segunda-feira, 11 de maio de 2009

Catena Áurea: Evangelho Do V Domingo da Páscoa (Jo 15, 1-8)

Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará;
e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto.
Vós já estais puros pela palavra que vos tenho anunciado.
Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em mim.
Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.
Se alguém não permanecer em mim será lançado fora, como o ramo. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á.
Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito.
Nisto é glorificado meu Pai, para que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos.

Santo Hilário De Trin. lib. 9.
O Senhor se levanta,1 apressando-se para consumar o sacramento de sua paixão corporal por amor ao cumprimento do preceito paterno. Mas a fim de esclarecer o mistério de sua ascensão corpórea, mediante a qual nós estamos radicados nele, como os ramos na videira, acrescenta “ Eu sou a videira verdadeira”.

Santo Agostinho In Ioannem tract., 80.
O Senhor diz isto porque é a Cabeça da Igreja, o mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, e nós somos seus membros. É certo que a videira e os ramos são de uma mesma natureza. Porém, quando se acrescenta a palavra verdadeira, não se refere àquela videira de onde as outras retiram sua semelhança? De tal modo se diz videira por semelhança e não por propriedade, como se diz cordeiro, ovelha e outras coisas análogas, de maneira que são mais verdadeira as coisas que se tomam como modelo de comparação. E dizendo “Eu sou a videira verdadeira”, distingue-se, ainda, daquela outra, da qual afirma Jeremias : “como te transformaste em sarmentos bastardos de uma videira estranha?”(Jr 2, 21). Porque como havia de ser verdadeira videira aquela da qual se esperava que se produzissem uvas e produziu espinhos?

Santo Hilário ut supra.
Mas para distinguir de sua humilde condição corporal a majestade excelsa do Pai, diz que o Pai é o lavrador cuidadoso da videira: “Meu Pai é o agricultor”.

Santo Agostinho De verb. Dom. serm., 59.
Cultivamos (cultuamos) a Deus e Deus nos cultiva2. Mas cultivamos (cultuamos) o Senhor não para torná-lo melhor; cultivamo-lo adorando e não arando. Mas quando ele nos cultiva nos faz melhores, pois sua cultura consiste em não cessar de extirpar com sua palavra todas as más sementes que se arraigam em nossos corações, de abri-lo com o arado da pregação, de nele plantar as sementes de seus mandamentos e de esperar os frutos da piedade.

Crisóstomo In Ioannem hom., 75.
E assim como Cristo se basta a si mesmo, os discípulos necessitam do auxílio do agricultor, por isso nada disse da videira, mas falou dos ramos. “Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará”. Aqui, quando diz fruto, faz alusão implícita ao fato de que ninguém pode estar n'Ele sem as obras.

Santo Hilário ut supra.
Todos os ramos inúteis e estéreis aos quais seja necessário cortar, serão destinados ao fogo.

Crisóstomo ut supra.
E, como mesmo os mais virtuosos necessitam do agricultor, acrescenta “e todo aquele der fruto podará, para que produza mais fruto”. Disse isso por causa das tribulações que então padeciam, mostrando-lhes que as tentações o fariam mais valorosos, porque limpar, isto é, podar os ramos, torna-os mais frutíferos.

Santo Agostinho ut supra.
Quem está tão limpo nesta vida que não possa sê-lo mais ainda? Por isso, se dissermos que não temos pecado em nós, enganamos-nos a nós mesmos (1Jo 1,8). Limpa, pois, aos limpos, isto é, aos que dão frutos, para que dêem mais frutos quanto mais limpos estiverem. A videira é Cristo, que disse: “Meu Pai é maior do que eu”(Jo 14, 28); Mas Cristo também é agricultor, pois disse “Meu Pai e Eu somos um” (Jo 10, 30). E não o é ao modo daqueles que ajudam exteriormente a planta, mas que lhe faz crescer a partir do interior. Por esta razão Ele mesmo se apresenta como agricultor quando diz: “Vós já estais puros pela palavra que vos tenho anunciado”. Eis, então, que Ele limpa também os ramos, coisa que corresponde ao agricultor, não à videira. E porque não disse “estais limpos pelo batismo, com o qual vos lavei? Será porque na agua a palavra é o que limpa? Se tirarmos as palavras, que ficará na água senão água? Une-se a palavra a este elemento e o sacramento se realiza. De onde a água retira sua virtude de tocar o corpo e limpar o coração senão da palavra? Não porque é pronunciada, mas porque nela se crê. Ainda, mesmo na palavra, uma coisa é o som que se extingue; outra a virtude que permanece. Na Igreja de Deus, é tamanha a virtude desta palavra de fé que por ela aquele que crê, que oferece, abençoa e derrama a água, purifica a criança, ainda que esta não possa crer.

Crisóstomo.
Ou quis dizer: Estais puros pelas palavras que vos falei, isto é, enquanto haveis recebido a luz da doutrina e vos haveis separado do erro judaico.

Crisóstomo In Ioannem hom., 75.
Como havia dito que já estavam limpos pela palavra que lhes havia dito, ensina-lhes por onde tinham que começar as obras que haviam de praticar. Por isso lhes diz: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós”.

Santo Agostinho In Ioannem tract., 81.
Eles não permaneceriam nele da mesma maneira que Ele permaneceria neles, porque um e outro são para proveito dos discípulos, não de Cristo; pois os ramos estão na videira de tal sorte que em nada a ajudam para comunicar-lhes a vida, mas dela recebem a vida. Ou seja, a videira está nos ramos para comunicar-lhes a vida, não para recebê-la deles. Desta forma, tendo a Cristo em si e permanecendo eles em Cristo, são eles e não Cristo que aproveitam ambas as coisas. Por isto acrescenta: “Assim com ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim”. Grande prova em favor da graça! Alenta aos corações humildes e abate os soberbos. Porventura não resistem à verdade aqueles que julgam desnecessária a ajuda divina para praticar as boas obras e, antes de ilustrar sua vontade, precipitam-na? Porque aquele que considera que pode dar fruto por si mesmo certamente não está na videira; e o que não está na videira não está em Cristo; e o que não está em Cristo não é cristão.

Alcuíno.
Todo o fruto das boas obras procede daquela raiz que nos salvou com sua graça, que os faz progredir com seu auxílio para que possamos dar mais frutos.

Glossa.
Por esta razão, disse repetidamente e com maior desenvolvimento: “Eu sou a videira e vós sois os ramos; aquele que está em mim (crendo, obedecendo, perseverando) eu também nele estarei (iluminando-o, auxiliando-o, dando-lhe a perseverança), este, e não outro, dará muito fruto”.

Santo Agostinho ut supra.
Mas para que ninguém suspeite que por si mesmo possa dar algum fruto, ainda que seja pequeno, acrescenta: “Porque sem mim nada podeis fazer”. Não disse “pouco podeis fazer”, porque se o ramo não estivesse na videira, vivendo de sua raiz, nenhum fruto daria. E, ainda que Cristo não fosse a videira mas mero homem, não teria poder para dar vida aos ramos, se não fosse Deus também.

Crisóstomo ut supra.
Vede aqui, pois, que o Filho coopera, não menos que o Pai, para o bem de seus discípulos. Porque se o Pai os limpa, Cristo os mantém, o que faz os ramos frutificar. No entanto, está claro que o Filho também limpa e que permanecer na raiz é também próprio do Pai, que gerou a raiz. É, pois, um grande dano nada poder fazer; porém não se detém aqui, mas prossegue: “Se alguém não permanecer em mim será lançado fora”, isto é, não gozará dos cuidados do agricultor, “e secará”, isto é, perderá tudo aquilo que tiver recebido da raiz, será privado de seu auxílio e de sua vida, “e o ajuntarão”.

Alcuíno.
Os anjos serão os podadores que os jogarão ao fogo eterno a fim de que ardam.

Santo Agostinho ut supra.
Tão desprezíveis serão estes ramos se forem separados da videira como gloriosos serão se nela permanecerem. Uma destas duas coisas convém ao ramo: ou estar na videira ou estar no fogo. Se não está na videira, estará no fogo, assim como se não está no fogo, estará na videira.

Crisóstomo ut supra.
Mostrando o que é estar nele, afirma: “ Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito”, isto é, por meio das obras.

Santo Agustinho ut supra.
Só devemos dizer que suas palavras estão em nós quando fazemos o que mandou e amamos o que prometeu. Porque, ainda que suas palavras estejam na memória, se não se manifestam nas obras, não se considera que o ramo está na videira, porque sua vida não nasce do tronco. Que outra coisa se pode querer, ao se estar no Salvador, senão que não separe da salvação? O que queremos quando estamos em Cristo é distinto do que queremos quando estamos no século. Porque, quando estamos na vida deste século, desejamos muitas vezes coisas que ignoramos ser para o nosso dano; mas isso não acontece quando estamos em Cristo, que não nos permite aquilo que nos prejudica. A oração do Pai Nosso pertence aos seu ensinos e, portanto, não devemos nos separar da letra e do espírito desta oração, para que Ele nos conceda o que pedimos.

Crisóstomo In Ioannem hom., 75.
Mostra, depois, o Senhor que todos os que lhe armavam ciladas queimariam, não permanecendo em Cristo. Mas também explica que os discípulos mesmos serão inexpugnáveis (para que assim dêem muito fruto), dizendo: “Nisto é glorificado meu Pai, para que deis muitos frutos”. Equivale a dizer: Se é para a glória do Pai que vós produzais frutos, o Pai não menosprezará a sua própria glória. Porque o que dá frutos é discípulo de Cristo. Por isto acrescentou “Para que sejais meus discípulos”.

Teofilacto.
Os frutos dos apóstolos são as nações que, pelo seu ensino, converteram-se à fé e foram conduzidas à glória de Deus.

Postado por Tayroni Alves - ARS

PS: Peço desculpas aos leitores pela postagem com um dia de atraso.

1. O Comentário de Santo Hilário retoma aqui o último versículo do capítulo anterior (Jo 14, 31), em que Jesus diz aos discípulos: “O mundo, porém, deve saber que amo o Pai e procedo como o Pai me ordenou. Levantai-vos, vamo-nos daqui”.

2. Aqui Santo Agostinho joga com o duplo significado do verbo latino “colo, -is, -ere”, que significa, ao mesmo tempo, cultuar e cultivar, podendo significar, em alguns contextos, habitar. No original: “Colimus enim Deus et colit nos Deus”, ou seja, cultuamos o Senhor e o Senhor nos cultiva.

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