sábado, 17 de setembro de 2011

Audiência Geral de 26/11/1969 - Paulo VI

Pax et bonum!

Continuando o assunto das duas Audiências de Paulo VI, posto agora a de 26 de novembro de 1969.
Interessante como o próprio Paulo VI reconheceu que o abandono do Gregoriano se seguiria ao "abandono" do latim. Dito e feito... Este seria, na visão do papa, o preço da "inteligência", ou seja, o preço a ser pago para que os fieis compreendessem a oração litúrgica, ajudando-lhes a participar de modo ativo.
Acontece, infelizmente, que em muitos lugares, mesmo com a Missa em vernáculo, sua realidade essencial permanece uma grande desconhecida. Não se trata meramente de um problema de língua. Bem disse o Santo Padre, o papa Bento XVI: "a arte da celebração é a melhor condição para a participação ativa (actuosa participatio). Aquela resulta da fiel obediência às normas litúrgicas na sua integridade, pois é precisamente este modo de celebrar que, há dois mil anos, garante a vida de fé de todos os crentes, chamados a viver a celebração enquanto povo de Deus, sacerdócio real, nação santa (1 Pd 2, 4-5.9)" (Exort. Apost. Sacramentum Caritatis, 38)
A "liturgia verdadeira (...), tal como a Igreja tem querido e estabelecido, como está prescrito nos livros litúrgicos e nas outras leis e normas" (cf. Instrução Redemptionis Sacramentum, 12) não é reconhecível em muitas de nossas paróquias. Um clamor de Paulo VI (segundo o Card. Virgílio Noé: "ninguém é Dominus da Missa"), recordando o Concílio Vaticano II ("por isso, ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica" - Const. Conc. Sacros. Conc., 22, §3) e repetido posteriormente pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos ("cada um lembre-se sempre que é servidor da sagrada Liturgia", Instrução Redemptionis Sacramentum, 186), parece ter sido abafado e esquecido por muitos de nossos sacerdotes.

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PAULO VI
AUDIÊNCIA GERAL
Quarta-feira, 26 de novembro de 1969

Tradução por Luís Augusto Rodrigues Domingues

Efusão dos ânimos na Assembleia Comunitária, riqueza do novo rito da Santa Missa

Diletos filhos e filhas,

nós ainda queremos convidar os vossos ânimos a se voltarem para a novidade litúrgica do novo rito da Missa, o qual será instaurado em nossas celebrações do Santo Sacrifício, a começar pelo próximo domingo, Primeiro Domingo do Advento, dia 30 de novembro. Novo rito da Missa: é uma mudança, que diz respeito a uma venerável tradição secular, e por tocar o nosso patrimônio religioso hereditário, que parecia ter que gozar de uma intangível fixidez, e ter que carregar sobre nossos lábios a oração dos nossos antepassados e dos nossos santos, e dar a nós o conforto de uma fidelidade ao nosso passado espiritual, é que nós o tornamos atual para transmiti-lo em seguida às gerações que hão de vir.
Compreendamos melhor neste caso o valor da tradição histórica e da comunhão dos Santos. Esta mudança toca o desenvolvimento cerimonial da Missa; e avisamos, talvez com algum incômodo, que as coisas ao altar não se desenvolvem mais com aquela identidade de palavras e de gestos, à qual estávamos tão habituados, quase a não mais nos darmos conta. Esta mudança toca também os fieis, e seria de interesse para cada um dos presentes, tirando-lhes assim de suas devoções pessoais de costume, ou de sua sonolência habitual.

Devemos nos preparar para este múltiplo distúrbio, que é aquele de todas as novidades, que se inserem em nossos hábitos costumeiros. E podemos notar que as pessoas piedosas serão as mais inquietadas, porque tendo um modo respeitável de ouvir a Missa se sentirão abstraídas de seus pensamentos usuais e obrigadas a seguir os demais. Os próprios sacerdotes provarão talvez algum incômodo a este respeito.

PREPARAR-SE PARA AS MUDANÇAS

O que fazer nesta especial e histórica ocasião?

Antes de tudo: prepararmo-nos. Esta novidade não é uma coisa pequena; não devemos nos deixar surpreender pelo seu aspecto, e talvez pelo transtorno, de suas formas exteriores. É próprio de pessoas inteligentes, e de fieis conscientes, informar-se bem sobre a novidade de que se trata. Pelo mérito de tantas boas iniciativas eclesiais e editoriais isto não é difícil. Como dizíamos outra vez, é bom que nos demos conta dos motivos pelos quais é introduzida esta grave mudança: a obediência ao Concílio, a qual agora se torna obediência aos Bispos que o interpretam e que seguem suas prescrições; e este primeiro motivo não é simplesmente canônico, isto é, relativo a um preceito exterior; está ligado ao carisma da ação litúrgica, isto é, ao poder e à eficácia da oração eclesial, a qual tem no Bispo a sua voz mais autorizada, e assim nos sacerdotes que ajudam seu ministério, e que, como ele, agem “in persona Christi” (cf. S. IGN., Ad Eph., IV): é a vontade de Cristo, é o sopro do Espírito Santo, que chama a Igreja a esta mudança. Devemos reconhecer o momento profético, que passa no corpo místico de Cristo, que é a Igreja, e que a faz tremer, que a desperta, e que a obriga a renovar a arte misteriosa da sua oração, com um desejo que constitui, como já dito, o outro motivo da reforma: associar de maneira mais próxima e eficaz a assembleia dos fieis, estes também revestidos do “sacerdócio real”, isto é, da capacidade de um colóquio sobrenatural com Deus, ao rito oficial seja da Palavra de Deus, seja do Sacrifício eucarístico, de que se compõe a Missa.

A PASSAGEM PARA A LÍNGUA VERNÁCULA

Aqui, é claro, será percebida a maior novidade: a da língua. Não será mais o latim a língua principal da Missa, mas a língua vernácula. Para quem conhece a beleza, a potência, a sacralidade expressiva do latim, certamente a substituição pela língua vulgar é um grande sacrifício: percamos o discurso dos séculos cristãos, tornemo-nos quase intrusos e profanos no recinto literário da expressão sagrada, e assim perderemos grande parte daquele estupendo e incomparável fato artístico e espiritual, que é o canto gregoriano. Temos, sim, razões para nos arrependermos e até de nos sentimos perdidos: pelo que substituiremos esta língua angélica? É um sacrifício de preço inestimável. E por qual razão? O que vale mais que estes altíssimos valores da nossa Igreja? A resposta parece banal e prosaica, mas é válida, porque é humana, porque é apostólica. Vale mais a inteligência da oração do que as vestes sedosas e antigas de que ela é revestida; vale mais a participação do povo, deste povo moderno cheio de palavra clara, inteligível, traduzível em sua conversação profana. Se o astro latino nos separasse da infância, da juventude, do mundo do trabalho e dos negócios, se fosse uma membrana opaca, ao invés de um cristal transparente, nós, pescadores de almas, faríamos bem conservando-lhe o domínio exclusivo na conversação orante e religiosa? O que diria São Paulo? Leia-se o capítulo XIV da Primeira Carta aos Coríntios: “na assembleia prefiro dizer cinco palavras segundo a minha inteligência, para assim instruir também os outros, a dizer dez mil palavras em virtude do dom das línguas” (v. 19) E Santo Agostinho parece comentar: “A fim de que todos sejam instruídos, não se tema os professores” (P.L. 38, 228, Serm. 37; cfr. anche Serm. 299, p. 1371). Mas no restante o novo rito da Missa estabelece que os fieis “aprendam a cantar juntos em latim ao menos algumas partes do Ordinário da Missa, principalmente o símbolo da fé e a oração do Senhor” (IGMR, 19; N.T.: nº 41 na 3ª edição do Missal). Mas recordemos bem, para nosso conforto e alívio: não é por isso que o latim desaparecerá da nossa Igreja; ele permanecerá como a língua nobre dos atos oficiais da Sé Apostólica; como instrumento escolástico dos estudos eclesiásticos e como chave de acesso ao patrimônio da nossa cultura religiosa, histórica e humanística; e, se possível, em florescente esplendor.

PARTICIPAÇÃO E SIMPLICIDADE

E finalmente, pensando bem, ver-se-á que o plano fundamental da Missa permanece o tradicional, não só no seu significado teológico, mas também no espiritual; assim, se o rito for seguido como se deve, manifestará uma sua maior riqueza, evidenciada pela maior simplicidade das cerimônias, pela variedade e pela abundância dos textos da Escritura, pela ação combinada dos vários ministros, pelos momentos de silêncio que marcam o rito em momentos diversamente profundos, e sobretudo pela exigência de dois requisitos indispensáveis: a íntima participação de cada assistente, e a efusão dos ânimos na caridade comunitária; requisitos que devem fazer da Missa, mais do que antes, uma escola de profundidade espiritual e uma tranquila, mas desafiadora, palestra de sociologia cristã. A relação da alma com Cristo e com os irmãos alcança a sua nova e vital intensidade. Cristo, vítima e sacerdote, renova e oferece, mediante o ministério da Igreja, o seu sacrifício redentor, no rito simbólico da sua última ceia, que nos deixa, sob as aparências de pão e vinho, o seu corpo e o seu sangue, para nosso alimento pessoal e espiritual, e para nossa fusão na unidade de seu amor redentor e de sua vida imortal.

INDICAÇÕES NORMATIVAS

Resta-nos, porém, uma dificuldade prática, que a excelência do rito sagrado torna não pouco importante. Como faremos para celebrar este novo rito, quando não temos ainda um missal completo, e quando ainda tantas incertezas circundam a sua aplicação? Eis que convém, para terminar, que vos leiamos algumas indicações, que nos vêm do órgão competente, isto é, a Sagrada Congregação para o Culto Divino. E são as seguintes:

“Quanto à obrigatoriedade do rito:

1) Para o texto latino: os sacerdotes que celebram em latim, em privado, ou mesmo em público, para os casos previstos pela legislação, podem usar, até 28 de novembro de 1971, ou o Missal Romano ou o rito novo.

Se usam o Missal Romano, poderão, porém, servir-se das três novas anáforas e do Cânon Romano com os encurtamentos previstos no último texto (omissão de alguns Santos, conclusões, etc). Podem também dizer em vernáculo as leituras e a oração dos fieis.

Se usam o rito novo devem seguir o texto oficial com as concessões em vulgar supracitadas.

2) Para o texto vernáculo: na Itália, todos os que celebram com o povo, a partir do próximo 30 de novembro, devem usar o “Rito dela Messa”, publicado pela Conferência Episcopal Italiana ou por outra Conferência Nacional.

As leituras, nos dias festivos, serão tiradas:

- ou do Lecionário editado pelo Centro Azione Liturgica
- ou do Missal Romano festivo usado até então

Nos dias de semana se continuará a usar o Lecionário ferial, publicado há três anos.

Para quem celebra em privado não há nenhum problema, porque deve celebrar em latim. Se, por indulto particular, celebra em vernáculo: para os textos deve seguir quanto foi dito acima sobre a Missa com o povo; para o rito, pelo contrário, deve seguir o “Ordo” especial, publicado pela Conferência Episcopal Italiana”.

Em todo caso, e sempre, lembremos que “a Missa é um Mistério para ser vivido numa morte de Amor. A sua Realeza divina ultrapassa toda palavra... É a Ação por excelência, o próprio ato da nossa Redenção no Memorial, que a torna presente” (ZUNDEL). Com a Nossa Bênção Apostólica.

(Seguem-se saudações particulares para alguns grupos.)

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Obs: Favor avisar sobre qualquer problema, imprecisão ou equívoco na tradução.

Por Luís Augusto - membro da ARS

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