quarta-feira, 8 de abril de 2009

A "Missa Dialogada"

Participação na Missa?

A Igreja considera a Missa como algo tão importante para a nossa santificação, que a tornou obrigatória uma vez por semana e em certos dias de festa. Mas a frequência regular à Missa nos fará pouco bem se não o fizermos adequadamente. O divino reservatório de graça e vida, embora infinito em si mesmo, está condicionado em sua eficácia em relação a nós mesmos pela devoção e pelo fervor que trazemos à sua celebração. É precisamente para ajudar o fiel a tirar o máximo proveito possível da Missa que a Igreja envolveu a matéria e a forma essenciais da Missa com tantas cerimônias. Estas cerimônias são, por essa razão, importantes e devemos estar atentos a elas. Todo o ritual da Missa mostra que as leituras são dirigidas aos fiéis, as orações são ditas em seu nome, e várias vezes o sacerdote saúda os fiéis para uni-los mais estreitamente à sua ação sacerdotal. Devemos, por isso, esforçar-nos em dar um genuíno assentimento interior àquilo que é falado e realizado em nosso nome, torná-lo nosso. Escutemos as palavras do santo Papa Pio XII:

"É necessário, pois, veneráveis irmãos, que todos os fiéis tenham por seu principal dever e suma dignidade participar do santo sacrifício eucarístico, não com assistência passiva, negligente e distraída, mas com tal empenho e fervor que os ponha em contato íntimo com o sumo sacerdote, como diz o Apóstolo: 'Tende em vós os mesmos sentimentos que Jesus Cristo experimentou'(Fl 2,5), oferecendo com ele e por ele, santificando-se com ele."
(Encíclica Mediator Dei, 20/11/1947)

Agora, não são todos os métodos que nos permitem seguir a Missa e nos unirmos ao Senhor o mais estreitamente possível. Rezar o Rosário ou ler a Via Sacra podem ajudar alguém a meditar no Santo Sacrifício, mas certamente o melhor método é aquele que nos mantém sempre atentos ao que se passa no altar, unidos a todas as orações e ações que o sacerdote realiza.

Qual a intenção dos papas?

- São Pio X:
"Que o espírito cristão refloresça em tudo e se mantenha em todos os fiéis (...). Os fiéis se reúnem precisamente para haurirem esse espírito da sua primária e indispensável fonte: a participação ativa nos sacrossantos mistérios e na oração pública e solene da Igreja"
(Motu Proprio Tra le sollecitudini, 22/11/1903)

- Pio XI:
"Urge verdadeiramente que os fiéis assistam às sagradas cerimônias não como espectadores mudos e estranhos, mas penetrados, intimamente, da beleza da liturgia... que alternem, segundo as normas prescritas, sua voz com a voz do sacerdote e dos cantores; se isso graças a Deus se verificar, então não acontecerá mais que o povo responda apenas com um leve e submisso murmúrio às orações comuns ditas em latim e em língua vulgar"
(Constituição Apostólica Divini Cultus, 20/12/1928)

- Pio XII:
"São, pois, dignos de louvor aqueles que, com o fim de tornar mais fácil e frutuosa ao povo cristão a participação no sacrifício eucarístico, se esforçam em colocar oportunamente nas mãos do povo o 'Missal romano' de modo que os fiéis, unidos ao sacerdote, orem com ele, com as suas próprias palavras e com os mesmos sentimentos da Igreja; como também os que visam a fazer da liturgia, ainda que externamente, uma ação sagrada, na qual têm parte de fato todos os assistentes. Isso pode acontecer de vários modos: quando todo o povo, segundo as normas rituais, responde disciplinadamente às palavras do sacerdote ou executa cânticos correspondentes às várias partes do sacrifício, ou faz uma e outra coisa, ou, enfim, quando, na missa solene, responde alternadamente às orações dos ministros de Jesus Cristo e se associa ao canto litúrgico"
(Encíclica Mediator Dei, 20/11/1947)

A "Missa Dialogada" é algo novo?

A Missa Dialogada não é nada mais que uma Missa simples (rezada) em que os fiéis respondem com o acólito às orações do celebrante. Esta maneira de participar da Missa não pode ser chamada de "nova", porque desde o início da Igreja, as cerimônias da Santa Missa estavam organizadas de tal forma que todo o povo cristão tinha realmente nelas uma participação ativa. Todos tinham parte no canto e expressavam seu assentimento respondendo às várias partes da Liturgia. Temos o incontestável testemunho de São Justino (+163) de que todos os fiéis respondiam ao sacerdote: "…quando ele termina as orações e a ação de graças, todos os presentes clamam, dizendo 'Amém'" (I Apologia. 65, 3 e 67, 5). O mesmo costume continuou nos séculos seguintes, de acordo com São Jerônimo (+420) que recorda que os fiéis de Roma, em tão grande número, diziam "Amém" tão alto que soava como o "ribombar de um trovão" (Praef. libr. II in Epistol. ad Galatas. P.L. 26, 355). Também muito antigo é o diálogo introdutório do Prefácio entre o sacerdote e os fiéis, de acordo com o testemunho de São Cipriano (+258): "Por essa razão também o sacerdote, por meio do prefácio anterior à sua oração, prepara a mente dos irmãos dizendo, 'Voltai os corações para o alto' seguindo a resposta do povo, 'nós os elevamos ao Senhor' de modo que lembrem que devem não pensar em nada além do Senhor" (De Domini oratione, 31). Semelhantemente, São Cirilo de Jerusalém (+368) escreve: "Depois disso o sacerdote clama em alta voz, 'Voltai os corações para o alto'… então a resposta, 'nós os elevamos ao Senhor,' assentindo a isto com a vossa confissão…. Então o sacerdote diz, 'Demos graças'… então vós dizeis, 'É digno e justo'" (Catecheses XXIII, 4, 5, 19). Poderíamos também citar as Constituições Apostólicas (VIII, 12-P.G. I, 1102), escrita por volta do ano 400. E ainda mais convincente é o testemunho dos Sacramentários Gelasiano e Gregoriano. Eles estão entre os nossos mais antigos livros litúrgicos: um foi composto pelo papa São Gelásio (+496) e o outro pelo papa São Gregório Magno (+604). Em suas rubricas são usadas a expressão "respondet populus" ou "R.P." que mostra que era admitido aos fiéis responderem o sacerdote. E esta participação ativa na Liturgia era certamente costumeira nos primeiros dez séculos da Igreja. Entretanto, no decurso do tempo, embora nenhuma proibição oficial tenha sido proferida, esta participação dos fiéis na Santa Missa diminuiu gradualmente. Com o crescimento da assembléia, as igrejas foram aumentadas e várias Missas começaram a ser celebradas simultaneamente. O canto tornou-se mais ornado e mais difícil. Enfim, a língua litúrgica foi ficando menos compreendida. Mas certos vestígios do uso mais antigo ainda restam. Em primeiro lugar, temos a proibição de celebrar a Missa sem que pelo menos um ministro esteja presente para responder, e se não há nenhum para servir, uma mulher pode responder as orações de seu banco (cân. 813, do Codex Iuris Canonicis de 1917). Esta exigência do Direito Canônico mostra que os fiéis não estão de modo algum excluídos de responder ao sacerdote, e que o acólito responde em seu lugar como o resultado de uma incapacidade gradual de proferir as respostas em latim.

Em segundo lugar, temos as antigas rubricas do papa São Pio V no Ritus Servandus que claramente supõem que os que participam da Missa podem responder: "…minister et qui intersunt respondent…" (Tit. Ill, 9, 10); "…se o ministro ou os presentes não responderem, o sacerdote recita sozinho o Kyrie" (Tit. IV, 2); "…o Orate fratres deve ser respondido pelo ministro ou pelos que estão presentes" (Tit. VII, 7); etc. E as rubricas do Missal não podem ser usadas contra a Missa Dialogada por mencionarem apenas os ministros, porque o diálogo não é uma forma de servir na Missa mas de participar do Santo Sacrifício. Não dispensa da obrigação de haver um ministro para ajudar o sacerdote e proferir as respostas.

Conclusão

Assim, a Missa Dialogada não é nada mais que um novo nome para um costume verdadeiramente tradicional que foi restaurado sob o pontificado do papa Pio XI. A American Ecclesiastical Review, de Março de 1934 (p. 247), diz: 
"O papa Pio XI celebrou a Santa Missa em várias ocasiões no Vaticano para grupos de peregrinos que respondiam às orações ao modo da Missa Recitata (Missa Dialogada), para a alegria do Pontifíce, como ele mesmo declarou. Particularmente, por ocasião do Congresso Eucarístico Internacional em Roma em 1922, o Santo Padre deu uma notável lição de participação ativa quando, por sua própria iniciativa, induziu uma multidão de mais de 10.000 pessoas a tomarem parte ativamente na Missa papal, em São Pedro, respondendo às orações da Missa ditas por ele".
E não podemos negar que isto também gozou do favor do santo papa Pio XII, desde que foi aprovado por um decreto da Sagrada Congregação dos Ritos como "uma mais perfeita" (ou, mais completa: plenior) maneira de tomar parte na Missa simples/rezada (Instrução sobre a Música Sacra e a Liturgia, 03/09/1958).

Agora, não estamos dizendo que a Missa Dialogada é a única maneira frutuosa de se participar do Santo Sacrifício, e admitimos que certas condições ou circunstâncias podem torná-la inconveniente. Mas seu uso difundido na Europa pode explicar porque vários católicos permaneceram ligados à liturgia tradicional, mais do que nos Estados Unidos. Na França onde o número de batizados católicos é aproximadamente o mesmo dos Estados Unidos, há pelo menos três mosteiros masculinos e nove conventos femininos (Beneditinos, Franciscanos, Dominicanos, Carmelitas), sem contar com o seminário e o convento da Fraternidade São Pio X — todos eles usando exclusivamente a Missa latina tradicional: uma Missa Dialogada. Talvez venha a haver mais vocações na juventude americana se eles puderem aprender a amar a liturgia usando suas várias palavras a cada Domingo.

A American Ecclesiastical Review mencionada acima, citou que alguns estudantes de uma certa universidade, onde a Missa Dialogada era celebrada quase diariamente até 1925, "…consideram-na bem melhor que uma simples Missa rezada, porque, diferente de onde moro, eu entro na capela, e lá eu tenho algo que me ajuda a manter a minha atenção no Sacrifício. Onde moro, entro na igreja, mas não tenho incentivo para rezar durante a Missa, e consequentemente eu espero impacientemente o fim da Missa…. Tenho certeza de que a Missa Recitata mais do que qualquer outra coisa a participar devotamente da Missa. Agora eu percebo, depois de ter usado este método na escola por quatro anos, que quando eu estou numa igreja longe daqui, responder as orações com o sacerdote, silenciosamente, ajudou-me a manter uma atitude mais devota durante o Santo Sacrifício" (p. 248).

Pe. Pierre de la Place, FSSPX

Traduzido por Luís Augusto - membro da ARS

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