristo receberam em seus corpos e, talvez, a veremos, pois nele não serão deformidade, mas dignidade. E, ainda que recebidas em seus corpos, brilharão neles, não como formosura corporal, mas como heroísmo. Porém, mesmo que haja sido amputado algum membro, aparecerão sem ele na ressurreição, pois foi dito que nem um cabelo de sua cabeça perecerá (lc 21,18). E ainda será devido que, no reino vindouro, apareça a carne mortal com os sinais das feridas dos membros que, ainda que cortados, não foram perdidos, mas restituídos, pois qualquer deformidade causada no corpo não será, então, defeito mas prova de virtude.

San Gregorio, In Evang. hom. 26.
O Senhor ofereceu seu corpo, que introduziu na sala a portas fechadas, para que lhe tocasse. Como o que provou dois milagres contrários entre si, se este fato é considerado humanamente: demonstrar, após a ressurreição, que era incorruptível e palpável, pois o que se toca é necessariamente corruptível, e não é palpável o que não se corrompe. Incorruptível e palpável se mostrou o Senhor para provar-nos que Ele conservava, depois da ressurreição, a mesma natureza que nós, porém uma glória diferente.

São Gregorio, Moralium, 13, 31.
Nosso corpo, na glória de nossa ressurreição, será sutil por efeito da espiritualidade da pessoa divina, mas palpável pela realidade da natureza corporal (e não como disse Eutyches), impalpável e mais sutil que o ar e os ventos.

Santo Agostinho, in Ioannem, tract., 121.
Tomé, vendo e tocando o homem, confessava o Deus, a quem não via nem tocava. Mas, deposta toda a dúvida, pelo que via e tocava, acreditava. Por isso se diz: “Respondeu-lhe Tomé: meu Senhor e meu Deus!”

Teofilacto.
Aquele que primeiro havia se mostrado incrédulo, depois de tocar o lado do Senhor se converte no melhor Teólogo, pois dissertou sobre as duas naturezas na única pessoa de Cristo, porque dizendo “meu Senhor”, confessou a natureza humana e dizendo “meu Deus” confessou a divina e um só Deus e Senhor.

Segue: "Creste, porque me viste”.

San Agustín, ut supra.
Não disse me tocaste, mas me viste, porque o sentido da visão se generaliza nos outros quatro sentidos, como quando dizemos: Ouve e verás que soa bem; cheira e verás que tem bom sabor; toca e verás que está quente. Por isso, ao dizer o Senhor “Introduz aqui o teu dedo e vê as minhas mãos”. Que outra coisa quer dizer senão toca e vê? É claro que Tomé não tinha olhos nos dedos. Porém, seja vendo, seja tocando, diz-lhe: “Creste, porque me viste”. Ainda que se pudesse dizer que o discípulo não houvesse se atrevido a tocar-lhe, quando o Senhor se oferecia para isso.

São Gregório, In Evang. hom. 26.
Mas como disse o Apóstolo que a fé é a substância das coisas que se esperam (Heb 11,1), mas que, evidentemente, não se vêem, deduz-se que, nas coisas que estão à vista, não cabe fé, mas conhecimento. Se, pois, Tomé viu e tocou, por que se lhe diz “Creste, porque me viste”? Porém, uma coisa viu e em outra creu; viu o homem e confessou Deus. Muito alegra que “Felizes aqueles que creram sem ter visto”. Em esta sentença estamos especialmente compreendidos, porque Aquele a quem não vimos em carne, nós o veremos pela fé, se a acompanharmos com as obras, pois aquele que crê verdadeiramente executa com obras aquilo em que crê.

Santo Agostinho, ut supra.
Usou, em suas palavras, o tempo pretérito, como se fosse já feito o que conhecia, em sua presciência, o que havia de acontecer.

Crisóstomo, in Ioannem, hom. 86.
Se alguém exclamasse “Oxalá tivesse vivido naqueles tempos e tivesse visto o Senhor fazendo milagres!”, que acolha estas palavras “Felizes os que creram sem ter visto”.

Teofilacto.
Isto se refere àqueles discípulos que, sem tocar as chagas dos cravos nem a do lado, acreditaram.

Crisóstomo, ut supra.
Como São João havia se referido [aos milagres] menos que os outros evangelistas, acrescentou: “Fez Jesus, na presença dos seus discípulos, ainda muitos outros milagres que não estão escritos neste livro”, mas não disse mais que o suficiente para atrair os ouvintes à fé. Contudo, parece-me que se refere aos milagres que aconteceram após a ressurreição e, por isso, diz “na presença dos seus discípulos”, pois somente com estes tratou após a ressurreição. Em seguida, para dizer que saibas que não só se faziam estes milagres em proveito de seus discípulos, acrescenta: “Mas estes foram escritos, para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus”, cujas palavras geralmente estão dirigidas a todos os homens. E para demonstrar que a fé não é só útil àquele que crer, mas também a nós mesmos, acrescenta: “e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome”, isto é, em Jesus Cristo, porque Ele é a vida.


Traduzido por Edilberto Alves – Membro da ARS.
Resurréxit, sicut dixit, allelúia!

Um comentário:

Católico disse...

Caríssimos, vocês continuarão traduzindo a Catena Aurea?