terça-feira, 19 de julho de 2011

"O Antigo Missal Romano: perca e redescoberta" - parte 2/4

Após esta prolongada introdução, retornarei agora ao desenvolvimento que teve lugar no despertar do Concílio Vaticano II. Algo então aconteceu e que nunca tinha acontecido antes. Era algo novo. Era novo de tal forma que os católicos só podiam olhar para isto com medo e apreensão. Eu tentei descrever o relacionamento da Igreja com a sua liturgia: por quase dois mil anos a liturgia da Igreja foi aceita sem questionamento como a presença corporal de Jesus, a Cabeça da Igreja. Era o corpo visível da Igreja. Para um católico esta visibilidade não é algo subordinado: ela não está subordinada a um mundo superior, invisível. O próprio Deus assumiu um corpo humano e até mesmo levou as chagas consigo para sua glória. Desde que o Deus-homem viu com nossos olhos e ouviu com nossos ouvidos, nossos sentidos (que são por natureza tão facilmente enganados) estão fundamentalmente habilitados para reconhecer a verdade. Como um resultado da Encarnação de Cristo o mundo material não é mais o reino da ilusão; agora, a matéria pode ser vista novamente como aquilo que ela é: os pensamentos de Deus, expressos nos termos do mundo material. Esta constatação deu origem à absoluta seriedade com que a Igreja se acostumou a realizar todas as ações físicas da liturgia. Todo gesto das mãos, toda inclinação da cabeça e do corpo, toda genuflexão, todo beijo dado nos objetos sagrados eram feitos com seriedade e liberdade. As velas, os vasos e os dons sacrificais do pão e do vinho eram manejados com respeito. A linguagem em que os pensamentos divinos eram expressos dizia respeito literalmente como que a uma instância da revelação. Assim, São Basílio Magno, um dos Padres do Oriente, disse expressamente que a Santa Missa era tão parte da revelação como a Sagrada Escritura. Um pequeno exemplo ilustrará a atitude da Igreja frente ao mundo das coisas que ela delineia em seus Sacramentos (ou delineou antes do Concílio Vaticano II). Na idade média os Cistercienses frequentemente costumavam gravar o nome de Maria em seus cálices de ouro: assim como o corpo de Maria carregou o Deus-homem, o cálice continha o Sangue Divino. Desta maneira, toda a história da salvação é indicada nos objetos usados na Eucaristia. O Concílio Vaticano II repete expressa e enfaticamente a tradicional teologia da Missa; solenemente reconhece a língua sagrada e a música sacra (o Canto Gregoriano, que paira entre o Ocidente e o Oriente, não pertencendo exclusivamente a nenhuma das duas culturas). O Concílio pediu uma revisão cautelosa dos livros litúrgicos - o tipo de revisão que era comum a cada 200 anos ou mais, a fim de prevenir qualquer equívoco que estivesse se arrastando [pelo tempo]. Recordemos o que a Liturgia Católica alcançou até então. A começar da Ásia Menor, conquistou o mundo Greco-Romano. Triunfou, afinal, no Império pagão; testemunhou o declínio deste e foi vitoriosa sobre os povos pagãos do Norte e do Oriente. Tornou-se o instrumento de um êxito missionário único na história do mundo. A quantas desintegrações históricas e revoluções sobreviveu! Expandiu-se para além dos limites da Europa e veio para a Ásia, a África, a América, e a toda parte em que inicialmente era algo estranho - aos povos Germânicos e Irlandeses, bem como para os Indianos, Singaleses e Chineses. Os Germânicos não entendiam o latim, nem poderiam ler, quando o grande missionário, Bonifácio, trouxe-lhes a Santa Missa. Isto tornou-se o caso por um longo tempo, notadamente nos períodos mais brilhantes da Igreja, quando os fiéis sentiram que o mais importante na celebração da Missa não era a compreensão de todas as palavras, mas a experiência da presença do Redentor. Um homem pode ter entendido cada palavra da Missa individualmente, mas se ele não experimentou esta presença, ele não entendeu coisa alguma, estritamente falando. Revoluções incendiaram o mundo, ditaduras se multiplicaram, apenas para entrar em colapso e sumirem, mas a Santa Missa permaneceu sempre a mesma. Para o mundo inteiro, a Santa Missa representou, de modo tangível, a imutável natureza da Igreja ao longo das gerações. Até mesmo os inimigos da Igreja reconheceram que a sua força repousava em sua atemporalidade - ou seja, não é que ela era antiquada, mas ela e sua liturgia não eram identificadas com qualquer período ou cultura; ela sempre teve um pé fora do tempo, em todos os períodos da história. A liturgia não era celebrada no momento presente, mas em omnia sæcula sæculorum, por todos os tempos desde a criação do mundo, até o fim do mesmo, e, enfim, na eternidade. Esta eternidade já começou e é o pano de fundo dourado por trás de todas as épocas históricas; é contra este pano de fundo que a Liturgia - "as Núpcias do Cordeiro" como é chamada no Apocalipse - sempre foi e sempre será celebrada.

Percebo que estou perdendo o foco do meu discurso! A razão para isto é que eu fico um tanto inibido quando me dou conta deste evento único que teve lugar na Igreja. É claro que posso dar abundantes razões sociológicas, políticas e históricas para este evento, o qual, em seus efeitos, só pode ser comparado, talvez, com os cem anos da controvérsia iconoclasta em Constantinopla, embora o iconoclasmo tenha afetado apenas uma pequena região dentro da vasta abrangência da Igreja Católica universal. Mas não acho nenhuma destas razões convincentes. Eu acredito na essência sobrenatural da Igreja: isto significa que não posso me satisfazer com quaisquer explicações naturais para os triunfos ou os desastres da Igreja. Consequentemente, eu me nego a adivinhar ou a supor as razões que moveram tantos reformadores de seu tempo a abandonarem o tesouro herdado da Igreja, seu próprio coração, e a elaborarem uma nova liturgia. Esta nova liturgia foi construída com elementos da antiga liturgia, mas, como o Papa Bento disse, ela tende a uma direção que em vários caminhos é oposta à antiga.

Já disse que esta reforma foi totalmente diferente de qualquer coisa na história da Igreja. Ela foi fundamentalmente nova e inovadora e constituiu uma profunda quebra com a tradição. Também houve algo especialmente infeliz sobre a reforma e que diz respeito não apenas à intenção dos reformadores, mas ao tempo em que ela foi introduzida, pois ela teve lugar no fatídico ano de 1968, um ano ao qual é preciso que os historiadores dêem mais atenção. Nós damos o nome de “anos do eixo” para os anos em que – sem nenhuma conexão intelectual ou política óbvia – ideias similares e movimentos religiosos florescem em todo o mundo. São, por exemplo, os anos quando Buda estava ensinando na Índia, Confúcio na China, Zoroastro na Pérsia, Jeremias em Israel e Pitágoras na Grécia. Foi como se todos estes eventos tivessem acontecido em volta de um eixo comum no mundo. E 1968 também foi como um ano do eixo. Viu-se, por todo o mundo, o estouro de uma revolta contra a tradição, a autoridade e os valores herdados. Na França, o último chefe de estado patriarcal do mundo ocidental, o General de Gaulle, foi derrubado do poder. Na América do Norte, surgiu um movimento juvenil aparentemente irresistível, tornando impossível que se continuasse a Guerra no Vietnã. Na Alemanha, o tradicional e muito eficiente sistema de universidades livres foi destruído como resultado de greves. Em Praga houve uma revolta contra a União Soviética, e a China viu a Revolução Cultural como sua grande devastação. Em 1967, o Novo Ordinário da Missa foi promulgado contra o desejo expresso de um sínodo de bispos convocado somente para considerar este assunto. Foi o primeiro Missal na história da Igreja a ser colocado nas escrivaninhas dos estudiosos e amplamente tirado de rascunhos. Agora, todavia, a reforma, que poderíamos bem chamar uma reinvenção, foi arrastada para dentro do tornado do Ano da Revolução: 1968. Num momento em que o Zeitgeist [o espírito dos tempos] estava completamente fora de controle, quando toda forma de obediência, autoridade, respeito e reverência estava sendo fundamentalmente rejeitada, esta medida radical estava para ser implementada em toda a Igreja universal, de Roma até a mais isolada comunidade clandestina na China. E devemos sempre recordar que esta medida era totalmente contrária ao espírito da Igreja. O resultado foi que em muitos lugares, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, mas também na América Latina, foi como se todas as barragens tivessem estourado. O que era intocável mostrou que poderia ser tocável. Isto significou que, doravante, jamais haveria algo intocável novamente. Daqui em diante tudo estaria disponível, à vontade, para cada geração. Tudo tornou-se, no princípio, disponível e passível. [Tudo agora valia]

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Por Luís Augusto - membro da ARS

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