domingo, 24 de maio de 2009

Catena Aurea: Evangelho da Ascensão do Senhor (Mc 16, 15-20)

E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. Estes milagres acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em meu nome, falarão novas línguas, manusearão serpentes e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal; imporão as mãos aos enfermos e eles ficarão curados. Depois que o Senhor Jesus lhes falou, foi levado ao céu e está sentado à direita de Deus. Os discípulos partiram e pregaram por toda parte. O Senhor cooperava com eles e confirmava a sua palavra com os milagres que a acompanhavam.
São Gregório Magno, homilia in Evangelia, 29.
O Senhor repreende-lhes a dureza, a fim de que ouçamos seus avisos(1). Depois, disse lhes “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura”. Sob o nome “toda criatura” designa o homem, uma vez que este tem algo em comum com todas elas, com as pedras o ser, com as árvores o viver, com o animais o sentir e, com o anjos, o entender. Assim, predica-se o Evangelho a toda criatura, quando se prega ao homem. Porque somente este pode-se ensinar e para ele tudo foi criado, nada lhe sendo alheio pela certa semelhança que tem com tudo. Também se pode entender por todas as nações. Antes havia dito “Não ireis ao meio dos gentios” (Mt 10, 5); agora diz: “Pregai o Evangelho a toda criatura”, a fim de que a pregação apostólica, que antes foi rejeitada pelos judeus, venha em nosso auxílio, sendo um testemunho da condenação destes por tê-la rejeitado

Teofilacto.
Ou melhor, a toda criatura, isto é, crentes e incrédulos. “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado”, prossegue. Porque não basta crer; eis que aquele que crê e não está batizado, ainda não alcançou a salvação, senão imperfeitamente.

São Gregório Magno, homilia in Evangelia, 29.
Mas talvez cada um dirá a si mesmo: eu serei salvo porque acreditei. E, com efeito, assim será, se se une as obras à fé; porque a verdadeira fé consiste em que a obra não contradiga o que diz a palavra.

"Mas quem não crê será condenado".

Beda, in Marcum, 4,45.
E que podemos dizer das crianças que, por sua idade, ainda não podem crer? Pois no que diz respeito aos adultos nada há o que dizer. Na igreja de Jesus Cristo, as crianças crêem pela fé dos outros, assim como pelos outros contraíram os pecados que são apagados pelo batismo.

Segue-se: “ Estes milagres acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em meu nome, falarão novas línguas, manusearão serpentes e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal”

Teofilacto.
Isto é, dispersarão as potencias sensíveis e intelectuais, conforme o sentido destas palavras: “Eis que vos dei poder para pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo”(Lc 10,19). Pode entender-se também que se refira às serpentes ordinárias, como a víbora que mordeu a São Paulo sem causar-lhe dano. “E se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal”. Muitos fatos semelhantes encontramos na história dos homens a quem, protegidos sob o estandarte de Cristo, não lhes causou dano o veneno que haviam bebido.

Prossegue: “ imporão as mãos aos enfermos e eles ficarão curados”.

São Gregrio Magno, homilia in Evangelia, 29.
Mas, se não fazemos tais milagres, é sinal de que cremos menos? Ora, estas coisa foram necessárias no princípio da Igreja. Foi preciso que a fé dos crentes fosse nutrida com milagres, a fim de que crescesse. Porque, quando plantamos um arbusto, regamo-lo até que cresça suficientemente e, então, suspendemos a rega, quando percebemos que aquele está bem enraizado. Mas é preciso considerar mais atentamente outros milagres espirituais que a Igreja, atualmente, faz todos os dias e que fazia, então, corporalmente por meio os Apóstolos. Quando o sacerdote impõe suas mãos sobre os crentes e se opõe - com a graça de exorcizar que lhe foi dada - à permanência do espírito maligno no coração dos fiéis, não faz outra coisa que lançar fora deles os demônios. E o fiel que abandona as palavras mundanas e passa a cantar os santos mistérios, fala novas línguas; domina as serpentes, se retira a malícia do coração de seu próximo; bebe licor venenoso e não sofre danos, se, ouvindo maus conselhos, não se deixa levar por eles às más ações; imporá, enfim, as mãos aos enfermos e estes ficarão curados todas as vezes que, vendo vacilar seu próximo no caminho do bem, fortifica-lhe com os exemplos das boas obras. E seus milagres são tanto maiores quanto mais espirituais o sejam e enquanto por eles se despertam do sono, não os corpos, mas as almas.

Pseudo Jerônimo.
È Jesus Cristo, Nosso Senhor, quem sobe aos céus, havendo deles descido para curar nossa natureza de suas enfermidade. “Assim o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi elevado ao céu”.

Santo Agostinho, de consensu evangelistarum, 3,16.
Aqui se vê claramente que esta foi a última vez que lhes falou o Senhor na terra, ainda que pareça que não estamos obrigados absolutamente a crer que foi assim, pois diz o Evangelista: “Depois que o Senhor Jesus lhes falou”. Se for necessário, podemos supor, pois, que não foi aquela a última vez que lhes falou, mas que estas palavras podem se referir a tudo o que lhes disse naqueles dias. Porém, como o exposto já nos faz ver mais claramente que aquele foi o último dia de Jesus sobre a terra, é preciso crer que, depois destas palavras que diz São Marcos, junto com as escritas nos Atos dos Apóstolos, realizou-se a Ascenção do Senhor ao céu.

São Gregório Magno, homilia in Evangelia, 29.
No Antigo Testamento, vemos que Elias foi arrebatado ao céu (2R 2). Mas o céu etéreo não é o céu aéreo, porque este se encontra próximo à terra. Elias, pois, foi elevado ao céu aéreo para ser condizido subitamente a certa região desconhecida da terra, onde viveria em um grande repouso de corpo e espírito, até que, ao fim do mundo, volte e pague seu tributo à morte. É de notar também que Elias foi arrebatado em um carro de fogo, para demonstrar abertamente que, mesmo sendo puro, como homem necessitava da ajuda de outro. Nosso Redentor, porém, elevou-se sem necessidade de um carro de fogo nem do auxílio dos anjos, porque aquele que tudo fez poderia elevar-se sobre tudo por sua própria virtude. É de se observar que São Marcos acrescenta “e está sentado à direita de Deus”, enquanto que Santo Estêvão diz: “Estou vendo, agora, os céus abertos e o Filho do Homem em pé à direita de Deus” (At 7, 55). Mas estar sentado corresponde ao juiz(2) e estar em pé(3) ao combatente ou àquele que ajuda no combate. Santo Estêvão, no combate, vê a Cristo, que lhe ajuda, de pé; e São Marcos diz que Cristo está sentado, porque depois da glória da ascensão, no fim, se verá a Cristo como Juiz.

Santo Agostinho, de symbolo ad catechumenos, 7.
Não devemos considerar esta postura como se ela se referisse à posição tomada pelo corpo humano, isto é, nem que o Pai estava sentado à esquerda nem que o Filho, à direita. Deve-se entender por “direita” o poder que aquele Homem recebeu de Deus para julgar(4), quando vier, depois de haver vindo para ser julgado. “Sentar-se”, em latim, é o mesmo que “habitar”, e por isto se diz de um homem que passou três anos em um país que “In illa patria sedit per tres annos”. Deste modo, pois, devemos acreditar que está Cristo à direita de Deus Pai, porque é bem-aventurado e habita na bem-aventurança, que é a direita do Pai, com o quem tudo é “direita”, pois nada há ali que seja miserável(5).

Segue: “Os discípulos partiram e pregaram por toda parte. O Senhor cooperava com eles e confirmava a sua palavra com os milagres que a acompanhavam”.

Beda, in Marcum, 4,45.
Observemos que São Marcos estende seu Evangelho a um tempo tão avançado quanto mais tardio é aquele anuncio com que lhe de princípio. Porque o começou desde o princípio da pregação evangélica feita por São João e terminou ao chegar o tempo em que os mesmos Apóstolos semearam por todo o orbe a palavra do Evangelho.

São Gregório Magno, homilia in Evangelia, 29.
Que é de se considerar aqui senão que a obediência seguiu ao preceito e os milagres à obediência?Havia mandado o Senhor: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” e, nos Atos dos Apóstolos, lê-se: “E sereis minhas testemunhas até os confins do mundo” (At 1, 8).)

Santo Agostinho, Ad Hesych. , epís. 80.
Por que dizer que esta pregação foi cumprida pelos Apóstolos, quando há nações nas quais ela começa agora e outras em que ela ainda não começou? Ora, este preceito não foi dado aos Apóstolos como se estes fossem os únicos que devessem obedecê-lo, porque assim como as palavras que dirigiu a eles somente “Estarei convosco até o fim do mundo” (Mt 28, 20), são uma promessa feita à Igreja, sempre viva nas gerações que se sucedem umas às outras, como é possível deixar de entender que aquela outra promessa alcança a Igreja até a consumação dos séculos?

Teofilacto.
Mas devemos estar cientes de que a palavra se confirma com as obras, como no caso Apóstolos, cujas palavras eram confirmadas pelos milagres que a acompanhavam. Oh Jesus! Dignai-vos fazer que as palavras de santidade que pronunciamos sejam confirmadas por nossas obras e ações, para que, com vossa cooperação, sejamos perfeitos em todas as nossas palavras e obras, porque vossa é a glória das palavras e das obras!

NOTAS
1 São Gregório refere-se aqui a Mc 16, 14: “e censurou-lhes a incredulidade e a dureza de coração, por não acreditarem nos que o tinham visto ressuscitado”.
2 Vide nota nº 4.
3 Em latim “sto, steti, staturus, stare”, significa não só “estar em pé”, como em “Stabat mater ixta crucem” (Em pé estava a mãe junto à cru), mas também “combater com”, “estar ao lado”, “tomar partido de”, “apoiar”, “sustentar”,etc.
4 Em latim, o verbo “sedeo, sedi, sessum, sedere”, além do sentido trivial de “sentar-se”, pode ter uso específico aplicado ao ato de “assentar-se” na cadeira ou sede do magistrado ou do governo para julgar ou governar; pode, ainda, como indica Santo Agostinho indicar permanência em um lugar ou a situação (localização) de algo ou de alguém, aproximando-se de “habitar”.
5 Aqui Santo Agostinho joga com a polissemia da palavra “sinistra”, que significa não só “à esquerda”, “ a mão ou o lado esquerdo”, mas também “desgraça”, “desfavorável”, “descrédito”, etc. Ao contrário, a palavras latinas “dextra”, “dextera”, “dexterum”, além de “à direita”, “o lado direito”, “a mão direita”, significam “favorável”, “propício”, etc. Lembre-se, por oportuno, da posição em que se sentarão os homens no juízo final.

Obs. Todas as notas também são do tradutor.

Traduzido por Edilberto Alves - Membro da ARS

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